Sexta, 27 de agosto de 2010
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Futebol/Centenário - (26/08/2010 10h00min00) , atualizado em 26/08/2010 23h19min42
Helder Júnior São Paulo (SP)

Roberto Rivellino era o melhor jogador do Corinthians entre as décadas de 1960 e 1970 - talvez seja o maior de todos os tempos. Mas se tornou apenas mais um corintiano desolado ao deixar o Morumbi a pé no dia 22 dezembro de 1974, após a derrota para o Palmeiras na final Campeonato Paulista. Com a cabeça baixa, não permitiu que ninguém reconhecesse o seu bigode inconfundível, marca registrada desde a Copa do Mundo de 1970. Colocou uma mochila nas costas e começou a caminhar sozinho em meio à multidão, inconformada com mais uma temporada sem a conquista de um título expressivo. Não sofreu assédio nem foi incomodado quando cruzou a Ponte Cidade Jardim em direção à sua casa.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Rivellino adora passarinhos, mas não cria nenhum canário verde, símbolo palmeirense
Rivellino adora passarinhos, mas não cria nenhum canário verde, símbolo palmeirense

O relato de Rivellino para a maior decepção de sua carreira faz lembrar outro momento marcante na vida de um ídolo do Corinthians. Três anos depois que o Reizinho deixou o Parque, escorraçado para reinar no Fluminense, João Roberto Basílio também subiu no gramado do Morumbi para decidir um título de Campeonato Paulista. Não possuía o mesmo talento do antecessor (que havia indicado a sua contratação), mas usou o seu pé de anjo para marcar o gol que acabou com um jejum de 22 anos, oito meses e uma semana sem o troféu estadual. Basílio colocou um boné na cabeça e repetiu o gesto de sair do estádio andando, igualmente com medo de ser reconhecido. O público, no entanto, estava eufórico.

"Não era para eu ser campeão pelo Corinthians. Preciso aceitar isso. Passei uma vida lá dentro, com muita dedicação, e não aconteceu. Diferentemente de mim, alguns jogadores são predestinados. Veja o Basílio, por exemplo. Em menos de um ano, ele marcou um gol e tirou o time da merda. Foi contra a Ponte Preta, mas tudo bem", minimizou Rivellino, nesta entrevista exclusiva. O ex-jogador recebeu a reportagem da Gazeta Esportiva.Net na escolinha de futebol que mantém no Brooklin, em São Paulo, e apontou uma série de outros motivos além da sorte para a sua infelicidade no Corinthians.

Palmeirense na infância, assim como toda a sua família, Rivellino mostrou que incorpora como ninguém o espírito do corintiano, maloqueiro e, principalmente, sofredor. Foi criado como um "moleque de rua", nas suas palavras, e ganhou o apelido de "Maloca" porque adorava cantar a música "Saudosa Maloca", do corintiano Adoniran Barbosa. Vivenciou os mais diversos problemas em sua longa trajetória no Corinthians, da trágica morte de dois companheiros aos conflitos com o presidente Vicente Matheus. Considerava o seu time fraco. E foi embora com o estigma de não ter sido campeão.

Pelo discurso de Rivellino, é possível perceber que o corintiano ainda sofre. E também que a sua ligação com o clube ficou mais forte com o passar dos anos. Enquanto brincava com seus passarinhos e conversava com dois amigos na secretaria de sua escolinha de futebol, o Maloca coçou o bigode e fechou o rosto, contrariado, quando ouviu a seguinte frase: "Agora, com o Felipão, as coisas vão melhorar para o nosso Palmeiras". "Que nosso Palmeiras, rapaz. Está louco? Vocês ainda vão piorar muito. O Corinthians é que está subindo!".

