Domingos e Ademir da Guia, Hélio Rubens e Helinho, Bernardinho e Bruno Rezende, Ayrton e Bruno Senna. Exemplos de esportistas bem-sucedidos que conseguem manter seu sobrenome em alta por meio de filhos ou sobrinhos estão espalhados por futebol, basquete, vôlei e automobilismo. No tênis, porém, não é costume tal cenário se repetir, e jovens brasileiros como Carolina Meligeni Alves, Lucas Oncins e Arthur Menezes estão atualmente dando seus primeiros passos para mudar essa história.
Modalidade no qual o atleta não pode ter contato em quadra nem mesmo com seu treinador, o tênis é uma exceção no mundo dos esportes. Na prática, a ausência de famosos colocando seus parentes na ATP ou na WTA não é constante somente no Brasil, onde a família Hocevar, com os aposentados Marcos e Alexandre e o profissional Ricardo, atualmente o número 183 do mundo, é a de maior destaque, mas também pelo mundo (veja quadro abaixo).
Segundo Mauro Menezes, antigo capitão brasileiro da Copa Davis, é justamente a solidão em quadra que atrapalha a formação de uma família no tênis. "A carga da derrota e da vitória é muito direta para os jovens, que muitas vezes não estão amadurecidos a ponto de entender como é perder ou ganhar", afirma ele, que hoje em dia vive essa sensação na pele com seu filho, Arthur, integrante da categoria até 12 anos da CBT (Confederação Brasileira de Tênis).
Número 34 do mundo em 1993, Jaime Oncins ressalta que um nome de respeito não é suficiente para garantir a um tenista regalias como uma chance em uma equipe da Fórmula 1 ou em um time importante do futebol brasileiro. "No tênis, se o cara é bom, é bom. Essa é a grande diferença para os outros esportes", resume o pai do atleta mirim Lucas Oncins, nascido em 1998.
Assim como Mauro e Jaiminho, Fernando Meligeni também tem uma pessoa próxima dando suas primeiras raquetadas - sua sobrinha Carolina Alves, terceira colocada do ranking da CBT (Confederação Brasileira de Tênis) até 14 anos. O semifinalista de Roland Garros em 1999 chega a temer a tensão encarada por jovens que têm os genes de um tenista vencedor e usa até o exemplo da música para embasar sua opinião. "Acho muito forte colocar algum garoto na quadra central de um torneio porque foi filho ou neto de alguém famoso. Se fosse assim, Julian Lennon (filho do Beatle John) seria o melhor do mundo, e não é".
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| AGASSI + GRAF = SUCESSO? |
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Pelo mundo, o tenista consagrado que esteve mais perto de colocar seu filho no circuito foi Bjorn Borg. Porém, Robin Borg, 23 anos, preferiu estudar marketing na Universidade de Wiscosin-Warhawks, a qual representa no NCAA, o nacional universitário de tênis dos Estados Unidos. Na prática, a ausência de um famoso sucessor no tênis é tanta que com apenas cinco primaveras Jaden Gil já sente a pressão de ser comparado aos pais, Andre Agassi e Steffi Graf. O menino, inclusive, fez sucesso quando estrelou um comercial em que 'dá aula' para o profissional norte-americano Taylor Dent. A expectativa quanto ao herdeiro dos dois gigantes do tênis era muito grande até mesmo antes de seu nascimento, e o casal chegou a receber uma proposta de US$ 10 milhões para que, caso a criança fosse uma menina, já tivesse vaga assegurada em um torneio nos Estados Unidos em 2017. Jaden Gil acabou sendo homem, e em 2001 o ainda nenê já era alvo de casas de apostas britânicas, que pagavam 500 libras para cada uma apostada se um dia ele viesse a ganhar Wimbledon, seja em simples ou em duplas. |
Se controlar a pressão decorrida do parentesco com um atleta renomado parece ser o grande problema, como fazer para tratar filhos ou sobrinhos que querem enveredar pelo tênis? Nesse caso, os três ex-jogadores são unânimes. "No meu caso, é tudo muito natural. Mostrei o esporte para o Arthur como uma coisa agradável, não só competitiva", afirma Menezes, acompanhado por Oncins: "A única coisa que peço para o Lucas é dar 100% quando entrar em quadra. Isso é um jogo: ganhar ou perder faz parte. Se vai ser bom ou não no futuro, não faz diferença".
Meligeni ressalta a importância de ter sido profissional. Alguém com sua bagagem, ele argumenta, coloca uma criança no esporte por causa de certos valores. "Tudo o que a gente fala no dia a dia sobre disciplina, hierarquia e justiça se aprende na quadra, sem perceber", diz o 25º colocado da ATP em 1999, que já se prepara para em breve responder a outras questões do tipo, já que sua esposa está grávida. Por outro lado, ainda segundo a ótica do tio de Carolina Alves, há pais que colocam seus filhos no esporte "para ganhar Wimbledon ou 1 milhão de reais", o que causa, aí sim, uma pressão desnecessária e não ajuda no desenvolvimento emocional da criança.
Mauro Menezes ainda cita casos para confirmar essa tendência como o de Marcelo Saliola, número um do mundo quando juvenil e que não passou de 237 no profissionalismo. O paulista, ao final, acabou desistindo precocemente da carreira por não aguentar, entre outros motivos, a alta cobrança exercida pelo pai. "Há um histórico no Brasil de crianças que param de jogar tênis. A cada torneio é um campeão diferente, a pressão é muito grande, e com 12 ou 13 anos ninguém precisa ter essa responsabilidade. É um exagero", aponta o antigo top 200 do ranking de entradas.
Em uma família toda voltada para o tênis, o que inclui também seus pais e treinadores, Flávio e Paula, Carolina Meligeni Alves garante não se sentir pressionada pelo sobrenome conhecido, ainda que considere as comparações com o tio inevitáveis. "Só o tenho como um exemplo a ser seguido. Ele sempre deixa claro para mim que o tênis tem de ser um prazer e me dar muita alegria", resume.
