
Enquanto Diego Armando Maradona abraça juízes, jogadores, torcedores e até brinca com jornalistas, Dunga tem uma relação cada vez mais desgastada com a imprensa e blinda ao máximo seu elenco. No próximo sábado, data do confronto entre Argentina e Alemanha nas quartas de final da Copa da África do Sul, será comemorado o Dia Mundial do Free Hugs, movimento chamado de "Abraços Grátis" no Brasil. O jeito carinhoso do treinador alviceleste conquistou o australiano Juan Mann (pseudônimo inspirado em "one man" - um homem, em inglês), criador da prática.
Confira fotos de Maradona e seus abraços
"O Maradona ama o futebol e ama o time que treina. Você pode ver isso no rosto dele sempre que ele abraça seus jogadores. Em retribuição, os jogadores dão o melhor e se esforçam o máximo possível. A Argentina parece ser o único time que está lá pelo amor ao esporte, e não apenas pela glória de ganhar a Copa do Mundo", declarou à GE.Net o admirador do técnico argentino. "Eu lembro de ver os melhores momentos da Copa do Mundo de 1986 quando era jovem e sempre fui fã do Maradona. Espero que a Argentina ganhe a Copa", completou, já que a Austrália caiu na primeira fase.
O movimento Free Hugs foi criado em 30 de junho de 2004 e o Dia Mundial é celebrado no primeiro sábado após a data. Na época com pouco mais de 20 anos, Mann vivia em Londres e, após problemas pessoais, foi obrigado a retornar a Sidney, sua cidade natal. Sem amigos ou parentes para esperá-lo, ficou deprimido ao ver as pessoas sendo recebidas no terminal do aeroporto. Depois de se emocionar ao receber um abraço de uma pessoa desconhecida em uma festa, ele resolveu multiplicar a experiência na Pitt Street Mall, um dos pontos mais movimentados da cidade.
Munido de um cartaz com a inscrição "Free Hugs" dos dois lados, Mann esperou aproximadamente 15 minutos para ganhar o primeiro abraço, de uma senhora idosa. Desde então, ele marcou presença no mesmo local todas as quintas-feiras. Diante do aumento do número de abraçadores, a polícia chegou a proibir a prática, mas voltou atrás após uma petição com 10 mil assinaturas. Através do Youtube, o movimento ganhou projeção mundial, especialmente depois que o inventor participou do clipe "All the Same", da banda Sick Puppies.
Clique no vídeo abaixo e veja o clipe com Juan Mann em ação:
Para Mann, abraços e beijos são decisivos. "Pense assim: você tem uma árvore frutífera que precisa regar todos os dias. Você pode amar essa árvore e dar água fresca para que ela dê frutos. Ou você pode ficar furioso com essa árvore e urinar nela até que ela morra. Os dois métodos dão resultados. O Maradona está dando água para a árvore dele, enquanto a maioria dos outros treinadores parece estar urinando nos próprios jogadores. Quem consegue jogar bem se tudo que pode pensar é que o técnico vai ficar bravo com uma derrota? O amor incondicional do técnico dá confiança aos jogadores", afirmou.
Seis anos depois de iniciar o movimento, Mann vê os Free Hugs reproduzidos em praticamente todo o mundo. "Eu me sinto feliz por comprovar que uma coisa tão simples tem um impacto tão grande em pessoas de todo o planeta. Um abraço realmente pode fazer um mundo de diferença", afirmou. No Brasil, os adeptos do movimento se organizam em uma comunidade no Orkut com mais de 17 mil membros. A convite da GE.Net, alguns seguidores distribuíram abraços na região do vão do Masp na véspera do jogo entre Brasil e Holanda para, quem sabe, sensibilizar o ranzinza técnico Dunga.

Um dos principais articuladores do movimento em São Paulo, o analista de help desk José Júnior, 24 anos, não hesitaria em abraçar o técnico. "Por que não? O abraço é uma coisa tão simples, mas pode mudar as atitudes de uma pessoa. Se você recebe um abraço duradouro, um abraço verdadeiro, pode lembrar daquilo e acabar mudando algumas atitudes. Em momentos de stress e discussão, o abraço desarma as pessoas. Sendo um cara melhor, o Maradona pode dizer: 'eu vou mudar as minhas atitudes para ver se os outros também mudam'. Acho que foi um jeito de ele deixar o time mais unido", disse.
Vestidos com camisas da seleção brasileira e até da Argentina, os adeptos que aceitaram o convite da GE.Net aproveitaram o movimento do horário do almoço para abraçarem e serem abraçados. Um morador de rua veio emocionado de encontro ao publicitário Eric Garcia. "Há 20 anos que ninguém me abraçava! Posso dar um beijo?", questionou, e foi atendido. Apesar da carência, ele se recusou a abraçar o estudante Alex Steiner, trajado com a camisa alviceleste. "Esse aí vai andar pelado", disse, lembrando a promessa de Maradona em caso de título.
Postados na calçada e munidos apenas de folhas sulfite com a inscrição "abraços grátis", eles esperam sorridentes pelos pedestres e pedem abraços. Um grande número de pessoas atende, especialmente mulheres e jovens. Entre os que rejeitam, as reações são as mais diversas: "não, obrigado", "estou trabalhando", "hoje, não", "estou atrasado". Alguns hesitam, sorriem e abraçam de lado. "O abraço mexe com as pessoas e a maioria sente falta. Muitas vezes, a gente encontra umas pessoas que estão precisando realmente de um abraço. É possível ver isso no rosto delas", explica Eric Garcia.
Depois de reunirem cerca de 90 pessoas no último encontro, os organizadores esperam contar com 200 no próximo dia 25 de julho. Eles se encontrarão a partir do meio-dia, no vão do Masp, para seguir até o Parque do Ibirapuera distribuindo abraços. Pela primeira vez, haverá a recomendação de levar um quilo de alimento não perecível como doação a uma instituição de caridade. Como o Mundial da África do Sul termina no dia 11 de julho, o técnico Dunga pode participar, independentemente do resultado de sua equipe. "Eu abraçaria qualquer um da seleção, antes ou depois da Copa", disse Steiner.
Enquanto sua campanha crescia pelo mundo, Juan Mann chegou a participar do programa da apresentadora Oprah Wimpfrey. Ele causou polêmica ao divulgar o endereço da própria residência na Internet e convidar qualquer pessoa para visitá-lo. Há aproximadamente um ano, deixou de participar ativamente do movimento Free Hugs, mas incentiva qualquer pessoa a iniciar a campanha em sua cidade e mantém no site pessoal um manual de como começar a prática, além de oferecer o próprio livro sobre o assunto.