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Entrevista/Tênis - (13/09/2009 10h05min09 - Atualizado 13/09/2009 10h43min29 )
Do correspondente Valter Junior - Porto Alegre (RS)

Entre os dias 18 e 20 de setembro, os principais tenistas brasileiros tentarão repetir o feito do time de Dunga e classificar o país para a Copa do Mundo do tênis. Para atingir o Grupo Mundial da Copa Davis, o que não ocorre desde 2003, o Brasil precisa vencer três das cinco partidas que fará diante do Equador, em Porto Alegre. O grupo terá uma semana de treinos para entrar em quadra preparado para uma batalha de três dias no saibro montado no Gigantinho, tentando transformar a esperança em realidade.

No banco de reservas, orientando os jogadores, estará o capitão Francisco Costa, ou Chico Costa, como é conhecido no mundo do tênis. Ele teve uma carreira acima de suas próprias expectativas - chegou a ser o número 140 do mundo. Depois de ter pendurado as raquetes, aceitou o desafio de fazer o Brasil voltar à elite. Para voltar aos melhores do mundo, ele chamou Thomaz Bellucci, Marcos Daniel, André Sá e Marcelo Mel. Como oponentes, eles terão os irmãos Nicolas e Giovani Lapentti, e Carlos Avellan e Júlio César Campozano.

Na correria de seu dia-a-dia, que envolve treinos, aulas na faculdade de educação física e estágio, ele atendeu a reportagem da Gazeta Esportiva.net. Após o treino com um de seus alunos, Chico repousou sua raqueteira ao lado de uma das mesas do restaurante da Sogipa, um dos clubes mais nobres de Porto Alegre.

Como se fosse um jogador de saque e voleio, o capitão brasileiro na Davis foi para a ofensiva. Não escondeu o jogo, colocando o dedo na ferida no passado, no presente e no futuro do tênis no país do futebol.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Da esquerda para a direita: os tenistas Marcelo Melo, André Sá, o capitão Francisco Costa, Marcos Daniel e Thomaz Bellucci

Empolgado para os jogos da Copa Davis em Porto Alegre?
Todo mundo está. Todos nós que fazemos parte da equipe, o pessoal que acompanha tênis. A empolgação é geral. Não é só minha.

Qual a expectativa para os jogos contra o Equador?

Serão cinco jogos duros. A gente sabe que serão três dias de batalha, sexta, sábado e domingo. São cinco jogos e precisamos vencer três para passar adiante. Vai ser bem lutado. Já joguei contra os dois (os irmãos Lapentti), contra o Nicolas e o Giovani, simples e duplas. A gente sabe muito bem o que eles têm de bom. A gente já sabe dos defeitos deles na quadra. Acho que será um confronto entre jogadores que se conhecem muito, de técnicos que conhecem os jogadores muito bem.

Quando os adversários se conhecem, o que pode fazer a diferença?
Tem muita coisa. Tem a motivação, a parte tática, o detalhe do que ocorre na hora do jogo. Às vezes se prepara o jogador e, por alguma razão, a coisa não acontece daquele jeito previsto. O adversário está fazendo uma jogada "x", a execução não está boa. Muita coisa acontece. O que a Copa Davis tem de diferente dos outros torneios é a presença do treinador na quadra. Ele está auxiliando o jogador. Ele enxerga o jogo com um pouquinho mais de tranquilidade. O tenista está muito envolvido com a disputa física. O treinador está sentado observando, apesar de estar muito envolvido emocionalmente, ele tem um pouco mais de tranquilidade.

Como funciona a motivação no tênis?
A gente se reúne uma semana antes, então não existe milagre. O jogador é convocado pelo que tem feito durante o ano, durante a carreira. Nos encontramos uma semana antes e aí a gente conversa muito. A gente trabalha muito algumas coisas que serão feitas contra aquele adversário "x" e faz treinamentos gerais de fundamentos. O que existe é trazer o melhor do jogador, cada tenista virá com o melhor e o pior dele. Tem que fazer com que o melhor do tenista apareça na hora do jogo.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Francisco Costa joga motivado em sua cidade natal, Porto Alegre

No simples, o Brasil tem o Bellucci, que está começando, e o Marcos Daniel, que é mais experiente. Como funciona essa mescla?
No caso da Copa Davis, nenhum dos dois têm muita experiência. O único jogador que é realmente experiente é o André Sá, que está na equipe há uns dez anos. O Marcos Daniel é um jogador experiente em termos de carreira, de circuito, de idade. Em termos de Copa Davis, ele tem menos experiência que o Bellucci. Acho que nosso trabalho é tão importante com ele quanto com o Thomaz. Ele teve algumas experiências ruins na Davis. Na última vez ele foi bem, mas foi bem sofrido, também. Isso exige muito acompanhamento, muita conversa e muito treino.

