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Decadente, hotel usa sequestro de Fangio por grupo de Fidel como atração

Bruno Ceccon Havana (Cuba)

Anfitriões da presidente Dilma Roussef nesta semana, os irmãos Fidel e Raul Castro acompanharam, há 54 anos, o sequestro do argentino Juan Manuel Fangio. Em fevereiro de 1958, o pentacampeão mundial de Fórmula 1 foi raptado pelo "Movimento 26 de Julho" no hall do Hotel Lincoln, em Havana. Decadente, o estabelecimento procura usar o fato como atração.

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Na tentativa de desviar o foco do avanço da insurreição comandada por Fidel na ilha desde dezembro de 1956, o ditador Fulgêncio Batista resolveu organizar corridas automobilísticas na capital nos anos de 1957 e 1958. Ganhador da primeira edição, Fangio foi sequestrado às vésperas da prova seguinte e impedido de participar. Desta forma, os revolucionários divulgaram mundialmente o movimento.

O Hotel Lincoln, construído em 1926, tem localização privilegiada. A poucos quarteirões do "Malecón", uma espécie de calçadão, o local fica no bairro de "Centro Habana", entre a "Habana Vieja", que abriga a maioria dos pontos turísticos, e a região de "Vedado", a porção mais moderna da cidade (ou menos antiga). A diária, equivalente a cerca de R$ 41,00 com café da manhã incluso, é atraente e os funcionários, solícitos.

No entanto, o hotel de 135 quartos é precário e não consegue justificar as três estrelas que ostenta, algo que a reportagem pôde comprovar em uma visita recente a Havana. Entre outras deficiências, as paredes têm rachaduras e falhas na pintura, as frestas da janela uivam nos momentos de ventania, o chuveiro nem sempre oferece água quente, a tomada exibe fiação aparente e o hóspede pode encontrar lagartixas sobre a cama.

As áreas comuns estão mais bem conservadas, mas também evidenciam a decadência do estabelecimento octogenário. Durante o café da manhã, por exemplo, as formigas se deliciam. No bar do térreo, usado pelos seguidores de Fidel Castro antes do sequestro de Fangio, prostitutas procuram clientes estrangeiros. De acordo com as garotas, é possível realizar o programa no quarto do hotel mediante pagamento de propina ao vigia.

Há duas moedas correntes no país. O chamado "peso conversível" equivale a aproximadamente 25,00 pesos cubanos, valor que corresponde a US$ 1,00. Como o salário mínimo na ilha é de cerca de US$ 10,00, as profissões de alguma maneira ligadas ao turismo são as mais cobiçadas, especialmente em função das gorjetas.

A prostituição, praticamente erradicada no auge do governo revolucionário, é um dos problemas enfrentados por Cuba, seriamente afetada pelo bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos desde 1962 e pelo final da União Soviética, seu principal parceiro econômico, em 1991. Os turistas são frequentemente abordados por garotas de programa e cafetões, inclusive nas imediações do Hotel Lincoln.

Diante da precariedade atual, a solução é apelar ao passado glamouroso. Com a internet incipiente em Cuba, o Lincoln não conta com um site oficial. A Islazul, rede hoteleira que administra o local, descreve todos os seus estabelecimentos em uma página eletrônica e usa o caso como propaganda: "Juan Manuel Fangio, o maior piloto de todos os tempos, se encontrava hospedado no hotel no momento de seu sequestro".

Bruno Ceccon/Gazeta Press
Decadente, Hotel Lincoln tem falhas na pintura dos quartos, banheiro precário e até lagartixa sobre a cama
A menção ao piloto é repetida por alguns dos principais guias turísticos internacionais, como o Lonely Planet, que por sinal chama o argentino erroneamente de "Carlos Fangio". No dia 23 de fevereiro de 1988, exatamente 30 anos depois da ação, o Lincoln instalou uma placa em sua entrada. O sequestro "significou um efetivo golpe propagandístico contra a tirania e um importante estímulo para as forças revolucionárias", diz a inscrição.

O Hotel Lincoln anuncia que o quarto 810, usado por Fangio em 1958, foi transformado em um museu, informação repetida pelos guias turísticos internacionais. No entanto, a habitação é alugada normalmente a um custo de aproximadamente R$ 50,00 diários. Desta forma, os hóspedes interessados em conhecer o local dependem da boa vontade do atual ocupante.

Acompanhada por uma camareira, a reportagem tentou visitar o quarto-museu, propagandeado no hall em que o argentino foi sequestrado. De cueca samba-canção, um hóspede espanhol atendeu à porta, desculpou-se pelos trajes sumários e se disse com torcicolo após uma note mal dormida. Admirador de Fangio, ele fez questão de ficar na habitação 810 e prometeu exibi-la no dia seguinte, algo que não cumpriu.

Google Maps
O tradicional Hotel Lincoln, a poucos metros do Malecón, o calçadão da capital cubana, está bem localizado
O oitavo andar do hotel foi decorado para rememorar o sequestro. Ao deixar o elevador, é possível visualizar um grande pôster que registra o histórico encontro ocorrido em 1981, na volta de Fangio a Havana, entre Fidel Castro, o argentino e Faustino Perez, chefe máximo da operação de 1958. O poema "Sequestro Amável", de Jesus Orta Ruiz, é reproduzido em um painel afixado na parede.

Desde 1958, o hotel serviu de palco para as comemorações alusivas ao sequestro. Em 1993, no 35º aniversário da ação, o Instituto de Turismo de Cuba e o Lincoln promoveram a "Copa Internacional de Kart Juan Manuel Fangio" nas ruas adjacentes. No ano seguinte, realizou-se um encontro entre vários participantes da operação, que ganharam diplomas de reconhecimento da Associação de Combatentes da Revolução.

O Lincoln não oferece as mesmas comodidades das franquias das grandes redes hoteleiras recebidas por Cuba para potencializar o turismo após o final da União Soviética, como a espanhola Meliá e a francesa Accor. Por outro lado, no combalido estabelecimento da década de 1920 os hóspedes convivem com parte da história da Revolução liderada por Fidel Castro.

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AFP
A presidente Dilma Roussef encontrou Raul (foto) e Fidel Castro em sua visita a Cuba

Instada por dissidentes do governo cubano a falar sobre direitos humanos em sua recente visita ao país, Dilma Roussef evitou o assunto e criticou os Estados Unidos. "Se vamos falar de direitos humanos, começaremos a falar de direitos humanos no Brasil, nos Estados Unidos, a respeito de uma base aqui chamada Guantánamo. Vamos falar de direitos humanos em todos os lugares", disse a ex-guerrilheira, que também condenou o bloqueio econômico imposto à ilha. A base naval norte-americana, localizada em território cubano, tem 171 supostos terroristas em uma espécie de limbo jurídico e que sofreriam violações dos direitos humanos. A presidente brasileira levou à ilha uma linha de crédito de US$ 523 milhões.


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