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Futebol/Mundial de Clubes - ( - Atualizado )

“Traído” em 2000, ex-tricolor Nenê expõe fama de Émi em bar japonês

Helder Júnior São Paulo (SP)

Nenê não hesitou quando ouviu o pedido do fotógrafo da Gazeta Esportiva.net. Em gestos rápidos, ele levou o escudo da camisa do Corinthians que vestia à boca, fez um bico com os lábios e estalou um sonoro beijo. “Faço isso com o maior prazer”, afirmou, sorrindo, o ex-zagueiro que foi companheiro do atacante Emerson no Urawa Reds, do Japão. Ou de “Émi”, conforme a torcida japonesa apelidou o Sheik.

A dúvida se Nenê beijaria ou não a camisa existia em virtude das revelações feitas por ele nesta longa entrevista exclusiva, parte de uma série especial sobre a passagem de Emerson pelo Japão. Apesar de ter sido campeão brasileiro pelo Corinthians em 1999, o ex-jogador sempre guardou escondida a sua paixão pelo São Paulo – clube que revelou o Sheik naquele mesmo ano. Quando garoto, chegou a fazer um teste para ser integrado às categorias de base do time do Morumbi. Ainda havia frequentado o Pacaembu especialmente para assistir ao meio-campista Pita, ídolo do seu pai. Nas horas vagas, acostumou-se a passar diante do centro de treinamento são-paulino apenas para admirar Raí, Müller, Cafu e Leonardo.

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O clube que marcou a carreira de Nenê, no entanto, foi outro. O ex-defensor é eternamente grato ao Corinthians por ter lhe tirado do convívio dos “playboyzinhos” do Sporting, de Portugal, para formar dupla de zaga com o paraguaio Gamarra – com quem “não trocava nem ideia”. Os “rolês” noturnos com os colegas de equipe mais famosos e até as brigas (como aquela em que Gilmar Fubá desferiu um soco na cara de Mirandinha) tornaram a passagem pelo Parque São Jorge inesquecível. Nem mesmo uma grande frustração no princípio de 2000 destruiu o carinho nutrido pelo maior rival do São Paulo.

Djalma Vassão/Gazeta Press
São-paulino na infância, ex-zagueiro Nenê não fez cerimônia para dar este beijo na camisa do Corinthians
A presença de Nenê no Mundial de Clubes conquistado pelo Corinthians naquela temporada era praticamente certa. Segundo ele, que se recuperava de contusão na época, uma “trairagem” impediu a participação no torneio realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro. O então jovem Fábio Luciano e o já veterano Adilson (que seria técnico corintiano anos depois) foram contratados para a sua posição às vésperas da estreia. Como a Fifa obrigava a inscrição de três goleiros na competição, o “inexperiente” técnico Oswaldo de Oliveira preteriu Nenê para contar com o prata da casa Yamada no grupo campeão.

Mais de 12 anos depois, Nenê espera um novo sucesso do Corinthians em um Mundial da Fifa. Hoje técnico da equipe sub-20 do Grêmio Osasco, o ex-tricolor aposta justamente no poder de decisão de um amigo que fez no Japão para comemorar o bicampeonato do torneio como torcedor: Émi Sheik, o mesmo jogador que lhe ensinou os caminhos para os bares asiáticos quando ambos estavam no Urawa Reds.

Gazeta Esportiva.net: Quer dizer que você jogou com o Emerson no Japão?
Nenê: Com o Emerson, não (risos).

GE.net: Como não?
Nenê: Joguei com o Émi. Era assim que o pessoal chamava o Emerson lá.

GE.net: Ele gostava do apelido?
Nenê: Aparentemente, não ligava. Mas não sei. Você sabe como é o Emerson... Lembro que havia até uma musiquinha da torcida do Urawa para ele: “Émi-gol! Émi-gol! Émi-gol!”. Era alguma coisa mais ou menos assim.

Reprodução
Nenê não tinha o mesmo destaque de Emerson, mas também foi capa de revista do Urawa Reds
GE.net: Os japoneses também compuseram uma música para você?
Nenê: Que nada (risos). Essas coisas são para os caras que fazem gols, e não para os zagueiros. Mesmo assim, a grandeza da torcida do Urawa Reds é uma sacanagem. Os caras incentivam à beça. Em termos de loucura, não dá para comparar com os corintianos. Mas os japoneses são tão fiéis quanto. Só não rola muito aquele agito dos brasileiros: “Timão, ê, ô! Timão, ê, ô!”. O grito deles é mais sério: “U-ra-wa! U-ra-wa!”.

GE.net: A torcida do Urawa Reds apoiará o Corinthians no Mundial de Clubes de dezembro por causa do Emerson?
Nenê: Se o Corinthians fizer algum marketing em cima do jogador, quem sabe? Mas talvez seja exagero dizer isso.

