Futebol/Campeonato Paulista - ( - Atualizado )

Filho de Wenger, Denilson quer tirar "nhaca" e ser campeão após sete anos

William Correia São Paulo (SP)

"Olha o tempo. Vai cair uma tempestade, hein? Lá em Londres, chove direto, mas só garoa ou chuvinha fraca mesmo. Só que sem parar" A declaração é de Denílson e mostra uma das lembranças que os cinco anos no Arsenal lhe renderam. Mas faltou a que um jogador mais anseia: título. E ele corre contra o tempo para levantar outra taça no único lugar em que foi campeão na carreira, o São Paulo.

Nesta quinta-feira, Denilson completa 24 anos de idade e, por conta da suspensão de Wellington, ganhou de presente a chance de ser titular contra o Paulista, no Morumbi. Mas jogar ainda não é a preocupação principal do volante. Tudo o que ele deseja é, enfim, levantar um troféu novamente. O que parece ser mais provável de ocorrer vestindo a camisa 15 do São Paulo até 30 de junho, quando acaba seu empréstimo.

Foi exatamente com este número que ele comemorou aquele que considera seu único título como profissional: o Mundial de 2005. Mesmo sem entrar em campo, Denilson, então com 17 anos, tornou-se o jogador mais jovem a ser campeão mundial pelo clube. No ano seguinte, participou da campanha do título brasileiro, mas nem o coloca em seu currículo. "Cheguei a jogar, mas infelizmente não terminei 2006 aqui. Quando o São Paulo foi campeão, eu já estava no Arsenal...", lamenta.

Morando sozinho na Inglaterra, o brasileiro, vendido com 18 anos ao Arsenal, encontrou em Londres o técnico Arsène Wenger, a quem chama de "pai" e parte da torcida do time considera culpado pela escassez de taças. Com o treinador francês, Denilson conquistou só três simbólicas Emirates Cup, torneio amistoso promovido pela própria equipe inglesa na pré-temporada e que sequer consta na relação de títulos no site oficial do clube. Confira como ficar longe dos troféus o incomoda nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Denilson ainda fala "a gente" ao citar o Arsenal, mas garante estar com a cabeça focada no São Paulo
Gazeta Esportiva.Net: Você tem só um título na carreira: o Mundial de 2005. Como lida com isso?
Denilson: De um certo ponto, me incomoda. Sofro com isso. Desde os meus 17 anos, ganhei só um título na minha carreira como profissional, e logo com 17 anos, o Mundial. Depois, passei cinco anos lá fora e, infelizmente, não ganhamos nada. Procuro sempre melhorar, conversar com os jogadores para conquistarmos alguns títulos. Jogador vive de status, de títulos. Se você não ganha nada no que faz, dificilmente vai aparecer. Não sei se vou ficar ou vou embora, mas meu objetivo é que nestes meses eu possa sair daqui com a cabeça erguida e com um título. É o que espero.

GE.Net: O que você acha que passará pela sua cabeça quando for campeão?
Denilson:
Vai ser um alívio muito grande tirar essa nhaca de muitos anos sem título. Não vou nem saber como comemorar. Faz tanto tempo... Desde 2005 que não comemoro um título! Por isso meu objetivo aqui é treinar e me dedicar como uma pessoa sempre correta. No meu trabalho, nunca fiz corpo mole. Ao contrário. Se estou no São Paulo hoje, é por algum motivo, e esse motivo é ajudar os jogadores e ser campeão.

GE.Net: Quanto aquela experiência de ter feito parte do grupo campeão mundial em 2005, no Japão, te ajuda hoje?
Denilson:
Bastante. Na época, jogavam Mineiro e Josué como volantes, e eles me ajudaram a crescer. Os cincos anos na Europa também. Hoje, estou já amadurecido e experiente não só no futebol, mas na vida. O futebol proporciona muitas coisas. Além da bola, proporciona língua, qualidade de vida melhor. A época em que fomos campeões mundiais me fez sentir coisas que hoje já nem sinto mais. Faz tanto tempo... Quero poder voltar a sentir o que sentia antes.

Site Oficial/saopaulofc.net
Aos 17 anos, o volante fez parte do elenco campeão mundial em 2005: seu único título como profissional
GE.Net: Esse seu tempo sem títulos também se deve ao jejum que o Arsenal passou enquanto você esteve lá. Existe acomodação no elenco do Arsenal?
Denilson: É diferente. O Arsenal é um clube que faz jogadores, dificilmente compra jogadores de nome. Eles vão ao País de Gales, contratam um jogador de 16 anos e já lançam. Outras equipes pegam o jogador formado, experiente, de seleção, e o contratam para ganhar título. O Arsenal tem essa postura diferente. Não sei se é por isso ou por outro motivo, porque qualidade existe e muito até pelo trabalho excepcional feito lá. Não sei se a gente não ganha título por ter tantos jogadores jovens, mas é muito tempo sem ser campeão, desde 2004/2005. Mesmo estando no São Paulo, eu gostaria que eles fossem campeões lá porque vou me sentir também vitorioso, independentemente de jogar aqui ou em outro lugar.

