Ao lado de um caminhão de 4,5 toneladas e 2,10m de altura, Cristiano Da Matta parece ainda mais mirrado com seus 1,64m e 63kg. Aos 36 anos, ele se prepara para voltar ao automobilismo após o grave acidente sofrido em 2006. Com a paciência de quem passou as últimas três temporadas afastado do esporte, o novo piloto da Iveco na Fórmula Truck atende fãs, curiosos e jornalistas com um palavreado mineiro e o característico sotaque que abrevia o final dos diminutivos.
Campeão da CART em 2002 e com passagem pela Fórmula 1 em 2003 e 2004, Da Matta sofreu o acidente que quase tirou sua vida em agosto de 2006. De volta à categoria norte-americana, o piloto colidiu com um cervo que cruzava a pista durante um treinamento no Circuito de Elkhart Lake, ironicamente um de seus favoritos. Gravemente ferido, o mineiro de Belo Horizonte passou vários dias em coma sob os cuidados de Steve Olvey, o mesmo médico que tratou do ferrarista Felipe Massa no ano passado.
Após um longo período de recuperação, Da Matta foi liberado para retornar ao automobilismo no final de 2007. Atrapalhado pela crise econômica mundial, no entanto, conseguiu apenas disputar duas provas na categoria Grand-Am no ano seguinte. Em 2009, sem sucesso, tentou se habituar a trabalhar no escritório com os irmãos. Animado com seu retorno na Fórmula Truck, ele volta a ser piloto às 14h (de Brasília) deste domingo, na etapa de abertura do campeonato, em Guaporé-RS.
Na noite da apresentação da Iveco em São Paulo, Cristiano Da Matta concedeu entrevista exclusiva à GE.Net. Além de classificar a empreitada entre os caminhões como seu verdadeiro retorno, o piloto contou o inusitado encontro que teve com um animal da mesma espécie do que colidiu com seu carro em Elkhart Lake. Após selar as pazes com o "veadinho" (viadim, em mineirês), ele volta para tentar provar que não é um "bunda-mole".
GE.Net - Depois de sofrer um grave acidente em 2006, você está a poucos dias de voltar a participar de um campeonato. Um piloto com a sua experiência ainda fica ansioso ou encara isso de uma maneira mais fria?
Da Matta - Eu fico ansioso, porque estou trabalhando para uma equipe grande, para uma grande montadora de caminhão. Além disso, acho que a maior pressão que eu tenho é minha mesmo. Essa parte sempre me pega muito. Eu tenho essa pressão dentro da minha cabeça, é uma coisa do Cristiano mesmo e que eu não consigo tirar. Isso me deixa um pouco ansioso e apreensivo. Fico querendo ver como as coisas vão acontecer, porque sei que tenho muita coisa para desenvolver ainda. Vou ter pouco tempo para treinar isso tudo e vai ser um desafio grande.
GE.Net - Em 2010, a Iveco disputa a terceira temporada na Fórmula Truck de maneira ambiciosa. Conquistar a primeira vitória da equipe na categoria é uma meta real para você nesse ano?
Da Matta - Se a gente olhar a linha de progressão da Iveco nesses dois anos de categoria, em 2010 teoricamente pode ser que a equipe tenha a chance de vencer. Como piloto, agora nesse comecinho de campeonato ainda vou estar um pouco cru para isso, mas com mais treinos e quilometragem com o caminhão, espero estar preparado para conseguir ajudar a Iveco a ganhar pela primeira vez. Nesse começo de temporada, quero primeiro me adaptar 100% ao caminhão.
GE.Net - Deve ser uma diferença brutal mudar do monoposto para um caminhão, ainda mais para quem ficou parado nos últimos três anos...
Da Matta - Para mim, ainda esta difícil, porque tive pouquíssimas voltas no total. Ainda estou tendo que pensar e raciocinar muito para dirigir, porque vejo tudo que está acontecendo, todas as diferenças... Pela experiência que eu tenho, quando você está pensando para dirigir, é que não está legal. Quando você está rápido e tirando o máximo do equipamento mesmo, tudo já está meio automático. Você consegue prestar atenção em outras coisas bem além da pilotagem. Eu tenho muito para desenvolver ainda. Mas, pelo meu histórico, consigo aprender as coisas rápido e dar resultados em curto prazo.
