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Torneio em clube de elite aproxima astros milionários de boleiros carentes

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Fernando Dantas/Gazeta Press
Jocimar mora na Favela da Linha, treina no Parque Villa-Lobos e trabalhou como boleiro no Clube Harmonia
O tênis, considerado "esporte de burguês" pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, serviu para aproximar astros milionários de jovens que trabalham como pegadores de bolinha e sonham com a carreira de jogador profissional. Na etapa de São Paulo do Circuito de Veteranos da ATP, realizada na requintada Sociedade Harmonia durante a semana passada, garotos como Jocimar Santos, morador da Favela da Linha, ficaram lado a lado com estrelas do quilate do espanhol Carlos Moyá, campeão de Roland Garros-1998, ex-número 1 do mundo e que, antes de acumular uma fortuna de mais de US$ 13 milhões em prêmios, também foi boleiro.

Declaração de Lula revoltou supervisor do Bola Dentro

"Quando você é jovem e quer ser um jogador profissional, é muito importante ter bons exemplos. Todos os jogadores que agora estão no topo em algum momento foram pegadores de bolinha, inclusive eu. A moral da história é que se nós fomos o que eles são hoje em dia, eles também podem ser jogadores de tênis. É isso que eles têm que ter na cabeça e é importante que eles possam ver torneios como esse", afirmou Carlos Moyá à GE.Net logo depois de vencer o sueco Thomas Enqvist na final do último domingo e incluir os boleiros em seu discurso de agradecimento.

Os pegadores de bolinha da etapa de São Paulo do Circuito de Veteranos participam do "Projeto Bola Dentro", bancado por patrocinadores e com verba captada através de lei de incentivo. O programa, criado por uma organização não governamental em 2005, atende aproximadamente 130 jovens carentes dos seis aos 18 anos nas dependências do Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo. Além de ser capacitada a atuar como boleiros, juízes de linha e até professores de tênis, a garotada tem a oportunidade de participar de torneios organizados pela Federação Paulista de Tênis (FPT).

Nos primeiros dias da semana, os jovens fazem treinos físicos e técnicos. Na sexta-feira, disputam jogos entre si e pontuam em um ranking interno. Os melhores da lista formam a chamada equipe de competição. Jocimar Santos, por exemplo, lidera o ranking da categoria até 18 anos B da FPT, seguido por Allan Tripadale Lopes, mais um participante do Projeto Bola Dentro. Agostinho de Carvalho, 58 anos, é o supervisor do programa e seleciona os garotos que atuam em torneios como o Circuito de Veteranos da ATP.

"Eu falo para eles que esse torneio é como se fosse um prêmio. É um torneio muito chique, com torcida selecionada e convidados", explicou Agostinho, uma espécie de pai para os garotos. Antes do evento, o supervisor orientou detalhadamente sua equipe de boleiros. "Eu faço uma preparação. Tem o fato do restaurante, que eles não estão acostumados. Ensino até a usar o banheiro. Todos eles têm muita vontade de trabalhar no torneio, mas eu só posso escolher dez, com base na conduta e no trabalho dentro da quadra", acrescentou.

A GE.Net acompanhou o dia de Jocimar Santos, 18 anos, um dos boleiros selecionados para o torneio de veteranos. Antes de dividir a quadra com Carlos Moyá e o equatoriano Andrés Gomez, campeão de Roland Garros-1990 e ex-número 1 do mundo em duplas, ele arrumou com cuidado sua mochila na casa que divide com a mãe e mais quatro irmãos na Favela da Linha, na Vila Leopoldina. A comunidade, com cerca de 360 famílias, nasceu em um terreno de 18 metros de largura por 385 metros de comprimento, vizinho à Marginal Pinheiros e perto do Parque Villa-Lobos.

Os trilhos do trem que passava pelo local para abastecer empresas da região ainda são visíveis em alguns trechos. Nascido no município baiano de Canudos, localizado no chamado Polígono das Secas, Jocimar migrou para São Paulo ao lado da mãe com apenas dois anos de idade e fixou residência na Favela da Linha. Em uma situação social precária, marcada por violência familiar e tráfico de drogas, boa parte dos adultos cumpriu ou cumpre pena na cadeia. Os moradores que não estão desempregados trabalham nos arredores em locais como o Ceagesp, dois hipermercados ou em concessionárias de carros.

No luxuoso bairro dos Jardins, a etapa de São Paulo do Circuito de Veteranos foi fechada ao público. Desta forma, acompanharam o evento apenas convidados da organização e dos patrocinadores do torneio, entre eles um banco francês, uma empresa de consultoria com sede no Reino Unido e uma gigante sul-coreana do ramo de eletroeletrônicos. Na área VIP do evento, a plateia teve a oportunidade de bebericar vinhos chilenos e cerveja de origem belga durante os jogos. Em muitos momentos, o burburinho no setor causou pedidos de silêncio para não incomodar os tenistas.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fã de Andy Murray, Jocimar raramente vê o escocês em ação por não ter TV a cabo
No ambiente dos torneios, os boleiros tomam um choque de realidade. "Às vezes, você até estranha e se pergunta: 'o que eu estou fazendo aqui? Eu vim da favela e agora estou junto com esses caras'. No Masters do Brasil de 2009 [realizado em um resort em Mogi das Cruzes], fiquei hospedado no mesmo hotel dos profissionais. Eu pensava: 'o que estou fazendo no mesmo hotel do Thomaz Bellucci?'. É bom ver os jogadores de perto, ver os caras que um dia você quer ser igual. Ficar perto deles, ver como eles batem na bola. Minha meta, por enquanto, é chegar à primeira classe. Se der, quero ser profissional", disse Jocimar.

