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Antes de janela fechar, Corinthians abre portas e mostra TMS da Fifa

Helder Júnior São Paulo (SP)

Sexta-feira, 20 de julho, último dia da janela aberta pela Fifa para transferências internacionais de jogadores. O canto superior direito do monitor do computador de Roberto Canada Junior, um dos responsáveis pelo departamento de registro de atletas do Corinthians, informava (em espanhol) que restavam apenas 12 horas, cinco minutos e 59 segundos para o encerramento do período de inscrições. Naquela sala do terceiro andar do prédio principal do Parque São Jorge, no entanto, não havia pressa.

“Hoje seria um dia corrido se o Corinthians fosse contratar alguém [o negócio com Rojas, da Universidad de Chile, fracassou]. Como não vai chegar mais ninguém do exterior...”, comentou Roberto, com calma suficiente para abrir as portas de seu departamento e mostrar à reportagem da GE.Net como funciona o Transfer Matching System (TMS) da Fifa – uma página de internet que controla todas as vendas e empréstimos de jogadores realizadas entre clubes de diferentes nacionalidades. O sistema foi concebido em 2007 e testado durante três anos, com treinamento de funcionários de quase 4.000 times. Tornou-se obrigatório a partir de 1º de outubro de 2010.

Como tem feito rotineiramente desde a instituição do TMS, Roberto Canada inseriu seu nome de usuário e senha para entrar no sistema a que só os clubes ligados à Fifa têm acesso. “Para que uma negociação seja aprovada, os dois times envolvidos devem realizar exatamente os mesmos procedimentos. Vou fazer uma demonstração para que você possa entender melhor”, disse. Em seguida, o responsável pelo registro de atletas do Corinthians clicou no campo “contratar jogador” e inseriu o nome de um dos meias mais cobiçados por clubes brasileiros na última janela de transferências internacionais: Juan Román Riquelme.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Roberto Canada Jr. (sentado) e Agenildo de Lima são os responsáveis por registrar os jogadores corintianos
Calma, torcedor corintiano. Não passava de uma simulação. A cautela de Roberto Canada ao utilizar o meia argentino do Boca Juniors como exemplo foi tamanha que ele ficou incomodado com os disparos da máquina fotográfica na direção do seu monitor. “Acho melhor não fotografar isso. As pessoas vão achar que estamos contratando o Riquelme de verdade”, sorriu timidamente, dando sequência ao que faria no TMS, passo a passo, se fosse registrar o destaque da equipe vice-campeã da Copa Libertadores da América de 2012 como atleta do Corinthians.

“Notou que o sistema puxou todos os jogadores cadastrados na Fifa como Riquelme? Escolhemos o que queremos, o Juan Román. Então, carregamos um documento comprovando a nacionalidade dele, como um passaporte. Depois, confirmamos que já há um acordo com o clube anterior do atleta, clicando em sim. Selecionamos o Boca Juniors. Informamos a data do negócio: 20 de julho, por exemplo. Colocamos se há ou não um agente Fifa envolvido na transação. Por fim, lançamos o contrato de trabalho, sua data de validade e a forma de pagamento. Não é fácil?”, perguntou.

O processo, de fato, parece ser simples. Em menos de dois anos de uso, acelerou sensivelmente as transações entre clubes, minimizou o risco de fraudes e até ajudou a proteger os atletas menores de idade, uma vez que o sistema exige a inserção de uma série de documentos para esses casos, como o contrato de trabalho dos pais do jogador. Mark Goddard, diretor responsável pela implementação do TMS, orgulhava-se na primeira janela de transferências da Fifa controlada pela ferramenta, em janeiro de 2011: “No auge da janela, 115 federações afiliadas estavam realizando negócios. Em resumo, metade do mundo do futebol usava o nosso sistema. Ficamos muito satisfeitos por não ter havido problemas operacionais.”

Djalma Vassão/Gazeta Press
Martínez e Guerrero, últimos reforços que Corinthians trouxe do exterior, ainda esperam certificados no sistema
Segundo Roberto Canada, as panes no TMS são ainda mais raras atualmente. “Se ocorressem problemas com frequência, o mercado de atletas seria prejudicado. Isso quase não acontece. O TMS até nos avisa quando devemos efetuar um registro. Quando o Guerrero foi contratado, por exemplo, apareceu um lembrete na parte de cima da tela para dizer que o Hamburgo estava lançando os dados dele. Começamos a fazer o mesmo procedimento daqui. Caso as informações inseridas pelos clubes sejam diferentes, o sistema detecta qual foi o erro de correlação. Não era assim antes. Também há um endereço eletrônico de contato de cada filiado da Fifa”, afirmou.

