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Em Cotia, René Simões cria e implanta Padrão São Paulo de Qualidade

William Correia Cotia (SP)

Eram pouco mais de 11 horas da manhã quando René Simões desceu apressado de seu carro, com as chaves de sua sala no Centro de Formação de Atletas (CFA) em Cotia em uma mão e muitos papéis na outra. O diretor técnico geral do São Paulo acabara de sair de uma reunião com o diretor de futebol amador, Marcos Tadeu, e tinha encontro marcado para as 13 horas com Emerson Leão, treinador do time profissional, no CT da Barra Funda. No dia seguinte, ainda falaria com o coordenador técnico Milton Cruz. Uma amostra da rotina agitada de um dos mentores da implantação de uma nova filosofia no clube.

Cabo de vassoura, histórias e totó: um dia com René Simões em Cotia
Confira galeria de fotos do dia a dia do diretor geral em Cotia

Há menos de três meses no cargo, René Simões foi a principal das mudanças prometidas pelo presidente Juvenal Juvêncio após a eliminação do São Paulo na primeira fase da última Copa São Paulo de Futebol Júnior. Seu objetivo é aplicar inovações às categorias de base, que já contam com o elogiado CFA em Cotia. E a primeira ideia do profissional já tem nome: Padrão São Paulo de Qualidade. Como incentivo, também instituiu o “Prêmio Rogério Ceni de Desempenho”, que premiará o melhor atleta em cada categoria.

René se preparou para implantar o seu projeto no São Paulo. Famoso por levar a Jamaica à Copa do Mundo de 1998 – única participação do país em Mundiais – e a Seleção Brasileira feminina à medalha de prata olímpica de Atenas em 2004, o técnico demorou quase um mês para assumir o cargo depois de aceitá-lo. Antes, visitou as dependências do Barcelona e concluiu recentemente um diagnóstico com problemas e soluções para o CFA – local que deve ser sua moradia até o final deste semestre.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Diretor do clube há quase três meses, René definiu filosofia que chama de Padrão São Paulo de Qualidade
Os 35 minutos de conversa com a Gazeta Esportiva.Net– chamados de “reunião” por René – foram um dos raros momentos em que ele ficou mais tranquilo na sua recém-inaugurada sala, decorada com fotos das passagens pela Seleção Brasileira feminina e pela Arábia, com uma estante cheia de livros sobre liderança e de treinadores do Brasil e do exterior e equipada com um frigobar repleto de copos d’água e latas de suco. “Velho tem que se cuidar, né?”, sorriu, aos 59 anos. “A sala está quase pronta. Só faltam as minhas plantinhas”, explicou, com DVDs de partidas do Campeonato Pernambucano sobre sua mesa.

Mas é em outro espaço verde, no campo, que o treinador se concentra. René já avisou a Juvenal que seu trabalho dará resultado “em uns cinco anos”. Até lá, a promessa é de que o Padrão São Paulo de Qualidade esteja disseminado tanto em atletas como em membros das comissões técnicas e olheiros do clube. Uma missão que faz os quatro telefones celulares do dirigente tocarem bastante ao longo do dia.

Pouco antes desta entrevista, René falava através de um dos seus aparelhos com um funcionário da CBF, iniciando uma relação mais próxima do Tricolor com as seleções de base. “Queremos fazer um relatório de cada jogador, com lesões, desempenho. Senão ele retorna da Seleção e o treinador do time de cima fala que voltou pior. Não voltou pior! Foi campeão sul-americano com a adrenalina lá em cima. É obvio que o emocional abaixa”, argumentou, com um sorriso ao final do telefonema. “A CBF está se organizando, isso é muito bom.” É algo semelhante ao que ele pretende fazer no São Paulo.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press

René usa idolatria a Ceni como estímulo
DIRETOR LANÇA PRÊMIO ROGÉRIO CENI DE DESEMPENHO AOS GAROTOS

René Simões assumiu seu cargo no São Paulo ciente de que deveria impor pressão aos garotos. E vai além da recolocação das categorias de base do clube em competições antes desprezadas pelo Tricolor. O diretor introduz uma disputa interna com a criação do Prêmio Rogério Ceni de Desempenho.

