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Da Série B ao topo da América: Timão ganha seu passaporte

Marcelo Belpiede* São Paulo (SP)

“Acho que as sementes que foram plantadas por essa gestão serão colhidas por muitos anos. Podem anotar: o título da Libertadores está próximo”. O trecho tirado do livro “O Mais Louco do Bando”, lançado recentemente com as histórias do ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, parecia um prenúncio do dia histórico confirmado nesta quarta-feira: o corintiano finalmente pôde tirar o grito de campeão da garganta e mostrar aos rivais o seu prestígio internacional.

O título da Libertadores conquistado em uma final contra o badalado Boca Juniors, da Argentina, foi o ponto final de um projeto - de altos e baixos - que começou com o pior momento da história do clube, sob intenso sofrimento para a Fiel. No fim de 2007, o Corinthians vinha despedaçado por escândalos financeiros e administrativos, além de amargar a vergonha da queda para a Série B do Campeonato Brasileiro. “Caímos. No precipício”, define Andrés Sanchez. “Além da dor, tinha a vergonha”, emenda.

Djalma Vassão/Gazeta Press

A partir de 2008, o Corinthians apostou no estilo gaúcho de Mano Menezes para uma reformulação. Mesmo sem dinheiro, o clube conseguiu formar um grupo com a mistura de experiência e qualidade. Na mesma temporada, obteve o acesso para a Série A e, de forma surpreendente, ainda decidiu a Copa do Brasil contra o Sport.

Curiosamente, no momento de maior dificuldade, a torcida se aproximou ainda mais da equipe. Bordões como “Eu nunca vou te abandonar” e “Bando de Loucos” surgiram durante a caminhada do Alvinegro na segunda divisão. Da passagem pela Série B, ainda restam jogadores que fizeram parte daquele grupo: o lateral direito Alessandro e o zagueiro Chicão.

“Na queda, o Corinthians se reconstruiu, o clube se organizou, foi feito o que dava para ser feito, você não organiza o Corinthians da noite para o dia, agora esse grupo já conseguiu feito de estar na final, é um feito ainda maior ganhar a Libertadores de forma invicta”, exalta o ex-zagueiro William, um dos destaques do Alvinegro entre 2008 e 2010.

No projeto de 2009, a diretoria comandada por Andrés Sanchez levou o Corinthians às manchetes mundiais com a contratação de Ronaldo, considerado um golpe de mestre no marketing. Vítima de piadas pelo seu peso excessivo, o Fenômeno foi o grande comandante dos títulos do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil. O respeito do Alvinegro estava totalmente restabelecido.

Em 2010, o Corinthians iniciou mais uma caminhada em busca da América. Na fase de classificação da Libertadores, obteve a melhor campanha e partiu como favorito para a etapa de mata-mata, mas caiu logo nas oitavas de final contra o Flamengo em função dos gols marcados fora de casa. Naquela ocasião, Andrés Sanchez conseguiu reverter a eliminação e a pressão da torcida, em um ano marcado pelas festas do centenário no Parque São Jorge. No Brasileiro, o Timão oscilou em função da saída de Mano Menezes para a Seleção e, no fim da competição, obteve o terceiro lugar já sob o comando de Tite, contratado junto ao mundo árabe..

Acervo/Gazeta Press
William brilhou como zagueiro pelo Timão.

Assim, o Corinthians partiu em 2011 para uma nova tentativa na Libertadores. Desta vez, houve um desastre com a eliminação na etapa preliminar contra o desconhecido Deportes Tolima, da Colômbia. O Timão voltou a ser alvo de piadas e, desta vez, não conseguiu conter a irritação da torcida pelo fracasso. Os protestos e até depredações custaram a saída de medalhões como Roberto Carlos e Ronaldo. O grupo precisava dar uma resposta. “A queda da Libertadores foi um baque terrível... De inconsolável tristeza, do ponto de vista esportivo, moral e econômico”, define Andrés Sanchez.

A eliminação contra o Tolima curiosamente trouxe frutos no Campeonato Brasileiro. Com um começo arrasador – 28 pontos conquistados em 33 possíveis -, o Timão criou a gordura necessária para saborear a ponta em 27 das 38 rodadas. Um empate contra o Palmeiras na rodada derradeira garantiu a conquista e o ponto de partida para o sonho tão aguardado.

A temporada 2012 reservou o auge do projeto de recuperação do “time do povo”. Dono de uma base sólida e um sistema defensivo , o Corinthians mostrou maturidade para ganhar a Libertadores de forma invicta, ignorando até uma surpreendente eliminação em casa no Estadual contra a Ponte Preta. Na semifinal da competição sul-americana, derrubou o Santos, da estrela Neymar. Na decisão, não sentiu o peso de enfrentar o tradicional Boca Juniors, seis vezes campeão do torneio.

"Não foi um título por acaso, foi feito delicado, cada um fez tijolo, claro que o maior mérito", explica William , seguido pelo técnico Tite. "Dá para falar que se aprende vencendo e que se aprende perdendo. O Corinthians aprendeu caindo e sendo campeão depois. Aprendeu sendo campeão brasileiro e chegando a uma final de Libertadores. Se aprende das duas maneiras".  

Aos adversários, um alerta. Em seu livro, Andrés Sanchez projeta que o Timão irá se tornar uma potência continental. “E quando vier (o título da Libertadores), não será um só. Espero ver um desses títulos na nossa casa própria. E já consigo ver esse dia. Vai ser como sempre foi. Com a Fiel cantando com muito amor e toda a energia. Com os jogadores colocando o coração na ponta da chuteira. Dando o sangue pelo time. Porque no Corinthians, como na vida dos brasileiros, nada nunca foi nem é fácil, e as conquistas só vêm depois de muita luta. No dia em que ganharmos a nossa primeira Libertadores, e a loucura tomar conta de onze guerreiros no campo e dezenas de milhões pelo Brasil afora (já imaginou?), eu vou ser o que sempre fui...mais um louco no bando. Talvez, o mais louco do bando. Vai Corinthians!”, encerra o dirigente, atualmente diretor da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Relembre os principais momentos da caminhada da Série B até o título da América:

 
 

* Colaborou Tossiro Neto.

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