Futebol/Campeonato Brasileiro - ( - Atualizado )

Após ajudar Neymar, psicóloga percebe Ganso com motivação instável

Tossiro Neto São Paulo (SP)

Uma nova fase na carreira de Paulo Henrique Ganso começa neste domingo. Contra o Náutico, ele vai jogar pela primeira vez com a camisa do São Paulo depois de ter saído lesionado do Santos. Sonia Román, psicóloga que trabalhou por uma década na base do clube praiano – ajudou Neymar inclusive – aposta que o meia terá muitas motivações para estrear bem, mas se arrisca a prever que ele dificilmente emplacará uma sequência depois disso, alternando entre altos e baixos.

Íntima dos bastidores santistas por ter preparado emocionalmente diversas gerações de meninos da Vila Belmiro, como a de Robinho e Diego, ela nota que Ganso não seguiu a mesma linha ascendente do amigo Neymar por não se motivar como deveria. "A impressão é de que ele acredita que as coisas sempre estarão bem. Isso dá tranquilidade, mas pode tirar desempenho. Ele é excepcional, inteligentíssimo, mas faz dois jogos bons e depois outros não tão bons", diz.

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"Já o Neymar é especial nisso. Ele tem um grau diferenciado de conhecimento da responsabilidade dele. Sabe que ganha muito dinheiro, mas que tem que fornecer algo. Além de uma genética bastante privilegiada, é único nesse sentido. Provavelmente pensa 'ganho bem, mas não posso vacilar, meu pai me ensinou que tenho que trabalhar legal, vamos embora, vamos jogar'. Os outros não têm essa mesma riqueza de pensamento, as cognições não são tão fortalecidas", compara.

A análise de Sonia é feita à distância, sem conhecer Ganso. A psicóloga só soube dele quando a então promessa já dava os primeiros passos como profissional. Mais tarde, chegou a tentar contato junto a uma pessoa próxima, sem sucesso, para realizar um trabalho que seria simples, segundo ela. "É um menino bacana, com personalidade sadia, e não precisa de trabalho clínico, mas de três ou quatro sessões de psicologia esportiva, para um upgrade de desempenho, para se automotivar por vários jogos consecutivos. É um aprendizado, uma dinâmica mental. Depois que entende, vai sozinho", explica.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Na opinião da psicóloga, que trabalhou com vários santistas, o jogador vive em uma "zona de conforto"
A comparação que ela faz é com um casamento de longa data, em que o marido não se preocupa mais em presentear a esposa com flores ou bombons. "Ele acha que prevalece o amor, não precisa fazer nada", diz. No caso do futebol, para sustentar o prazer de jogar, ela vê necessidade de o atleta buscar desafios gradativos e não se contentar com um lance ou uma boa atuação. Se ganhou uma competição estadual, precisa objetivar a conquista de um Brasileiro, e assim por diante. A motivação de Ganso no Morumbi pode então começar por responder às críticas recebidas na conturbada saída do Santos.

"Neste primeiro jogo, com certeza ele vai jogar bem, porque vai querer jogar bem. Ele pode pensar em dar resposta, em 'vocês vão ver o que vou fazer aqui, vão se arrepender’. Vai entrar com uma pegada maravilhosa, com motivação para o sistema nervoso", prevê Sonia, em dúvida sobre o que virá em seguida. "Se estrear bem, pode pensar 'estão vendo? Não falei? Entendo de futebol e aqui vou ter liberdade para jogar bem'. E então cai de novo na zona de conforto".

Essa zona de conforto, ela defende, seria uma das causas das constantes lesões do jogador. Aos 23 anos, o agora camisa 8 tricolor já passou por quatro cirurgias nos joelhos (a primeira em 2007, quando rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito), afora outras graves complicações musculares, como a última, na coxa esquerda, a qual terminou de tratar justamente no São Paulo.

"As chances de lesão são maiores em jogadores muito calmos, que acham que não precisam se esforçar. Assim como o cara estressado demais se lesiona, o menos estressado também. É como se o corpo não tivesse energia suficiente, meio mole. Se uma pessoa muito calma é empurrada, ela cai. Se estiver em alerta, não cai. Como um soldado desavisado, que esquece que o inimigo pode chegar", argumenta a psicóloga.

Nesse sentido, o São Paulo pode fazer bem à guerra particular de Ganso. O clube possui reconhecida capacidade de tratar problemas físicos e tem em Ney Franco um comandante bastante atento ao comportamento de seus 'soldados'. A decisiva reta final de temporada também contribui: a equipe segue firme na disputa da Copa Sul-americana e ainda tem pela frente um clássico contra o Corinthians, seu maior rival, na última rodada do Campeonato Brasileiro.

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