“Estamos acertando os últimos detalhes, mas o Rogério já topou. O prêmio será dado ao atleta que for escolhido o melhor em sua categoria. Todos os profissionais que acompanharam o jogador vão votar para escolher o vencedor, que receberá o prêmio das mãos do Rogério”, contou René.

Usar o nome de um dos maiores ídolos da história do clube é uma das estratégias de René na tentativa de tornar a relação entre os jovens atletas e a agremiação “mais afetiva”. Quem chega ao CFA já tem uma admiração que o técnico deseja manter.

Os meninos com menos de dez anos monitorados em visitas periódicas ao centro de treinamento até serem aprovados e alojados a partir dos 14 anos já chegam com admiração. Muitos deles comemoram entre si por terem visto os quartos que eram de Lucas e Casemiro, por exemplo.

“Eles se inspiram nesses nomes já conhecidos”, analisa René, que deseja estender essa admiração do garoto às histórias e tradições do clube durante toda a sua trajetória em Cotia até o atleta estar pronto para integrar a equipe profissional.

Gazeta Esportiva.Net: Depois das suas visitas ao Barcelona, você trouxe conceitos para serem aplicados de forma igual das categorias de base ao time profissional?
René Simões: Não só no aspecto tático, mas em uma filosofia de jogar. O Barcelona não joga taticamente igual em todas as partidas. O Guardiola foi fazendo mudanças, jogava em uma época com Eto’o e Messi e Henry pelos lados, depois teve o Ibrahimovic. Este time joga taticamente diferente quando entra o Abidal, o Keita, o Fábregas, o Pedro ou o Thiago (Alcântara). Mas a filosofia de jogo e o conceito de jogar são sempre os mesmos. O que estamos estabelecendo aqui é o Padrão São Paulo de Qualidade. Todos os times do São Paulo terão conceitos que serão escutados pelos jogadores aos 11, 13, 15, 17, 18 e 20 anos até o primeiro time. Quando todos estiverem escutando as mesmas coisas e subindo, vão manter o padrão do São Paulo de jogar futebol com qualidade. A tática pode ser diferente, até porque a qualidade dos jogadores te dá uma tática diferente. O Barcelona joga só às vezes com um centroavante, quando coloca o Sánchez, mas a filosofia dele é mantida.

GE.Net: Com que impressões você ficou do Barcelona?
René Simões: Acima de tudo, o grande barato do Barcelona é o contraditório em termos de Brasil. Quando perdemos a bola, queremos jogar no nosso campo. Em todo o canto do País, se escuta: “perdeu a bola, vamos voltar para o nosso campo”. No Barcelona, é o contrário: perdeu a bola, vão para o campo adversário para recuperar a bola e não deixá-lo jogar. Quando têm a bola, eles colocam o campo muito grande. Deixam o campo pequenininho quando o adversário tem a bola e o campo bem grande quando o Barcelona tem a bola. É o contraditório deles. A grande diferença do Barcelona é esta concepção de, quando não tem a bola, atacar, e, quando a tem, esperar o momento de matar.

GE.Net: Os conceitos do São Paulo já estão definidos?
René Simões: Já.

GE.Net: Quais são?
René Simões: Ah, isso aí deixa trabalhar bastante primeiro. Não tem o que falar. São coisas que vamos trabalhar bastante aqui primeiro, entendeu?

GE.Net: O CFA de Cotia ficou com fama de “resort” depois da eliminação na primeira fase da Copa São Paulo. O que pensa disso?
René Simões: Quando cheguei aqui, falava-se que o São Paulo dava muito e recebia pouco dos jogadores, não cobrava tanto. Mas é bíblico: “a quem muito é dado, muito lhe será cobrado”. É exatamente o que precisamos fazer aqui. Esta é a minha linha de pensamento: se você tem muito, vai ter que dar muito, filho; se não der muito, não merece estar aqui.

