Xadrez - ( - Atualizado )

Carlsen apoia protesto de Kasparov e se satisfaz como nº 1 discreto

André Sender São Paulo (SP)

Magnus Carlsen é o líder do ranking mundial de xadrez e pode ser considerado famoso na Noruega, seu país natal, mas em São Paulo caminha sem ser importunado. De calça jeans, camiseta branca e moletom cinza, cruza calmamente o salão do hotel em que ficou hospedado na cidade, e, antes mesmo de se sentar para a entrevista com a GE.net, corrige com um rápido movimento de mãos o posicionamento das peças de um tabuleiro colocado na mesa a sua frente.

O norueguês de 21 anos de idade começou a impressionar os amantes do xadrez quando ainda era uma criança – aos 13 anos derrotou o russo Anatoly Karpov e empatou com a lenda Garry Kasparov. Hoje é considerado o principal jogador de uma modalidade carente de ídolos, transformada pela possibilidade de treinos contra o computador e sem a mesma popularidade de décadas atrás.

Carlsen visitou a capital paulista na última semana para a disputa do Grand Slam de São Paulo, em que competiu com outras estrelas da modalidade, como o campeão mundial Viswanathan Anand. Foi a segunda passagem do norueguês pelo País, já que no ano anterior também disputou a competição paulistana e aproveitou a estadia na cidade para ir ao Estádio do Morumbi, onde assistiu ao jogo entre São Paulo e Flamengo, que marcou a reestreia do atacante Luis Fabiano com a camisa do clube paulista.

Durante a conversa com a GE.net, Carlsen manteve constantemente as mãos nas peças de xadrez a sua frente. Ele relembrou os principais momentos de sua carreira, revelou ser avesso aos holofotes, mas disse que os aceitaria para aumentar a popularidade do xadrez e demonstrou apoio a Kasparov, seu antigo adversário e técnico, preso na Rússia durante uma manifestação pela liberdade da banda Pussy Riot. Três integrantes da banda feminista de punk rock foram condenadas a dois anos de prisão por vandalismo e incitação ao ódio religioso por uma ação contra o presidente Vladimir Putin em uma catedral de Moscou, o que gerou uma série de protestos no país.

Cerca de uma semana após ser preso, Kasparov foi absolvido pela justiça russa pela participação no ocorrido.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Melhor jogador de xadrez do mundo, Magnus Carlsen jogou em São Paulo por dois anos consecutivos
Gazeta Esportiva.net: É a segunda vez que você vem a São Paulo, já conhece alguma coisa da cidade?
Magnus Carlsen: Eu só estive aqui na região do hotel, andei um pouco. Aqui tem muitos restaurantes italianos bons, o que para mim é ótimo, mas não pude explorar muito a cidade.

GE.net: Você também é um grande fã de futebol, tem algum time preferido no Brasil ou torce apenas pelo Real Madrid?
Magnus: Gosto de jogar e assistir. Não tenho nenhum time aqui no Brasil, acompanho pouco, mas no ano passado fui a alguns jogos. Quando estava no Rio de Janeiro antes de vir para cá, assisti a um Botafogo e Flamengo. Ronaldinho ainda estava jogando pelo Flamengo, então foi bom. E depois vim para São Paulo, coincidentemente fui a outro jogo do Flamengo, desta vez contra o São Paulo. Foi legal porque tinha uma torcida enorme e era o primeiro jogo na volta do Luis Fabiano.

GE.net: Falando sobre o seu começo no xadrez. Hoje você é o melhor do mundo, mas é verdade que começou a jogar para derrotar sua irmã mais velha?
Magnus: Sim, essa foi uma das razões. Mas eu simplesmente gostava do jogo. Em algum ponto da minha vida, achei que era interessante e comecei a jogar.

GE.net: E quando foi que você decidiu que isso poderia se tornar sua profissão?
Magnus: 
Realmente não sei. Até os meus 16 ou 17 anos de idade, estava pensando em ir para a faculdade e ser um jogador semiprofissional. Mas aí meus resultados no xadrez começaram a ficar muito bons e eu também me enchi da escola, então virar profissional foi uma escolha natural.

