Futebol/Seleção Brasileira - ( - Atualizado )

Com status abalado, Felipão tenta repetir arrancada de 2002

Luiz Ricardo Fini São Paulo (SP)

O dia 1º de julho de 2001 marcou o início de um novo ciclo na Seleção Brasileira. Era a estreia de Luiz Felipe Scolari no comando da equipe, em substituição a Emerson Leão, mas o Uruguai tratou de esfriar os ânimos do novo treinador ao vencer por 1 a 0, no estádio Centenário. O resultado colocava ainda mais em risco a busca do Brasil por uma vaga na Copa do Mundo do ano seguinte.

A missão do novo técnico era salvar a classificação para o torneio em um curto período de tempo. Nesta quinta-feira, com menos cabelo e o bigode mais grisalho, Felipão recebe novamente da Confederação Brasileira de Futebol a incumbência de levar o time a um título mundial. Desta vez, não existe perigo de a Seleção ficar fora da Copa, mas a pressão é ainda maior, já que o País será sede da próxima edição do torneio.

Arte GE.Net
Outra diferença é o status do gaúcho. Se antes estava credenciado pelas conquistas em sequência por Grêmio, Palmeiras e Cruzeiro, agora Felipão carrega a desconfiança por ter participado ativamente do rebaixamento do Verdão à Série B do Campeonato Brasileiro. Mesmo sem ter dirigido o time na reta final, já que saiu antes do clube, o treinador tem na bagagem a responsabilidade por ter ajudado a montar o elenco que caiu para a segunda divisão.

Em sua primeira passagem à frente do Brasil, Scolari não teve vida fácil até chegar ao pentacampeonato. A derrota na estreia já teve a presença de jogadores que formariam a base do Mundial, como Marcos, Cafu, Roque Júnior, Roberto Carlos e Rivaldo, além de Juninho Paulista. A grande diferença era a participação de Romário, com a braçadeira de capitão, o que se tornou inimaginável meses depois, quando Scolari excluiu o Baixinho de suas listas.

Relembre entrevista exclusiva sobre os bastidores do penta

Antes de retorno à Seleção, treinador explicou polêmicas

Após a derrota na estreia diante da celeste nas Eliminatórias, Felipão tinha a grande chance de estabelecer um grupo na Copa América, na Colômbia. Porém, logo no embarque, o treinador sofreu um revés em seu elenco. Temendo a insegurança na sede do torneio, Mauro Silva desistiu de viajar já na hora do embarque (voltou a ser convocado apenas uma vez).

Romário também desfalcou, pois pediu para ser liberado para poder fazer uma operação nos olhos. Nunca mais foi convocado. “Ele disse que faria a cirurgia, mas, depois, o Vasco viajou e ele acabou não fazendo a operação, porque o clube tinha outro valor sem o Romário e exigiu que fosse junto. Eu estava exigindo atitude dos outros, para que fossem à Colômbia, onde existia um comentário sobre falta de segurança, e comecei a deixar um pouco essa situação de lado”, comentou o treinador, em recente entrevista à GE.net.

Além disso, Scolari alega que o atacante não se encaixava mais em seu esquema tático. O desfecho da Copa América também foi frustrante. Derrota contra o México na primeira rodada (segundo tropeço seguido do técnico) e vitórias depois contra o Peru e Paraguai. Entretanto, nas quartas de final, a Seleção se despediu de forma vexatória ao perder por 2 a 0 para Honduras.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Luiz Felipe Scolari retorna à Seleção depois de ter garantido a classificação para a Copa de 2002 no sufoco
Sofrimento e, enfim, a vaga

Depois da Copa América, a classificação para o Mundial voltou a ser o grande objetivo de Felipão. Sob risco de ficar fora de uma edição pela primeira vez na história, o Brasil venceu o Paraguai, mas perdeu em seguida para a Argentina, que liderava o torneio. Ainda sem Ronaldo, que se recuperava de lesão no joelho, a instabilidade continuou atormentando a Seleção.