GE.Net - De quantas etapas você acha que precisa para se habituar ao caminhão?
Da Matta - É difícil falar. Depende muito do número de treinos que a gente faça no começo, mas espero que três ou quatro etapas já sejam suficientes. Tomara que seja antes, tomara que em duas etapas eu já esteja acostumado. Mas, sendo realista e sem querer me cobrar muito, espero que em três ou quatro etapas eu já consiga estar 100% no caminhão. Mas é muita diferença. É difícil até falar alguma coisa desse tipo.
GE.Net - Você chegou a disputar algumas corridas isoladas desde o acidente de 2006, mas podemos dizer que sua verdadeira volta ao automobilismo será somente agora, com a Iveco na Fórmula Truck?
Da Matta - Oficialmente, acho que sim, porque as outras corridas que fiz foram isoladas. Você chega lá, senta e é um piloto a mais em uma corrida de endurance. É diferente. Você pilota, mas é um carro que você não tem que desenvolver e fazer do seu jeito. Então, essa situação de trabalhar junto com a equipe para desenvolver o caminhão, fazer o negócio ficar mais do meu jeito e também me desenvolver, será a primeira vez. A minha volta ao automobilismo aconteceu antes, mas, considerando o esporte de verdade, essa é a volta oficial daquele processo todo de não apenas dirigir, mas de desenvolver, trabalhar no equipamento, conhecer cada concorrente...
GE.Net - De certa maneira, o acidente sofrido pelo Felipe Massa com a Ferrari em 2009 foi parecido ao seu. Quando você viu a imagem da mola batendo na cabeça dele, chegou a lembrar do seu acidente?
Da Matta - Tem muito a ver, inclusive o médico que tratou o Felipe, o doutor Steve Olvey, foi o mesmo que cuidou de mim. Eu conversei com o pai e com a mulher do Felipe na época do acidente dele. Logicamente, o Felipe estava cheio de dúvidas: "Quando vou poder fazer isso? Quando vou poder fazer aquilo?". A família do Felipe me procurou e eu contei que também tinha um monte desses pontos de interrogação na cabeça. Eu disse a eles: "vai lá com o Olvey, porque para mim resolveu, funcionou 200%". O doutor me explicou tudo que tinha que fazer e ensinou como treinar o cérebro a funcionar do jeito que precisava. Para o Felipe, parece que também foi 200%.
GE.Net - Você passou três anos afastado em função do acidente. Ainda lamenta esse imprevisto? fica pensando que a história podia ser diferente se tivesse saído um segundo antes ou depois dos boxes, por exemplo? Ou isso já está bem resolvido na sua cabeça?
Da Matta - Essa parte de sair um segundo antes ou depois... E se tivessem cercado melhor a pista e o bicho não tivesse entrado? A sorte é que foi numa curva de baixa, uma curva de segunda. Nessa parte do "se", eu não penso, não.
GE.Net - O que você lembra exatamente do acidente?
Da Matta - O que lembro do acidente é a cena do bicho na minha frente. Depois daí, não lembro de mais nada.
GE.Net - A pista de Elkhart Lake era uma das suas favoritas. Você chegou a voltar ao local depois do acidente?
Da Matta - Para a pista em si, não. Mas voltei ao hospital onde me trataram. Fiquei lá por mais de dois meses, uma parte desacordado, e não lembrava de muita coisa. Eu quis voltar para conhecer todo mundo e agradecer formalmente ao pessoal que cuidou de mim.
GE.Net - E o animal que colidiu com você? Chegou a encontrar outros da mesma espécie em alguma ocasião?
Da Matta - Ah, já vi vários outros por aí...
GE.Net - E como foram esses encontros?
Da Matta - Já vi em situações diferentes. É lógico que, quando eu vejo o bicho, a primeira coisa que vem na cabeça é: "foi um porra desses que passou na minha frente!".
GE.Net - Em que situações você viu esse animal novamente?
