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Futebol/Mundial de Clubes - ( - Atualizado )

Fábio Luciano divide paixão entre clubes de massa e provoca Anelka

Helder Júnior São Paulo (SP)

Fábio Luciano já se sente carioca. Natural de Vinhedo, interior de São Paulo, o ex-jogador de Corinthians e Flamengo arrasta os erres ao falar em seu telefone celular e dificilmente completa duas frases sem pronunciar uma gíria. "O Rio é a minha casa, velho. Já me sinto como um local. Aonde vou, sou chamado de Capitão", contou o paulista.

Leia as entrevistas com os campeões de 2000:


A empatia de Fábio Luciano com o Rio de Janeiro começou há mais de uma década. Então um novato e promissor zagueiro do Corinthians, ele foi ao Maracanã para conquistar o Mundial de Clubes sobre o Vasco na noite de 14 de janeiro de 2000. "Esse título mudou toda a minha carreira. Foi depois disso que a Ponte Preta me negociou em definitivo com o Corinthians. Decolei até a Europa", sorriu.

Na Turquia, onde defendeu o Fenerbahce, Fábio Luciano ainda não se cansava de falar sobre o Mundial de Clubes. Pudera: o francês Nicolas Anelka, que enfrentou o Corinthians pelo Real Madrid, era seu companheiro de clube e precisou escutar as provocações do zagueiro brasileiro.

Hoje aposentado, com 34 anos, Fábio Luciano voltou a frequentar o Maracanã. Mas agora para torcer pelo Flamengo na companhia do filho Gianlucca. Embora reconheça que o seu vínculo com o clube carioca é mais forte, o Capitão disse à GE.net que ensinará o garoto a dividir a paixão com o Corinthians.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Fábio Luciano chegou ao Timão e ganhou o colete de titular às vésperas do Mundial

Fábio Luciano: A entrevista é sobre o Mundial de Clubes, né? Mermão, foi o título mais importante da minha vida!
Gazeta Esportiva.net: Mas algumas pessoas minimizam a importância desse torneio...
Fábio Luciano: Foi um campeonato organizado pela Fifa. Quem vai discordar da Fifa? Guardo até hoje a minha medalha com muito orgulho, e o logotipo da Fifa está gravado nela. O Mundial não foi uma brincadeira. Não é um título para qualquer um. O Corinthians participou na condição de campeão brasileiro e entrou para vencer. Aproveitamos a chance que nos foi concedida como representante do país anfitrião. Não houve outro Mundial na história que tenha reunido tantas equipes de qualidade, como Corinthians, Vasco, Manchester United...

GE.net: ... Real Madrid.
Fábio Luciano: Isso. A presença do Real Madrid, jogando tudo contra nós, prova o alto nível da competição. Aquele foi o adversário mais forte que uma equipe brasileira já enfrentou na história. Para você ter uma ideia, encontrei o Anelka depois, quando atuávamos no Fernerbahce, e sempre falávamos sobre o Mundial.

GE.net: Você provocava o Anelka?
Fábio Luciano: Eu não perdoava! Quem vence sempre quer dar risada em cima do derrotado, né? Enchi muito o saco do Anelka por causa do título mundial que conquistei pelo Corinthians. Ele nem se lembra direito de mim no jogo que disputamos em 2000, até porque eu era um garoto na época, mas isso não importa [risos].

GE.net: Falou para ele até do pênalti que o Dida defendeu no jogo entre Corinthians e Real Madrid?
Fábio Luciano: O Anelka é uma pessoa muito agradável e bacana. Andávamos juntos na Turquia e nos divertíamos bastante. Foi um período bom. E, apesar de o Corinthians ter sido campeão mundial, ele jogou muito contra nós. Perdeu um pênalti, mas marcou dois gols.

Divulgação
Quando estava no Fenerbahce, Fábio Luciano não perdoava o amigo Anelka das gozações

GE.net: Você disse que ainda era um garoto em 2000. Foi fácil se adaptar ao Corinthians no decorrer do Mundial?
Fábio Luciano: Cheguei ao clube um pouco antes desse campeonato. Firmei um contrato de seis meses, emprestado pela Ponte Preta. A princípio, eu nem jogaria o Mundial. Faria só uma adaptação, como um teste mesmo. Mas mostrei qualidade em dez dias de treinamentos e já ganhei um voto de confiança do professor Oswaldo de Oliveira. Sou muito agradecido a ele por ter me escalado como titular logo de cara.

GE.net: Não se sentiu pressionado?
Fábio Luciano: O Corinthians, por si só, já representa uma responsabilidade muito grande para um jogador. Claro que havia certa cobrança em cima de um garoto recém-chegado, mas não era exatamente uma pressão. Tanto é que joguei todas as partidas do Mundial e me saí muito bem. A torcida veio junto com o time, criou o grito "Todo-poderoso Timão". Quando acontece esse tipo de coisa, tudo fica mais fácil dentro de campo.