Tanto o Marcos Daniel como o Bellucci não possuem muita experiência de jogos de cinco sets. Isso te preocupa?
Na hora de escolher o local do confronto, a gente pensou muito nisso. Tínhamos as opções de jogar em Porto Alegre e de jogar no Nordeste. Pensamos que para nossa equipe não era interessante jogar em um local muito quente, por esse lado da pouca experiência em cinco sets. Os dois já tiveram problemas com câimbras. O Daniel na Copa Davis mesmo e o Bellucci na Copa Davis e em Roland Garros. Tentamos jogar em um lugar onde não tivesse muito calor. Onde não fosse ter esse problema, além dos outros que já vão existir. Não queríamos ter mais essa preocupação.

O que ficou da confusão da última convocação do Marcos Daniel (não aceitou atuar pela Copa Davis devido a divergências financeiras com a CBT)?*
Acho que ele tomou uma decisão precipitada e pessoal. As justificativas usadas na época não foram bem aceitas por ninguém, pelo grupo, pela CBT, pela comissão técnica. Isso tudo foi superado depois que a gente conversou, nos torneios em que ele encontrou com os jogadores e está perfeitamente superado. Agora, vou ter que conversar muito esta questão na chegada dele. Porque nos últimos dois confrontos ele não fez parte e a equipe foi muito bem. O espírito de equipe foi 100%, o que é uma coisa muito importante. Então, a gente vai ter o cuidado disso, ao incluí-lo na equipe depois de dois confrontos fora, temos que ter esse cuidado para que o espírito de equipe continue tão forte como nos outros confrontos.

O que pode ser diferente em relação ao ano passado, em que na mesma fase não deu para vencer a Croácia?
No ano passado, enfrentamos uma das equipes mais fortes, fora de casa e em um piso que eles escolheram. Então, era um confronto ingrato. A Croácia está na semifinal, agora. Ganhou do Chile, com o Massu, por 5 a 0. Ganharam também dos Estados Unidos. Não perdemos para qualquer um. Conseguimos fazer um jogo acima das expectativas de todos, equilibrado. Foram 11 tie breaks. Agora, a situação é diferente. Jogamos em casa, com um adversário do nosso nível. Até com um ranking um pouco pior, mas como são mais experientes colocamos no mesmo nível. A expectativa não é a mesma do ano passado. Lá fomos buscando a vitória, mas vendo que as chances eram bem menores que a da Croácia. Neste ano temos uma chance de, no mínimo, 50%, por jogar em casa e pelo momento dos nossos jogadores. Isso muda bastante. A preparação muda, a maneira que a gente conversa muda. Jogar em casa envolve uma atmosfera diferente. Estaremos cercados de pessoas e da imprensa. Tudo isso tem que ser bem trabalhado.

Ao mesmo tempo em que o Equador faz o Brasil entrar com mais confiança, fará com que a pressão seja maior?
Com certeza. A pressão aumenta por jogar em casa. A atmosfera cria uma situação que a gente se sente mais cobrado. A vitória passa a ser uma cobrança. Contra a Croácia não existia cobrança de vitória. Contra a Colômbia já existia, apesar de ter sido fora de casa. E lidamos bem com isso.

O tênis não tem muito investimento no Brasil. É justa a cobrança para o Brasil avançar, mesmo não tendo um grande investimento?
Acho que deve haver cobrança. Mas acho que o tênis ainda é muito deixado de lado para quem teve o Guga e a Maria Esther Bueno. O tênis tem pouco espaço perto do número de praticantes, não conheço um grande empresário que não goste de jogar tênis. No entanto, por que não se investe em tênis? Por que não se divulga tanto o tênis? São boas perguntas, que não devem ser feitas para mim, devem ser feitas para quem gere o esporte. Acho que o tênis é um pouco subestimado como esporte competitivo. As pessoas veem muito o tênis como o golf, um esporte de lazer, para brincar. Mas tênis é um esporte que na Europa só está atrás do futebol. No Brasil ele está atrás até da Stock Car. Há um desiquilíbrio entre o tênis no mundo e o tênis no Brasil.