Gazeta Esportiva.Net: Você fez uma peneira no Palmeiras antes de jogar pelo Corinthians. Por que não deu certo?
Rivellino: São coisas da vida. Eu jogava futebol de salão pelo Banespa. Disputando um título contra o Palmeiras, um diretor gostou de mim e fez o seguinte comentário: "Será que esse moleque sabe jogar assim no campo?". Isso porque muitos craques do salão não se saem bem no campo, como o Manoel Tobias e o Falcão. Mas o meu pai estava ali perto desse dirigente e respondeu que eu também era bom na grama. O cara me deu um cartão e mandou procurar o Mário Travaglini, técnico.

Acervo/Gazeta Press
Ainda sem bigode, com os pais, Rivellino ficou magoado por não ser aproveitado no Palmeiras
Ainda sem bigode, com os pais, Rivellino ficou magoado por não ser aproveitado no Palmeiras

GE.Net: O Travaglini não te aprovou?
Rivellino: Fui a três treinamentos no Palmeiras. No terceiro, eu me senti desprestigiado. Um jogador canhoto e talentoso é diferente, você sabe. Não que eu quisesse que os caras jogassem para mim. Enfim... Nessa terceira vez no Palmeiras, o Travaglini reuniu um grupo de jogadores e avisou: "Olhem, se vocês quiserem colocar o uniforme, vão em frente. Mas não sei se poderão treinar". Eu estava ali no meio e respondi, irritado: "Porra, eu não pedi para treinar no Palmeiras. Vim porque me chamaram".

GE.Net: Mas não era um sonho defender o Palmeiras? Toda a sua família era formada por palmeirenses...
Rivellino: Era. Mas fiquei puto da vida. O meu padrinho, que me levava para treinar no Palmeiras, não entendeu por que não tinha dado certo. Falei para ele: "Aconteceu isso, isso e isso. E vamos embora. Agora!". Continuei no salão do Banespa e no campo do Indiano. Até que o Paulo Laguna, diretor do Indiano, falou de mim para o João Cirino, dirigente do Corinthians: "Conheço um moleque que é diferente. Não vá fazer peneira porque ele não é para isso". Nesse meio tempo, fui disputar uma final de salão contra o Palmeiras, no Parque Antarctica. Arrebentei com o jogo e fomos campeões.

GE.Net: A diretoria do Palmeiras se arrependeu?
Rivellino: Aquele diretor que me indicou para o Travaglini estava lá, assistindo à final do salão. Ele me reconheceu e veio conversar comigo: "Você é o garoto que foi treinar no Palmeiras, não? Infelizmente, não deu daquela vez. Mas não quer voltar e tentar de novo?". Eu não queria. E ele: "Eu mando uma comissão te buscar. Você vai jogar como quiser". Eu poderia ter mudado o meu futuro naquela hora, sabe? Mas fiquei muito desiludido com a maneira como me trataram no Palmeiras. Respondi para o cara: "Você não entendeu. Eu vou para o Corinthians!".

GE.Net: Como a sua família reagiu a essa decisão?
Rivellino: Foi maravilhoso. O fato de eu ter sido palmeirense não tinha nada ver. Quer dizer, nem o Palmeiras deveria me tratar diferente só por causa disso. Eles nem sabiam que eu era palmeirense na época. Mas, quando cheguei ao Corinthians, a história foi outra. Eu me senti em casa. Acordava às 5 horas da manhã para treinar. Pegava condução no Anhangabaú, ia até o ponto final, subia uma escadaria, passava pela Praça da Sé, entrava em mais uma condução para São Judas e finalmente chegava ao Corinthians. E todo mundo me tratava bem. O Mendes, um garoto que jogava comigo, deu a maior força e me apresentou para o pessoal. O meu carinho pelo Corinthians é enorme. Aprendi a amar esse time.

