David, Thiago Gomes, Thiago Matias, Glauber e Daniel Marques: esses zagueiros apresentam coincidências. Vistos com potencial, todos foram revelados pelo Palmeiras, mas não vingaram no Palestra Itália. Agora, cabe a Maurício, novo talento alviverde, mudar a incômoda escrita de que o clube não revela bons defensores nos últimos tempos.
Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, Maurício deixou claro que confia em um futuro glorioso no Palmeiras. "Espero ter um destino diferente dos outros zagueiros formados no clube, quero vingar no Palmeiras e fazer história", avisou.
Mas as dificuldades perseguem a carreira do zagueiro. No elenco profissional desde janeiro de 2008, Maurício foi utilizado em alguns jogos sob o comando de Wanderley Luxemburgo e não emplacou. Por isso, ficou sem espaço no primeiro semestre de 2009.
"Pensei até em sair do Palmeiras para mostrar meu valor", reconhece o jogador, mais um no país a amargar dificuldades grandes financeiras na infância. "Tenho orgulho em dizer que morei em uma favela na zona leste de São Paulo", completa.
Somente após a chegada do técnico Muricy Ramalho é que Maurício recuperou a confiança no Palestra Itália. Com a lesão de Maurício Ramos, o titular da zaga, o camisa 33 ganhou, inclusive, a condição de titular no complicado clássico contra o Santos e deu conta do recado.
Em relação ao futuro, Maurício tem objetivos ousados na carreira: uma transferência ao futebol do exterior, até para retribuir o investimento do Palmeiras em sua formação, além de jogar a tão aguardada Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Para isso, sabe que terá um longo caminho pela frente.
GE.NET - Daniel Marques, Thiago Gomes, Thiago Matías, David e Glauber. Todos esses zagueiros subiram ao profissional e não deram certo no Palmeiras. Existe uma dificuldade especial para atletas da base no Verdão?
MAURÍCIO: Eles tiveram casos diferentes, não sei explicar o motivo de não vingarem aqui, o próprio David acompanhei bem de perto aqui no Palmeiras. Acho que ele até deu certo no clube, mas se precipitou um pouco na hora da saída (usou a Justiça do Trabalho para quebrar o contrato). Para mim, especificamente, foi difícil subir ao profissional, mas espero ter um destino diferente deles, quero vingar no Palmeiras e fazer uma história.
GE.NET - Muitos falam que o jogador da casa sofre mais pressão do que os outros. É verdade?
MAURÍCIO: Tem um pouco de verdade sim, mas no meu caso agora estou tendo oportunidade, o Palmeiras está me valorizando e estou contente pela força recebida da diretoria, comissão técnica e jogadores.
GE.NET - O Toninho Cecílio (gerente de futebol) citou a sua experiência como capitão nos juniores. Espírito de liderança ajuda para um zagueiro iniciante?
MAURÍCIO: Ajuda bastante, cara. Nós que estamos lá atrás assistimos o jogo melhor, podemos orientar mais os companheiros, eu acho que é um ponto positivo para mim.
GE.NET- Da sua geração nas categorias de base do Palmeiras, a maioria ainda está no clube? Você sabe que são poucos que recebem chances no time profissional.
MAURÍCIO: Muitos deles estão no Palmeiras ainda. O Vinícius, por exemplo, é um lateral que já foi chamado seis vezes para as seleções de base, hoje está no Palmeiras B, às vezes vem aqui treinar com a gente. Tenho certeza que, daqui para frente, com o Muricy olhando a base, muitos outros atletas vão subir para o elenco profissional e trazer alegrias aos torcedores.
GE.NET - No ano passado chegou a jogar alguns jogos com o Luxemburgo. Como você analisou aquela experiência?
MAURÍCIO: Não foi uma grande sequência, eu jogava duas partidas e saía do time. Em relação ao Luxemburgo, eu tenho que agradecer, foi ele que me subiu e deu oportunidade de estar aqui. Agora, com o Muricy, estou pegando ritmo com uma boa sequência de jogos, você vai pegando confiança. Aos poucos, vou tentando assumir a posição.
GE.NET - Depois daqueles jogos iniciais sob o comando do Luxemburgo, você perdeu espaço no primeiro semestre de 2009. Pensou em deixar o clube?
MAURÍCIO: Todo jogador quer sempre jogar. Não vou mentir, pensei em ser emprestado para o Palmeiras me ver melhor, pensando em receber uma chance quando voltasse. Pensei em sair do clube para ser valorizado.
GE.NET - Você recebeu propostas?
MAURÍCIO: Tive três, quatro propostas, mas sou da casa, a diretoria gosta e confia em mim. Conversei com o Toninho Cecílio, um cara que me acompanhou bem nas categorias de base. Meu empresário também lembrou que a hora certa iria chegar.
GE.NET - O Muricy sempre fala que prioriza a revelação de talentos para ajudar o clube em futuras vendas. Passa por sua cabeça ir para fora do país?