GE.net: Quando você era criança, a maioria dos seus colegas estava dando duro para fazer a lição de casa e você já jogava partidas simultâneas de xadrez contra adultos e os vencia. Como foi sua infância?
Magnus: 
Eu viajava bastante para torneios durante o ensino fundamental e o médio. Mas quando estava em casa, saia para jogar futebol com meus amigos, ou estudava xadrez. Se era inverno, ia esquiar. Foi uma época bem divertida com meus amigos, jogando xadrez. A única coisa que não era muito divertido era fazer a lição de casa, mas não tive nenhum problema

GE.net: E como as outras crianças reagiam com um prodígio do xadrez na escola?
Magnus: 
Meus amigos achavam realmente legal, outras pessoas que não são meus amigos talvez não pensassem o mesmo. Mas creio que no geral a maioria das pessoas achava legal que eu fizesse isso.

GE.net: Algumas escolas de ensino fundamental em São Paulo têm aulas de xadrez. O que você acha desta ideia? O que as crianças podem aprender com aulas como essas?
Magnus: 
Acho que com as aulas de xadrez você pode melhorar coisas como pensamento analítico, concentração, foco, aprender a resolver problemas no tempo. É útil. Acho que o principal não é criar necessariamente um monte de bons jogadores de xadrez, mas ser útil para outras coisas.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Norueguês ainda tinha idade para brincar com amigos quando virou estrela internacional do xadrez

GE.net: Dos enxadristas que participaram do Grand Slam de São Paulo, apenas o indiano Viswanathan Anand tem mais do que 30 anos de idade. Você tem 21, o italiano Fabiano Caruana tem 20 e o russo Sergey Karjakin tem 22. O que explica essa média de idade baixa? 
Magnus: Acho que o xadrez está ficando mais jovem. A informação está muito mais acessível, então você pode aprender muito sobre o jogo mesmo sendo novo. Pode ter um pouco de coincidência também ter tantos jogadores tão jovens jogando aqui, e eu nem sou o mais novo (risos). Mas acho que não tem tanto a ver com a idade, são todos oponentes fortes.

GE.net: Quando era mais jovem você jogava no computador?
Magnus: 
Eu jogo uma vez ou outra, mas não jogava tanto quando era jovem. Quando era mais novo, preferia me sentar na frente do tabuleiro de xadrez, jogar torneios. Algumas vezes jogo online com outras pessoas, mas não muito.

GE.net: A sua geração de jogadores é a primeira que pode treinar contra computadores, você acha que isso ajuda? O que muda em comparação a enxadristas de décadas anteriores, como Bobby Fischer e Garry Kasparov, que não podiam fazer isso?
Magnus: 
Ajuda no sentido que você pode pegar informação mais facilmente, mas ao mesmo tempo acho que grande parte do meu desenvolvimento e entendimento do xadrez não foi com o computador. Foi jogando torneios, analisando o meu jogo e de outros, e acho que neste sentido eu tenho um feeling melhor sobre o jogo e seu entendimento do que outros enxadristas jovens que só jogam no computador. Para mim, a parte principal é que você pega informação mais facilmente, há uma base de dados de jogos. Posso achar todos as partidas de meus oponentes ou qualquer outro jogador, mas ainda acho melhor sentar e jogar no tabuleiro. Principalmente se você for jovem, fazer muitas partidas ajuda. O modo antigo não deve ser subestimado.

GE.net: Como é sua rotina de treinamentos?
Magnus: 
Eu não tenho muito uma rotina de treinos. Preciso estar com a mente aberta, ter ideias novas, então trabalho quando estou inspirado. Algumas vezes eu treino de sete a oito horas por dia, principalmente quando estou em campings de treinamento com outros jogadores. Trabalhamos obviamente o tempo todo.

GE.net: Você tem um técnico ou treina sozinho?
Magnus: 
Eu tive técnicos no passado, mas agora estou trabalhando sozinho. Para mim, é mais fácil tomar minhas próprias decisões e não ter pessoas me direcionando para algum lado. Eu ainda pergunto para as pessoas que sabem de xadrez suas opiniões e posso voltar a ter um técnico, mas não agora.

GE.net: Quando você tinha 13 anos de idade, em 2004, chamou a atenção ao vencer Anatoly Karpov e empatar com Garry Kasparov. Você lembra como encarou esses resultados naquela época?
Magnus: 
Acho que derrotar Karpov não foi nada especial na época, digo, ele já estava um pouco velho, mas fiquei muito orgulhoso de meu jogo com Kasparov, embora eu tenha tido chances de vencer. Foi um bom jogo, uma boa disputa. Aquilo foi enorme. Meu jogo contra Karpov não foi bom, fui pior do que em outras partidas. Mas contra Kasparov foi realmente imenso para mim na época. Muito, muito especial.