Acervo/Gazeta Press
Pelé era o maior algoz de Rivellino durante o longo tabu contra o Santos
Pelé era o maior algoz de Rivellino durante o longo tabu contra o Santos

GE.Net: Foi nesse período que você deixou de ser o Maloca para se tornar o Reizinho do Parque?
Rivellino: É verdade. Maloca era o meu apelido de infância. Porque eu fui um verdadeiro moleque de rua. Tanto é que a minha biografia se chama "Sai da rua, Roberto!", escrita pelo Osvaldo Pascoal Pugliese. Mas a rua era saudável naquele tempo, maravilhosa. Eu andava por aí e vivia cantando "Saudosa Maloca", dos Demônios da Garoa. De tanto cantar, o pessoal começou a reclamar: "Ô, Maloca, dá um tempo!". Quando cheguei ao Corinthians, ninguém mais me chamava de Maloca. Virei Reizinho do Parque porque o Rei já era o Pelé. Foi uma homenagem gostosa de receber. [O jornalista Antonio Guzman apelidou Rivellino de Reizinho do Parque em sua coluna "As 20 Notícias", do jornal Diário da Noite.]

GE.Net: Antes mesmo de você se profissionalizar, já chamava a atenção dos torcedores pelo time de aspirantes do Corinthians.
Rivellino: É aquele negócio: as pessoas se interessam pelo que é novo, diferente. Hoje, falam muito do Neymar, mas o Robinho é muito mais jogador do que ele. É como os meus passarinhos, que eu adoro. Quando você pega um filhote para criar, já fica na expectativa de que ele seja melhor do que o mais velho.

GE.Net: Mas a expectativa da torcida do Corinthians não era à toa. Você foi campeão paulista de aspirantes em 1964.
Rivellino: Claro que também viram a minha qualidade, a minha maneira agressiva de jogar. Esse título foi por pontos corridos. O Campeonato Paulista de profissionais também era disputado assim. E não é que mudaram a fórmula justamente em 1974? Eu teria sido campeão paulista se fosse por pontos corridos, pois tínhamos ganhado o primeiro turno naquele ano. Mas o Palmeiras venceu o segundo, ganhou a decisão e ficou com o troféu. Deixa para lá. Não fui campeão. Faz parte da vida.

GE.Net: Muita gente diz que você não foi campeão pelo Corinthians, o que não é verdade.
Rivellino: Porque todo o foco era voltado para o Campeonato Paulista. Fui campeão do Rio-São Paulo, repartido com Botafogo, Santos e Vasco. Ninguém dava importância. Não valia nada.

GE.Net: Você também ganhou o Torneio do Povo de 1971 e o Torneio Laudo Natel de 1973.
Rivellino: Em cima de Internacional e Palmeiras, marcando gols nas duas finais. Ninguém lembra disso, não é? Logo na minha estreia como profissional, já fomos campeões de um Pentagonal do Recife. Estreei com gol em uma vitória sobre o Santa Cruz, com o estádio lotado. Mas só se valorizava o Campeonato Paulista. Infelizmente, batalhei muito por esse título e não consegui.

Acervo/Gazeta Press
O jornal <strong>A Gazeta Esportiva </strong>deu destaque para Rivellino e
O jornal A Gazeta Esportiva deu destaque para Rivellino e "o gol que Pelé não fez"

GE.Net: Em 1969, o Corinthians estava liderando o Campeonato Paulista, com boas chances de conquistar o título. Mas houve as mortes do lateral direito Lidu e do ponta esquerda Eduardo em um acidente de automóvel na Marginal Tietê, depois de um jogo contra o São Bento.
Rivellino: Até isso aconteceu comigo e com o Corinthians. Quando acabou esse jogo, os dois foram a uma festa de aniversário. Na volta, o Lidu veio dirigindo o carro novo dele, um Fusca, e deu uma carona para o Eduardo. Eles se gostavam muito. Mas estava chovendo. O Lidu perdeu o controle do carro, e a tragédia aconteceu. O nosso time estava muito bem até então.