GE.net: Por quê? Os japoneses já se esqueceram do Émi?
Nenê: Imagina... Os caras se lembram bastante dele. O Emerson é muito famoso em um bar de Urawa, reduto de torcedores dos Reds. Se você for até lá, verá que o pessoal ainda fala muito bem dele. É um tal de “Émi” para cá e “Émi” para lá. Sem brincadeira. Eles ainda gritam: “Émi-gol! Émi-gol! Émi-gol!”. O Sheik tem muita moral no bar.

GE.net: A moral dele no bar japonês é só por causa do futebol? Ou ele também aprontava por lá?
Nenê: Agora, você me pegou.

GE.net: Perguntei porque o Emerson gosta de aprontar por aqui. Quando jogou no Japão, ele ainda era jovem...
Nenê: Sei, sei (risos).

GE.net: Ouvi dizer que ele era avesso aos treinamentos no Urawa.
Nenê: Tipo assim: ele se preparava para o jogo da maneira dele. O Emerson treinava finalizações e fazia a recuperação física para as próximas rodadas. E só. Era uma preparação do jeito dele.

GE.net: Ele deixava para mostrar serviço nos jogos, certo?
Nenê: O cara era f...! Tinha uma explosão enorme. O Emerson ainda é rápido hoje em dia. Imagine naquela época. Ele marcava gols em todas as partidas praticamente.

GE.net: Já era provocador também?
Nenê: Muito. Ele chegava junto e não deixava barato nas divididas com os japoneses. Xingava, colocava o braço na maldade... O cara sempre foi bom e malandro.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Conduzido a bares por Emerson, ex-zagueiro enfrentou terremoto e derrame do pai do outro lado do mundo
GE.net: Você já estava no Urawa quando o Emerson agrediu um adversário, foi expulso e recusou-se a prestar esclarecimento após a partida?
Nenê: Eu me lembro disso, sim. O Emerson teve que pedir desculpas depois do jogo, mas não queria ir de jeito nenhum. Ele disse: “Não vou sair do ônibus para ir até lá nem f...! Não vou me desculpar com o cara!”. E o nosso intérprete tinha que traduzir aquilo para os japoneses! Depois de muita insistência, conseguiram convencer o Emerson a se pronunciar.

GE.net: Pelo visto, o Emerson teve facilidade para chamar a atenção fora e dentro de campo no Japão. Como era para os zagueiros?
Nenê: As pessoas pensam que é fácil jogar lá, mas estão erradas. O futebol japonês é muito mais corrido, sem a cadência do Brasil. Eu mesmo me impressionei quando me transferi.

GE.net: Como você foi parar no Japão?
Nenê: Eu estava no Vitória na época, de 2003 para 2004, e o clube recebeu a visita de uns japoneses. Eles queriam observar o Adaílton, que jogou no Santos depois. Mas o Adaílton foi muito mal no jogo seguinte, e eu me destaquei. Gostaram de mim. Surgiu a oportunidade de sair para o Japão, e eu falei: “Vou embora daqui”. Com 29 anos, era a chance que eu tinha de conhecer o mercado asiático.

GE.net: Gostou do que conheceu?
Nenê: A adaptação foi complicada. Tudo é diferente no Japão. Quando cheguei, ficava em um hotel pequenininho e não conseguia me distrair nem com a televisão. Não dava para entender os programas. Pensei: “Meu Deus. É isso mesmo que quero para mim?”. A princípio, ainda passei dois meses sozinho, sem a companhia da minha família. Até para comer era complicado no começo. Tinha muito daquele arroz sem tempero, todo grudado. Hoje em dia, consigo gostar dessas coisas. Mas, quando havia acabado de chegar lá, eu só encarava macarrão. O yakissoba descia bonito, velho. Também me virava com uma loja que vendia bolachas, sucos, essas besteiras, embaixo do meu hotel. Com fome, você enche a barriga com o que der.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Apesar de hoje preferir o Corinthians, Nenê confessou que tinha o sonho de jogar no São Paulo
GE.net: Quando você começou a se adaptar à vida no Japão?
Nenê: Quando o Emerson chegou até mim e falou: “Vamos dar uma volta”. Ele me levou para um bar brasileiro gostoso, que ficava em Tóquio.

GE.net: Outro bar?
Nenê: É... (risos). O Emerson também me deu uns toques sobre a cidade e até sobre como dirigir lá. É difícil pegar a noção de guiar do lado direito do carro. Com o tempo, fui criando coragem para ir a lugares mais afastados e deslanchei. Não aguentava mais ficar preso no hotel.