GE.net: Há um momento deste jogo contra Kasparov em que você simplesmente se levanta da cadeira enquanto ele pensa em uma jogada. Você estava tentando desestabilizá-lo?
Magnus: 
Foi no começo do jogo. Era uma posição que eu já tinha visto muitas vezes antes e não entendi como ele estava demorando tanto para fazer a jogada porque já devia ter visto aquela situação em muitos outros jogos. Para uma criança, levantar depois de um tempo parece ser a coisa mais normal a se fazer.

GE.net: No final da partida, ele simplesmente cumprimenta você, se levanta e vai embora. Sentiu que ele ficou um pouco nervoso por empatar com um garoto de 13 anos?
Magnus:
Se eu estivesse jogando contra alguém de 13 anos de idade, também não ficaria completamente feliz com o empate. Posso entender aquilo.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Astro do xadrez internacional começou a jogar para derrotar a irmã mais velha
GE.net: Depois o Kasparov passou a ser uma espécie de tutor, ajudando você a desenvolver seu jogo...
Magnus: 
Eu tive uma temporada de treinamentos com ele em 2005, não funcionou muito bem então paramos. Mas depois ele me treinou em 2009. Ele foi uma grande ajuda para mim, compartilhando seu conhecimento do jogo, os movimentos de abertura, seu entendimento das posições no meio da partida. Mas também em questões psicológicas sobre meus oponentes, porque na época meus adversários eram os mesmos caras que ele havia enfrentado nos últimos 15 anos. Ele realmente podia me ajudar e foi crucial nesse sentido

GE.net: O que você acha que mais aprendeu com ele?
Magnus: 
Acho que a grande contribuição foi entender as dinâmicas do xadrez, decifrar posições em que não há muitas coisas acontecendo e não há muitos caminhos claros a seguir.

GE.net: Vocês ainda mantêm contato?
Magnus: 
Não muito. Quer dizer, eu o encontrei em Londres no ano passado e nós conversamos um pouco, mas coisas deste tipo.

GE.net: Há pouco tempo ele foi preso na Rússia em um protesto de apoio ao Pussy Riot. Você viu as notícias? Acha que pode ser ruim para a imagem dele, seu legado?
Magnus: 
Acho que ele realmente acredita em mudar a Rússia. Até onde sei, ele foi preso em uma manifestação e acho bom o que ele está fazendo, lutando pelo que acredita. Ele é uma pessoa que não tolera injustiça.

GE.net: Na época do Kasparov e ainda antes dele, o xadrez era mais popular. Os confrontos entre Estados Unidos e União Soviética, no contexto da Guerra Fria, repercutiam no mundo inteiro. Por que você acha que a modalidade perdeu popularidade nos últimos anos?
Magnus:
Nos anos 70 tinha a questão do Bobby Fischer, a Guerra Fria, não havia tanta coisa acontecendo, então era mais fácil inserir o xadrez na mídia. Hoje não é tão simples assim, mas espero que as coisas mudem.

GE.net: Há quem diga que você tem o talento para fazer isso...
Magnus:
Não penso muito sobre isso. Só gosto de fazer o que faço melhor, sabe. Não penso muito sobre isso

GE.net: Atletas como Lionel Messi (futebol), Roger Federer (tênis), LeBron James (basquete), Michael Phelps (natação), melhores do mundo em seus esportes, são famosos no mundo inteiro. Como é ser o número 1 do mundo no xadrez?
Magnus:
Não é a mesma coisa que esses caras, com certeza. Na Noruega, as pessoas me reconhecem, mas não diria que sou uma celebridade. Mas não esperava que as pessoas me reconhecessem na rua em outros países.

GE.net: E você gostaria que te reconhecessem?
Magnus: 
Não é uma grande coisa para mim, mas acho que para o xadrez, como esporte, seria útil.

GE.net: Estrelas do esporte geralmente estão associadas a carros esportivos, namoros com modelos, grandes festas. Você segue essa mesma linha de comportamento?
Magnus:
(Risos) Não sou muito disso, eu gosto de sair com meus amigos às vezes quando estou na Noruega, mas sou mais reservado.

