Futebol/Mundial de Clubes - ( - Atualizado )

Tite revela punição a atrasos de Emerson e quer dica de caipisaquê

Helder Júnior e Luiz Ricardo Fini São Paulo (SP)

Tite prometeu beber um “balde de caipirinha” quando o Corinthians conquistou a Copa Libertadores da América. A sede não era sem motivo. O título continental foi alcançado depois de o treinador superar uma série de preocupações no CT Joaquim Grava. Uma delas eram os atos de indisciplina do atacante Emerson, o herói da final contra o Boca Juniors.

Nesta entrevista exclusiva, parte de série especial da Gazeta Esportiva.net sobre a presença de Emerson no Mundial de Clubes, Tite revela pela primeira vez que chegou a aplicar uma punição ao atleta por causa de recorrentes atrasos a treinamentos do Corinthians. Durante uma semana, o Sheik foi obrigado a chegar às atividades meia hora mais cedo do que seus companheiros.

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Para ser campeão mundial no final do ano, no Japão, Tite conta com a malandragem de Emerson apenas dentro de campo. Fora, o técnico exige comprometimento de todo o elenco do Corinthians. Ele acredita que só assim poderá brindar o Ano Novo com uma receita de caipisaquê “turbinada” pelo Sheik.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Após tentar disciplinar Emerson, Tite espera que o Sheik conduza o Corinthians ao sucesso no Japão
Gazeta Esportiva.net: Você disse que beberia “um balde de caipirinha” para comemorar o título da Copa Libertadores da América. Se o Corinthians for campeão mundial no Japão, mudará a bebida para caipisaquê, para se adaptar aos costumes locais?
Tite: Pode até ser (risos)! Mas, outro dia, provei um negocinho de saquê e achei muito fraco. Tinha sabor de kiwi. Até comentei com quem estava comigo: “Isso parece suco, cara! Da próxima vez, vamos tomar alguma coisa mais turbinada!”.

GE.net: Quem sabe o Emerson não te apresenta uma receita “turbinada” de caipisaquê no Japão? Ele morou cinco anos lá...
Tite: É... Ele pode me dar uma dica de uma coisinha mais forte (risos).

GE.net: O fato de o Emerson ter passado um longo período da carreira no futebol japonês pode ser útil no Mundial de Clubes?
Tite: Levamos tudo em consideração. Também já estive no Japão. Disputei o título da Suruga Cup com o Internacional lá, em 2009, um ano depois de ganharmos a Copa Sul-americana. Enfrentamos o Oita Trinita naquele estádio (Big Eye) bonito para caramba, com cobertura retrátil, mas com uma parte do gramado úmida. São lembranças. Além disso, Danilo e Fábio Santos têm a experiência do título mundial conquistado com o São Paulo em 2005. Buscamos todos os tipos de informações, dentro e fora do elenco. Se vamos ganhar o Mundial ou não, eu não sei. Mas pode ter certeza de que nos prepararemos da melhor forma possível para isso.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Emerson desrespeitou advertência de Tite e acabou punido por causa dos seus recorrentes atrasos
GE.net: A preparação do Emerson acabou atrasada por problemas clínicos, assim como ocorreu com o Jorge Henrique. Será muito difícil analisar cada caso no momento de definir o ataque titular do Corinthians no Japão?
Tite: Mas todos os atletas me respeitam muito. Nenhum deles tem o direito de colocar o seu objetivo individual acima da meta do grupo. Não sinto prazer em deixar alguém fora do time. É o desempenho que define a minha escalação. Cada um constrói a sua titularidade. Todos os campeões da Libertadores já ficaram no banco de reservas um dia. É por isso que digo: respeitem seus companheiros, a entidade. Daqui a pouco, um cara entra no decorrer do jogo e é decisivo. Exemplo: Romarinho em La Bombonera. Todos são importantes.

GE.net: Falando na final da Libertadores, contra o Boca Juniors, a malandragem do Emerson também foi decisiva para o Corinthians ser campeão. Depois do que ele fez no Pacaembu, é praticamente impossível imaginá-lo na reserva.
Tite: A malandragem do Emerson é do lance pessoal, da finta. Ele é um atacante muito forte no um contra um. Por isso, devo usá-lo no último terço do gramado. A assistência dele para o Romarinho, em La Bombonera, foi ali. É um cara malando, sim. O Schiavi (zagueiro do Boca) saía batendo nele, e o Emerson ia devolvendo por baixo. Ele tem essa característica. De certa forma, é algo típico do jogador carioca, agressivo, com o poder do drible.