Da Matta - Cara, eu já vi em estrada, atravessando a pista e comigo no volante. Mas ele estava longe de mim, não deu nem susto. Teve uma vez muito interessante e engraçada. Eu estava em um hotel fazenda nos Estados Unidos com alguns amigos e apareceu um veadinho lá. Ele era bonzinho pra caramba, estava chegando perto de todo mundo, igual a um cachorro procurando carinho. É claro que eu pensei: "vou ter que ficar amigo desse bichinho de novo". Eu abaixei ali do lado dele e tirei uma foto. Na verdade, ele me machucou e tudo mais, mas eu matei o amigo dele. Então, fiz as pazes com a espécie (risos).
GE.Net - Sei que isso é difícil de responder, mas você acha que será um piloto diferente nesse retorno após o acidente de 2006? Acha que vai ser um pouco mais comedido ou vai conseguir andar no limite novamente?
Da Matta - Para te falar a verdade, não faço ideia. Mas eu acho que não vai ter nada de diferente. Por todos os treinos que fiz com os carros de corrida, com kart e com caminhão, não achei nada de diferente. É difícil falar, mas estou voltando porque acho que vou conseguir ser o mesmo piloto que fui um dia. Se eu voltar e por acaso descobrir que virei um...um... um bunda-mole ou alguma coisa parecida, não sei se vou ter interesse em continuar. Se eu concluir que é uma situação reversível, uma fase de pouca prática, por exemplo, beleza. Vou passar por cima. Mas estou voltando porque acho que não vai ter nada de diferente. De potencial final, acho que vai ser a mesma coisa.
GE.Net - Na sua vida pessoal, você passou a encarar as coisas de uma maneira diferente depois do acidente?
Da Matta - Ah, para te falar a verdade, não, cara. Está tudo a mesma coisa.
GE.Net - A vida de um piloto é muito intensa durante toda a temporada e você teve essa rotina interrompida de repente. Como foi sua vida nesses últimos três anos?
Da Matta - Mudou muita coisa. Durante praticamente todo o ano de 2007, eu não tinha permissão dos médicos para voltar a pilotar. Foi um ano de recuperação. Uma coisa que eu fazia para matar um pouco a vontade de competir era participar de corridas de bicicleta. É um esporte que sempre gostei e sempre pratiquei. No final de novembro de 2007, eu fui liberado. O médico me disse: "se você quiser dirigir um foguete com roda, está liberado".
GE.Net - Aí você começou a tentar voltar...
Da Matta - O ano de 2008, eu passei nos Estados Unidos correndo atrás de emprego e fiz as corridas de Grand-Am. A crise econômica que afetou o mundo inteiro estava começando a aparecer. Arrumar emprego no automobilismo já não é fácil, mas naquela época estava muito complicado. Passei o ano caçando uma vaga, mas não consegui nada. Em 2009, eu fiquei trabalhando com meus irmãos na empresa deles (de equipamentos para ciclismo) e também competindo de bicicleta. Profissionalmente, eu fiquei trabalhando no escritório. Para te abrir o jogo de verdade, eu achei muito chato, cara. Não é legal, não. Não aconselho isso para outros pilotos.
GE.Net - Chegava a ser uma coisa frustrante o dia a dia no escritório?
Da Matta - Frustrante, não. Eu participava de um negócio com meus irmãos e ainda estava dentro do esporte. Eu testava os equipamentos da empresa e participava de competições. É um negócio interessante. Mas trabalhar no escritório não era legal, mesmo relacionado a um esporte que eu pratico e gosto muito. Não era frustrante, mas não era legal.
GE.Net - Uma curiosidade que eu tenho é saber como você se manteve nesses três anos de afastamento da sua profissão. Precisou torrar uma parte de grana que você tinha?
Da Matta - Em 2007, eu recebia seguro no período de recuperação. Em 2008, fiz só duas corridas para correr atrás de emprego. Na verdade, na parte financeira foi um ano complicado, porque o meu patrocinador era o Cristiano. Correr atrás de emprego sem nada entrando custa caro. Essas duas corridas que eu fiz, não é que consegui ganhar dinheiro. Foram duas corridas para voltar ao automobilismo, fiz para ver se engatilhava alguma coisa depois, foi um investimento próprio. Não tive que pagar para correr, mas fiz meio que de graça o negócio. Em 2009, conseguir tirar alguma coisa trabalhando no escritório com meus irmãos. Ainda assim, mesmo recebendo e tudo, eu prefiro dez vezes mais estar correndo. É muito melhor.
