Nem adianta pedir. Totalmente avesso a entrevistas, o goleiro Dida, que completa 39 anos neste domingo - dia sem rodada do Campeonato Brasileiro - só conversa com a imprensa durante os jogos da Portuguesa, clube que escolheu para dar sequência à carreira após dois anos parado. O ‘homem de gelo’ dos tempos de Corinthians aos poucos se torna ídolo de um novo clube, mas sem deixar de lado o jeitão reservado.
Além da rejeição à mídia, Dida difere dos craques atuais pelo comportamento dentro e fora de campo. No dia em que um dos jogadores mais importantes do País faz aniversário, a GazetaEsportiva.net procurou desvendar os mistérios do arqueiro com quem o conhece, trabalha e vive dia a dia ao seu lado, auxiliando e aprendendo na nova fase de um atleta que poderia simplesmente não querer mais jogar futebol.
Campeão mundial pelo Corinthians e pelo Milan, campeão brasileiro e italiano, campeão da Libertadores, bicampeão da Champions League, bicampeão da Copa América pela Seleção Brasileira e pentacampeão do mundo em 2002, além de participações em três edições diferentes da Copa do Mundo. Mesmo com o currículo recheado de conquistas, o baiano simples é o primeiro a chegar e último a sair dos treinos da Lusa.
“Na realidade, o Dida não precisaria estar aqui, porque ele é rico, pentacampeão mundial, vencedor em tudo na vida e o cacete. Mas ele treina como um garoto, sua como um desgraçado, está provando para ele mesmo que pode dar sequência a uma carreira que se perdeu por dois anos”, explica Geninho, seu atual treinador e ex-goleiro profissional.
A já citada trajetória vencedora não impediu que o Milan recusasse a renovação de seu contrato em julho de 2010, após oito temporadas de conquistas. Disposto a seguir na Europa, Dida não aceitou as boas propostas que recebeu de locais periféricos do futebol mundial, como Uzbequistão, Japão, Catar e até mesmo do Brasil. Foram necessários dois anos e uma negociação intermediada por um amigo pessoal para que o goleiro aceitasse o retorno.
“Ele vinha recuperando a forma em uma academia, chegou também a disputar um torneio de futebol de areia e, por isso, decidimos avaliar com seriedade a contratação dele. Tivemos duas ou três reuniões, no máximo, para bater o martelo em uma conversa que chegamos até a dar por encerrada. Poucos jogadores mobilizariam o tanto de mídia, de atenção mundial como ele fez”, relatou o gerente de futebol do clube rubro-verde, Candinho, responsável pela intermediação do negócio e satisfeito pela visibilidade internacional que o clube passou a ter pela contratação.
Apresentado oficialmente no dia 25 de maio, Dida passou aos cuidados do preparador de goleiros da Portuguesa, Alex Gregório, que, no início, não foi tão otimista quanto a sua preparação. “Dois anos parado era uma coisa grande, significativa, tínhamos que tratar da parte física, fisiológica e técnica para não causar nenhum tipo de lesão ou estresse muscular. Era preciso tomar cuidado”, disse, à revista da Lusa. Após 29 dias de preparação, o goleiro novamente sentia o calor de um jogo de futebol.
Capitão da Lusa, Dida foi escolhido para estrear logo em clássico contra o São Paulo, um de seus rivais preferidos. Em 1999, o então goleiro do Corinthians foi responsável por defender duas cobranças de pênalti de Raí para colocar o Timão nas semifinais do Campeonato Brasileiro. Depois de 13 anos, teve atuação segura e participou da vitória lusitana por 1 a 0 sobre o Tricolor, que até demitiu o técnico Emerson Leão após o confronto.
“Ele realmente teve uma estreia muito positiva, soube falar com os jogadores de defesa e isso é incrível. Além da qualidade técnica indiscutível, do preparo para entrar em campo, ele teve personalidade forte o suficiente para dar conta do recado. E está dando. Ele é parte importante da campanha saudável que a Portuguesa tem feito nesse Campeonato Brasileiro”, reflete novamente Geninho, feliz com a possibilidade de não brigar contra o rebaixamento.
Outro fator indiscutível na conduta de Dida é a timidez. “Não posso falar não, cara”, foram as palavras do goleiro, agora com 39 anos, sobre a possibilidade de uma entrevista. O atual treinador resume seu jeito: “Ele é um lobão solitário no dia a dia, temos que espremer para conseguir um bom dia”. Apesar disso, Gregório pensa o contrário: “O Dida não tem problemas de relacionamento. É só entender o lado dele e pronto”.
Durante os treinamentos da Portuguesa, Dida pouco olha para os lados. Concentrado nas atividades programadas pela comissão técnica, ele só brinca com Gledson, Tom e Rodrigo Calaça, companheiros de posição, além de Bruno Mineiro e Diego Viana, seu colega de quarto nas concentrações. Esforçado, cumpre à risca todo o planejamento necessário para que um jogador não sinta o peso dos 39 anos de idade e siga encantando, senão um País, uma legião de fãs.
Futuro no Canindé? Os próximos passos da carreira de Dida ainda não foram decididos. O contrato com a Portuguesa é válido até dezembro deste ano e o clube tem interesse na renovação por mais uma temporada. Apesar disso, o goleiro só quer tocar no assunto após o encerramento da Série A. A possível aproximação de outros clubes – até o Palmeiras foi citado – e a obrigação da Lusa em disputar a Série A2 do Paulistão em 2013, seriam responsáveis pelo indireto afastamento do camisa 1 do Canindé.