GE.Net: Existe um manual de disciplina no CFA de Cotia. Você pretende mexer nele?
René Simões: Eles sabem que o padrão do São Paulo é muito alto. Exigem muitas coisas para os jogadores. E estamos vendo tudo.

GE.Net: Nos últimos anos, o São Paulo optou por não participar de muitos torneios de categorias de base. Você vai mudar isso?
René Simões: A cobrança tem que existir. Por algum tempo, o São Paulo pensou em formar jogadores e se esqueceu da competição. “Ganhar não é importante, vamos formar o jogador para o time de cima”. Mas não se forma ninguém, em nenhuma área da vida, se não tiver competição, dificuldade, obstáculo e pressões o tempo todo. Cada vez mais as firmas trabalham com metas e, se você não as atingir, está fora. Quem trabalha em banco está louco. Quem tem conta cansa de sentar e ouvir “faz um seguro porque tenho que bater minha meta”, “investe um dinheirinho aqui e no mês que vem você tira, tenho que bater minha meta”. É uma pressão enorme. Em uma fábrica, também. Tenho um restaurante e as nossas metas de quantos camarões, empadas e pratos executivos precisamos vender. Se bater, existe um bônus. Não bateu, você vai perder algo. Aqui é a mesma coisa.

GE.Net: Você falou em pressão. Como será essa pressão?
René Simões: Tem que botar pressão nos jogadores, jogar para ganhar. O que não pode é a derrota trazer crise. Deve trazer lições, ensinamentos. Vamos cobrar do jogador do São Paulo cada competição e, por ser o São Paulo, precisa entrar para ganhar. Se não ganhar, vamos ver onde erramos, mas, se você trabalhar muito bem, você acaba ganhando competições. Não todas, porque ninguém ganha tudo, mas vai formar melhor os jogadores. O jogador bem formado é aquele que sabe lidar com adrenalina, e a adrenalina vem da cobrança, do pensamento de que “se perder, estou complicado, como vai ser a minha vida?”. Essa é a diferença dos grandes jogadores. Kaká, Ronaldo, Romário, Messi, Cristiano Ronaldo sabem lidar com isso. É exatamente nos grandes jogos que crescem porque sabem lidar com a adrenalina. Isso é exercício, aprendizado. Vem desde aqui debaixo até lá em cima.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Técnico discorda da visão de que o clube ainda precisa aprender a usar sua estrutura em Cotia
GE.Net: A cobrança será igual em todas as categorias? 
René Simões: De acordo com a categoria, daremos um peso maior às cobranças. A cobrança primeiro será pelo acerto na parte tática, o envolvimento, o comprometimento. Depois o comprometimento na parte tática e psicológica, os resultados. Mais tarde já começamos a lidar com o jogador como profissional. Fica tudo absolutamente natural para essa transição, porque ele sai de um nível de vida e vai a outro. Como quando se sai do Ensino Fundamental, depois do Ensino Médio e cai na universidade, que é totalmente diferente dos outros. Ele tem que passar por esse processo todo de pressões diferentes. Quando você joga para uma comissão técnica que depende a cada domingo do resultado para estar empregada ou não, amigo, a pressão em cima de você é terrível.

GE.Net: O CFA de Cotia foi inaugurado em 2005. Após sete anos, é o momento de o São Paulo aprender a usar o que construiu? 
René Simões: Quanto vale o Oscar? O Lucas? O Casemiro? O Bruno Uvini? O Wellington? O Henrique? Se pegar o preço desses jogadores, talvez já pague tudo o que foi investido aqui. O São Paulo não usou isso totalmente errado. Tenho essa plena convicção e digo a todos que estão aqui. O que aconteceu foi um acidente que deu toda essa impressão de que o São Paulo trabalha errado. Não concordo que o clube trabalhou errado neste tempo todo. Mas vou concordar que pode trabalhar melhor. E, daqui a cinco anos, se você me entrevistar, direi que poderemos trabalhar melhor. Você tem que ser melhor todos os dias, senão deita ali, fecha o caixão e manda enterrar porque acabou. Se você estiver satisfeito com o que você é... O São Paulo trabalhou bem, introduziu esses jogadores, mas não tenho a menor dúvida de que pode trabalhar melhor.

