Futebol/Entrevista - ( - Atualizado )

Mustafá minimiza queda e não a vê como seu pior momento no Palmeiras

Thiago Bastos Ferri, especial para a GE.Net São Paulo (SP)

Em 17 de novembro de 2002, a derrota para o Vitória, no Barradão, selou a queda do Palmeiras à Série B do Campeonato Brasileiro. Além do elenco que conquistou apenas a 24ª melhor campanha daquela liga nacional, Mustafá Contursi, então presidente do clube, foi escolhido pelos torcedores como um dos principais responsáveis naquele descenso, em que o Verdão usou 30 jogadores durante 25 rodadas, sob o comando de cinco treinadores diferentes.

Mustafá atualmente é membro do Conselho de Orientação e Fiscalização (COF) no clube, e tem ainda importante força na política alviverde. Relembrando o caso, o palmeirense não excluiu sua responsabilidade, sem deixar de lamentar o campeonato de tiro curto, e a consequente falta de tempo para recuperação. Aquele ano foi o último Brasileiro disputado com um turno único e mata-mata apenas para os oito mais bem classificados.

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Apesar do sentimento doído dos torcedores quando lembram de 2002, o então mandatário não vê o incidente, que completa dez anos neste sábado, como seu pior momento no clube. “(A queda) Foi nas condições de jogo. Pior foi a virada para o Vasco, no Palestra Itália (pela Copa Mercosul em 2000), que parece que a soberba tomou conta do elenco, depois de abrir 3 a 0, diante de um rival poderoso, com Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Romário e companhia tomou a virada”, declarou, em entrevista à GazetaEsportiva.net, o presidente do Verdão entre 1993 e início de 2005.

Acervo/Gazeta Press
Ex-presidente, Mustafá prefere se orgulhar do acesso com título da Série B, do que lamentar a degola no ano anterior
Ao falar da fracassada campanha, o ex-dirigente tenta tratar a ida para a Série B com naturalidade e calma, sem deixar de cutucar o atual momento alviverde, que está mais uma vez próximo de disputar a divisão de acesso do futebol nacional. “Jogamos o que devia jogar, fomos rebaixados em um torneio em que quatro caíam. Em um de dois turnos, dificilmente um clube de camisa é rebaixado, a própria torcida garante. Voltamos em um torneio mais difícil, porque só subiam dois, e foi um orgulho, para mim, ter levado o Palmeiras de volta e com tanta glória”, acrescentou.

O primeiro treinador naquela campanha foi Vanderlei Luxemburgo, que após remodelar o grupo a seu gosto, acertou a saída para o Cruzeiro, logo depois da rodada inicial do Brasileiro. O fato deixou Mustafá incomodado, por sua política de evitar a troca de treinadores. “Isso complicou, pois o Luxemburgo mudou o meio-campo, dispensou três volantes, queria um time menos marcador. Aí no meio do caminho, ele teve uma decisão de sair para o Cruzeiro, foi sua escolha e é direito dele. Continuamos nosso trabalho, veio o Murtosa e não consolidou. Depois chegou o Levir Culpi, que era um técnico de sucesso, mas também não deu certo”, lamentou o dirigente.

Um dos membros daquela campanha e também bastante criticado, mas por suas falhas em jogos decisivos, o zagueiro Alexandre revelou à reportagem da GE.net que um dirigente havia pedido ao time calma, porque o Palmeiras não cairia, supondo uma virada de mesa nos bastidores. A atitude, porém, não passou pela cabeça do então presidente, apesar dos rumores de que esta era uma possibilidade cogitada dentro do Palestra Itália. “Fui muito pressionado para tentar, inclusive politicamente, mas jamais iria admitir tirar a disputa para fora do campo”, alegou.

Acervo/Gazeta Press
Mustafá comandou o Palmeiras entre 93 e 2005
Mesmo com a “valorosa” equipe que Mustafá considera ter montado, a campanha nunca animou a torcida palmeirense, que sofreu durante todo aquele Brasileirão. Entre os jogadores de 2002, a dificuldade em cobrar aqueles que ainda não tinham jogado em um time grande foi considerada um problema, não contornado até aquela última partida com o Rubro-negro baiano. Diante da proximidade do rebaixamento, Mustafá até se aproximou da comissão técnica, mas ainda era visto como uma figura ausente entre o elenco alviverde. A distância, para ele, aconteceu por uma questão de hierarquia.

“Presidente é feito para administrar o clube, não é para ter relações com o elenco. É uma escala de hierarquia, tem que ser obedecida. O dirigente não tem que ficar paparicando, ou intervindo. Respondia pela minha, que era administrar o clube, promover os pagamentos pontualmente, aumentar o patrimônio e representar o clube. Lugar de presidente não é no vestiário”, afirmou o ex-dirigente, que contava com Affonso Della Mônica, então vice de futebol, como figura de confiança no elenco.

Passado o turbilhão do rebaixamento, o time palmeirense foi reformulado no início de 2003, também pela chegada de Jair Picerni, o qual se destacara no início dos anos 2000 à frente do São Caetano. O início, contudo, não foi fácil: primeiro, eliminado na semifinal do Paulista para o arquirrival Corinthians e, em seguida, nas oitavas de final da Copa do Brasil de forma vexatória para o Vitória (após rebaixar o time no ano anterior, a equipe baiana fez 7 a 2 no Palestra Itália e reinstalou a crise no campeão da Libertadores de 1999).

Depois de novas mexidas no time e aposta em jovens como Vágner Love e Edmílson, no Brasileirão, a equipe dominou e terminou na liderança em todas as fases daquela competição. “Voltou no campo, com o dobro de pontos para o segundo colocado (o Botafogo, já no quadrangular final) e com o dever cumprido, respeitando as regras do jogo”, comemorou. Ainda assim, Mustafá considera que o feito é pouco lembrado por seus rivais dentro do clube.

“Não acho que sou injustiçado, é uma estratégia dos covardes para esconder seus fracassos. Um determinado momento de desentrosamento está sendo aproveitado até hoje para esquecer os fracassos daqueles que gastaram quase um bilhão em oito anos. Foram R$ 936 milhões investidos no futebol e não houve retorno. Os covardes se escondem atrás de um fato isolado”, encerrou.

Acervo/Gazeta Press
Torcida protesta contra Mustafá no jogo com a Ponte, em 2002: situação com palmeirenses deteriorou com a degola

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