Quatro medalhas, 18 finais, um recorde mundial, nove recordes de campeonato e 33 novas marcas sul-americanas. Encerrada a edição 2009 do Mundial de natação, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) não esconde a satisfação com o melhor resultado do país na história da competição. Porém, até que ponto a entidade tem influência nestas conquistas?
Estrela da natação brasileira, Cesar Cielo se diz satisfeito com o apoio recebido. "Reclamei bastante, mas hoje tenho que dar os parabéns. Toda a preparação foi certinha, por isso os resultados apareceram", destacou o atleta, lembrando do mal-estar causado em setembro de 2008, quando não poupou os dirigentes ao ser questionado sobre o assunto no Troféu José Finkel. "Não associo minha medalha à CBDA. Eles me ajudaram pouco nesse trajeto", disparou, à época.
Quase um ano depois, Cielo acredita que o Brasil atingiu um bom modelo de gestão da natação. "Realmente com o trabalho e planejamento as coisas ficam melhores e é só usar esse molde para os próximos anos. Hoje, o Brasil já tem cara de time grande", avalia o melhor nadador do mundo nos 50m e 100m livre. Ele, porém, alerta que o trabalho ainda está longe de acabar.
"Provamos que a natação cresceu, mas ainda falta muito para chegarmos a um nível de Estados Unidos ou de uma Austrália. Espero, um dia, estar eu dividindo as atenções do Mundial com mais uns oito atletas", afirmou. Vice-campeão mundial nos 50m peito, Felipe França também fez questão de exaltar o trabalho da entidade que rege a natação no Brasil ao desembarcar em São Paulo, na semana passada. "Em termos de CBDA, eu acho que o suporte para eu ganhar a medalha de prata esteve perfeito. Não precisa mudar nada. O apoio para eu conquistar essa prata foi bom demais", assegurou.
Antes da competição, a confederação foi elogiada principalmente pela aclimatação realizada na cidade portuguesa de Rio Maior, que conta com um complexo de piscinas de alto nível. "Todo mundo gostou da preparação lá, que fez com que todos ficassem pensando na mesma coisa, o Mundial. Pela primeira vez tivemos um time e chegamos a um campeonato totalmente preparados", comentou o técnico de França, Arílson Soares.
De acordo com dados fornecidos pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a CBDA recebeu R$ 2,5 milhões de verbas da Lei Piva para o ano de 2009, além de recursos de patrocínio vindos dos Correios, totalizando cerca de R$ 15 millhões. Porém, com a necessidade de todo esse dinheiro ser dividido com os saltos ornamentais, maratonas aquáticas (Poliana Okimoto foi bronze na prova de 5km na Itália), nado sincronizado e pólo aquático, um outro fator foi preponderante para a evolução brasileira em Roma: o trabalho dos clubes.
"Para o grupo que está no Pinheiros, não falta nada. Temos todo o apoio do clube", garante Albertinho Silva, técnico da seleção brasileira, que afirma já ter recebido promessas dos dirigentes do esporte brasileiro. "Da CBDA, o presidente Coaracy Nunes disse que vai dar mais suporte para a gente. Vamos aguardar isso", emendou.
Questionado sobre em que exatamente consistiria esse apoio, Silva foi direto. "Aumentar meu salário, por exemplo, eu acho que seria um bom começo. E aumentar o salário dos atletas também seria um prêmio depois de tudo o que foi feito", analisou.
Um dos expoentes do Confao (Conselho de Clubes Formadores de Atletas Olímpicos), entidade que luta contra o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) por maior apoio financeiro aos clubes, o presidente do Pinheiros, Antônio Moreno Neto vê na natação um bom exemplo a ser seguido pelo esporte nacional.
"Cada um teve o seu papel. A CBDA organizou a participação dos brasileiros nas competições e os clubes formaram os atletas. É este o caminho", comentou o dirigente. Dos 230 pontos feitos pela natação masculina do Brasil em Roma, que garantiu ao país o vice-campeonato na categoria, 176 vieram de atletas do Pinheiros.
No dia a dia, Albertinho já começa a sentir um maior reconhecimento por parte dos rivais. "O Brasil ganhou um respeito muito grande de todas as equipes. É nítido: a gente que convive no meio percebe a diferença no tratamento. Os estrangeiros agora vêm querer saber sobre nosso trabalho, os atletas desejam vir treinar aqui...", conta.
Soares também diz ter sentido uma resposta positiva no exterior. "Foi muito diferente. Pela primeira vez chegamos a uma competição com todos sabendo quem éramos nós, pois tínhamos na delegação um campeão olímpico, um recordista mundial e atletas muito bem ranqueados em suas provas", explica. "Eu fui cumprimentado na borda da piscina com todo mundo me chamando pelo nome, sabendo quem eram os meus atletas... o mesmo aconteceu com o Albertinho e o Fernando Vanzella. Nas próximas competições vai estar todo mundo olhando para o Brasil de novo", anima-se.
O otimismo é compartilhado com a CBDA. Na visão do supervisor técnico de natação da entidade, Ricardo de Moura, a tendência é a situação só melhorar. "Cada geração colocou um tijolo para construir isso que vemos hoje. Primeiro foi o desafio de fazer semifinalistas, depois finalistas e aí por diante. O Brasil é um país sensacional, tem um quantitativo para o esporte fantástico. Temos hoje 60 nomes já mapeados que podem chegar em 2012. É uma geração espetacular. Um dia vamos chegar a um ponto em que não precisaremos mais de índices e poderemos levar os dois melhores tempos de cada prova na seletiva", sonha o dirigente.