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Técnico dissemina novo conceito em Cotia
CONCEITO TEM BOLA NO CHÃO, BLITZ SETORIZADA E GOLEIRO-LINHA

René Simões não quis dar detalhes do conceito do Padrão São Paulo de Qualidade, mas seu treino com jogadores que voltam de empréstimo ou que ainda não encontraram clubes após atingirem a idade de atletas profissionais dá boas pistas do que deve ser visto no clube quando o projeto estiver concluído. A base é no senso de jogo coletivo, com movimentação para cada adversário ter ao menos dois marcadores, e utilização intensiva do goleiro como líbero, como faz Rogério Ceni.

O treinamento de René foi acompanhado por treinadores e preparadores físicos de outras categorias de base, servindo de aula também para eles. E René se atenta a qualquer detalhe. Aos jogadores, por exemplo, comparou o gesto individual do basquete ao do futebol para enfatizar a necessidade de reflexo corporal ao longo de um jogo. “No momento do arremesso, o jogador é atacante; quando pisa no chão, é defensor; e quando passa, é atacante”.

Além de exigências básicas como fazer com que o atleta procure um companheiro em vez de fixar seu olhar na bola, a maior atenção esteve na busca por ter maioria de jogadores em cada canto do campo. O treino de René começou com seis jogadores em cada time e terminou em um contra um, além dos goleiros, com os atletas se revezando em meio à atividade.

O treinador cobrava passes mais rasteiros do que lançamentos aéreos e movimentação ininterrupta. “Toque simples, mas se tocar a bola e parar não adianta nada. É preciso dar intensidade. Se alguém receber sozinho e ninguém do time aparecer, o time vai perder a posse de bola. Vou dar falta. Cobrem seus times!”, gritava.

Outra ordem era que os arqueiros fossem usados, trabalhando com o pé como se fossem líberos – René até proibiu que os goleiros usassem as mãos na saída de bola. “Porra, ninguém dá a bola para o goleiro e o time ficar com um a mais ao atacar?! Aparece goleiro, olha o goleiro livre! Façam como no futebol de salão, é difícil marcar goleiro-linha!” Os atletas seguiram tanto as ordens que os goleiros passaram a finalizar. “Não vale gol de goleiro!”, informou.

GE.Net: Como realizar o sonho do Juvenal de ter quase todos os titulares formados na base? 
René Simões: A média de idade dos times nos últimos cinco anos era de 24, 25 anos. Agora, é de 29, 30 anos. Se você pegar um jogador que estourou categoria de Júnior, com 20 anos, consegue colocá-lo em um grupo de 24, 25 anos de média de idade. Em um com média de 29, 30 anos, são dez anos de diferença, é muito grande e difícil. Vai jogar se for gênio, mas, se fosse, não chegaria lá em cima com 20 anos, e sim com 18. Teremos uma grande quantidade de jogadores de 20 anos porque não estão mais saindo tantos para o exterior como saíam. Esse jogador de 20 anos vai para onde? Para qualquer lugar? Você trabalha um jogador dos 14 aos 20 anos, seis anos no Padrão São Paulo de Qualidade, e bota em qualquer lugar para jogar, sendo que quando tiver 23, 24 anos poderia jogar aqui? Temos que criar essa transição, alguma coisa para que esse jogador continue no Padrão São Paulo de Qualidade para que se tenha aquilo que sonhamos de “oito para três”: oito jogadores formados na base como titulares e três craques, de nome, para completar o time. É necessária uma gestão muito bem qualificada, com todos os detalhes em toda essa simplicidade. Parece muito complexo, mas é tudo simples.