GE.net: Não tinha GPS na época?
Nenê: Tinha, mas era em japonês. Até havia uma versão em inglês, mas também não manjo. Antes de eu aprender como se fala direita e esquerda na língua deles, o GPS foi inútil. Só que a gente se adapta a tudo. Quando a minha mulher e os meus filhos chegaram, ficou mais fácil. Ela sabe cozinhar e encomendava carne, feijão e mais alguns produtos brasileiros para a gente. A esposa do Washington (centroavante que encerrou a carreira no Fluminense, em 2010) se dava bem com a minha, então fazíamos uns churrasquinhos, saíamos juntos...

GE.net: Seus problemas no Japão estavam acabados, portanto.
Nenê: Mas não é que o meu pai (Juarez) teve um derrame lá?

GE.net: Como assim?

Nenê: Ele foi me visitar, passou mal e ficou uns 25 dias internado. Foi um período complicado. Os japoneses deram uma cartilha em português para ele apontar o que estava sentindo, e havia a tradução para o idioma deles na página do lado. Meu Deus do céu! Achei que o meu pai fosse morrer ali. Eu me lembro do dia em que ele foi fazer a ressonância magnética... E aconteceu um terremoto!

GE.net: Terremoto?
Nenê: A gente estava no hospital. Vi o meu pai saindo da sala da ressonância magnética todo zoado, sem ter noção de espaço, raspando o corpo na parede... E houve um terremoto! Foi forte. Deu uma zonzeira. Os mais fracos acabam sentindo mais os efeitos. Pensamos em correr para baixo de alguma mesa, como nos ensinaram, mas acabamos não indo. Outra vez, no escritório do Téo (Teodoro Constantin, empresário), aconteceu a mesma coisa. A gente estava conversando sobre contrato e, de repente, “blam, blam, blam”. Terremoto é f...!

GE.net: Seu pai se recuperou do derrame apesar do terremoto?
Nenê: Depois que passou o período de internação, preferi que ele fosse embora para o Brasil. Podem dizer o que for, mas a medicina do nosso País é melhor do que a japonesa. Então, área para o meu pai. Falei para ele: “Vaza daqui e vai se cuidar”.

GE.net: Quando você decidiu que também deveria sair do Japão?
Nenê: Eu tinha condições de ter passado mais tempo lá, mas bobeei e fui embora em 2008. Ou melhor, só não fiquei mais um pouco porque o meu moleque já estava falando mal o português. Voltei ao Brasil por ele. Mas foi uma experiência legal. Gostei de ter jogado com o Emerson no Japão. O nosso clube tinha muita estrutura. Para quem estava acostumado a treinar no antigo Itaquerão e no Parque São Jorge (risos)...

Djalma Vassão/Gazeta Press
Vítima de discriminação no futebol português, Nenê ficou eternamente grato ao Corinthians por repatriá-lo
GE.net: Não sente saudades daquele período em que treinava no Corinthians?
Nenê: É claro que sim. Apesar da passagem curta, fiquei conhecido como o Nenê do Corinthians. As pessoas só se lembram de mim por causa do Corinthians.

GE.net: Você é paulistano, mas só chegou a um grande clube da capital depois de passar pelo exterior. Não tentou vingar em São Paulo mais cedo?
Nenê: Comecei nas categorias de base do Juventus, entre 1985 e 1986. Antes, fiz peneira no São Paulo, no portão 11. E passei!

GE.net: Por que não ficou no São Paulo?
Nenê: De onde eu morava, era mais fácil ir à Mooca treinar no Juventus. E, para falar a verdade, eu nem pensava em virar jogador profissional naquela época. Só queria me distrair. Meu pai, que fazia próteses dentárias e depois virou investigador de polícia, até me incentivava a seguir carreira no futebol. Meu irmão mais novo também tentou, mas começou a dar umas voltinhas em Porto Alegre e acabou ficando por lá. Não dá para conciliar essas saídas com a vida de atleta.

GE.net: Se o CT da base do São Paulo era longe da sua casa, deve ter existido algum outro motivo para você tentar iniciar a carreira lá. A família é são-paulina?
Nenê: Meu... Vou te contar a real: meu pai é tricolor, apesar de a gente ter muito corintiano na família. Aconteceu de eu fazer peneira no São Paulo. E eu era moleque, meninão de tudo naquele tempo. Tinha só uns 11 anos.

GE.net: O sonho do seu pai era que você fosse jogador do São Paulo?
Nenê: Ele nunca me falou com todas as letras, mas imagino que sim. Eu também tinha o grande sonho de jogar no São Paulo Futebol Clube. A estrutura, o clube... Tudo era bom lá. Quando moleque, eu passava em frente ao CT só para ver os jogadores. P..., meu. Eu pensava: um dia vou estar aí dentro, trabalhando com esses caras.