Na edição de 2008 do Circuito de Veteranos, o jovem viveu um momento inusitado no jogo entre o lendário Pete Sampras e o austríaco Thomas Muster. O norte-americano, dono de 14 títulos de Grand Slam, convidou Jocimar para disputar um ponto diante do europeu, ex-número 1 do mundo. "A arquibancada estava lotada e tinha transmissão de TV. Quando ele me deu a raquete, fiquei assustado. Não sabia o que fazer. Eu ali pequenininho e o Sampras enorme do meu lado... Tentei sacar cinco vezes e errei. Devolvi a raquete, mas ele recusou e me ajudou a sacar. O Muster fingiu que ia rebater, mas deixou a bola passar para me dar um ace. Eu voltei para pegar bolinha e todo mundo bateu palma", lembrou o garoto.

Acostumado a jogar futebol como zagueiro, Jocimar teve seu primeiro contato com o tênis em 2005. Atualmente, recebe aproximadamente R$ 800,00 mensais para trabalhar na academia do ex-jogador brasileiro Givaldo Barbosa, vizinha ao Parque Villa-Lobos. A mãe do garoto, o filho mais velho, viu a renda mensal aumentar significativamente, já que recebe apenas um salário mínimo (R$ 545,00) como funcionária de uma loja de departamento. O jovem contou que a família espera ansiosamente pelo 16º aniversário de uma de suas irmãs, que assim poderá começar a trabalhar também.

De acordo com Agostinho de Carvalho, além do bom desempenho na quadra, Jocimar também evoluiu do ponto de vista pessoal. "Quando ele começou, era um menino que não falava com ninguém. Você conversava com ele e não tinha resposta. Era muito tímido e chegava a chorar quando perdia das meninas", lembrou. Agora, o jovem garante que a situação mudou. "Tinha duas meninas que eu perdia mesmo, mas agora já ganho! Se você for tímido no tênis, não consegue nada. O jogador tem que vibrar. Eu fiquei com mais coragem, estou falando mais com as pessoas e faço afinidade mais facilmente".

Fernando Dantas/Gazeta Press
Jocimar trabalha no jogo de Andrés Gomez, ex-número 1 do mundo em duplas e campeão de Roland Garros
No entanto, nem todos os garotos do Projeto Bola Dentro conseguem aproveitar a oportunidade. Logo no começo do programa, ainda em 2005, um menino promissor chamou a atenção de Agostinho. Em uma etapa do Circuito de Veteranos da ATP, o então boleiro chegou a disputar um ponto com o brasileiro Fernando Meligeni e ganhou com uma deixadinha. Irreverente, o ex-profissional brincou e pediu a volta de seu verdadeiro adversário: "esse menino é melhor do que você!". Inscrito em torneios da FPT, o jovem demonstrou potencial, mas apresentou sérios problemas de comportamento e deixou o projeto.

"Eu percebi logo que ele tinha muito talento, que tinha futuro. Ele se destacou muito rápido e por causa dele decidimos formar uma equipe de competição. Ele chegou a ganhar vários torneios. Parou na terceira classe quando já tinha tudo para passar para a segunda. Era o melhor do Projeto, mas começou a fazer coisas que eu não gostaria de falar e que não podemos permitir. Nem foi necessário que eu o afastasse, ele mesmo se retirou do programa. É uma pessoa que ainda gostamos muito", explicou Agostinho. Atualmente, o garoto aparece de vez em quando no Villa-Lobos. Apenas para rever os amigos e lamentar a oportunidade desperdiçada.

DECLARAÇÃO DE LULA REVOLTOU AGOSTINHO DE CARVALHO
Vídeo divulgado em 2010 foi gravado pelo estudante Leandro dos Santos durante inauguração de um projeto social na Favela da Maré, no RJ. Na época, ex-tenistas como Fernando Meligeni reclamaram."Em 1977, eu era professor de tênis e dava aula em uma quadra na Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi. Às vezes, algumas crianças carentes jogavam pedras na gente meio do treino. Chamei essas crianças para jogarem tênis e comecei a trabalhar de forma beneficente em 1980. Fiquei revoltado com o que o Lula disse sobre o tênis. Eu daria a seguinte resposta a ele: é um esporte de burguês, ensinado pelos pobres da favela. 90% dos professores de tênis vieram de áreas carentes. Conheço ex-pegador de bolinha que hoje é dono de academia. Como você me explica isso? Tem alguns meninos que chegam no Projeto Bola Dentro descalços, não tem nem tênis. Quando você coloca para jogar, eles se realizam e começam a sonhar. Alguns dão depoimentos que nos emocionam. Me sinto um paizão deles".

- Agostinho de Carvalho é supervisor do Projeto Bola Dentro

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