GE.Net: A cobrança por títulos no São Paulo é maior do que no Arsenal?
Denilson: Bem maior, não tenho dúvidas disso. E a pressão é mais gostosa. Exigem mais de você e a cada dia você tem que trabalhar mais para conseguir ser campeão. O bom do São Paulo é ser um clube de ganhar títulos, que não pode ficar tanto tempo sem. Precisamos estar sempre focados no nosso trabalho para realizar o nosso desejo. Não só para o nosso ego, mas para o clube, a estrutura, os funcionários. Temos tudo aqui, não podemos reclamar de nada. Os dirigentes e a comissão técnica nos dão respaldo, então precisamos mostrar dentro de campo que temos condições.

GE.Net: Você sentia falta dessa cobrança por títulos no Arsenal?
Denilson:
Claro. Estava sentindo falta de me cobrar um empenho a mais, e isso existe em mim hoje. Não sei se ficarei ou se sairei, mas tenho cinco meses para conseguir algo e sair daqui com a cabeça erguida porque a torcida me recebeu bem, como essa diretoria maravilhosa e todos. Ficarei triste se sair daqui sem um título. Estou trabalhando ao máximo, me dedicando e me cuidando também fora dos gramados para realizar este desejo.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Jogador diz que sentia falta da cobrança por títulos e por isso se esforça no Tricolor
GE.Net: Além da cobrança, qual é a grande diferença entre os treinos na Inglaterra e no Brasil?
Denilson: Na Inglaterra, colocam uns manequins no campo e fazem um trabalho técnico para você ter um passe mais amplo, perfeito para o seu companheiro que estiver bem no lance. São trabalhos diferentes. Treinam também finalizações, é importante para qualquer equipe fazer isso, mas aqui é jogo direto duas, três vezes por semana, não dá tempo para trabalhar. Lá, quando é semana de seleção [quando os atletas são liberados para defenderem suas seleções], são três dias de folga e o resto é para fazer trabalhos técnicos de jogo curto, movimentação. Por isso acabam tendo um passe perfeito tanto com a perna direita quanto com a esquerda. A gente tem esse trabalho bem aprimorado. O Barcelona, por exemplo, tem um futebol de muito passe por causa disso.

GE.Net: Como é o Arsène Wenger?
Denilson:
Ah, cara, só tenho que agradecer e dizer que é uma pessoa maravilhosa, um pai para todos os jogadores. Quando o jogador está passando por um momento ruim no trabalho, ele chega, chama para conversar individualmente, pergunta o que está acontecendo e às vezes até aprofunda um pouco mais a conversa. O jogador acaba se sentindo bem pela preocupação do treinador. E ele conta com todos, lá não tem titular nem reserva. Claro que tem umas preferências, mas são 28, 30 jogadores que terão oportunidade, fazendo rodízio. O trabalho que ele faz é diferenciado. E tem me ajudado bastante. Não foi à toa que consegui ficar lá cinco anos mesmo sozinho. Para mim, é um pai.

GE.Net: Neste tempo em que você está no Brasil, falou com ele?
Denilson:
Não. Preciso até dar uma ligada. Ia ligar depois do jogo em que a gente... [corrige-se] O Arsenal perdeu por 2 a 1 para o Manchester [United, no Emirates Estadium, em Londres, em 22 de janeiro]. Pô, ele está passando por uma situação difícil, com torcedor querendo que ele vá embora, porque já faz 15 anos que está no clube, aquela coisa toda. O mínimo que posso fazer é dar uma ligada, desejar sorte. Seria uma coisa muito boa.

GE.Net: Ao falar do Arsenal, você fala "a gente"...
Denilson: [risos] É costume. Mas hoje meu foco 100% é o São Paulo. Quero retribuir todo o esforço que a diretoria fez para me trazer. Quero sair daqui de cabeça erguida e mostrar para todos que valeu a pena voltar ao Brasil.

GE.Net: Sua preferência é ficar no São Paulo?
Denilson:
Claro. Se a diretoria me chamar para conversar, fico na hora. Tudo depende de uma conversa. Ainda falta um tempo, mas eu não pensaria duas vezes. Até porque nasci e fui criado no São Paulo desde os dez anos de idade, minha família todinha é são-paulina. Se houver uma conversa, não pensarei duas vezes.

AFP
Brasileiro considera Arsène Wenger um pai e agradece ao francês por ter ficado cinco anos em Londres
GE.Net: Em sua primeira entrevista coletiva no ano, você admitiu que estava em dívida. Como você define esta dívida?
Denilson: Talvez seja pelas expulsões que ocorreram no ano passado. Neste ano, vou esquecê-las ao máximo para que não aconteçam mais e eu ajude sempre o São Paulo a seguir com vitórias.

GE.Net: Você conversa com o pessoal do Arsenal sobre seu desempenho aqui?
Denilson:
Converso com alguns jogadores. Pergunto como estão, eles perguntam como estou aqui, tenho uma amizade muito grande com alguns jogadores lá. Mas não passa disso. Fico pensando somente no São Paulo. Meu propósito nestes cinco meses que restam para terminar o contrato é ajudar ao máximo o time a conseguir algum título.