MAURÍCIO - Tenho o sonho de jogar fora do país, como qualquer atleta. O Muricy está com a razão, hoje o futebol necessita da revelação de jogadores que serão vendidos e valorizados fora do país. Você, fora do país, pode se credenciar a ganhar oportunidades na seleção.
GE.NET - Você citou a seleção brasileira. Terá 25 para 26 anos em 2014. É uma idade boa para a Copa no Brasil, não é?
MAURÍCIO: Com certeza é algo que passa por minha cabeça, vou trabalhar com o pé no chão. Vou trabalhar todos esses anos com muita determinação. Se Deus quiser, vou realizar esse sonho em 2014.
GE.NET - O que aprendeu com o Muricy nesses últimos meses?
MAURÍCIO: Estou aprendendo muito, cara. O Muricy é uma pessoa que trabalha muito e pouco fala. Ele me dá instruções para ter calma em campo, tranquilidade na marcação, não dar bote de qualquer jeito nos atacantes.
GE.NET - Essa instrução de cercar os atacantes tem relação com aquela falta em cima do Neymar em que o árbitro quase marcou pênalti para o Santos?
MAURÍCIO: Foi uma bobeira que estou me cobrando até agora. O jogo estava tranquilo, vinha bem na partida, foi o único momento em que me distrai, relaxei, dei mole, o Neymar fez a jogada e quase fiz um pênalti. Sou um cara que me cobro muito, mas é bom que aconteça agora para que lá na frente não venha acontecer.
GE.NET - Você é jovem e está em uma profissão perigosa, com muito assédio e interesses. Como você costuma lidar com isso?
MAURÍCIO: É real essa coisa de assédio. Já passei pelas duas partes. Ano passado, quando comecei a jogar no profissional, apareceram muitos amigos, coleguinhas, falando eu te amo, eu te adoro. Mas são poucas pessoas que ficam do seu lado nos momentos mais difíceis, é apenas a família, sua esposa. Eu não me empolgo muito. Hoje estou jogando e mantenho a cabeça no lugar. Já sei quem vai se aproximar querendo algo bom para mim.
GE.NET - Mas como foi sua trajetória nas categorias de base do Palmeiras? Passou por dificuldades financeiras?
MAURÍCIO: Eu estou no Palmeiras faz dez anos, passei muitas dificuldades financeiras. Morava na Zona Leste de São Paulo, em São Mateus, tinha que acordar muito cedo todos os dias para treinar. Todo jogador tem sua história. Eu fui criado na favela, com muito orgulho, não tenho vergonha de falar, meus pais tiveram dificuldades em me dar o dinheiro para treinar, faltava dinheiro. Mesmo grandão (tem 1,85m de altura), eu tinha às vezes que passar por baixo na catraca do ônibus. Hoje, graças a Deus, minha situação melhorou bastante, estou conseguindo dar um conforto para minha família, com a ajuda do Palmeiras. Só tenho que agradecer a Deus por me dar força e ao apoio da minha família, meus irmãos, mãe, minha esposa.
GE.NET - Você tem ajudado seus pais com o dinheiro que ganha?
MAURÍCIO: Sim, é claro. Minha mãe já está morando no mesmo prédio que eu. Minha mãe é meu tudo, em nenhum momento da minha vida pensei em abandoná-los. Em casa, eu ajudo muito, converso quando necessário, dou apoio aos meus irmãos, faço o que posso.
GE.NET - Você falou em falta de dinheiro. Faltaram recursos para outras coisas como comprar chuteiras ou até comida?
MAURÍCIO: Alimentação, não. Deus nunca me deixou passar dificuldades neste sentido. Mas para chuteira, sim. Eu lembro, como se fosse hoje, que ganhei a primeira chuteira do meu padrasto. Foi comprada na feira e custou R$ 12. Hoje, ainda bem, tenho o que comer, eu posso comprar minhas roupas, minhas coisinhas com muita humildade.
GE.NET - Essa primeira chuteira durou quanto tempo?
MAURÍCIO: Cara, a chuteira não durou dois meses (risos). Queria ter guardado essa chuteira, jogava como atacante na época, fiz muitos gols com ela.
GE.NET - Você parece ser quieto como o Muricy.
MAURÍCIO: Sou, graças a Deus. No momento em que subi para o profissional, eu coloquei em mente que preciso treinar, aprimorar, superar minhas dificuldades. Para minha carreira toda, se continuar assim, vou me ajudar bastante.
GE.NET - Neste processo de amadurecimento no Palmeiras, quem é o integrante do grupo que mais te ajuda?
MAURÍCIO: A equipe inteira procura me ajudar nos momentos em que estou jogando, mas destaco o Danilo, que é meu companheiro de quarto. Nós conversamos bastante. Outros que dão muita força são o Marcos, o Diego Souza e Pierre.