GE.net: Quem eram os seus ídolos?
Nenê: Era a época de Raí, Müller, Cafu, Leonardo... Meu pai também já tinha me levado ao Pacaembu para ver o Pita, um grande canhoto que jogou no São Paulo. Não peguei muito o tempo do Careca, mas também gostava dele. O clube teve muitos atletas de destaque.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Djalma Vassão/Gazeta Press
Técnico Nenê se irrita com
Facebook e menininhas

Em sua primeira experiência como técnico, Nenê tem enfrentado dificuldades para lidar com os jovens do time sub-20 do Grêmio Osasco. “Eles ganham um monte de dinheiro muito cedo. Na minha época, a gente fazia um ano de contrato e tinha que suar muito para renovar. Hoje, quando o moleque é de qualidade, firma quatro ou cinco temporadas de compromisso por pressão de empresários. Também já tem Facebook, menininhas caindo em cima... Eles já se acham jogadores. E não são nada ainda!”, desabafou o ex-zagueiro, que só usa a internet para acessar os seus e-mails e continua casado com a mesma mulher dos tempos de Corinthians.

Apesar das adversidades, Nenê tem gostado do início de carreira de treinador. “Fui pego de surpresa com essa oportunidade. Eu estava jogando no Operário quando o Vampeta, que é dirigente no Grêmio Osasco, me ligou e ofereceu o cargo. Aceitei de imediato. Fiz um curso e estou levando, deixando acontecer. Quem sabe não emplaco como técnico? Sou um cara que fala o palavreado dos boleiros, explica a realidade do futebol, dá exemplos da carreira e cobra”, sorriu, antes de chiar novamente. “É preciso cobrar. Atleta é fogo. Se você não fica no pé, complica”, concluiu o ex-atleta.

GE.net: Uma família que acompanhou de perto a história do São Paulo deve ter estranhado a sua transferência para o Corinthians.
Nenê: Meu pai me apoiou bastante. Ele vestiu a camisa do Corinthians e até torceu contra o São Paulo. Não teve jeito. Por um filho, você faz qualquer coisa. Meu sogro é palmeirense e também torcia por mim quando eu estava no Corinthians.

GE.net: Seu pai ainda veste a camisa do Corinthians?
Nenê: Meu pai continua são-paulino (risos).

GE.net: E você?
Nenê: Ah, eu não sou nada. Mas gosto de ver o Corinthians jogar. Sabe aquele sentimento diferente, que te deixa ligado na televisão? Simpatizo com o São Paulo também. Acompanho os dois clubes. Só é exagero falar que torço realmente, como um louco, por algum.

GE.net: Se duas emissoras diferentes estão transmitindo jogos de Corinthians e São Paulo, qual você prefere assistir?
Nenê: Posso falar?

GE.net: É claro.
Nenê: De verdade?

GE.net: Sim.
Nenê: Corinthians. Confesso: virei a casaca completamente.

GE.net: O carinho pelo Corinthians ficou aflorado já na sua chegada ao clube, em 1999? Antes, você estava no Sporting, em Portugal.
Nenê: Ficou porque eu queria sair do Sporting de qualquer maneira. Esse convite para atuar lá apareceu quando eu estava no Guarani, em 1997. O Abel Braga era o técnico e falou para mim: “Os caras estão te querendo, e vou te ajudar a sair do Brasil. Conheço o pessoal”. Até achei estranho, mas o negócio deu certo. Agradeço ao Abel por isso, apesar de eu não ter gostado tanto de Portugal.

GE.net: Por que não gostou?
Nenê: Putz, cara. Quando fui para lá, eu me senti... Queria voltar para o Brasil imediatamente. Tinha 21 anos e morava em um hotel em Portugal. O povo português é difícil. Por mais que você conheça o idioma... E eu até contava com outros brasileiros ao meu lado no Sporting, como o Carlos Miguel, o Leandro Machado e o Vinícius. Mas, mesmo assim, foi muito ruim. O ambiente do vestiário era horrível. Ou melhor, do balneário, como eles falam lá. Sempre que acontecia algum problema, os portugueses colocavam a culpa nos brasileiros. Era discriminação de verdade.

GE.net: Há muitos brasileiros jogando em Portugal. Ainda assim, você se sentiu discriminado?
Nenê: Eles nos discriminavam, sim. Não sei como está hoje. Na minha época, os portugueses queriam mais é que os brasileiros se fo... Se ferrassem, para não falar um palavrão.