GE.net: Em uma conversa informal, antes mesmo de o Corinthians conquistar a Libertadores, o Duílio (Monteiro Alves, diretor adjunto de futebol) disse que o seu elenco precisava de um bad boy como o Emerson. Segundo ele, um grupo vitorioso não é formado só por bons moços. Você concorda?
Tite: Vejo o Emerson como um bad boy com a grande virtude da coragem. Bad boyé sinônimo de coragem. Em nenhum momento da Libertadores, o Emerson caiu em provocação. Ele não foi maldoso nem naquele lance com o Neymar, quando acabou expulso. Falei pessoalmente para o Emerson: “Você é um ser corajoso. Eis a tua grande virtude”. Pode chover canivete, que ele vai jogar da mesma maneira contra Comercial ou contra Boca Juniors em La Bombonera. Para ele, é igual. O Emerson tem uma capacidade de concentração enorme. Isso serve até para ajudar o companheiro mais jovem, que poderia se inibir em uma adversidade, mas se inspira ao ver a coragem do nosso atacante.

GE.net: O bad boy também tem o lado das polêmicas, dos atrasos aos treinamentos...
Tite: Se o Emerson tivesse trabalhado mais tempo comigo, ele teria aprendido a cumprir melhor os horários.

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O bad boy Emerson Sheik teve a sua coragem para jogar enaltecida pelo comandante do Corinthians
GE.net: Mas ele já trabalha com você há mais de um ano.
Tite: Certo... Algum tempo atrás, chamei a atenção de Emerson, Jorge Henrique, Alex e... Havia mais um jogador, mas não me lembro qual. Falei: “Psiu! Pô, sempre o problema de horário é com vocês!”. Precisei usar alguns artifícios para resolver aquela situação. Avisei a eles: “Se alguém chegar atrasado e eu tiver de retardar o treinamento de novo, o grupo inteiro pagará por isso e precisará vir trabalhar com meia hora de antecedência!”. São coisas internas, que acontecem e logicamente não conto para a imprensa.

GE.net: Alguém não deu importância para o seu alerta sobre os atrasos?
Tite: O Emerson. Ele chegou atrasado mesmo depois do que eu disse. Aí, reuni a minha comissão técnica e expliquei: “Estou na dúvida sobre o que fazer. Não posso punir o elenco inteiro em cima de um ato individual”. Conversei com o grupo e tomei a decisão: “Houve um atraso aqui, mas a punição não será para todo mundo. Emerson, meia hora antes nos treinamentos só para você!”. Foi uma semana inteira! Ele passou a semana inteira chegando meia hora antes dos demais (risos)!

GE.net: E, depois, já desandou de novo.
Tite: Tenho que ficar monitorando, não é? Só que o Emerson tem consciência da importância dele para o time. Ele dá as suas resvaladas disciplinares, mas a frequência disso já tem sido bem menor.

GE.net: Se ele continuar resolvendo dentro de campo, principalmente no Mundial de Clubes, está tudo bem. Correto?
Tite: Não, não, não (o treinador fica sério). Na nossa preparação para o Mundial, não há margem para atraso nenhum. Em alguns momentos da temporada, isso pode acontecer. Mas não podemos deixar nada para depois agora.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Técnico de um grupo heterogêneo, Tite avisou que tem personalidade forte e irrita-se em campo
GE.net: Afinal, como você disse, as atitudes do Emerson servem de exemplo para os novatos.
Tite: Ele tem um tipo de comando, claro. Assim como contamos com a liderança de conduta de um Danilo, que já foi capitão do time em alguns momentos e nem foi para a concentração em outros. Nem por isso ele deixou de trabalhar. Temos um conjunto de pessoas diferentes. Cada um empresta um pouquinho de si para o grupo. Falei do Danilo, um cara mais linear– fui ao aniversário dos filhos dele e vi como é bonita sua família –, mas também há o Paulinho, que beija a aliança para comemorar os seus gols. Ao lado dele, o Ralf, que é mais quieto e, outro dia, levou o pai para ouvir uma oração do padre Marcelo Rossi. Mais à frente, o Jorge Henrique, que vai para casa e fala para os filhos que faz o seu melhor no dia a dia. Eu me agarro a um pouco de tudo isso.