GE.Net - Em algum momento você achou que não fosse voltar a correr nunca mais ou sempre teve a convicção de retornar?
Da Matta - Para te falar a verdade, cara, depois de passar o ano inteiro de 2008 correndo atrás do automobilismo e vendo a situação econômica do mundo inteiro... Depois daquele tanto de não na cara, cheguei a pensar: "Quer saber? Tentei demais, deixa esse troço pra lá".
GE.Net - Então, teve um momento em que você chegou a desistir...
Da Matta - Meio que cheguei a dar uma desistida, sim. Por isso que comecei a trabalhar no escritório e não correr mais atrás. Não corri nada atrás no começo do ano. Até o final do ano passado, quase não corri atrás.
GE.Net - Você chegou a se considerar um aposentado?
Da Matta - Aposentado, não. Eu tinha interesse, mas estava complicado. O automobilismo é marketing especifico. Quando as empresas estão em uma situação mais apertada, a primeira coisa a ser cortada é o marketing específico. O que aconteceu nas grandes categorias do mundo mostra isso bem claramente. O automobilismo foi a primeira coisa que as empresas cortaram e deve estar entre os esportes que mais sofreram com a crise. Eu fiquei focado tentando trabalhar no escritório, mas, no fundo da cabeça, estava sempre de olho.
GE.Net - Sempre tinha aquela esperança...
Da Matta - Sempre tinha. Eu estava sentindo muita falta, cada vez mais. Fui assistir algumas corridas nos Estados Unidos, estava sempre vendo o que estava acontecendo. Assistia a Truck, assistia a Stock, assistia tudo o que dava para assistir. No final do ano, quando apareceu a oportunidade na Truck, não pensei duas vezes. É um negócio que fiz a minha vida inteira, é mais fácil do que entrar em um negócio que não eu conheço e não estou acostumado. O fato de estar de volta é uma coisa legal demais.
GE.Net - Você falou da Stock Car. Nesse ano, a categoria vai contar com pilotos convidados em algumas etapas, entre eles o Nelsinho Piquet. Você chegou a ser convidado pela organização da Stock para participar de alguma etapa?
Da Matta - Não, nunca tive nenhum contato. Se tiver algum contato, em uma categoria como a Stock, não tem porque negar. É claro que minha prioridade é 100% a Truck. Mas se tiver condição de fazer uma corrida que não interfira em nada na minha temporada, no desenvolvimento do meu caminhão, na minha pilotagem, faço sem pensar. Automobilismo é um negócio que eu gosto um pouco. Então, não tem nem o que ver. Se aparecer, eu pego na hora. Mas até agora não teve nenhum contato.
GE.Net - Falando no Nelsinho, depois de sair da Fórmula 1 ele está correndo de pick up na Nascar. Deve estar enfrentando as mesmas dificuldades que você...
Da Matta - Eu acredito que sim. Ele está enfrentando duas dificuldades gigantescas: trocar do monoposto para a pick-up e do circuito misto para o circuito oval. É um método de trabalho bem diferente do circuito misto. É uma linha de aprendizado que deve estar sendo bem íngreme para ele.
GE.Net - No dia 14 de março desse ano, a Fórmula Indy inicia sua temporada com uma corrida de rua em São Paulo. Você pretende acompanhar a prova?
Da Matta - Vou estar aqui para assistir com certeza. Isso é certeza. Eu tenho amigos demais na Fórmula Indy não só correndo, mas também boxes. No total, eu passei seis anos na categoria. Ver esse tanto de amigo aqui do lado da minha casa para fazer uma corrida é claro que me deixa com interesse total.
GE.Net - Do que mais você sente falta na categoria?
Da Matta - A Formula Indy é uma categoria que eu acho interessante demais. Eu sinto falta da competitividade da categoria. Eu sinto falta de tudo, mas uma coisa que eu não sinto falta e sou até feliz por não estar dentro é o circuito oval.
GE.Net - É uma coisa que você descarta até o final da carreira?
Da Matta - Descarto, descarto.