GE.net: Que tipo de discriminação você sofreu?
Nenê: Não chegava a ser ofensa racial. Mas, por exemplo, os caras tocavam a bola na fogueira só para te prejudicar. Depois, viravam para o treinador e reclamavam: “Ele está f... o nosso time! Caramba! Põe na reserva!”. Eles queriam queimar os brasileiros. Isso acontecia direto. Também sacaneavam no vestiário: penduravam as nossas roupas em um lugar bem longe, sumiam com as coisas...

GE.net: Por que tanto rancor dos brasileiros?
Nenê: Porque os caras são todos metidos a chiques lá. E eu saí de São Paulo de bermudão, com aquelas meias brancas que antigamente a gente usava até as canelas... Quebrei a moda deles, não é? Os portugueses eram todos playboyzinhos, com aquelas bermudinhas sociais acima do joelho, sapatênis, cabelinho engomado...

GE.net: Pela descrição, estou visualizando o Cristiano Ronaldo.
Nenê: Isso mesmo (risos)! Para os portugueses, eu era um zero à esquerda. Por tudo aquilo que eles faziam comigo, eu queria voltar para o Brasil de qualquer jeito.

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Comparado a Guinei e indo à praia de graça, ex-jogador ficou assustado com a fama no Timão
GE.net: Estou começando a compreender a sua gratidão pelo Corinthians.
Nenê: Graças a Deus, o Corinthians apareceu na minha vida. Antes, eu já havia sido emprestado para o Bahia. Fui campeão baiano com o Evaristo de Macedo como técnico, mas tive que retornar para Portugal. Aí, a minha mulher ficou insistindo para eu ligar para o Evaristo me levar de novo para o Brasil. Por sorte, ele assumiu o Corinthians e me chamou para jogar na vaga do Batata, que estava machucado. Foi assim que saí daquele sofrimento que era Portugal.

GE.net: Imagino que o Corinthians tenha representado uma grande mudança na sua vida. Você não era tão conhecido da torcida brasileira anteriormente.
Nenê: Você tem razão. Eu não era nada antes do Corinthians. No princípio, até me assustei com a dimensão do clube. Eu não tinha noção do peso de um Corinthians. Não é qualquer um que consegue vestir essa camisa e jogar bem. A gente tem dificuldades até para administrar e entender algumas coisas. No começo, eu ia para a praia com a minha família e não pagava nada. Tudo era de graça para mim só por eu ser jogador do Corinthians. Não compreendia aquilo. Minha vida havia mudado. Se você não tem cabeça para lidar com essa situação, acaba não rendendo dentro de campo.

GE.net: Mas você soube lidar bem com a badalação. Logo em sua estreia na Libertadores, foi decisivo na vitória por 5 a 2 sobre o Jorge Wilstermann, da Bolívia.
Nenê: Eu havia sido apresentado praticamente na véspera do jogo. Aí, um cara da imprensa, colega seu, disse assim para mim: “Você vai fazer igual ao Guinei – é Guinei mesmo? –, que entregou na Libertadores e coisa e tal”. Pensei: “C...! Meu Deus do céu!”. Fiquei com um frio na barriga imenso dentro do vestiário do Pacaembu. Corinthians é diferente de qualquer clube. Existe uma pressão absurda. Você precisa estar 110% ligado para não se ferrar. Graças a Deus, ganhamos o jogo contra os bolivianos com dois gols meus. Depois daquilo, as coisas fluíram bem para mim.

GE.net: Você se entrosou rapidamente com as estrelas daquele elenco?
Nenê: Eu era mais reservado. Preferia não falar muito por ser um jovem com pouco tempo de casa, sem a mesma liderança dos caras. Como já disse, nunca tinha participado de um time com a tradição do Corinthians. Não queria criar problemas com os outros.

GE.net: Mesmo com essa postura, você deve ter presenciado muita encrenca no Corinthians de 1999. Qual foi a briga mais marcante?
Nenê: Vou fazer fofoca, mas tudo bem. Nunca me esqueço do que aconteceu em uma pré-temporada nossa em Atibaia. Houve um churrasco lá em um dos dias, e liberaram a cervejinha para os jogadores. Aí, o Mirandinha começou a brincar de dar tapa e peteleco no Gilmar Fubá. Sabe aquelas brincadeiras de criança? Só que um desses tapas raspou no rosto e cortou o nariz do Fubá. Quando viu o sangue, o Fubá ficou p... e “blum”! Chapou um soco na cara do Mirandinha!

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Nenê imitou o gesto de Gilmar Fubá ao desferir um soco em Mirandinha durante churrasco na concentração
GE.net: Eles estavam bêbados durante a confusão? Acabaram punidos?
Nenê: Não estavam bêbados, bêbados... Só um pouquinho. No dia seguinte, o Mirandinha não quis sair do quarto nem para tomar café da manhã. Pudera: estava com o olho deste tamanho (o ex-zagueiro separa bem as mãos para mostrar)! Pelo que me lembre, acabaram com os nossos churrascos a partir de então e deram multas para os dois. Mas essa foi só uma das brigas que vi no Corinthians. Também houve aquela do Rincón com o Marcelinho Carioca.