GE.net: Você citou as personalidades de alguns dos seus atletas. Como é a sua?
Tite: Sou um cara mais impulsivo. Não venham conversar comigo logo depois de uma derrota. Às vezes, o Fábio (Mahseredjian, preparador físico) chega junto de mim e fala: “Calma”. E eu: “Calma, o c...! É o meu jeito! Larga! Venha conversar comigo daqui a alguns minutos, que estarei melhor. Não fique pisando no meu calo!”. Já falei isso para ele, pô.

GE.net: À distância, você transmite aos torcedores a impressão de ser alguém mais sereno, de ter um humor quase oriental.
Tite: Gosto muito da educação do povo japonês, mas não sou tão tranquilo quanto pareço. Estou longe de ser light. Vocês, que estão mais próximos, sabem disso. Na hora dos jogos, sou muito competitivo, às vezes até emburrado.

GE.net: Já aprendeu a reclamar também em japonês em meio a essa preparação para o Mundial
Tite: Não sei nada de japonês. Nada, nada, nada (risos).

GE.net: Aprecia a culinária japonesa pelo menos? De caipisaquê, você já disse que não gostou muito.
Tite: Também não sou chegado à comida deles. Até como peixe, mas não vou com a cara de nada muito cru. Tudo precisa ser cozido ou assado para mim.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Tão ansioso quanto na Libertadores, Tite tem rezado bastante às vésperas do Mundial de Clubes deste ano
GE.net: Para não sentir tanta falta dos costumes que adquiriu no Brasil, sua família te acompanhará no Japão?
Tite: Vou levar a minha esposa, meus filhos, meu irmão, minha cunhada, meu sobrinho... Quero estar perto deles. Acho importante ter um grupo familiar ao meu redor. Meu filho, por exemplo, mora nos Estados Unidos e já acertou a ida dele e da namorada para o Japão. Estaremos unidos.

GE.net: Como vai ficar o coração da sua mãe? Você ora tanto quanto ela às vésperas de disputar um torneio importante como o Mundial de Clubes?
Tite: Sim. Alguns pilares sustentam a minha busca pela felicidade: família, trabalho, dignidade, saúde e espiritualidade. Religião é paz de espírito, fazer o bem. Procuro estar em paz comigo mesmo. Isso vem muito da minha mãe, é verdade, mas sempre enalteço que o meu Deus é o mesmo dos jogadores de qualquer outro clube. Quando a gente lida com pessoas e precisa fazer julgamentos, é importante ter paz de espírito e discernimento. A espiritualidade me ajuda nisso.

GE.net: Seus jogadores têm dito que a ansiedade para participar do Mundial nem se compara à da época da Libertadores, quando existiam cobranças muito mais fortes pelo título.
Tite: A pressão externa é menor. Antes, os torcedores diziam: “Chega! Temos que ganhar uma Libertadores, cara! Por orgulho próprio, para acabar com as gozações dos adversários e pela grandeza do Corinthians!”. Mas, internamente, a nossa ansiedade é muito parecida com a dos tempos de Libertadores. A ambição de ganhar é a mesma. Recentemente, apresentamos um vídeo aos jogadores, e o presidente (Mário Gobbi) pediu a palavra. Ele perguntou para o grupo: “Quantos têm a oportunidade que nós temos? Quem aqui já conquistou um Mundial?”. Apenas Danilo e Fábio Santos levantaram as mãos, pois tinham vencido com o São Paulo, em 2005. Todos os outros têm a chance de ganhar pela primeira vez agora. É a grande oportunidade profissional de ser campeão do mundo. Que nenhum de nós se poupe e deixe de dar o melhor.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Treinador corintiano já tem experiência em lidar com "xeque que desce de helicóptero no campo"
GE.net: Você teria a chance de participar de um Mundial de Clubes em 2010, mas preferiu deixar o Al-Wahda e voltar ao Corinthians. Se bem que praticamente não havia expectativas de título no clube do Oriente Médio.
Tite: A exigência de ganhar é igual em todos os lugares (risos)! O apelo popular é que muda. Mas, independentemente de torcida, o xeque árabe quer que você vença. Até desce de helicóptero no campo para fazer cobranças!

GE.net: Mas, de Sheik que chega de helicóptero em campo, você entende bem. (Emerson recorreu ao meio de transporte para minimizar um dos seus atrasos no Corinthians, em janeiro.)
Tite:
É, temos o Emerson aqui... (risos). Meu Deus.

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