Os dirigentes do Santos já descartaram a possibilidade de manter Marta no elenco, mas os efeitos da passagem da jogadora pelo Peixe ainda estão apenas no início. No final da semana passada, impulsionadas pelos feitos da meia com a mítica camisa 10, aproximadamente 1.100 garotas nascidas entre 1990 e 1995 participaram da peneira promovida pelo clube, entre elas uma versão em miniatura e uma quase xará de Manaus da única pessoa premiada pela Fifa como melhor do mundo quatro vezes.
Geisy Caroline, 19 anos, ganhou status de estrela na manhã chuvosa da última quinta-feira. Por sua semelhança com Marta, concedeu entrevistas a emissoras de televisão e recebeu bem-humorados pedidos de autógrafos de suas concorrentes. Assim como a estrela, a garota nascida em Jacupiranga é canhota e joga como meia-atacante. Escalada fora de posição na peneira, ela chegou a abandonar o posto na zaga para tentar mostrar seu futebol mais perto do gol adversário durante os 30 minutos de jogo.
"Sou muito, muito, muito fã dela! Não gosto disso, mas ficam me comparando com ela. A Marta veio de uma família humilde, começou de baixo e não à toa é chamada de rainha. Para mim, basta ser princesa que já está ótimo (risos)", diverte-se a mini-Marta, mais forte do que as concorrentes por lutar judô três vezes por semana. "Acho que somos um pouquinho parecidas. Agora que fica todo mundo falando, eu me olho no espelho e dou risada. Eu sou esquerda (sic) como ela e ainda jogamos na mesma posição", disse Geisy.
Sem apoio do pai para tentar a carreira futebolística e nem condições financeiras para viajar até Santos, Geisy contou com a ajuda de um tio que é vereador em Jacupiranga para ser incluída no grupo de pacientes de um hospital público que viajou até a cidade litorânea para fazer exames. "Cheguei só com R$ 15,00 para pagar a peneira. Tenho que ver como vou fazer para voltar. Se precisar, peço emprestado. Não tenho vergonha, não", disse a jovem, aprovada na primeira fase do teste.
A atacante Ketlen, autora de um gol na final da Copa Libertadores conquistada pelo Peixe em 2009, foi selecionada na peneira de 2007. Técnico do Santos, da seleção brasileira e responsável por detectar o talento da então jovem de 15 anos, Kleiton Lima procura novas jogadoras. Ele faz uma rápida palestra antes do início das atividades, comanda um coletivo de 30 minutos e volta a reunir o grupo para comunicar o resultado final.
"A peneira é um momento em que você precisa ter olho clínico, precisa daquele instinto e da experiência para poder enxergar o que as meninas que estão jogando podem dar no futuro. Hoje, o nível técnico do futebol feminino evoluiu muito e está exigente. Não adianta a menina só saber chutar e dar um driblezinho. Ela tem que ter todos os fundamentos em dia, tem que ter uma visão periférica e noção de posicionamento", enumerou o treinador.
Capaz de provocar gritos de alegria das jogadoras e pais no alambrado e olhares perdidos de desapontamento entre a maioria esmagadora de dispensadas, Lima também atribui o recorde de participantes na peneira à rápida passagem de Marta e Cristiane pela Vila Belmiro. "Esse efeito é muito positivo, porque massificou a modalidade e fez muitas meninas sonharem em ser como elas são, em chegar onde elas chegaram", explicou o comandante.
As mais de mil garotas vieram de 20 estados brasileiros, além do Distrito Federal. Entre as centenas de fãs de Marta Vieira da Silva, uma xará de sobrenome. Nascida em Manaus, Ravenna Khristy Vieira da Silva, 17 anos, viajou 4.043 quilômetros especialmente para fazer a peneira em Santos ao lado de seu treinador na capital amazonense e de mais duas companheiras, mas não passou da primeira etapa.
"Foi pouco tempo e não deu para mostrar o meu futebol de verdade. Futebol é equipe e como não conheço as meninas, não sabia para quem tocar direito", justificou a jovem, ainda no ensino médio. Acostumada a ouvir do pai que "futebol é pra homem", ela tem uma irmã que vive na Suíça e planeja visitá-la em breve para fazer testes na Europa. "Quando eu estou jogando bola e alguém me avisa que meu pai está chegando, tenho que correr para a casa. Mas quem sabe um dia ele não me pede um autógrafo?", sonha.