GE.net: Você está falando da vez em que o Rincón arremessou o Marcelinho nos armários de ferro do vestiário do San Lorenzo, pela Copa Mercosul de 1999?
Nenê: Exatamente! Não sei se é verdade, mas o pessoal desconfiava que o Marcelinho não queria jogar aquela partida porque o Oswaldo havia poupado o Vampeta e o Edílson. Ele teria ficado melindrado e queria ser preservado também. Uma parte do elenco alegou que o Marcelinho forçou a sua expulsão na partida por causa disso. Eu não percebi. Mas, na cabeça do Rincón, não existia dúvidas. O negão ficou louco com a atitude do Marcelinho. Ele espumava tanto que parecia um cachorro raivoso. Sabe quando ficam aquelas babas caindo dos cantos da boca? O Rincón estava assim (risos). Os seguranças do Corinthians foram tentar acalmá-lo, mas não conseguiram. Tiveram que chamar reforço. A briga foi feia.

GE.net: O Marcelinho não foi o único que despertou a ira do Rincón naquele time. Também eram comuns as brigas com o Edílson, certo?
Nenê: É verdade. O Rincón não deixava barato. Ainda escuto aquele sotaque dele na minha cabeça: “Urgh, urgh...”. O negão está há uns 20 anos no Brasil e continua falando assim! Mas, apesar das confusões, a gente dava muita risada no Corinthians. Foi um período legal. Se eu pudesse voltar no tempo e jogar bola novamente, escolheria viver tudo de novo naquela equipe. Foi o time em que mais ganhei e também aquele em que mais perdi. Tive um desafio gostoso e completo lá.

GE.net: Os jogadores do Corinthians de 1999 brigavam muito entre si, mas mantinham amizade fora de campo. Você costumava sair à noite com os medalhões do elenco?
Nenê: Na verdade, eu nem gostava de sair tanto com a família naquela época. O meu rolê era mais com os caras (o ex-zagueiro começa a cochichar). Tanto é que a minha mulher até brigava comigo por isso. Eu saía com Vampeta, Edu... Quer dizer, com o Edu o programa era mais um bar, uma coisa tranquila. O Vampeta emendava uma sequência maior (risos). Ele estendia até altas horas. Também passeei com Batata, Ricardinho...

Djalma Vassão/Gazeta Press
Assim como sua mãe, ex-jogador ainda não se conforma com "sacanagem" no Mundial de 2000
GE.net: Não consigo imaginar o Ricardinho em um bar.
Nenê: O Ricardinho era mais reservado mesmo. P... louca era o Gilmar Fubá. Nossa! Aquele jeitão dele: “Uh, uh, uh...!”. Que figura!

GE.net: E o Gamarra? Era o seu parceiro de zaga.
Nenê: Eu achava fácil jogar com o Gamarra. Ele errava muito pouco. A gente se completava. Só de olhar, eu já sabia o que ele queria de mim: se era para dar o bote, para esperar, para subir ao ataque...

GE.net: Mas vocês se davam bem fora dos gramados?
Nenê: Por incrível que pareça, eu não trocava nem ideia com o Gamarra. Ele era mais fechadão. Tinha aquele sotaque paraguaio e tal. Eu evitava o cara. O entrosamento se resumia ao campo. Acabando o jogo, a gente não se falava.

GE.net: É possível formar uma boa dupla de zaga dessa forma?
Nenê: A gente se entrosava com treinos, e não com conversa. O resto não tem nada a ver. Às vezes, você se relaciona bem para caramba com alguém fora de campo e, na hora do jogo, não dá liga. O que não rola mesmo é trabalhar com um cara em quem você não confia. Isso já aconteceu muito na minha carreira. Sem sacanagem: um companheiro pode prejudicar o seu desempenho. Só não quero citar os nomes desses caras por uma questão de ética.

GE.net: O Gamarra foi o seu melhor companheiro de defesa?
Nenê: Sim, mas também gosto de citar outro atleta com quem joguei no Japão, o Túlio Tanaka (brasileiro naturalizado japonês, presente na Copa do Mundo de 2010). O cara é muito bom zagueiro. Pode perguntar para o Emerson. Quer dizer... Não sei se o Sheik era chegado dele. Mas, se você questionar só sobre o aspecto profissional, certamente ele vai confirmar o que estou falando. O Túlio foi tão bom para mim quanto o Gamarra.