GE.Net: Eles se assustaram com suas três expulsões no ano passado?
Denilson:
Não, até porque aqui é totalmente diferente. Lá, exigem mais força e pegada e no Brasil acabei sofrendo com essas coisas. Mas estou tranquilo. Nem penso mais em cartão, nisso ou naquilo. Meu objetivo mesmo é jogar sempre, procurar sempre melhorar e ajudar o São Paulo.

GE.Net: O Leão disse depois do jogo contra o Botafogo-SP que te tiraria sempre que tomasse cartão amarelo para evitar uma expulsão. Existe um acordo com você?
Denilson:
Não. Quando fui substituído, ele me falou: 'eu te tirei por causa do cartão'. Respondi: 'não tem problema'. Procuro nem ouvir quando falam em cartão comigo. Na verdade, até ouço, mas entra por um ouvido e sai pelo outro. Se ficar pensando muito nisso, o cartão aparece.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Meio-campista sempre usou discurso firme em suas entrevistas no São Paulo e ressalta sua personalidade
GE.Net: Desde quando você chegou, adotou em suas entrevistas um discurso firme, mas a diretoria procurou reforços exatamente com esse perfil para este ano. O que acha disso?
Denilson: O São Paulo fez belas contratações neste ano, que poderão nos ajudar a conquistar os nossos objetivos. E falo firme porque tenho uma personalidade muito forte. Independentemente de qualquer coisa, procuro sempre ser sincero nas minhas respostas e trabalhar muito. Não adianta eu vir aqui falar uma coisa e dentro de campo agir de outra maneira. Procuro ser o mais sincero e o mais correto possível para que não possa me arrepender nem sofrer lá na frente.

GE.Net: Você já disse que a torcida são-paulina é "muito, muito chata". É por essa cobrança por títulos?
Denilson:
Não, não foi nem por isso. A torcida me interpretou mal. Quis dizer que eles tinham razão por estar cobrando, mas que também entendessem o que estávamos fazendo em campo e nos treinamentos. Jamais foi para entrar em polêmica nenhuma. A torcida do São Paulo me recebeu bem. Não tenho razão para falar mal de ninguém, nem de torcida, diretoria, funcionário ou jogador nenhum. Ao contrário. Só tenho que agradecer por tudo que me ofereceram aqui.

GE.Net: Chegaram a te cobrar?
Denilson:
Só coisa de Twitter, mas nada de mais, não. Já é passado. Vida nova, só quero poder trabalhar tranquilo para conquistar o que quero.

VOLANTE PERDIA NO BOLICHE PARA LEANDRO DAMIÃO, AMIGO DO JARDIM ÂNGELA
Montagem sobre fotos de Sergio Barzaghi/Gazeta Press e Fernando Dantas/Gazeta Press

No início dos anos 2000, a família de Denilson tinha como hóspede frequente no Jardim Ângela um garoto hoje reconhecido internacionalmente - com vaga na Seleção Brasileira - como Leandro Damião, que foi atleta do Estrela da Saúde, equipe de várzea comandada pelo pai do volante. O jogador do São Paulo, que ainda não enfrentou o amigo como profissional, lembra que sofria com ele em outro esporte.

"Ele ficava lá em casa e jogávamos boliche de vez em quando. E eu jogava mal pra caramba", contou, sorrindo, Denilson, garantindo ter evoluído. "Hoje, arrisco mais", argumentou o meio-campista, que não pôde reencontrar o colega no duelo entre Tricolor e Inter em outubro do ano passado porque estava suspenso e o atacante, machucado.

Fora de casa, nos campos da várzea, Denilson também pouco conviveu com Leandro Damião, pois já estava nas categorias de base do São Paulo. Agora, alegra-se com a rápida ascensão do amigo. "Graças a Deus, do nada, ele foi para Santa Catarina, depois acabou profissional do Internacional e está vivendo um momento muito bom", lembrou, demonstrando até estranheza por ouvir tanto o sobrenome do colega.

"O pessoal fala: 'você não conviveu com o Damião?' Pô, quem é Damião? Só conheço o Leandro", gargalhou o volante. "Desejo tudo de bom para ele porque é um menino muito batalhador, humilde. Pessoas assim merecem vencer na vida", completou.

Sem rever Leandro Damião em jogos, Denilson também lamenta a falta de tempo para visitar os amigos de infância no bairro da Zona Sul paulistana. "Meus colegas estão lá até hoje. Vou às casas deles e do meu pai quando dá. Já que estou no Brasil, quero sempre revê-los, é uma coisa muito boa. Mas dificilmente dá. É jogo no final de semana e durante a semana, fico sem muitos dias de folga."

Nas últimas férias, em dezembro, o volante passou somente um dia no Jardim Ângela, já que tinha compromissos no Rio de Janeiro e, depois, seguiu para rever familiares que moram no Nordeste. "Mas quero fazer um jogo lá no Jardim Ângela e arrecadar alimentos para o pessoal da comunidade", prometeu.

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