GE.net: Nem a falta de entrosamento com o João Carlos e o Adilson prejudicou o seu desempenho?
Fábio Luciano: Realmente, não houve tempo para entrosamento nenhum. Era na base do "vamo que vamo". Mas eu me dei muito bem com o João Carlos, que começou jogando ao meu lado porque o Adilson vinha de contusão. O João era um jogador de grande força física, o que casa com o meu estilo de jogo. Na decisão, quando ele se machucou, também não tive problemas em atuar com o Adílson, que me ajudou bastante com a experiência dele. Era um cara que já tinha sido campeão da Libertadores, pelo Grêmio.

Acervo/Gazeta Press
Quatro anos antes de ir para o Corinthians, o zagueiro já se impressionava com a Fiel

GE.net: Fora de campo, você também se adaptou rapidamente ao elenco?
Fábio Luciano: Todos me receberam muito bem: Marcelinho, Edílson, Vampeta, Rincón, Dida... O ambiente era ótimo. Aquele grupo do Corinthians foi um dos mais felizes em que já trabalhei. Sempre havia brincadeiras entre nós: no ônibus, nos vestiários, quando estávamos trocando de roupa, treinando... E, dentro de campo, a vontade de vencer superava tudo.

GE.net: Tudo o quê?
Fábio Luciano: Os desentendimentos, que são normais em qualquer lugar. Mas nunca presenciei briga nenhuma, sinceramente. As divergências de opinião são inevitáveis. Só que eu era muito jovem naquela época, havia acabado de chegar da Ponte Preta e não tinha que me intrometer em nada. Sempre fiquei na minha.

GE.net: Os jogadores mais renomados do Corinthians não costumavam deixar os novatos em paz...
Fábio Luciano: Não tinha muita encheção de saco comigo, pois sempre fui tranquilão. Mas lógico que eu entrava em algumas brincadeiras. O Edílson exigia que a gente o chamasse de "Patrão". Havia até castigo para quem desrespeitasse essa norma. Já o Rincón era um cara mais sério, que cobrava bastante todo mundo. Como eu não sou de criar polêmica com nada, conseguia ter um pouco de sossego.

GE.net: Mas você foi protagonista de uma polêmica logo na primeira partida do Mundial...
Fábio Luciano: [risos] Você está falando do gol em que a bola não entrou, contra o Raja Casablanca, né?

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Fábio Luciano marcou gol na estreia. Mas a rede não balançou contra o Raja Casablanca.

GE.net: Sim. Como você reagiu ao lance?
Fábio Luciano: Nem me lembro mais de como comemorei o gol, pois a emoção era muito grande na hora. O engraçado é que a bola não entrou mesmo [risos]. Isso repercutiu muito na época. As pessoas ainda falam sobre essa jogada e vão continuar falando para sempre. Mas é algo que faz parte do jogo. O importante foi o árbitro ter validado o gol. Fiz a torcida corintiana vibrar, no Morumbi lotado, logo na minha estreia. Vim de um time de menor expressão e comecei a conquistar o meu espaço no Corinthians a partir de então.

GE.net: Ficou impressionado com a torcida?
Fábio Luciano: Por morar no interior de São Paulo, eu já conhecia a força da torcida do Corinthians. Eles vão a todos os jogos, em qualquer lugar. Como a Ponte Preta também tem uma torcida atuante, reservadas as devidas proporções, eu me senti à vontade. Não houve momento de cobrança durante o Mundial. Só recebemos apoio. O Maracanã ficou dividido na final contra o Vasco.

GE.net: Como foi esse jogo?
Fábio Luciano: Foi truncado, pois quase todos os jogadores estavam cansados. Já eu me sentia cheio de energia para marcar aquele timaço do Vasco, com Romário, Edmundo, Viola, Donizete Pantera e uma molecada boa que estava começando. Consegui conter as investidas deles e dar a minha contribuição para que a final não tivesse tantas chances de gol.

GE.net: Marcar o Romário foi diferente?
Fábio Luciano: Era o meu quarto jogo contra o Romário. Eu sabia que ele poderia definir a final em qualquer lance, então me preparei para ficar bem atento. O interessante é que o Romário não fica provocando o adversário. Ele permanece quieto a ponto de você quase se esquecer da presença dele. Quando menos a gente espera, sai o gol. Felizmente, isso não aconteceu na decisão do Mundial.

GE.net: Você estava preparado para cobrar pênalti na decisão?
Fábio Luciano: Nem pensar. Eu não estava na lista de possíveis batedores nem quis treinar pênalti. Era muita responsabilidade para quem estava chegando ao clube. Contra o Palmeiras, na Libertadores de 2000, tudo bem. Eu já me sentia mais seguro para isso. Cobrei e acertei.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Já como capitão do Corinthians, Fábio Luciano voltou a encontrar o ex-vascaíno Romário

GE.net: Você foi para o Internacional no ano seguinte. Por quê?
Fábio Luciano: O Wanderley Luxemburgo me incluiu em uma lista de jogadores que não interessavam mais ao Corinthians. Tudo bem. Para mim, a mudança para o Internacional foi positiva, pois tive a oportunidade de conhecer outro grande clube do Brasil.