GE.Net: Você era amigo próximo do Lidu e do Eduardo?
Rivellino: E como. O Edu era franzino, veio do Rio de Janeiro e batia bem na bola. Já o Lidu era muito forte. Dois bons jogadores. Foi um fato triste. Lembro que fui ver os corpos deles, e estavam todos desfigurados. Meu Deus, não sei o que eu fui fazer lá. É o tipo de imagem que fica marcada na sua cabeça. Tenho trauma desse tipo de coisa desde aquela época. Não gosto de ver ninguém deitado, morto, ainda mais se for uma pessoa querida. Sem dúvida, esse episódio prejudicou o Corinthians na época. É difícil retomar a vida depois de perder dois colegas de trabalho, com quem você estava acostumado a conviver diariamente. Parece que tudo conspirava contra a gente.

GE.Net: Imagino que já naquele tempo a pressão fosse maior sobre você, o craque do time.
Rivellino: Mas eu não queria isso. Porque eu não ganhava nem perdia nada sozinho. Claro que houve momentos em que eu desequilibrei para o Corinthians, mas éramos um time. Sem outros jogadores, nem Pelé resolve.

GE.Net: A diretoria do Corinthians até buscou outros protagonistas, não é? Como o Garrincha, em 1966.
Rivellino: Foi legal jogar com o Mané no Corinthians, mesmo que por pouco tempo. Ele já estava em uma fase difícil nessa época, no final de carreira, mas continuava sendo uma grande pessoa. Em 1971, na despedida do Pelé da seleção brasileira, no Rio de Janeiro, ele me aprontou uma surpresa boa. Estávamos concentrados no Retiro dos Padres, antes da partida. Levantei cedo um dia desses, como gosto de fazer, e fui brincar com os meus passarinhos. De repente, apareceu uma Mercedes azul na minha frente. Era o Mané. Eu falei assim: "Mané, cacete, o que você está fazendo aqui? Ele tirou três gaiolas do carro e me deu: "Vim entregar esses passarinhos para você". O Mané era fantástico.

GE.Net: No Corinthians, os problemas do Garrincha fora de campo já prejudicavam nitidamente o rendimento dele? Foram só 13 jogos pelo clube, com dois gols marcados.
Rivellino: O Mané viveu do jeito que quis. Ele fazia da vida algo muito simples. Tomava a sua pinguinha no barzinho, na maior tranquilidade. Quando não tinha ninguém em outro boteco, ele ia até lá para ajudar a lotar. Era assim. Em campo, pelo Corinthians, lembro de um jogo nosso contra o Santos. Era o período do famoso tabu contra o time do Pelé. No final da partida, o Garrincha sofreu um pênalti e queria até bater. Na minha cabeça, já comemorei: "Acabou o tabu! Finalmente!". Mas o Laércio, goleiro do Santos, defendeu a cobrança! Meu Deus! Mané do céu! [Flávio desperdiçou o pênalti, e o clássico do dia 27 de março de 1966 terminou empatado por 0 a 0. Mas o tabu de não vencer o Santos pelo Campeonato Paulista não estava em jogo, pois a partida valia pelo Torneio Rio-São Paulo.]

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O Reizinho do Parque ficou emocionado ao recordar a tragédia com seus companheiros
O Reizinho do Parque ficou emocionado ao recordar a tragédia com seus companheiros

GE.Net: O tabu de 11 anos sem vitórias sobre o Santos de Pelé em um Campeonato Paulista persistiu até 1968, quando o Corinthians ganhou por 2 a 0. O que você sentiu naquela ocasião?
Rivellino: Foi ótimo. A gente já estava muito puto com essa história. Tentávamos duas vezes por competição, no primeiro e no segundo turnos, e nada. Até que veio esse jogo. O primeiro gol foi do Paulo Borges, que acertou um canudo no ferro. Ele era destro, mas usava bem o pé esquerdo. O Flávio fechou o placar, com uma assistência minha. Depois disso, judiamos um pouquinho do Santos também. Eles ganharam honestamente durante o tabu, mas perderam um bocado depois.

