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Futebol/Copa 2010 - (12/06/2010 16h24min39) , atualizado em 13/06/2010 21h56min27

Em portunhol, brasileiros se juntam para alentar Argentina

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Djalma Vassão/Gazeta Press
Grupo de maioria brasileira comemora gol de Gabriel Heinze na vitória sobre a Nigéria
Grupo de maioria brasileira comemora gol de Gabriel Heinze na vitória sobre a Nigéria

Reunido em um restaurante com bife de chorizo e alfajor no cardápio, um grupo vestido com a camisa da Argentina entoa cânticos em espanhol para alentar a seleção contra a Nigéria. Balançando um dos braços de forma rítmica, os torcedores gritam "soy argentino" e atestam que "Maradona és más grande que Pelé". A cena descrita deu-se na manhã deste sábado, em plena Mooca, e com maioria de brasileiros. Sim, brasileiros que torcem, apaixonadamente, pela Argentina.

O jornalista brasileiro Rodrigo Alcântara de Leonardo, 23 anos, é um dos moderadores da comunidade "La Hinchada" no Orkut. O grupo conta predominantemente com brasileiros, alguns descendentes de argentinos e outros que simplesmente se identificam com o estilo aguerrido de futebol praticado na região do Rio da Prata. Os membros costumam frequentar os jogos dos times argentinos no Brasil em torneios continentais e se reúnem, pelo menos, uma vez por mês.

"Eu torço pela Argentina pela raça, pela vontade de vencer e pelo patriotismo. Quando jogo futebol, tenho muita vontade de ganhar. Desde criança, até no videogame jogava com a Argentina. Acho que a pessoa pode se assemelhar aos argentinos pela raça, por querer ganhar sempre, por não gostar de perder e não se acomodar. Pra falar a verdade, a seleção brasileira não tem essa pegada. Quando perde, eles pensam: 'tudo bem, na próxima a gente ganha, talvez'", diz Rodrigo.

Djalma Vassão/Gazeta Press
No restaurante de Cristian Galarza (foto), os cozinheiros e garçonetes também têm que vestir uniformes da seleção argentina
No restaurante de Cristian Galarza (foto), os cozinheiros e garçonetes também têm que vestir uniformes da seleção argentina

O lugar escolhido para acompanhar a estreia da Argentina na Copa do Mundo foi o Restaurante Moocaires, uma mistura de Mooca com Buenos Aires. De um lado do salão, camisas de clubes argentinos como Independente, Vélez Sarsfield, Boca Juniors e River Plate enfeitam as paredes. Do outro lado, fotos de ícones como Evita Perón, Carlos Gardel, Che Guevara e até da personagem Mafalda, do cartunista Quino. Já a pintura das paredes remete ao bairro portenho de La Boca.

O proprietário do local é Cristian Galarza, 38 anos, nascido na Província do Chaco, região norte da Argentina. Ele veio ao Brasil para fugir da crise econômica que assolou o país há 10 anos e abriu o restaurante em 2007. Vestido com a camisa do atacante Lionel Messi, o empresário fica surpreso com a postura dos brasileiros "Não sei, acho que eles se apaixonaram pela Argentina. Sabendo que existe aquela richa no futebol, é muito emocionante ver os brasileiros torcendo com esse carinho e com esse fanatismo pela Argentina", disse.

Os brasileiros sabem de cor as letras dos cânticos criados pelos vizinhos para alentar a seleção e entoam as canções da maneira entusiasmada. No entanto, em geral o conhecimento do idioma não passa muito daí. "Eu sei bem as nossas músicas, mas na verdade falo portunhol mesmo (risos)", confessa o barman Róbson Almeida Daida, 27 anos. "Eu enrolo um pouco e não passo fome se estiver na Argentina, mas falar fluentemente o espanhol, não sei", explica.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Róbson é alvo de gozação dos amigos, mas torce pela Argentina e contra o Brasil
Róbson é alvo de gozação dos amigos, mas torce pela Argentina e contra o Brasil

Filho de um argentino nascido em Córdoba, ele morou no país durante três anos em sua infância e resolveu tatuar uma imagem do ídolo Diego Armando Maradona no bíceps esquerdo. "Eu sempre gostei do Maradona, porque é um cara raçudo e muito melhor que o Pelé", provoca Róbson enquanto posa, orgulhoso, para uma foto. "Não tem comparação entre o futebol brasileiro e o futebol argentino, porque eles têm muito mais raça e competência", completa.

Mais do que admirar os vizinhos e seu estilo dentro de campo, alguns brasileiros chegam a torcer abertamente contra o time pentacampeão do mundo. "Desde pequeno, sempre preferi a Argentina e torci contra o Brasil. Pode ser na segunda ou na terceira divisão: se tem algum brasileiro, eu torço contra mesmo. Aqui no Brasil, tem uma falta de patriotismo muito grande. As pessoas são patriotas durante 30 dias a cada quatro anos, só na Copa do Mundo", diz o barman.

A fascinação pela Argentina leva alguns a priorizarem até mesmo os clubes portenhos. "Sou são-paulino e acompanho o time, mas nos jogos entre São Paulo e Boca Juniors, eu torço pelo Boca", diz Rodrigo Alcântara. Na manhã deste sábado, a GE.Net presenciou uma discussão entre um fã do Boca Juniors e outro do River Plate no intervalo da partida. Até mesmo os xingamentos adotados pelos rivais, "boludo", "bostero" e "gallina", são importados.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Torcedora se prepara para saciar a fome
Torcedora se prepara para saciar a fome

Um dos poucos argentinos presentes, o operador de mercado Gabriel Samaniego vive no Brasil há três anos e tem uma namorada local. Ainda assim, não cogita torcer pelo time canarinho. "Nunca vi um argentino torcendo pelo Brasil, nunca. Eu posso não torcer contra, mas torcer a favor, jamais. Não sei o que acontece com eles (brasileiros). Acho que apreciam a qualidade do futebol, além da rivalidade. Para mim, o amor que o argentino tem pela camisa é muito maior que o do brasileiro", afirmou o portenho de 28 anos.

Rodrigo Alcântara pretende retornar à Argentina pela segunda vez em 2010, já que visitou o país pela primeira vez quando criança e não tem grandes recordações. Além de um futebol aguerrido, ele acredita que os vizinhos têm cidadania. "Aqui, as pessoas não são brasileiras para votar ou para buscar uma melhora para o país, mas só pelo futebol. O argentino ama o país independente do esporte", exalta o jornalista.

Reforçados por alguns argentinos nativos, o grupo transformou o Moocaires em uma verdadeira arquibancada. Durante os festejos pelo gol de Heinze, um dos fãs em êxtase esbarrou no equipamento e a transmissão foi interrompida por alguns segundos. No intervalo, fila no banheiro após os primeiros minutos regados à cerveza. A entrada do atacante Diego Milito foi comemorada na etapa complementar e todos explodiram no apito final. Após o triunfo por 1 a 0, um dos brasileiros usou o celular para comemorar com os amigos: "ganhamos da Nigéria!", gritou ao telefone.

Se você não acha tão estranho torcer pelo Boca Juniors ao invés do São Paulo e acredita que Maradona é mesmo más grande que Pelé, o Restaurante Moocaires, localizado no número 3.593 da Rua da Mooca, é uma boa pedida para entrar no espírito argentino durante a Copa do Mundo. Uma garrafa de um litro de cerveja Quilmes custa R$ 14,90 e o Bife de Chorizo, apontado pelo proprietário como carro-chefe, sai por R$ 30,00. As empanadas, de diversos sabores, são outra opção.







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