Edílson e Rivaldo asseguraram o triunfo por 2 a 0 sobre o Chile, mas o tropeço na altitude de La Paz, contra a Bolívia, jogou a pressão para o último jogo, diante da Venezuela. A partida foi marcada para o estádio Castelão, em São Luís, distante das pressões das torcidas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Assim, no dia 14 de novembro de 2001, o Brasil enfim se classificou com o triunfo por 3 a 0, com dois gols de Luizão e um de Rivaldo. “Os jogos da Copa foram mais fáceis do que nas Eliminatórias, porque os jogadores já tinham recebido a confiança de volta. As Eliminatórias tinham gerado desconfiança na cabeça de um ou outro atleta, porque pensava que poderia não ir. Mas, quando foram convocados, eles já puderam dizer novamente que tinham boas condições”.

A partir da confirmação da classificação, Felipão aproveitou os últimos amistosos para definir a lista do Mundial. Os confrontos contra Arábia Saudida, Islândia, Iugoslávia e Portugal serviram para garantir vagas a atletas como Gilberto Silva e Kleberson, além de dar ao treinador uma confiança maior nas condições físicas de Ronaldo.

O Fenômeno era uma das apostas do comandante, com o aval do médico José Luiz Runco. Porém, quando estava tudo pronto, Felipão teve mais um problema. Na véspera da estreia na Copa, Emerson lesionou o ombro durante um treino em que estava no gol, sendo testado para o caso de necessidade durante o torneio. O técnico queria ter a certeza de que poderia contar com alguém da linha se Marcos se machucasse e não existisse mais possibilidade de substituição.

O escolhido para ficar com a braçadeira foi Cafu, mas Felipão incumbiu outros quatro jogadores de liderarem o time em campo: Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo e Roque Júnior. Enquanto isso, Ricardinho foi chamado para substituir Emerson.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Felipão carrega agora o peso de buscar o título da Copa do Mundo no Brasil, em 2014
Pentacampeonato e ‘até logo’

A Copa do Mundo ficou marcada pela expressão “Família Scolari”. Dez anos depois, o treinador nega que a união propagada na época tenha sido exagerada, alegando que desde o início existia um equilíbrio entre jogadores e funcionários. Antes mesmo de a bola rolar na Coreia do Sul e no Japão, os jogadores determinaram que a premiação em caso de título seria dividida igualmente entre todos.

Superado o apelo popular por Romário, Felipão armou o time com Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo. No sufoco, o Brasil venceu a Turquia na estreia, antes de triunfos fáceis contra China e Costa Rica. Nas oitavas de final, o jogo mais difícil da Copa, contra a Bélgica. Um gol de Wilmots anulado pela arbitragem foi motivo de alívio para a Seleção, apesar da polêmica gerada pelo lance. “Foi o pior jogo, o mais difícil, porque eles jogaram no nosso erro o tempo todo. Se tivéssemos cometido alguma falha, correríamos um risco”, recorda, relembrando o placar positivo por 2 a 0.

Naquele momento, Felipão já era aclamado pelo torcedor brasileiro, que era embalado pela música Deixa a vida me levar, de Zeca Pagodinho. A partir daí, o Brasil eliminou a Inglaterra e também a Turquia, chegando à final para enfrentar pela primeira vez em Copas do Mundo a Alemanha.

Eleito o melhor jogador da competição, o goleiro Oliver Kahn falhou ao rebater chute de Rivaldo nos pés de Ronaldo, que abriu o placar. Tudo ficou mais fácil. Marcos segurou atrás com duas boas defesas, e o Fenômeno também definiu a contagem com uma batida rasteira, no canto.

O Brasil conquistou o quinto título mundial, e Felipão alcançou o status de principal treinador do País. Assim que o torneio acabou, o técnico ainda não sabia o que seria de seu futuro. Mas uma reunião com o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, selou sua despedida. Os dois falaram francamente sobre os próprios objetivos e decidiram que era a hora de o vínculo ser encerrado.

Desta forma, em 21 de agosto de 2002, menos de um mês depois do pentacampeonato e no mesmo dia em que seu mentor Carlos Froner morreu, Felipão comandou sua última partida na primeira passagem pelo Brasil, na derrota por 1 a 0 para o Paraguai, no Castelão. Era apenas um até logo.

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