GE.Net: A ideia é trabalhar para formar um time inteiro ou alguns grandes jogadores?
René Simões: Formar tudo porque o momento do futebol é muito diferente agora, existem grandes dificuldades. É necessária uma gestão muito bem consciente do que está acontecendo no mundo do futebol hoje. Operei meu pé em novembro, nestes cinco meses a minha lupa aumentou muito. O treinador de futebol tem na lupa o time dele, os adversários e o campeonato que joga. Na minha lupa, sem disputar nenhum campeonato nem nenhum compromisso de dar treino e ganhar jogos, pude ver todos os jogos do futebol brasileiro e mundial. Vejo como dificuldade o fato de não produzirmos mais craques como antigamente.

GE.Net: Por que isso tem acontecido?
René Simões: Por uma série de dificuldades. Os campos todos que eu jogava quando era pequeno não existem mais, tem prédios e condomínios construídos. A minha rua que eu jogava de manhã, de tarde, de noite e entrava na madrugada não tem mais por causa da insegurança. O atletismo não era forte como agora, ganhando medalhas. O voleibol, muito menos. O basquetebol volta a ser forte. E ganhamos um adversário fortíssimo agora, que é o MMA (artes marciais mistas, em inglês). O basquete e o voleibol tiram jogadores, porque a criança pode gostar do esporte, mas são eletivos: se você tiver menos de 1,90m, não vai jogar voleibol e só vai jogar basquetebol se for um armador cracaço. Mas o MMA não é eletivo. Você pode ser alto, baixo, largo e praticar. O MMA vem para brigar com todos os esportes de forma muito forte mesmo. Depois você tem o que é muito positivo, mas se torna negativo em termo de esporte: a internet e os jogos eletrônicos, que tiram a criança da prática de esporte e a torna sedentária.

GE.Net: E qual a solução para o Brasil produzir mais craques como antigamente?
René Simões: O Milton Nascimento dizia que todo artista tem que ir onde o público está. Então todo o clube tem que ir onde o artista está. É necessário captar muito bem, ter tudo esquadrinhado em cada cantinho desse Brasil para olhar, porque alguma coisa vai aparecer ali e você vai ter que pegar. É necessário ter esse cuidado. Depois, tem que formar o jogador dentro de uma pressão psicológica.

GE.Net: Para achar qualidade em cada canto do Brasil, é necessária uma rede de olheiros. Você está satisfeito com a rede que o São Paulo tem?
René Simões: É necessário ter uma rede. Ela existe, e isso é legal. O que quero é trabalhar a rede. Quero que olhem os jogadores com os olhos do São Paulo, dentro do Padrão São Paulo. Recebo mil telefonemas dizendo “tenho um volante sensacional, com 1,94m”. Pô, estou trabalhando com futebol, não com basquete, e a primeira coisa que dizem é que o cara é forte e alto à beça. E daí? O meu interesse é: tem talento? Para observar o jogador, preciso saber: Tem talento? Tem leitura de jogo? Mobilidade? É um cara que sabe jogar no coletivo ou vai dar trabalho porque é muito individual? Quero fazer com que esses observadores tenham os olhos do São Paulo.

GE.Net: Para isso, é preciso repassar uma metodologia. Sua ideia é recapacitar os olheiros?
René Simões: Você falou a palavra mágica: capacitação. E para todos. No futebol brasileiro em geral, os salários da base são muito baixos. Quem vem ensinar na base é quem está aprendendo. Quem precisa ser ensinado, os jogadores, são ensinados por quem está aprendendo. É necessário capacitar os seus profissionais, abrir uma possibilidade de capacitar outros profissionais para, assim que você tiver emergência, poder contratá-lo. E é em todas as áreas, não só para observação. São os treinadores, fisioterapeutas, médicos. É ensinar o olheiro a olhar com o olhar do São Paulo e o treinador a treinar com o olhar do São Paulo.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Técnicos das categorias de base acompanham treinos de René para se capacitarem ao Padrão São Paulo
GE.Net: Você tem repassado essa metodologia no campo... 
René Simões: Dou treinamento ao pessoal que está retornando de empréstimo às 8 da manhã. Está uma maravilha, acordo cedo. Estou vibrando. Gosto e vibro com os treinamentos. E trago os nossos treinadores também para assistir, os preparadores físicos participam. Mostro toda a forma de treino para capacitar os nossos treinadores. Quando eu não puder dar o treino, e muitas vezes não poderei estar presente, um deles vai dar o treinamento para estes jogadores já com uma linguagem e uma condução de grupo diferente. Já estamos capacitando o nosso treinador a alguma coisa diferente.