GE.Net: Não foi justamente em um clássico contra o Santos que você homenageou o nascimento da sua filha Roberta com um gol?
Rivellino: Isso foi em 1971. O jogo calhou de ser na mesma semana em que ela nasceu, e resolvi prometer o gol. Mas só dou azar, não é? O crioulo do outro lado, o Pelé, decidiu o mesmo: "Vou marcar um gol em homenagem à filha do Rivellino". Marquei um. Ele, outro. Terminou 1 a 1.

GE.Net: Mas você tem no currículo o chamado "gol que Pelé não fez".
Rivellino: É verdade [risos]. Consegui acertar um chute do meio-campo em um jogo contra o América-SP, pelo Campeonato Paulista de 1974. Sempre tive o hábito de treinar esses chutes de longa distância na Fazendinha, mas tentando acertar o travessão. Eu até me exibia para os outros: "Consigo colocar uma ou duas bolas no poste!". Quando o segundo tempo estava para começar contra o América, percebi que o goleiro continuava adiantado, ainda caminhando para trás. Não tive dúvidas. Falei: "Zé Roberto, mete a bola ali para mim". Chutei do jeito que estava acostumado. O goleiro se abaixou, e a bola entrou. Só não foi o gol mais rápido do mundo porque aconteceu no segundo tempo. Mas até nisso o presidente Vicente Matheus me atrapalhou. Ele tinha brigado com a emissora de televisão na época, e gravaram só primeiro tempo. Meu gol não ficou registrado em vídeo.

GE.Net: Com o término do tabu contra o Santos e gols como esse, você sentia que o fim do jejum de títulos do Corinthians poderia estar próximo?
Rivellino: Não era para eu ser campeão pelo Corinthians. Preciso aceitar isso. Passei uma vida lá dentro, com muita dedicação, e não aconteceu. Diferentemente de mim, alguns jogadores são predestinados. Veja o Basílio, por exemplo. Em menos de um ano, ele marcou um gol e tirou o time da merda. Foi contra a Ponte Preta, mas tudo bem.

GE.Net: O fato de a finalista do Campeonato Paulista de 1977 ser a Ponte Preta diminui o título do Corinthians?
Rivellino: Sem menosprezar a Ponte Preta, é diferente você decidir um título contra um São Paulo ou um Palmeiras. O time do Corinthians era outro também. Quando eu saí, a diretoria montou uma equipe mais forte, que teve a felicidade de encontrar a Ponte e ser campeã. Nunca falei nada dos meus companheiros fora de campo, mas a verdade é que o Corinthians era inferior aos seus rivais na minha época. Santos, São Paulo, Palmeiras e até a Portuguesa formaram elencos mais capacitados. Equipare a gente com o Santos de Pelé. Já o São Paulo foi bicampeão paulista, tendo o governador Laudo Natel praticamente sentado no banco de reservas. O Palmeiras tinha a Academia. E mesmo a Portuguesa foi campeã. Era complicado.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Para Rivellino, o time do Corinthians era o pior dos grandes durante a sua passagem
Para Rivellino, o time do Corinthians era o pior dos grandes durante a sua passagem

GE.Net: A diferença para a seleção brasileira de 1970, então, deve ter sido gritante para você.
Rivellino: Era muito fácil jogar na seleção de 1970. Todo mundo sabia tratar bem a bola. Nosso segundo tempo era fantástico. Os ingleses, que gostam de fazer pesquisas, sempre apontam que aquele foi o maior time de todos os tempos.

GE.Net: É possível dizer que, por isso, você ficou mais nervoso na final do Campeonato Paulista de 1974 do que na da Copa do Mundo de 1970?
Rivellino: Sim. Chegou um momento da minha vida em que o título paulista era uma grande necessidade. Eu queria tirar esse peso das costas do torcedor corintiano. A ansiedade era maior em 1974, sem dúvida. Em 1970, todo mundo já sabia da capacidade da nossa seleção. Para você ter uma ideia, cheguei a afirmar que trocaria esse título mundial por um de Campeonato Paulista pelo Corinthians. Mas isso é um absurdo. A gente diz essas coisas no calor do momento, sem pensar direito.