Presentes no inédito título da Copa Libertadores conquistado pelo Santos, a volante Sandrinha, com passagem pela seleção brasileira, e a zagueira Carol Arruda aproveitaram a manhã para acompanhar a peneira. Sentadas em cadeiras de plástico na entrada do gramado barrento e molhado, as jogadoras assistiram atentamente às atividades comandadas pelo técnico Kleiton Lima junto às possíveis futuras companheiras.
"Graças a Deus, a Marta pôde jogar aqui e mostrar para muitas meninas que futebol também é coisa de mulher. Tem muitas meninas que estão procurando o futebol por causa disso", diz Sandrinha, acompanhada por Carol. "Há muitas meninas que têm o dom, que é só trabalhar e que precisam de um time para se aperfeiçoar. Com certeza, vão sair algumas meninas daqui para treinar com a gente. A vinda da Marta repercutiu bastante e vai continuar repercutindo", afirmou a zagueira.
No primeiro dia de atividades no Centro de Treinamento Meninos da Vila, Nathany Souza conseguiu se destacar. Por acaso, ganhou o colete de número 10, e fez jus ao número mítico. Uma das mais acionadas durante os 30 minutos de jogo, a jovem de 18 anos nascida em Mogi Mirim chamou a atenção com algumas assistências e por usar as duas pernas para conduzir a bola. No final, foi selecionada para a próxima fase.
"É parecido com o vestibular. Você tem os seus 30 minutos e é tudo ou nada. Se der errado, não tem tempo de consertar. São anos trabalhando para ser avaliada em meia hora", disse a jovem, filha de um ex-goleiro de pequenos times do interior paulista. "A Marta e a Cristiane deram um 'up' no futebol feminino. O que está na mídia é o que o pessoal quer, é disso que todo mundo vai atrás. Ajuda demais. Quando cheguei aqui, fiquei assustada pela quantidade de meninas", acrescenta Nathany.
| PEIXE QUER VOLTA NO 2º SEMESTRE |
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Com contrato até 2011, Marta voltará ao Los Angeles Sol. O Santos fez uma proposta para manter Cristiane, mas a atleta interessa a clubes dos Estados Unidos e também deve deixar a Vila Belmiro. "Temos essa ideia de contar com elas no segundo semestre, após o final da liga norte-americana. Se sair o Mundial de Clubes e uma nova Libertadores, a gente traria as duas de volta", diz Murilo Barletta, responsável pelo futebol feminino. Um inédito Mundial de Clubes chegou a ser anunciado para março ou abril, mas acabou transferido para o segundo semestre. Segundo Barletta, nomes como Érika, Fran e Andréia já estão "apalavrados" e seguirão no Peixe, que deve renovar o acordo de patrocínio com a Copagaz. O dirigente garante que a nova diretoria pretende manter e ampliar o investimento do ex-presidente Marcelo Teixeira no futebol feminino. Com o apoio de Pelé, o Santos estuda a possibilidade de montar um time feminino para disputar a liga dos EUA em 2011. |
O Santos recebeu 1.500 mil inscrições para a peneira. Em função da intensa procura, o clube encerrou o período de cadastramento uma semana e meia antes do previsto e dividiu as atividades em dois dias. Logo depois de entrar no CT, as meninas apresentavam os documentos necessários e efetuavam o pagamento. Antes da avaliação comandada por Kleiton Lima e sua comissão técnica em um dos dois campos, eram divididas por posições para facilitar a montagem dos times.
Depois de dois dias de peneira, apenas cinco garotas foram aprovadas: Jenyffer Leonela (15 anos - Goiânia/GO), Patrícia Jesus Camargo Derriço (16 anos - Pindamonhangaba/SP), Giovanna Crivelari Anselmo (17 anos - Londrina/PR), Marina Loures (19 anos - Juiz de Fora/MG) e Juliana Ramos (20 anos - São Leopoldo/RS).
O grupo selecionado aguarda contato do técnico Kleiton Lima. "Para as meninas que se destacam, a gente oferece um período maior de observação com o time de alto rendimento. Dentro da performance nesse segundo momento, acabamos tendo a noção exata de onde encaminhar essas meninas: se elas ficam no juvenil para aprimoramento e desenvolvimento ou se já estão aptas para o nível mais alto de competição", explicou o treinador.
