Dois dias após completar 72 anos, Ted Boy Marino ficou feliz por saber que a "lucha libre" mexicana não ficou esquecida pela população de Guadalajara durante os Jogos Pan-americanos de 2011. O principal expoente da "modalidade" (uma mistura de encenação com artes marciais) no Brasil se junta aos mexicanos que preferem venerar Mascara Dorada, Guerrero Maya, Dragon Rojo e Dimante Sagrado em detrimento do mundialmente famoso Anderson Silva.
"Na verdade, sou um grande aluno dos mexicanos da lucha libre. O que eles fazem é um esporte alegre, divertido, de circo. Como muitos deles, eu não consigo bater em moscas. Se elas vêm, eu só abano. Não sou como o Anderson Silva, que movimentou o Brasil todo com aquela luta agressiva", criticou Ted Boy Marino, referindo-se ao MMA (artes marciais mistas) e ao Ultimate Fighting Championship (UFC) realizado no Rio de Janeiro. "Aquilo é coisa para bandido, pô! É matar ou morrer, cheio de violência. Eles dão soco na cara, cotovelada, joelhada... O que é isso?", indignou-se.
Assista a lances das lutas
Veja galeria de fotos
Mario Marino, verdadeiro nome de Ted Boy, aplicava "golpes" muito mais plásticos para atingir os seus oponentes na década de 1960 - como a tesoura de costas. "A gente levava umas porradas, mas sabia bater e cair. O Telecatch [o programa que exibia as lutas] era uma fantasia, um espetáculo. A família toda podia assistir. Às vezes, escapavam algumas gotas de sangue, e a censura já caía em cima da gente. Imagine o que eles não fariam com essas lutas de agora. Deveriam proibir, não é? Ou transmitir em um horário bem tarde. As crianças, pelo menos, não podem ver", opinou.

Ted Boy decidiu seguir a carreira dos seus ídolos. Fez sucesso. Aos 24 anos, veio para o Brasil com outros cinco lutadores, todos contratados pela TV Excelsior. Com status de galã, integrou a primeira formação de "Os Adoráveis Trapalhões", com o amigo Renato Aragão, e dispensou as tradicionais máscaras de seus colegas do México. "Eles usam aquelas máscaras para não serem reconhecidos, como foi o Ted Boy, andando por aí em paz. Os lutadores são garçons, comerciantes, trabalhadores comuns. Na minha época, eu rezava para voltar a ser o que era, um anônimo, tamanha foi a encheção de saco do público. Juro."
Morando diante da praia do Leme, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Ted Boy Marino hoje se considera "um desconhecido para a garotada". "Não condeno totalmente as lutas de agora, pois tem quem goste e os atletas ganham muito dinheiro. O Anderson Silva até está sendo bastante falado, mas acho que nunca mais um lutador será capa de umas 40 revistas e terá inúmeras participações na televisão, como eu", orgulhou-se o aposentado, ainda requisitado no país que é referência em lucha libre.

Famoso no México, Ted Boy Marino só se decepciona ao falar sobre o seu "esporte" quando o assunto é a decadência do Telecatch no Brasil. "Você sabia que se pratica mais luta livre do que futebol no México? Eles levam a coisa a sério. Vão aos estádios com as máscaras dos lutadores. Aqui, não dá mais. Não vai voltar à televisão brasileira porque falta gente competente, bons empresários e uma emissora com produção suficiente para dar suporte a um programa desses. Tenho muita saudade", lamentou o ex-lutador.
Leia Mais:
Combates têm musas e 'insultos amistosos'
Fãs trocam Pan-americano por lucha libre