GE.net: Curiosamente, você e o Gamarra não disputaram o Mundial de 2000, dias após a conquista do Campeonato Brasileiro de 1999.
Nenê: Não gosto nem de falar sobre isso.

GE.net: O que aconteceu na época?
Nenê: Queria ter ficado mais tempo no Corinthians. Eu me arrependo... Não de ter jogado no Grêmio, mas talvez de ter me precipitado. Deram uma mancada feia comigo no Mundial, e veio a oportunidade de ir para o Rio Grande do Sul. Abracei a proposta porque ainda estava com raiva da trairagem que sofri no Mundial. Eles me deixaram fora da lista de convocados para o torneio sem dar maiores explicações. Fui traído.

GE.net: Você não estava contundido antes do Mundial?
Nenê: Sofri uma fissura em uma trombada com o Raí, nas semifinais do Brasileiro, mas já tinha me recuperado. A contusão estava calcificada. Isso não é desculpa. Não sei o porquê, mas contrataram o Adilson para jogar o Mundial no meu lugar. E ele nem tinha condições de jogo!

GE.net: O Fábio Luciano também foi contratado para reforçar a zaga no Mundial.
Nenê: O Fábio Luciano, tudo bem. Mas o Adilson não estava nem liberado para jogar. Ele tinha um problema no joelho. Por que contrataram? Foi algo muito errado, feio. Eu, ao contrário, estava com uma grande sequência de jogos pelo Corinthians, atuando desde o começo do Campeonato Brasileiro. Como precisavam inscrever três goleiros no Mundial, optaram por me deixar fora da relação. Fui embora do clube p... naquele dia. Depois, eles me ligaram para tentar reverter a m... que fizeram, para tirar outra pessoa do elenco. Só que, naquele instante, a papelada já tinha sido enviada para a Fifa. Não dava mais jeito.

GE.net: Quem te traiu?
Nenê: Ah... Acho que o Nei (Carlos Nujud, então diretor de futebol) teve uma parcela de culpa. Não sei o motivo de ele ter me sacaneado. Talvez porque o Jorge Machado (empresário) fosse amigo dele e não tenha feito uma coisa legal comigo na negociação para renovar o meu contrato, meses antes. Sei lá. Estou só imaginando.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Nenê não falava com Gamarra, mas não precisa nem olhar para se entrosar com o paraguaio
GE.net: O Oswaldo de Oliveira, na condição de técnico, não poderia ter interferido?
Nenê: Faltou pulso ao Oswaldo. P..., ele foi mal para caramba. Era inexperiente, estava em início de carreira e não tomou uma atitude correta. A verdade é essa.

GE.net: Você assistiu aos jogos do Corinthians no Mundial?
Nenê: Vi pela televisão. Batia aquela tristeza dentro do meu peito. Eu sabia que tinha condições de estar lá. É diferente de você não ser convocado porque atravessa um mau momento.

GE.net: Os outros jogadores falaram com você após a conquista?
Nenê: Eles me ligaram. Todos sabiam que tive uma parcela de contribuição naquele grupo. Só não me sinto campeão porque não joguei. Poderia ter jogado. Não fui por trairagem. Mas, que foi um título bacana conquistado pelo Corinthians, isso foi.

GE.net: Muita gente contesta a importância daquele campeonato.
Nenê: A Fifa estava envolvida, cara. Foi um grande torneio. Podem criticar à vontade, mas grandes clubes vieram ao Brasil para disputar o título, como Real Madrid e Manchester United.

GE.net: Os torcedores do São Paulo, seu time de infância, desvalorizam o Mundial de 2000. Já os do Corinthians, seu clube de adulto, minimizam as conquistas dos torneios que não eram administrados pela Fifa.
Nenê: Todos os títulos são válidos. Quem ganhou tem méritos, independentemente de ser Copa Toyota, Mundial... Não tem esse negócio. Quando você disputa uma competição, seja qual for, é muito complicado vencer.

GE.net: O Mundial que o Corinthians vai disputar neste ano tem mais valor do que aquele de 2000? Ou a importância é a mesma?
Nenê: Para nós, brasileiros, esse campeonato que o Corinthians vai disputar agora é importante para caramba. Aquele de 2000 não teve a mesma repercussão, o mesmo valor para as carreiras dos caras. De qualquer forma, os europeus se importam menos do que a gente com os dois campeonatos. Mas vou ficar na torcida pelo Corinthians de novo. Acho que o time é capaz de vencer o Chelsea, apesar de não dar para prever nada no futebol.