GE.Net: Quais são as suas maiores recordações dessa decisão se 1974, contra o Palmeiras?
Rivellino: Sempre me lembro da semana que antecedeu o jogo decisivo. Empatamos por 1 a 1 na quarta-feira e passamos a depender só de uma vitória para ficar com o título no domingo. O jogo seria no Pacaembu, a nossa casa. Aí, de repente, veio a notícia de que haviam transferido para o Morumbi. Ficamos inconformados. "Como assim?", a gente se perguntou. O Morumbi não tinha condições de jogo porque a grama estava muito alta, encharcada pelas chuvas. Isso foi culpa de um lobby do Oswaldo Brandão, então técnico do Palmeiras [o mesmo que comandou o Corinthians nas conquistas de 1977 e 1954]. Ele sabia que a mudança favoreceria o time dele, por causa do estilo de jogo e do campo um pouco mais neutro. Se eu tivesse o Brandão do meu lado, teria sido campeão Paulista. Mas o meu técnico era o Sylvio Pirillo.

GE.Net: A diretoria do Corinthians aceitou passivamente a alteração do local do jogo?
Rivellino: O Brandão pediu para um diretor do Palmeiras fazer a cabeça do Vicente Matheus. O nosso presidente também estava mais preocupado com o lado financeiro, já que poderia colocar 120.000 torcedores no Morumbi e só uns 40.000 no Pacaembu. Nós, jogadores do Corinthians, não entendemos nada. E realmente o gramado do Morumbi ajudou o adversário. Reveja o lance com o Luís Pereira: ele dá um carrinho e levanta lama, barro, tudo. O campo estava mexido pelo Palmeiras. Se fosse diferente, poderíamos ter conseguido uma daquelas grandes viradas. E foi o próprio Brandão quem me contou essa história, em uma concentração em Embu, anos depois.

Acervo/Gazeta Press
Rivellino encontrou Basílio e teve a sua revanche contra o Corinthians
Rivellino encontrou Basílio e teve a sua revanche contra o Corinthians

GE.Net: O que veio à sua mente quando acabou a partida, com vitória por 1 a 0 do Palmeiras?
Rivellino: Foi a maior tristeza da minha vida.

GE.Net: Como você voltou para casa?
Rivellino: Eu morava aqui, na Cidade Jardim. Sabe a Ponte? Então, passei por lá.

GE.Net: Como foi esse trajeto?
Rivellino: Andando.

GE.Net: Sozinho?
Rivellino: Sozinho. Peguei a minha malinha e fui embora.

GE.Net: E as pessoas que te encontravam nas ruas? Qual era a reação delas?
Rivellino: Não sei. Nem olhei para lado nenhum. Andei de cabeça baixa. Não queria saber se estavam me reconhecendo ou o que as pessoas achavam. No dia seguinte, também não li jornal nem nada. Fui para a praia para não me encherem o saco. Era muita frustração para mim. Eu era o maior ídolo da época. Nunca me vi fora do Corinthians, com a camisa de outro time.

GE.Net: Por você, então, teria jogado a vida inteira no Corinthians?
Rivellino: É lógico que sim. Sempre falei que encerraria a minha carreira ali, o que era normal na época. Cheguei a receber uma proposta para jogar no Santos de Pelé uma vez. Claro que fiquei tentado a aceitar, mas preferi seguir no Corinthians. Eu já estava com 11 anos de clube naquela fatídica final de 1974. Analisando friamente, o Palmeiras tinha mais time do que o Corinthians. Mas o nosso momento era melhor. Se o jogo fosse no Pacaembu, mesmo tomando um gol, teríamos condições de reverter o resultado. No Morumbi, grande e pesado, era diferente. Não estávamos enfrentando a Ponte Preta. Era o Palmeiras, que tinha um baita de um time.