O que o avanço na Copa Davis e a volta para o Grupo Mundial podem representar?
O tênis nunca teve uma estrutura no Brasil, como nenhum esporte. Só o vôlei e o futebol, pela cultura. Como disse o Dunga, o brasileiro sai chutando a bola de dentro da barriga da mãe, por isso somos bons no futebol. Um país de 200 milhões (de habitantes) que vive para o futebol. Não é por que é organizado. Agora, o vôlei é um exemplo. É um esporte que até os anos 80 era comum, como qualquer outro. De repente um grupo de pessoas começou a trabalhar duro e organizar. Hoje o Brasil é o principal no mundo, tanto no masculino como no feminino. Este esporte deve servir como exemplo. O tênis tem que ir por esse caminho. O tênis tem que tentar formar um sistema onde os jogadores se renovem, que não fiquem dependendo de um jogador, assim como o vôlei não depende só do Giba. Há um sistema que se autorenova. Existe uma cultura do vôlei. Quem começa no vôlei sabe como funciona. Quem entra no tênis não sabe como é. Acha que papai joga, filho de rico, oba-oba. Não tem nem ideia de onde está se metendo. Não há uma cultura de tênis. 

O exemplo da Argentina pode ser seguido?
Existe uma cultura de tênis na Argentina. Isso não existe aqui. Lá tu abres os principais jornais e tem uma página para o tênis, tendo torneio ou não. Quem começa no tênis na Argentina sabe onde está entrando. Lá não é um esporte de rico. É praticado por classe média e classe média alta, mas não é aquele esporte de lazer e de aristocracia. Fui várias vezes à Argentina, eu pegava um táxi cheio de raquetes e o taxista perguntava se eu conhecia esse ou aquele jogador. Aí eu falava que já joguei contra o Gáudio, o Cañas, o Zabaleta, aí eles entram em detalhes. Sabem como joga esse, como joga aquele. Aqui no Brasil, o taxista vai dizer que já ouviu falar do Guga, mas não vai saber dizer os outros. Porque se abre qualquer jornal e vê lá em um rodapé de página "Federer ganha de Nadal".

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Marcos Daniel tem pouca experiência na Davis e preocupa o capitão

Lembra dos teus confrontos com os Lapentti?
Joguei em 96 contra o Nicholas. Joguei uma vez com o Giovani, quando eu estava quase parando, no qualy de Wimbledon, em 2003, se não me engano. São jogadores tecnicamente muito bons, muito habilidosos. Eles têm alguns problemas que vamos explorar. Joguei essas duas vezes, nas duplas várias vezes, muitos treinos também. Convivi muito com eles. A gente se conhece bem. Eles têm alguns buracos, que vamos tentar explorar desde o primeiro jogo.

Onde o Brasil pode chegar com essa equipe na Davis?
É uma equipe que está sendo formada aos poucos. Ela não está fechada. Há jogadores jovens, despontando, evoluindo. Não dá para dizer que essa equipe será a mesma do ano que vem. Tem muita coisa para acontecer. Temos jogadores com mais de 30 anos, o Andre (Sá) e o Marcos (Daniel). Jogadores com 25, 26 anos, o Thiago Alves e o Franco Ferreiro. Tem jogadores de 21, que é o Thomaz. O Marcelo Melo tem 24, 25. Chamamos o (Marcelo) Demoliner que tem 20. Tem outros que chamamos para treinar. Acho que estamos conseguindo montar um sistema de renovação.

Brasil tem dois simplistas e uma dupla formada. Quais os prós e os contras disso?
Essa formação para mim é a melhor possível. Não é a ideal, porque não existe formação ideal. No momento que pode se inscrever somente quatro jogadores, que é uma limitação da ITF. Isso limita muito o nosso trabalho. O ideal seriam cinco jogadores, que aí se teria um reserva. Tem dois para simples e dois para duplas, e um que possa ser reserva. Como são só quatro, ou tu sacrifica o jogador, como era o Guga, e corre o risco de no domingo esse jogador estar fuzilado, ou tu corre o risco de estar sujeito a uma lesão. Não tem solução para esse problema.