GE.net: Quando você conseguiu superar a decepção de 2000 e voltar a torcer pelo Corinthians?
Nenê: Ah... Quem ficou magoada de verdade foi a minha mãe (Sueli). Ela é daquelas torcedoras que gostam de torcer contra, sabe? Assim que tomou conhecimento da sacanagem que fizeram comigo, passou a não gostar mais do clube. “Ah, esse Corinthians aí prejudicou o meu menino”, ela dizia. Eu, não. Tanto é que, até hoje, acompanho os jogos quando posso.

GE.net: Ficar fora do Mundial não foi a sua única tristeza no Corinthians. Na Libertadores de 1999...
Nenê: Putz, a Libertadores. É uma das maiores frustração da minha carreira. Tão grande quanto a vez em que era para eu ter sido campeão mundial e me sacanearam. A gente perdeu nos pênaltis para o Palmeiras. Nas nossas cabeças, a classificação era certa. Aí, veio a porrada. E logo contra o maior rival. Não bati pênalti. Mas, lá do meio do campo, eu via o gol pequenininho. O Marcão era gigantão e tapava tudo. Para dormir depois disso, foi f...! Você fica imaginando os lances da partidas, os gols que poderíamos ter feito. Lembro-me de uma jogada em que o Marcelinho bateu por cima, e o Marcos pegou. Houve outra em que... Bom, não adianta nada ficar matutando agora, pois já passou.

GE.net: Menos mau para você que o Corinthians venceu o Palmeiras, pouco depois, na final do Campeonato Paulista de 1999.
Nenê: Foi bom ter faturado esse título. Também fiquei muito contente por ter ganhado o Brasileiro no mesmo ano, a maior conquista da minha carreira. Para vencer um campeonato nacional, você precisa ter colhão e um grande elenco. Naquela época, Corinthians e Palmeiras tinham isso. Os nossos jogos eram pegados, com provocações dos dois lados. Ninguém queria perder.

GE.net: O Edílson se superou nas provocações na final do Paulista.
Nenê: Aquelas embaixadinhas (risos)! Ele ficou sabendo que os caras pintariam os cabelos de verde e meteriam as faixas de campeões da Libertadores embaixo dos calções para zoar a gente. O Edílson não aceitaria ficar por baixo. Aí, ele inventou de fazer as embaixadinhas.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Nenê guarda com carinho as camisas do Corinthians e do Urawa Reds, time em que conheceu Émi Sheik
GE.net: Para você, foi algo programado?
Nenê: Não. Foi coisa de momento. Quando vi o que o Edílson estava fazendo, gritei: “Não, não! Para que isso, cara? Você está louco?”. Mas o neguinho era f...! Ele se divertiu. E sobrou para a gente brigar, não é? Acertei um pontapé gostoso no Paulo Nunes. Biquei com vontade.

GE.net: Você tinha alguma birra especial com o Paulo Nunes?
Nenê: Ele era um jogador chato para caramba. Não ficava falando no ouvido dos zagueiros, mas gostava de chamar para o drible, de tripudiar. Você tinha que ficar esperto para enfrentá-lo. Mas pude acertar um chute nele. Até que não pegou como eu gostaria, mas...

GE.net: O que você fez depois de chutar o Paulo Nunes?
Nenê: Como não sou louco, saí correndo. O Paulo Nunes era pequeno, mas o time deles tinha uns caras grandes. E se o Júnior Baiano pega um de nós, o que acontece (risos)? O Renato, nosso goleiro reserva, até se jogou no vestiário do Morumbi para fugir do pau.

GE.net: Você reencontrou o Paulo Nunes no Grêmio?
Nenê: Sim. Jogamos juntos lá depois. Tive que pedir desculpas para o cara. Falei para ele: “Foi mal, Paulo, estava todo mundo de cabeça quente no dia”. Ele sabia que era coisa de jogo. Bola para a frente. O clima no Grêmio era bom também. Ganhei a Copa do Brasil de 2001 em cima do Corinthians. Tinha estourado o joelho, mas fui para o Morumbi ser campeão naquele time que contava com Marcelinho Paraíba e Luís Mário. Só que não fiz isso com mágoa do Corinthians, um clube diferente, marcante para mim. Não que o Grêmio não tenha tradição, mas o Corinthians é incomparável. E ainda aconteciam coisas como aquelas embaixadinhas do Edílson (risos).

GE.net: Para você, que jogou com os dois, dá para comparar o estilo do Edílson com o do Emerson?
Nenê: O Edílson é tão polêmico quanto o Emerson. No futebol, os estilos são diferentes. O Emerson é mais explosivo, enquanto o Edílson cadenciava o jogo e conduzia a bola com leveza.

GE.net: Quem você preferia ter no seu time?
Nenê: Os dois. Não me coloque nessa fria. É difícil optar por um só.

GE.net: Então quem é o mais polêmico?
Nenê: (Fica pensativo antes de responder.) O Edílson (risos).

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