GE.Net: Depois dessa derrota, você começou a ser perseguido.
Rivellino: O J. Hawilla [então repórter, hoje é presidente da Traffic, parceira do Palmeiras] batia em mim, e todo mundo acompanhava. Não sei qual era o motivo. Talvez houvesse algum interesse de ver o Rivellino fora do Corinthians. As pessoas entraram na onda. Até o presidente, que Deus o tenha.

GE.Net: Você guardou mágoa do Vicente Matheus?
Rivellino: Ele tirou o corpo fora. Lavou as mãos. Foi a própria atitude do presidente que tornou insustentável a minha permanência no Corinthians. Se ele quisesse, teria segurado as pontas. O ano seguinte começaria, eu marcaria gols, e as coisas se normalizariam. Talvez eu até fosse campeão paulista nos anos seguintes. Mas, não. Ele chegou ao ponto de dizer que o Rivellino estava roubando o dinheiro do Corinthians, que a dura negociação com o Fluminense servia de castigo, essas coisas. Que história é essa? Não custei um centavo para o clube. Eu era prata da casa. Só que é melhor deixar esse assunto no passado. O J. Hawilla, depois de muito tempo, veio me pedir desculpas pelo que fez. Aconteceu. Felizmente, encontrei um presidente maravilhoso no Fluminense, o Francisco Horta, e finalmente fui campeão. Porque eu mesmo já começava a me perguntar se o problema era comigo.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Arrependido de ser dirigente do Corinthians, quis se demitir junto com o técnico Júnior
Arrependido de ser dirigente do Corinthians, quis se demitir junto com o técnico Júnior

GE.Net: E logo em sua estreia pelo Fluminense você se vingou do Corinthians, com três gols marcados em uma goleada por 4 a 1.
Rivellino: Não se trata de vingança. Eu não estava pensando nisso na hora. Só queria desempenhar o meu trabalho bem no Fluminense, para retribuir aquilo que o Horta fez por mim. As coisas deram certo no Rio de Janeiro porque o nosso elenco era fantástico. E eu era visto apenas como mais um grande jogador, e não como a única referência do time.

GE.Net: Mas não foi estranho enfrentar o Corinthians depois de tanto tempo do outro lado?
Rivellino: Muito. Até porque todos os jogadores que estavam no Corinthians eram meus companheiros, amigos. A gente se cumprimentou em campo. Convivemos muito tempo juntos e dividimos todo aquele sofrimento pela escassez de títulos do Corinthians.

GE.Net: Na famosa invasão da torcida corintiana ao Maracanã, nas semifinais do Campeonato Paulista de 1976, essa sua sensação talvez tenha ficado ainda mais exacerbada.
Rivellino: Sem dúvida. O Rio de Janeiro foi tomado pelos corintianos. Como eu estava concentrando, não tive tanto contato assim com o público. Mas a gente viu as ruas cheias de paulistas. Quando entramos no Maracanã, então, o sentimento era de que estávamos no estádio errado. Eu já sabia que a torcida do Corinthians poderia fazer isso, pois conhecia a sua força. Lembro que o Francisco Horta tinha achado interessante o aumento da carga de ingressos para os visitantes. E eu avisei: "Olhe, presidente, você não sabe com quem está se metendo. É melhor deixar os corintianos lá em São Paulo, quietinhos [risos]". Só a torcida do Corinthians é capaz de fazer uma invasão como aquela. Muita gente fala dos torcedores do Flamengo, mas nunca vi nada semelhante da parte deles.

GE.Net: No ano seguinte, o Corinthians finalmente quebrou o tabu foi campeão paulista. Como você recebeu a notícia?
Rivellino: Eu vi o jogo do Rio de Janeiro. Fiquei muito feliz e aliviado. Eu conhecia melhor do que ninguém o peso que os meus companheiros de Corinthians carregavam. Esse tabu teria que acabar em algum momento.