Após dez anos o Brasil volta a jogar a Copa Davis em Porto Alegre. O que representa para você que é morador da cidade?
É motivo de orgulho. Para mim, para o João Zwetsch, que é da comissão técnica. O Marcos Daniel, que é do estado. O Franco Ferreiro, o Demoliner, o Clezar que faz parte da equipe. Jogar no Brasil é muito legal sempre. Atmosfera toda, a torcida. Jogar na tua cidade mais ainda.

Como será a semana de treinos?
Naquela semana ficaremos isolados do mundo. Fechado no hotel. É hotel quadra, quadra hotel, o tempo inteiro. Ficamos concentrados. Na hora do jogo sim vai ter muita gente conhecida. Vai ter gente dos clubes Sogipa, Leopoldina, a família, amigos. Aí nós vamos perceber mais claramente onde estamos. Durante a semana não fará nenhuma diferença, que estaremos nos preparando e fortalecendo o espírito de grupo.

Qual foi o seu envolvimento naquele Brasil e Espanha há dez anos?

Aquele confronto eu esperava ser convocado, pelo menos para treinar. Na época a comissão técnica não tinha a visão que temos hoje. Ela tinha um grupo fechado. Gostava de trabalhar com quatro, cinco jogadores. Não abria as portas para outro. A não ser que alguém chegasse a 50 do ranking e passasse todo mundo. Não tinha essa filosofia de apoiar quem está subindo, de trazer para perto mais jogadores. Se for ver, dos 15 melhores do ranking, 10, 12 já passaram pela equipe da Davis desde 2007. Naquela época eram quatro jogadores, sempre os mesmo. Isso foi muito prejudicial ao tênis brasileiro. Isso limitou a carreira de muita gente. Era um outro momento, que já faz parte do passado. Até por que a CBT tinha problemas de corrupção. É um período negro da história do tênis brasileiro que ficou para trás.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Francisco Costa

Você se sentiu frustrado em não ter sido chamado?
Aquele foi o último confronto do (Paulo) Cleto. Depois que o Brasil perdeu em casa teve problemas com os jogadores, que decidiram que não jogariam mais se ele continuasse como capitão. Isso não tem nada a ver comigo, eu nem fazia parte. Era um sistema que se autodestruiu.

Depois disso, teve a questão com a presidência da CBT e o boicote (em 2004), que iniciou a derrocada do Brasil na Davis. Valeu a pena?
Valeu. Na verdade, tinha muita gente trabalhando para renovar a CBT, mas o boicote foi fundamental. Também boicotei. O Brasil jogou com o Paraguai com uma equipe mista, de última hora. E depois contra o Peru, se não me engano, e contra a Venezuela com jogadores com ranking bem abaixo. Foi um movimento, vamos dizer assim, uma revolta que os jogadores e outras pessoas promoveram para mudar a CBT. Porque com aquela turma ali todo mundo estava de mãos amarradas. Nada se podia fazer. Foi a coisa mais importante feita no tênis brasileiro. Para mim, muito mais importante que o Guga ter ganhado Roland Garros. Não o boicote em si, mas o movimento todo para tirar o Nélson Nastas da presidência.

Como você avalia sua carreira como jogador?

Muito acima das expectativas. Quando eu comecei a jogar, todo mundo dizia que eu comei com 12, 13 e o máximo que ia chega é ser jogador de clube. Jogar torneio estadual. Para mim conseguir ser profissional já foi uma glória. É claro que tudo isso teve um preço. Cheguei ao auge na carreira com 25, 26 anos. Outros jogadores que começam mais cedo chegam aos 20, em um nível que permite sonhos maiores. Eu cheguei em uma situação em que não tinha mais 10 anos para jogar. Até os 30, 31 eu consegui, ainda. 

Ser 140º do mundo lhe deixa orgulhoso?

Com certeza. Mas não só o 140, todas as vitórias. Joguei contra top 20, top 40. Ganhei do El Aynaoui, do Squilari, do Zabaleta. Ganhei do Meligeni, no Brasileiro de 97. Ganhei do Oncins, em um torneio na Alemanha. Ganhei do Saretta duas vezes. Ganhei do Masu, do Puerta. Fora dos mais novos que estão aqui agora. Tursunov, Ferrer. Perdi do Djokovic, na negra. Perdi do Monfils. Ganhei do Verdasco uma vez e perdi outra. É muito legal. Eu consegui jogar por muitos anos.