Vôlei/Superliga - ( )

À sombra da Seleção, Luizomar se satisfaz com sucesso de esquadrão

André Sender Osasco (SP)

Luizomar de Moura é um dos técnicos mais vitoriosos do vôlei nacional. É o único treinador brasileiro campeão mundial infanto-juvenil, juvenil (com a Seleção) e adulto (com o Sollys/Nestlé). Não goza do mesmo prestígio dos badalados Bernardinho, tricampeão mundial e campeão olímpico, e José Roberto Guimarães, único comandante três vezes medalha de ouro das Olimpíadas, mas garante não se incomodar. À frente da equipe de Osasco desde 2006, ele montou para esta temporada da Superliga um time com cinco campeãs olímpicas e se diz satisfeito só de ver suas comandadas brilharem com a camisa do Brasil.

Não que o pernambucano de Caruaru não sonhe em um dia treinar a Seleção. Apenas acredita que o time esteja em boas mãos no comando de Zé Roberto, que invariavelmente utiliza jogadoras que passaram pelas suas mãos no time nacional juvenil ou no Sollys, e aproveita a estabilidade do clube da Grande São Paulo.

Na última semana, o treinador recebeu a Gazeta Esportiva.net para uma longa entrevista na quadra do ginásio José Liberatti. Falou sobre Seleção, Olimpíadas, carreira, trabalho na base e vida pessoal. Só hesitou na hora de posar para fotos, quando as jogadoras já se aqueciam para a sessão de treinamento, e teve que aguentar as gozações de suas atletas: “Faz uma cara sexy aí, Luiz”; “Estão te sacanaeando, Luiz. O nariz vai ficar maior desse ângulo”; “Moço, você vai usar Photoshop?”.

Mas a tranquilidade gozada hoje por Luizomar nem sempre existiu. Em 2009, o time de Osasco correu o risco de acabar, após o Bradesco retirar o patrocínio da Finasa, que o mantinha. À época, sua mulher, Márcia, estava grávida de seis meses e ele recebeu propostas para trabalhar fora do País. Em vez de aceitá-las, se uniu a políticos pela continuidade do projeto, negociou com patrocinadores e teve seu esforço recompensado quando o clube ganhou apoio da multinacional Nestlé.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Luizomar de Moura é o único treinador brasileiro campeão mundial infanto-juvenil, juvenil (com a Seleção) e adulto (com o Sollys/Nestlé)
Do atual time titular do Sollys, Thaísa e Adenízia, campeãs olímpicas em Londres-2012, e Camila Brait, cortada da Seleção três dias antes dos Jogos, estavam no elenco no momento de indefinição. Com a contratação da ponteira Jaqueline, a equipe, que passou a jogar de laranja no lugar do antigo vermelho, conquistou a Superliga já em seu primeiro ano com o novo patrocinador. Na final, derrotou a Unilever, de Bernardinho, o que se repetiu na temporada passada da competição nacional.

As duas equipes, finalistas das últimas oito edições da Superliga, são novamente as favoritas a brigar pelo título do torneio, que tem início nesta sexta-feira. A terceira força da competição deve ser o recém-criado Vôlei Amil, adversário de estreia do Sollys, que tem no comando José Roberto Guimarães.

GE.net: Como foi feita a preparação da sua equipe para defender o título da Superliga?
Luizomar:
Esse ano está sendo teoricamente melhor para os clubes porque a temporada internacional da Seleção Brasileira acabou mais cedo. Consequentemente, tivemos as jogadoras da Seleção mais tempo com a gente, então estamos jogando bastante. Tivemos o Mundial, o Paulista, que é muito forte, mas está diferente das outras temporadas. Estamos mais tempo juntos antes da Superliga, isso é importante. Normalmente as meninas chegavam em novembro, ficavam 15 ou 20 dias, e já tinha a Superliga.

GE.net: O título conquistado na temporada passada, o Campeonato Mundial e um elenco com cinco campeãs olímpicas (Jaqueline, Thaísa, Adenízia, Sheilla e Fernanda Garay) trazem mais pressão ao time?
Luizomar:
O que você está chamando de pressão, eu chamo de expectativa. É inerente a uma estrutura como tem o Sollys/Nestlé. Hoje a gente não deve como estrutura de trabalho a nenhuma equipe do mundo, tem um esquema extremamente profissional, a segurança de um grande patrocinador, um elenco forte, jogadoras consagradas e jovens talentos que criam expectativa. Mas nada que tenha sido diferente dos outros anos.