GE.Net: Você entrou em contato com seus ex-companheiros?
Rivellino: Não. Mas, naquela época, a comunicação não era tão fácil quanto hoje. Fiquei feliz por eles. E só. Alguns até me citaram no momento da conquista. Da minha parte, quando dei entrevistas sobre isso na época, também procurei demonstrar a minha satisfação pelo título deles. Infelizmente, a minha história no Corinthians tinha sido interrompida e eu estava dando sequência à carreira no Fluminense.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Hoje, Rivellino passa a maior parte do tempo em sua escolinha de futebol
Hoje, Rivellino passa a maior parte do tempo em sua escolinha de futebol

GE.Net: Mas você retomou essa história com o Corinthians depois, em 2003, na condição de dirigente.
Rivellino: Foi horrível. Não gosto nem de lembrar. E não faria isso de novo naquelas condições. Hoje, prefiro cuidar da minha escolinha de futebol, das minhas coisas.

GE.Net: Por quê?
Rivellino: Era uma bagunça. Não dava para trabalhar eticamente com ninguém. Tanto é que o Júnior, o técnico que contratamos inicialmente, permaneceu somente 10 dias no cargo. Eu deveria ter ido embora com ele, pois começaram a acontecer coisas muito chatas. O Antonio Roque Citadini, vice-presidente de futebol na época, até se entendia bem comigo. É uma pessoa que admiro. Mas chegou a ponto de eu contratar um jogador, com o aval da presidência, e desistirem dele depois. Como o cara não deu certo, achavam que era só deixar de pagar salários e mandar embora. Não funciona assim. E eu, com que cara ficava?

GE.Net: Essa situação era frequente?
Rivellino:
Aconteceu uma vez. Você lembra do Samir? Um meia alto e magro? Então, todos os clubes queriam contratá-lo na época. Se não deu certo, o que eu posso fazer?

GE.Net: E negociar com empresários? Era difícil para você?
Rivellino: Que nada. As pessoas falam muito mal dos agentes, mas não tem nada a ver. Não digo isso porque o meu filho Márcio é empresário. O fato é que essas pessoas não passam de meras babás dos jogadores de hoje. Se o atleta não quiser acertar, ele não acerta. Se você não quiser contratar, não contrata. Simples assim. Por coisas do destino, não deu para ser vencedor pelo Corinthians também como dirigente.

GE.Net: Apesar dessas lacunas, muita gente ainda te considera como o maior jogador dos 100 anos do clube. Pensa assim também?
Rivellino: Não tenho que palpitar nessa parte. Mas fico muito feliz com o reconhecimento, sem dúvida. Corri muito atrás de um título paulista e não tive a felicidade de ganhar. Mesmo assim, sou sempre lembrado como um dos ídolos do Corinthians. Só tenho a agradecer. Recentemente, por exemplo, coloquei os meus pés na Calçada da Fama do Parque São Jorge.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Ao lado de Ademir da Guia, Rivellino promoveu um clássico contra o Palmeiras
Ao lado de Ademir da Guia, Rivellino promoveu um clássico contra o Palmeiras

GE.Net: Você chegou a declarar que esse momento foi mais significativo do que colocar os pés na Calçada da Fama de Monaco, diante do príncipe Albert.
Rivellino: E foi, mesmo. O Corinthians é a minha vida, a minha segunda casa, a minha segunda mãe. Vivi muito mais no clube do que no meu lar. Tenho um carinho enorme pelos corintianos, que me tratam bem até hoje, mesmo depois de eu ter dito que fui palmeirense na infância.

GE.Net: Quando você se sentiu perdoado pelos torcedores que ficaram magoados com a final de 1974?
Rivellino: Sempre.

GE.Net: Sempre?
Rivellino: Sempre. Sei que nada partiu da torcida. Eu amo os torcedores. Eu amo o Corinthians.






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