Com a celeridade do processamento da transferência, já é possível contratar um atleta cerca de meia hora antes do encerramento da janela da Fifa e concluir o seu registro – em 2011, a ida do zagueiro brasileiro David Luiz do Benfica para o inglês Chelsea (concorrente do Corinthians na disputa pelo Mundial de Clubes, no final do ano) constou no TMS somente dois minutos antes de o prazo decorrer. “A gente ainda não passou por isso no Corinthians. Geralmente, temos que correr para inscrever no Campeonato Brasileiro. O Ramírez foi um dos que só foram registrados na competição na noite do último dia, umas 19h30. Lembro que foi uma correria danada. A transferência do Peru para cá já estava no TMS, mas faltava uma documentação. Mandamos o motoboy sair correndo do Parque São Jorge para dar tempo”, contou o experiente Agenildo de Lima, que trabalha no mesmo departamento de Canada e já passou pela administração do rival Santos.

Já desacostumado à “adrenalina de tempos do futebol que não voltam mais” (ele gosta de narrar, saudosista, da época de diretor em que fugia de confrontos com torcida e flagrava jogadores em boates), Agenildo se surpreende com a agilidade proporcionada ao seu trabalho pelas novas tecnologias. “O TMS resolve os registros em minutos, como o Roberto demonstrou. O que demora é o envio do CTI [Certificado de Transferência Internacional], que cabe às federações. Existe uma secretária da presidência da Federação Argentina que me conhece e me ajuda. Mas, mesmo assim, é difícil. A gente precisa ficar correndo atrás deles. Lembro o caso do Acosta, que veio ao Corinthians antes da instituição do TMS. Eu ficava ligando para a Federação Uruguaia a cada 10 minutos. Era hola [“olá”, na tradução do espanhol para o português] para cá e para lá. No dia seguinte, o Corinthians ainda contratou um chileno [Cristian Suárez]. P..., rapaz. Fiquei doidinho”, sorriu o administrador.

Ainda hoje, contudo, a emissão do CTI é um problema. No monitor de um dos computadores do departamento de registro do Corinthians, o TMS apresentava a seguinte informação ao lado dos nomes do argentino Juan Manuel Martínez e do peruano José Paolo Guerrero, reforços para o ataque de Tite: “esperando recebimento do CTI”. Por causa da demora até o último dia de janela, Roberto Canada atendeu um telefonema de alguém preocupado com as condições de jogo da dupla. Ele acalmou: “Está tudo ok. Falta só as federações da Argentina e da Alemanha nos mandarem os certificados. Mas isso pode ocorrer até na semana que vem, pois já colocamos os dois no sistema. Eles estão dentro da janela. Está bom? E a janela só fecha para jogadores vindos do exterior. Do Brasil, ainda pode contratar. Abraço. Tchau, tchau”.

Djalma Vassão/Gazeta Press
O telefone do departamento de registro de jogadores do Corinthians toca com bastante frequência
Os telefones nas mesas do departamento de registro do Corinthians tocam constantemente. Do outro lado da linha, diretores de futebol, empresários e atletas procuram informações sobre a regularização de seus negócios. Mas, por incrível que pareça, os dois torcedores do Corinthians que trabalham no local garantem que não têm novidades em primeira mão sobre o clube. “Os dirigentes só passam para a gente quando o acordo está fechado. Não entendo como vaza na imprensa antes. Ficamos sabendo pela internet, pelos jornais”, disse Roberto. “O Ronaldo? Descobri que ele vinha para o Corinthians quando estava almoçando, pela televisão”, acrescentou Agenildo.

“Mas o importante é que a gente vem fazendo o nosso trabalho rapidinho, com tranquilidade. Veja só: o Zizao, que saiu do outro lado do mundo, foi mais fácil de registrar do que muito atleta de antigamente. Tinha um tradutor trabalhando com a gente, e íamos fazendo o que ele mandava”, rememorou Agenildo. Ao seu lado, Roberto retirou um bloco de papéis amarelos com o logotipo da Federação Paulista de Futebol (FPF) da gaveta de sua mesa e contrapôs: “Só que ainda existe esse tipo de coisa. Você acredita? Temos que colar foto 3x4, preencher os campos manualmente... Dá um trabalho!”. E havia mais contradição na sala. Poucos metros à frente do computador com acesso ao TMS, repousava uma antiga máquina de escrever – muito bem cuidada, aparentemente.

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