GE.Net: Então ainda dá para se manter treinador?
René Simões: Professor e treinador não deixarei nunca de ser porque sou diplomado. Posso não estar exercendo em algum momento, mas não deixarei de ser. Isso me lembra o Adib Jatene quando foi ministro e lhe perguntaram se ele deixaria de ser médico. Ele disse: “Nunca, sou diplomado. Posso só não estar exercendo minha profissão como médico porque sou ministro da Saúde”.

Divulgação
Visita ao Barcelona rendeu também conversa e foto ao lado do melhor jogador do mundo
GE.Net: Quando você chegou à Seleção Brasileira feminina, encontrou uma estrutura inexistente ou falha. No São Paulo, encontrou uma estrutura pronta. Dá para pontuar as diferenças entre estes dois desafios? 
René Simões: Todo desafio é diferente. Quando cheguei à Jamaica, tinha que fazer um país aprender o que era o futebol e seu valor e até como torcer. Eles torciam no futebol como no cricket, no qual não se pode falar durante a jogada, só se pode vibrar depois. Eles iam para os estádios e faziam a mesma coisa, só vibravam depois das jogadas. Tive que ensinar a eles que no futebol você joga junto, atrapalha o adversário, bota pressão no adversário. Em um campeonato sub-17, eles ficaram loucos: “como vamos colocar pressão em cima de um garoto?! De um árbitro?!”. Falei: “esse é o mundo do futebol se vocês quiserem entrar nele”. Das meninas, era diferente. Existia um país que ama o futebol, o país do futebol, mas que não gostava do futebol delas por um preconceito danado. Elas tinham que provar que eram canarinhas fêmeas que podiam voar como os canarinhos machos. Mas tinha que partir delas, não adiantava eu querer modificar o exterior e dizer ao país inteiro que tinha que gostar do futebol feminino. Elas tinham que se comportar para que os outros gostassem delas. São coisas diferentes.

GE.Net: Já aqui existe uma estrutura intensamente elogiada...
René Simões: Tenho toda a estrutura física do mundo. Precisamos construir um pensamento de formar o jogador, botar pressão em cima de acordo com a idade, bem administrada, estabelecendo um Padrão São Paulo de jogar, com o treinamento fracionado de acordo com o objetivo do Padrão São Paulo. Por exemplo: quero sair daqui e passar por aquela porta. Tenho que dar dez passos, mexer meus braços e depois, para sair, tenho que colocar os braços para trás. Então fraciono: em uma hora tenho que dar dez passos, em outra treino empurrar a porta e em outra treino puxar a porta. Você vai fracionando o treinamento para o objetivo que você quer, que é atingir o Padrão. Você tem que ter uma linha de pensamento, uma linha psicológica de trabalhar com essa pressão e formar o jogador, depois uma linha didática para chegar ao que quer e depois a simplicidade de construir para ganhar o jogo, e não destruir para ganhar o jogo.

GE.Net: O futebol brasileiro também precisa desta mudança?
René Simões: Esta é a grande mudança que precisamos fazer no futebol brasileiro. Sempre construímos e ganhamos os jogos, mas em determinado momento começamos a destruir e na destruição do adversário ganhar o jogo, no erro dele, na quebra dele. Temos que voltar a pensar nisso, pelo nosso jogo, pela nossa qualidade, construirmos a forma de ganhar o jogo, e não sair e iniciar o jogo pensando em destruir o adversário e sua forma de jogar e, quando ele errar, poder ganhar. Isso tudo tem que ser muito bem colocado por aqui.

