João Havelange é cantado em prosa e verso no Brasil. E de fato o futebol mudou depois dele. Antes era uma coisa mais simplória com alguns mecenas colocando dinheiro do próprio bolso, nos seus clubes do coração. A profissionalização era um sonho distante. Aí o João Havelange teve que deixar a CBD, porque os militares, que estavam no poder, não concordavam com as contas dele. E resolveu voar alto.
Junto ao empresário Elias Zacour, partiu em busca dos votos de países remotos, já que o peso na eleição para a Fifa era igual, sendo de Zambia ou da Alemanha. Com o discurso de fim do continuismo de Stanley Rous, que estava no poder há 16 anos, elegeu-se e praticamente está lá desde 1974. E como as coisas mudaram.
A Fifa passou a mover fortunas, criar empresas, como a ISL, impor seu poder em todo lugar e movimentar no futebol uma dinheirama de várias origens e muitas vezes, até, sem que se soubesse de onde procedia.
No Brasil trocaram-se aqueles que punham capital do próprio bolso por gulosos caçadores de dotes, fossem eles fundos dos clubes ou jovens revelações. E assim ficou o principal esporte do mundo.
Ricardo Teixeira, invenção de Havelange, tornou-se dono do nosso país, sem nunca ter que dar satisfações a ninguém. Sobreviveu a duas CPIS e só deixará o poder se quiser, provavelmente com a benção, de novo, do antigo sogro, para a presidência da Fifa.
O futebol é outro depois do João. Mais rico, mais profissional, mais dúbio. Não tenho o menor respeito por ele. As mudanças quebraram a pureza do futebol. Virou um vale tudo, com participantes que gostam de vale tudo. Não me agrada.
A última do João foi dizer que as acusações dos jornalistas ingleses de corrupção na Fifa, com a compra de votos para sedes dos próximos mundiais, foram forjadas por vingança. Vingança dele ter vencido a eleição de Rous em 1974. Então está bom. No Brasil, quando o João fala, está falado.