AFP
Kasparov foi preso em protesto de apoio à banda Pussy Riot, mas liberado uma semana depois

GE.net: Muitos dizem “o Messi é um gênio”, “o Federer é um gênio”, “o LeBron é um gênio”. Eles têm o pensamento mais apurado em relação aos adversários, mas também levam vantagem em alguma questão física. Já um enxadrista como você é um gênio apenas no aspecto mental, difere de outros esportes...
Magnus:
Eu não me considero um gênio, penso que sou muito bom no que faço e é isso. Não sei se você poderia dizer que Messi tem alguma vantagem física por ser pequeno, ele tem muita habilidade. LeBron tem a altura e é tremendamente atlético, mas há muitas outras pessoas com isso também, ele tem a habilidade que o separa de outros e também a questão mental.

GE.net: Os outros jogadores de xadrez, como os que estão aqui, são seus amigos? Vocês saem juntos em viagens?  
Magnus:
Eu não diria que somos amigos, somos colegas. Nós conseguimos ter conversas normais e coisas assim, não há nenhuma animosidade particular.

GE.net: Você jogará o próximo Campeonato Mundial? 
Magnus: Terá uma preliminar em Londres no ano que vem e provavelmente jogarei se não acontecer algo inesperado.

GE.net: Mesmo como líder do ranking mundial, você não jogou a última edição do Mundial. Por que ficou fora?
Magnus:
Eu tive diferentes razões, mas vamos manter que vou jogar desta vez, prefiro não mexer no passado.

GE.net: Você decidiu participar do próximo Mundial após receber orientações de alguém? Seus patrocinadores falaram alguma coisa?
Magnus:
As pessoas me aconselharam, mas a decisão final foi minha. Não é que eu não quisesse jogar o Mundial,  simplesmente acho que as condições precisam ser justas. Acho que desta vez estão mais justas, pelo menos até onde eu ouvi. Muitas pessoas têm opiniões sobre o que eu devo fazer ou não, mas no final das contas sou eu que preciso tomar conta de mim.

GE.net: Hoje você tem 21 anos, é o melhor enxadrista do mundo, viajou para diversos países, agora está no Brasil. Você sente falta de alguma coisa da época em que eram só você e sua irmã jogando?
Magnus:
A coisa que eu sinto falta é que não é mais tão divertido sentar e jogar de brincadeira com estranhos. Não é mais tão interessante da perspectiva esportiva, então não faço mais com tanta frequência.

GE.net: E você planeja por quanto tempo vai seguir profissionalmente?
Magnus:
Vou seguir enquanto tiver motivação. Hoje, não preciso ter nenhuma meta no xadrez. Tem sido motivação suficiente vir a torneios, tentar fazer meu melhor e me divertir no jogo. Quando não tiver motivação, não será tão fácil de continuar, mas enquanto ela estiver lá, continuarei. Não sei por quanto tempo, isso pode acontecer em cinco anos ou 25 anos. Por enquanto vou apenas jogar xadrez, não dá para saber o que acontecerá no futuro.

Brasileiro Mequinho foi top-3 em 1978
Montagem sobre fotos Acervo/Gazeta Press Em seus tempos áureos, o enxadrista brasileiro Mequinho enfrentou o adversário soviético Boris Spassky

Hoje longe das primeiras colocações do ranking mundial da Federação Internacional de Xadrez (Fide), Henrique da Costa Mecking, mais conhecido como Mequinho, chegou a ocupar o terceiro lugar da lista em 1978. Na época, apenas os russos Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi estavam à frente do brasileiro.

Com conquistas significativas, a exemplo dos Interzonais de Petrópolis (1973) e Manila (1976), Mequinho, primeiro grande mestre do Brasil, ganhou fama nacional. No entanto, foi obrigado a interromper sua promissora carreira justamente no auge, quando teve diagnosticada a miastenia grave, doença que afeta os músculos.

Afastado do xadrez competitivo, Mequinho se apegou à religião – chegou a estudar teologia e filosofia. O brasileiro, radicado no interior paulista, retomou a carreira, mas nunca conseguiu o mesmo destaque. Aos 60 anos, é o terceiro melhor representante do País no ranking mundial, aparecendo no 212º posto entre os jogadores ativos.

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