Futebol/Mundial de Clubes - ( - Atualizado )

Corintiano, "Pelé do karaokê japonês" torce por titulo do Santos

Tossiro Neto, enviado especial Shizuoka (Japão)

Sem nunca ter estudado música ou falado japonês, o paulistano Roberto da Silva atingiu status de celebridade em 2010 ao superar mais de 80 mil concorrentes e vencer um famoso campeonato de karaokê da rede de televisão NHK, provando o porquê do apelido recebido quando ainda morava no Brasil: 'Pelé do karaokê'. Apesar de corintiano, ele se orgulha da comparação com o ídolo santista e inclusive deixa o time do coração um pouco de lado para torcer pela equipe da Vila Belmiro na final do Mundial de Clubes do Japão, contra o Barcelona, neste domingo.

"Com nove anos de idade, saí de uma favela da Zona Leste de São Paulo para morar na Liberdade. Naquela época, eu chamava todas as pessoas de lá de Ki-Suko. Sabe a bebida Ki-Suko? (risos) Foi ali que começou minha brincadeira", conta o agora Roberto Casanova (sobrenome artístico que adotou), de 44 anos, que até hoje não entende o que diz ao microfone durante shows e festas que faz pelo Japão. "Eu decoro a musica como ela é cantada e a entonação com ajuda da minha mulher."

Roberto foi morar em Shizuoka com a japonesa Mika Mochizuki há seis anos, quando ela engravidou pela primeira vez. Os dois se conheceram na capital paulista, depois que ela rumou sozinha ao Brasil para aprender bossa nova - o estilo é um dos prediletos nas apresentações com o marido, que por sua vez se notabilizou cantando new enka, ritmo romântico japonês moderno. Nos últimos meses, no entanto, ela momentaneamente parou de cantar em função do nascimento da segunda filha.

Os dois CDs com músicas da dupla, vendidos em kit único ao valor de 200 ienes (cerca de R$ 5,00), tocavam no carro de Roberto do trajeto da sua casa, em um conjunto habitacional afastado do centro da cidade, até um parque publico com vista para o Monte Fuji (uma das montanhas mais altas do mundo), onde ele conversou com a reportagem. "Eu queria ver o jogo do estádio, mas o ingresso está muito caro, não temos condição financeira de comprar, não. O valor que estão cobrando significa muitos dias de trabalho", lamenta o brasileiro, que em retorno recente a São Paulo foi assaltado à mão armada no trânsito, na região do Elevado Costa e Silva, e perdeu aproximadamente R$ 70 mil.

TENTATIVA DE JOGAR FUTEBOL

Antes de sonhar em ser cantor, Roberto da Silva queria se tornar jogador profissional de futebol. Quase conseguiu. Ainda garoto, ele recebeu convite para jogar no Guarani, de Campinas, mas sua mãe não deixou que ele largasse os estudos. "Eu era meia direita, mas virei meia esquerda porque tomei um castigo do professor na escolinha da Aclimação. Durante três meses, eu não podia colocar a perna direita na bola, era só a esquerda. A direita era mesmo apenas para dar um toquinho antes de bater. Quando fui ver, estava jogando só com a esquerda. Virei canhoto", recorda, rindo.

"Era meu capital de giro, minha folga para poder sobreviver de música aqui, ainda mais nesse período em que a minha mulher engravidou e teve nossa segunda filha. Agora vou ter que voltar a arrumar outro emprego para completar com o que a gente ganha", explica o brasileiro, que por dois anos trabalhou como operário em uma fábrica de farol de automóveis de Shizuoka e abandonou o antigo emprego assim que a fama pelo título do campeonato da NHK - que conta com participantes de diversos países e consequentemente assume característica de competição internacional - começou a lhe render convites para shows e outros eventos não apenas dentro do Japão. "Por ser uma rede de TV estatal, fiquei bastante conhecido. Foi como um Mundial mesmo. Então passei a ser chamado para participar de programas importantes e gravei músicas no Brasil também."

A letra de uma dessas músicas gravadas em português faz menção indireta ao irmão Alexandre 'Ziquizira', skatista profissional que lhe doou um rim no final dos anos 1990. "Fui descobrir em 1996 que estava com uma doença chamada lúpus e, algum tempo depois, meus dois rins ficaram debilitados. O médico foi bem franco comigo e disse que eu não tinha mais muito tempo de vida. Na verdade, não sei se ele me disse isso por sinceridade ou para fazer com que eu desse a volta por cima. Aí depois meu irmão fez o exame de compatibilidade, disse que o rim era meu e hoje estou legal", diz Roberto, que precisa ingerir doses diárias de remédio desde o transplante.

O problema de saúde ainda o chateia, e ele fala pouco sobre isso. Prefere falar de música e futebol. Sem ingresso para as partidas do Mundial, Roberto diz que acompanhará o jogo entre Santos e Barcelona pela televisão. "Não sou santista, mas sou brasileiro. Então o Santos é o nosso Brasil no Mundial. Já joguei futebol, mas acho que esses dois moleques do Santos, o Ganso e o Neymar, dormem com a bola. Acho que nasceram já chutando bola, porque o futebol deles é de primeira classe", comentou o Pelé do karaokê, que ainda deu a letra para não desafinar diante do tão temido campeão europeu. "Ousadia e alegria, Santos! Vai 'pra' cima deles, 'vâmo' ser campeão também!".

Representante sul-americano, o Santos entra em campo diante da equipe espanhola às 8h30 (19h30, no horario local) de domingo, em Yokohama, buscando seu terceiro título mundial na história.

 

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