GE.Net - Na CART, você teve uma passagem bem-sucedida pela equipe Newman-Haas, que culminou com o título de 2002. Como era seu relacionamento com o falecido ator Paul Newman?
Da Matta - O Paul Newman foi um cara muito entusiasta de automobilismo. Nos dois anos que eu corri na Newman-Haas, ele acompanhava todos os treinos e todas as corridas. É normal o dono da equipe assistir a todas as corridas, mas a todos os treinos, não. Se a gente tinha treino naquele lugar mais escondido e no meio do inverno, aquele treino que ninguém acompanhava, ele aparecia. O cara era um entusiasta mesmo do automobilismo, era uma paixão dele. Ele ainda queria saber como estava o carro com aquele amortecedor, com aquele diferencial. Ele tinha curiosidade e sempre fazia perguntas do tipo: "como foi ali com sua asa dianteira?". Gostava demais de automobilismo.
GE.Net - Nesse ano, o Gil de Ferran vai ser sócio de uma equipe na Fórmula Indy. Acha que ele pode ter sucesso na categoria?
Da Matta - Acho legal. O Gil sempre foi um cara excepcional para pilotar, mas uma coisa que ele sempre teve muito forte como piloto é o lado técnico. O fato de ele ter uma equipe há alguns anos (em janeiro de 2008, criou a De Ferran Motorsport para competir na American Le Man Series) pode fazer uma diferença legal pelo conhecimento técnico que ele tem, ainda que não fosse numa categoria de Fórmula, a especialidade dele.
GE.Net - Agora, queria falar um pouco da sua passagem pela Fórmula 1, na Toyota. Você estreou em 2003 e foi substituído pelo Ricardo Zonta no meio da temporada de 2004. Você vê sua passagem pela categoria como um feito ou como um insucesso?
Da Matta - Fico satisfeito demais por ter conseguido passar por lá. É claro que não foi como eu gostaria, queria ter a chance de desenvolver e brigar. Do jeito que o regulamento da Fórmula 1 é aberto, fica uma competição muito complexa. Para você conseguir atingir o nível de brigar por corrida, depende muito do desenvolvimento da equipe, do carro e de tudo mais. Se você não tiver isso na mão, se o carro não estiver bom, não interessa quem esteja dirigindo. A parte técnica de pressão aerodinâmica, de arrasto aerodinâmico, do centro de gravidade... Isso faz 50 vezes mais diferença do que o piloto consegue fazer dentro do carro. É um negocio muito para o lado do desenvolvimento.
GE.Net - Na Fórmula Indy, por exemplo, o piloto consegue fazer a diferença?
Da Matta - Um pouco mais, porque na Indy todos os carros são iguais. Vai muito da equipe, com o desenvolvimento do carro. Na Fórmula 1, você acaba competindo com um cara que tem "xis" quilos a mais ou a menos de pressão aerodinâmica que você, tanto a mais ou a menos de arrasto, centro de gravidade tantos centímetros acima ou abaixo do que você está correndo. É um negócio que você não consegue fazer tanta diferença de dentro do carro.
GE.Net - No ano passado, o Max Mosley, então presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), tentou igualar as equipes com propostas como o teto orçamentário e a adoção de um motor único. Você é a favor desse tipo de medida?
Da Matta - Não, porque na verdade a Fórmula 1 é um esporte de desenvolvimento. O cara conseguir desenvolver o carro é parte do esporte. É claro que não é o cara sozinho. O pessoal vê muito só o piloto na Fórmula 1, mas é um esporte de equipe. Os pilotos, junto com a equipe, com os engenheiros, com um número gigantesco de pessoas, influenciam na performance final do carro. Isso faz muita diferença. A Fórmula 1 é isso. Não é um esporte individual. Parte do legal da Fórmula 1 é essa área de desenvolvimento. Pelo lado esportivo é claro que não é legal. Pelo lado do piloto é claro que seria mais legal se fosse cada um por si e todos em condições de igualdade para deixar o pau quebrar, mas o esporte não é esse. É muito mais complexo.
GE.Net - Você foi para a Fórmula 1 em 2003, um ano depois do título na CART. Se arrepende da decisão de mudar de categoria quando estava no auge?