GE.Net: Voltando ao papel de ‘executivo’, como você pretende lidar com o acesso à internet?
René Simões: Agora vamos começar a trabalhar com eles em outras frentes. Nesta era digital de agora, como trabalhar com o computador? Vamos dar curso de computação. Como lidar com as mídias sociais? É um projeto que recebi e estou pensando nisso. É exatamente inserir o garoto que está aqui neste mundo, mas não deixá-lo fora do mundo dele e saber que daqui a pouco vai enfrentar o mundo como jogador ou outra função qualquer que terá.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Morando temporariamente em Cotia, o treinador tem dado voltas no CFA e mantém contato direto com atletas
GE.Net: Especificamente para a internet, o que será feito? 
René Simões: Não estou analisando a parte de internet, vamos dar curso para eles aprenderem e estar inseridos em um contexto tecnológico digital sabendo operar tudo. Depois, saberão das responsabilidade e consequências. O cara às vezes só retuita, mas não sabe que, ao retuitar, aquilo passa a ser dele, vira a opinião dele. Pessoas velhas me mandam algumas coisas por e-mail e aviso: “você já parou para pensar que ao me mandar esta mensagem você se tornou agente desta mensagem”. “Não, não fui eu que fiz”, argumentam. “Mas você repassou”, respondo. Ainda é necessário definir muitas coisas de crime de internet, é coisa nova, mas você pode ser complô daquela montagem. Estou sempre lembrando o pessoal: cuidado, não vá passando o que te chega porque às vezes não é verdade, questões de remédio, refrigerante, coisas da política, você não sabe que interesses por trás estão envolvidos. Se você mandou para 30 pessoas, por 30 vezes você passou a ser o autor daquela denúncia, daquela carta. Muita gente acha que não é absolutamente nada, mas é muita coisa. É isso que tentamos colocar junto com o departamento de comunicação para que os jogadores tenham conhecimento de todas essas coisas. São palavras jogadas ao vento, você não segura nunca mais. Depois que apertou o botão, amigo...

GE.Net: É complicado porque proibir o uso das redes sociais é proibir o jogador de se manifestar...
René Simões: A ideia em momento nenhum foi proibir ninguém, mas que eles saibam das consequências. Aí, assumam as consequências. E de qualquer ato. Não só da internet, qualquer coisa. Que aprendam a ter muito cuidado em suas atitudes e reações e criem consciência. Querer proibir isso é querer segurar um cano de abastecimento de água com a mão: não dá para tapar. Isso veio para ficar e ninguém sabe os rumos ou onde isso vai parar. Agora não é necessário mais ficar desesperado para chegar em casa às 20 horas e ver o telejornal, a notícia tem que ser em cima do lance. Sabe-se ao vivo, e se possível com imagens. Não adianta achar que os meninos aqui não terão Twitter nem mexerão na internet.

GE.Net: Morando por um tempo no CFA de Cotia, você tem acompanhado todos estes detalhes?
René Simões: Às vezes, desço às 22 horas e vou ao refeitório para saber como e quantos estão se alimentando, porque temos controle de tudo, rodo os alojamentos para ver o que está acontecendo, como é que é.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
René traça ações para assuntos específicos, como a conscientização das redes sociais virtuais
GE.Net: Como é controlar os garotos? 
René Simões: Todos querem ser cantor de pagode, jogador de futebol, artista de novela... Todos acham que é muito fácil. Ninguém sabe que para se gravar uma cena de 30s se leva às vezes um dia inteiro, com várias tomadas e repetições, que é muito difícil até ficar tudo perfeito. Ninguém sabe que para ser jogador de futebol se trabalha na contramão da vida. Com 13, 14, 15 anos, o garoto (que não é jogador de futebol) está começando a se afastar do pai, da mãe, vai criando o círculo dele, passeando, chegando mais tarde em casa. Com 14 anos, o garoto (que chega ao CFA de Cotia) entra em uma concentração aqui e, se quiser, pode sair, mas às 22 horas tem que estar de volta. Se não estiver, corre o risco de ser mandado embora.

