Declaração de Lula revoltou supervisor do Bola Dentro
"Quando você é jovem e quer ser um jogador profissional, é muito importante ter bons exemplos. Todos os jogadores que agora estão no topo em algum momento foram pegadores de bolinha, inclusive eu. A moral da história é que se nós fomos o que eles são hoje em dia, eles também podem ser jogadores de tênis. É isso que eles têm que ter na cabeça e é importante que eles possam ver torneios como esse", afirmou Carlos Moyá à GE.Net logo depois de vencer o sueco Thomas Enqvist na final do último domingo e incluir os boleiros em seu discurso de agradecimento.
Os pegadores de bolinha da etapa de São Paulo do Circuito de Veteranos participam do "Projeto Bola Dentro", bancado por patrocinadores e com verba captada através de lei de incentivo. O programa, criado por uma organização não governamental em 2005, atende aproximadamente 130 jovens carentes dos seis aos 18 anos nas dependências do Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo. Além de ser capacitada a atuar como boleiros, juízes de linha e até professores de tênis, a garotada tem a oportunidade de participar de torneios organizados pela Federação Paulista de Tênis (FPT).
Nos primeiros dias da semana, os jovens fazem treinos físicos e técnicos. Na sexta-feira, disputam jogos entre si e pontuam em um ranking interno. Os melhores da lista formam a chamada equipe de competição. Jocimar Santos, por exemplo, lidera o ranking da categoria até 18 anos B da FPT, seguido por Allan Tripadale Lopes, mais um participante do Projeto Bola Dentro. Agostinho de Carvalho, 58 anos, é o supervisor do programa e seleciona os garotos que atuam em torneios como o Circuito de Veteranos da ATP.
"Eu falo para eles que esse torneio é como se fosse um prêmio. É um torneio muito chique, com torcida selecionada e convidados", explicou Agostinho, uma espécie de pai para os garotos. Antes do evento, o supervisor orientou detalhadamente sua equipe de boleiros. "Eu faço uma preparação. Tem o fato do restaurante, que eles não estão acostumados. Ensino até a usar o banheiro. Todos eles têm muita vontade de trabalhar no torneio, mas eu só posso escolher dez, com base na conduta e no trabalho dentro da quadra", acrescentou.
A GE.Net acompanhou o dia de Jocimar Santos, 18 anos, um dos boleiros selecionados para o torneio de veteranos. Antes de dividir a quadra com Carlos Moyá e o equatoriano Andrés Gomez, campeão de Roland Garros-1990 e ex-número 1 do mundo em duplas, ele arrumou com cuidado sua mochila na casa que divide com a mãe e mais quatro irmãos na Favela da Linha, na Vila Leopoldina. A comunidade, com cerca de 360 famílias, nasceu em um terreno de 18 metros de largura por 385 metros de comprimento, vizinho à Marginal Pinheiros e perto do Parque Villa-Lobos.
Os trilhos do trem que passava pelo local para abastecer empresas da região ainda são visíveis em alguns trechos. Nascido no município baiano de Canudos, localizado no chamado Polígono das Secas, Jocimar migrou para São Paulo ao lado da mãe com apenas dois anos de idade e fixou residência na Favela da Linha. Em uma situação social precária, marcada por violência familiar e tráfico de drogas, boa parte dos adultos cumpriu ou cumpre pena na cadeia. Os moradores que não estão desempregados trabalham nos arredores em locais como o Ceagesp, dois hipermercados ou em concessionárias de carros.
No luxuoso bairro dos Jardins, a etapa de São Paulo do Circuito de Veteranos foi fechada ao público. Desta forma, acompanharam o evento apenas convidados da organização e dos patrocinadores do torneio, entre eles um banco francês, uma empresa de consultoria com sede no Reino Unido e uma gigante sul-coreana do ramo de eletroeletrônicos. Na área VIP do evento, a plateia teve a oportunidade de bebericar vinhos chilenos e cerveja de origem belga durante os jogos. Em muitos momentos, o burburinho no setor causou pedidos de silêncio para não incomodar os tenistas.

Na edição de 2008 do Circuito de Veteranos, o jovem viveu um momento inusitado no jogo entre o lendário Pete Sampras e o austríaco Thomas Muster. O norte-americano, dono de 14 títulos de Grand Slam, convidou Jocimar para disputar um ponto diante do europeu, ex-número 1 do mundo. "A arquibancada estava lotada e tinha transmissão de TV. Quando ele me deu a raquete, fiquei assustado. Não sabia o que fazer. Eu ali pequenininho e o Sampras enorme do meu lado... Tentei sacar cinco vezes e errei. Devolvi a raquete, mas ele recusou e me ajudou a sacar. O Muster fingiu que ia rebater, mas deixou a bola passar para me dar um ace. Eu voltei para pegar bolinha e todo mundo bateu palma", lembrou o garoto.
Acostumado a jogar futebol como zagueiro, Jocimar teve seu primeiro contato com o tênis em 2005. Atualmente, recebe aproximadamente R$ 800,00 mensais para trabalhar na academia do ex-jogador brasileiro Givaldo Barbosa, vizinha ao Parque Villa-Lobos. A mãe do garoto, o filho mais velho, viu a renda mensal aumentar significativamente, já que recebe apenas um salário mínimo (R$ 545,00) como funcionária de uma loja de departamento. O jovem contou que a família espera ansiosamente pelo 16º aniversário de uma de suas irmãs, que assim poderá começar a trabalhar também.
De acordo com Agostinho de Carvalho, além do bom desempenho na quadra, Jocimar também evoluiu do ponto de vista pessoal. "Quando ele começou, era um menino que não falava com ninguém. Você conversava com ele e não tinha resposta. Era muito tímido e chegava a chorar quando perdia das meninas", lembrou. Agora, o jovem garante que a situação mudou. "Tinha duas meninas que eu perdia mesmo, mas agora já ganho! Se você for tímido no tênis, não consegue nada. O jogador tem que vibrar. Eu fiquei com mais coragem, estou falando mais com as pessoas e faço afinidade mais facilmente".
"Eu percebi logo que ele tinha muito talento, que tinha futuro. Ele se destacou muito rápido e por causa dele decidimos formar uma equipe de competição. Ele chegou a ganhar vários torneios. Parou na terceira classe quando já tinha tudo para passar para a segunda. Era o melhor do Projeto, mas começou a fazer coisas que eu não gostaria de falar e que não podemos permitir. Nem foi necessário que eu o afastasse, ele mesmo se retirou do programa. É uma pessoa que ainda gostamos muito", explicou Agostinho. Atualmente, o garoto aparece de vez em quando no Villa-Lobos. Apenas para rever os amigos e lamentar a oportunidade desperdiçada.
- Agostinho de Carvalho é supervisor do Projeto Bola Dentro