Da Matta - Não. Eu fiquei numa dúvida gigante de sair ou não até o final do ano, porque estava na melhor fase que passei nos Estados Unidos. Tinha um convite (da Toyota, já que na CART ele corria com motores da montadora), fui lá e treinei, mas estava muito na dúvida. Eu estava correndo pela Newman-Hass e na situação de brigar pelo campeonato todo ano. Sendo um profissional do automobilismo, sei que isso não cai no colo. É difícil de conseguir essa situação dentro de uma equipe daquele nível.
GE.Net - Como exatamente foi a decisão de sair?
Da Matta - Eu valorizava demais a situação que estava, mas chegou num ponto no final de 2002 em que todas as montadoras anunciaram que estavam fora. Tinha um risco muito grande de a categoria acabar. De um jeito ou de outro, meio que chegou a acabar, juntou com a Indy e virou uma coisa só. A crise maior na CART foi de 2003 a 2006, então acho que sair para a Fórmula 1 era o caminho natural a seguir. Não teria sentido eu ficar na categoria com aquele nível. Ninguém sabia se teria corrida no ano seguinte, era muito ponto de interrogação.
GE.Net - Nesse ano, além dos experientes Felipe Massa e do Rubens Barrichello, o Brasil terá o Lucas Di Grassi e o Bruno Senna em equipes novatas da Fórmula 1. Pelo que você enfrentou nos quase dois anos que passou na categoria, acha que essa dupla vai ter muita dificuldade?
Da Matta - Eu acho que demora um pouco, ainda mais com a limitação de treinos, mas a Fórmula 1 ainda treina bastante. Então é possível passar um pouco mais rápido por essa fase, mas é uma situação difícil. É claro que eles estão mega-preparados para isso, mas é uma situação difícil.
GE.Net - Nesse grupo dos brasileiros na Fórmula 1, qual é o seu favorito?
Da Matta - Para te falar a verdade, eu torço mais mesmo pelo Rubinho e pelo Felipe, porque conheço eles mais profundamente. O Di Grassi e o Senna, não conheço quase nada. É claro que torço também por eles, mas minha torcida grande mesmo é para o Rubinho e o Felipe, porque que já tive muito mais convivência com os dois e tenho uma relação de amizade com ambos.
GE.Net - De alguma maneira, você acha que contar com esses quatro pilotos na Fórmula 1 pode abrir portas para os jovens brasileiros no automobilismo em geral?
Da Matta - Não sei se faz tanto efeito, mas é claro que influencia, porque o pessoal de fora sabe que a escola de automobilismo que a gente sempre teve aqui dentro é muito competitiva: o kartismo, a Formula Ford, Chevrolet, Renault, Fórmula 3... O cara ser brasileiro quer dizer que ele estudou em colégios bons demais, bons pra caramba. O cara foi para Harvard. Pode ser um nó cego qualquer, mas estudou em Harvard. A escola que a gente tem aqui para pilotos é forte e o pessoal lá fora sabe disso. Esse é o motivo pelo qual tem tentos brasileiros que aceleram e andam bem. Isso é parte da educação que nós temos para virar pilotos.
GE.Net - Você está com 36 anos. Tem alguma data estipulada para se aposentar ou ainda não pensa nisso?
Da Matta - Enquanto eu estiver gostando, vou correndo. Vou continuar até o dia em que ficar muito velho e ver que não consigo mais fazer o negócio do jeito que eu quero. Um dia vou ter que colocar o pé no chão e parar, mas acho que ainda tenho muito tempo pela frente.
GE.Net - Você pretende se aposentar na Fórmula Truck ou ainda pensa em correr em outras categorias, talvez no exterior?
Da Matta - Não faço ideia. Vou dançar conforme a música. A música que estiver tocando, eu danço. Agora a Truck está legal demais. Se continuar assim e evoluir, tenho interesse total, mas não sei. Vai que aparece uma outra oportunidade em outro lugar, vai que começa a tocar uma outra música mais legal em outro lugar. Não faço ideia, não tenho bola de cristal. Mas agora é Truck. Se você me perguntar o jeito que olho agora a situação, é ficar na Truck muitos anos.