GE.Net: Como lidar com a expectativa dos garotos em serem aprovados?
René Simões: Temos uma filosofia no São Paulo de que o jogador, quando entra aqui, não é aprovado, é admitido. Só vai ser aprovado quando sair daqui e for para (o CT da) Barra Funda e estiver com os profissionais. Aqui ele está no curso, está fazendo uma escola, com vários segmentos para fazer o pré-vestibular e entrar na faculdade para se graduar indo para Barra Funda. Pronto, aí está com o diploma para a vida. Esta é a primeira contramão da vida. O cara está saindo e entra para um negócio extremamente rígido.

GE.Net: O desafio é fazer a maturidade aparecer antes?
René Simões: Com 19, 20 anos, se entra em uma faculdade. Aqui, com 19, 20 anos, ele já está saindo de uma para trabalhar profissionalmente, com contrato, responsabilidades, e tem que produzir. Com 24, 25 anos, (quem não é jogador de futebol) sai de uma universidade, começa a arrumar emprego, faz mestrado, pós-graduação, e com 40 anos começa a ganhar dinheiro. O jogador com 30 anos já parou de ganhar dinheiro. Esses dias vi o Tuta dizendo: “Minha ex-mulher ainda pensa que ganho dinheiro como ganhava”. Com 30 anos, o jogador tem energia, mas está prestes a se aposentar e precisa de um comportamento que as pessoas têm com 50, 55, 60 anos, quando param de trabalhar.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Diretor técnico ainda tem usado bastante seu carro para sair de Cotia rumo à capital e já foi vítima de assalto
GE.Net: Qual a principal dificuldade na formação desses atletas?
René Simões: Com essa liberação sexual de hoje, com 15, 16, 17 anos, às vezes até menos, os jovens já estão com toda a liberdade sexual do mundo. Lá fora está tudo muito liberado. Aqui, ele já não tem essa possibilidade, só quando for para casa. Além desta dificuldade, precisamos entender o valor social que tem isso aqui. O São Paulo tem uma contrapartida social muito grande. São mais de 300 atletas, mas ninguém aqui imagina que serão formados 300 superstars que vão ficar entre os 5% de jogadores que ganham salários altíssimos – outros 45% ganham mais ou menos e 50% ganham dois salários mínimos ou menos. A responsabilidade social nossa aqui é muito grande, não pensamos só no craque, mas em formar o homem. Por isso a obrigação de ir à escola, fazer reforço, todo esse cuidado de ter aula de inglês e, se quiser, o espanhol. Tem todo um aparato porque a responsabilidade social é muito grande.

GE.Net: Então o segredo está na preparação deles? 
René Simões: Quando voltei das Olimpíadas, comecei a receber muitos convites para dar palestra. Aliás, ganhei muito mais dinheiro dando palestras do que ganhei nas Olimpíadas, não tenha dúvida. Como eu estava recebendo muitos convites, fui me preparar e vi uma palestra do presidente da Nokia, em 2004, no Brasil. É uma característica que as pessoas devem ter: não faça nada sem se preparar. O Pat Riley, treinador de basquete (cinco vezes campeão da NBA como técnico), dizia o seguinte: “falhar em preparar-se é preparar-se para falhar” (a frase também é atribuída a Benjamin Franklin). Não tem jeito: se você falhar em sua preparação, está se preparando para falhar.

GE.Net: E você, estava preparado para a vida paulista?
René Simões: Muito trânsito, né? E você acredita que já fui assaltado, cara? Na Avenida dos Bandeirantes, atrás do aeroporto de Congonhas, indo para Moema, um motoqueiro bateu no vidro com o revólver apontando o meu Rolex. Poxa, adoro relógios. Falei “não vou dar”. Fiquei conversando, tentando fazê-lo mudar de ideia quando apareceu outro com revólver do outro lado. Foi até engraçado porque meu cérebro congelou. Pensei: “ah, então é isso?”. E tive que dar o relógio. O motorista ao lado me reconheceu e perguntou se os motoqueiros estavam reclamando comigo. A gangue do Rolex é tão preparada que esconde o revólver e mesmo quem está ao lado não vê.

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