GE.net: Ficou chateado com o Luxemburgo?
Fábio Luciano: Não guardo mágoa de ninguém. Cada um faz as suas escolhas. O Luxemburgo tinha o direito de não querer contar comigo no time que ele estava montando.

GE.net: A derrota para o Palmeiras na Libertadores também não foi uma frustração?
Fábio Luciano: É claro que fiquei chateado. Mas falta pouco para o Corinthians ser campeão da Libertadores [em 2012, o clube conquistou o tão sonhado título]. Tínhamos um time pronto para isso em 2000. Infelizmente, perdemos nos pênaltis para o Palmeiras. Dez anos depois, o Corinthians se preparou novamente com eficiência para ficar com o título, trazendo grandes jogadores. Estou na torcida para que dê certo desta vez.

GE.net: Então você deixa o Flamengo de lado para torcer pelo Corinthians na Libertadores?
Fábio Luciano: Assim, você me complica [risos]. É difícil escolher entre Corinthians e Flamengo. Gosto muito dos dois. Torço para que ambos os times avancem na competição. Quando eles se cruzarem, decido na hora por qual torcer. Talvez eu acompanhe esse jogo como um torcedor neutro. [O confronto ocorreu nas oitavas de final da Libertadores de 2010. E deu Flamengo.]

GE.net: Acha que ficou mais marcado como jogador do Flamengo ou do Corinthians?
Fábio Luciano: Não sei responder. O Corinthians foi o clube que me abriu as portas no Mundial, mas dizem que a última impressão é a que fica. Hoje, estou completamente adaptado ao Rio de Janeiro e sou torcedor do Flamengo. As pessoas só me conhecem como "Capitão" aqui. A minha identificação com o clube é enorme. Mas o melhor time que eu defendi, com jogadores mais qualificados, foi aquele do Corinthians. Afirmo isso sempre, sem sombra de dúvida.

Divulgação/Vipcomm
A passagem pelo Flamengo foi marcante para o Capitão, que se engajou na política do clube

GE.net: E o Fenerbahce? É um clube que também tem uma torcida apaixonada...
Fábio Luciano: Sem fazer média com ninguém, não dá para comparar com os torcedores dos clubes brasileiros. Os turcos são loucos. O povo é totalmente fanático em tudo: na religião, na política, no esporte, na cultura... Os torcedores do Fenerbahce sentem uma paixão doentia pelo time. A vida deles é isso. Graças a Deus, pude corresponder às expectativas em Istambul. A minha família e eu recebemos um tratamento ótimo lá. Frequentamos os melhores restaurantes, tivemos os carros mais potentes e moramos nos lugares mais luxuosos. A torcida do Fenerbahce lembra de mim com carinho até hoje.

GE.net: Pelo visto, você gosta de jogar em times de massa.
Fábio Luciano: É isso aí, cara! Comecei na Ponte Preta, que tem uma torcida muito atuante em Campinas. Depois, passei por times como Corinthians, Fenerbahce e Flamengo. Sou um jogador que rende mais nesse clima de pressão. Tenho muito prazer em entrar em estádios lotados, em ver nego gritando, cantando, pulando... O Corinthians, graças a Deus, foi um clube que me proporcionou tudo isso.

GE.net: Sente saudades desse ambiente?
Fábio Luciano: A minha vida está bem tranquila. Decidi me aposentar para poder curtir a família, pois eu estava me distanciando muito dos meus filhos. A rotina do futebol é bem desgastante. Ainda assim, não me afastei completamente do esporte. Participei da campanha do Plínio Serpa Pinto à presidência do Flamengo, pois gostaria de contribuir com o clube de alguma forma. Agora, pode ser que eu monte um escritório para trabalhar com jogadores, como empresário. Comecei a pensar nisso, mas as coisas podem mudar.

Divulgação
O filho Gianlucca, hoje com 7 anos, vai aprender que "existe um grande clube em SP"

GE.net: Você parou de jogar meses antes de o Flamengo ser campeão brasileiro de 2009. Ficou arrependido por não ter alongado um pouco mais a carreira?
Fábio Luciano: Alguns sentimentos não fazem parte da minha vida. Sinceramente, não senti vontade nenhuma de estar dentro de campo. Escolhi me aposentar e não me arrependo disso. Fui ao Maracanã na condição de torcedor, para ver o Flamengo ser campeão ao lado do meu filho [Gianlucca, de 7 anos; a filha Isabela tem 3 anos]. Foi ótimo. Vibramos durante o jogo, festejamos muito depois e fomos para casa descansar. Como torcedores comuns.

GE.net: A família toda virou flamenguista?
Fábio Luciano: Meu filho já se parece com um daqueles flamenguistas fanáticos. Essa paixão é natural. Ele acompanhou o final da minha carreira, mora no Rio de Janeiro e acaba sendo influenciado pelos coleguinhas. Mas estou assumindo um compromisso neste exato momento de ensinar para ele que existe um grande clube em São Paulo, com uma torcida maravilhosa. O Gianlucca vai ficar dividido e gostar muito do Corinthians também, assim como eu.

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