GE.net: Além disso, o time tem uma invencibilidade de 39 partidas, somando o fim da temporada passada e o início dessa. Isso afeta o modo de encarar os jogos?
Luizomar:
A gente não pensa muito nisso, não, até porque essa sequência de vitórias é de grupos diferentes. Contempla a temporada 2011/2012 mais a temporada 2012/2013, jogadoras foram embora, outras chegaram. O que a gente pensa é em realmente representar bem a marca, a estrutura que temos à disposição. Esse é o grande objetivo. A gente sabe que um dia vai perder ou por mérito do adversário ou porque jogamos mal, então não vejo o grupo muito preocupado com esses números, não.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Com cinco campeãs olímpicas no elenco, o Solllys/Nestlé é um dos principais candidatos ao título da Superliga
GE.net: Um dos destaques do Sollys na reta final da Superliga passada foi a norte-americana Hooker, que agora joga na Europa. Quando parecia que o time ficaria mais fraco, a Sheilla foi contratada para repor a perda e a Fernanda Garay também chegou. Como foi o processo de trazer mais duas campeãs olímpicas para a equipe?
Luizomar:
A Hooker acabou tendo uma proposta muito forte da Rússia, hoje está lá. A Sheilla é um desejo, sonho de qualquer estrutura aqui no Brasil, de qualquer treinador. Eu a conheço há algum tempo, já tínhamos tido alguns contatos para trabalharmos juntos e esse ano as duas coisas deram certo. A gente estava querendo ela e ela estava querendo a gente, acabou dando certo. A Fernanda Garay é uma jogadora com quem já tínhamos tido algumas negociações em anos anteriores e assim com o fim de seu antigo clube, o Vôlei Futuro, ela ficou no mercado. A Tandara tinha ido embora para o Sesi... A contratação dela foi uma coisa meio que o cosmos conspirou a favor porque faltava uma peça, terminou o Vôlei Futuro, a Garay estava no mercado e aceitou nossa proposta. Deu tudo certo, o timing deu certo.

GE.net: Já tem quem diga que você montou um esquadrão esta temporada, por já ter um time muito forte e que trouxe peças muito boas que estavam em outras equipes que acabaram enfraquecidas. Concorda com essa visão?
Luizomar:
Esse grupo está sendo construído há algum tempo. A Adenízia já tem 12 anos? [Confirma com o assessor de imprensa a informação] Já faz 12 anos que está neste projeto em Osasco. A Camila Brait chegou aqui muito jovem, era uma jogadora praticamente desconhecida, foi uma aposta nossa. A Thaísa também está indo para a quinta temporada. A Jaqueline nós repatriamos também há quatro temporadas. E a Fabíola é uma jogadora que no ano passado fizemos a aposta de dar um elenco muito forte na mão dela, que não decepcionou. Aí a chegada da Sheilla e da Fernanda Garay deu um ‘up’ a mais na equipe. Não montamos uma equipe do tipo “P..., vamos entrar no mercado”.

GE.net: E como você faz para administrar um elenco com tantas estrelas?
Luizomar: Eu conheço as meninas de muitos anos. A primeira viagem internacional nós fizemos juntos, a primeira convocação de Seleção Brasileira... A gente tem um histórico bacana. E eu fico muito feliz quando vejo o sucesso dessas atletas que eu vi com 14, 15 anos, vi em seletivas, né? Ao mesmo tempo é uma troca. Elas estão em um momento importante na carreira delas, meninas bicampeãs olímpicas, campeãs olímpicas, e a gente está dividindo a responsabilidade de dirigir a equipe do Sollys/Nestlé. Elas têm algo a me dar além da qualidade técnica e essa troca está sendo bem legal.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Tatuagem lembra título mundial infanto-juvenil
GE.net: Na montagem dos elencos, você tem característica de preferir jogadoras brasileiras a estrangeiras, se puder escolher. Por quê?
Luizomar:
Acho que é valorizar seu produto. É muito mais fácil em todos os sentidos. É ter o ídolo perto, a gente se preocupa muito porque o ranqueamento [cada jogadora recebe uma pontuação de 1 a 7 e os times não podem ultrapassar o limite de pontos em seu elenco] às vezes acaba punindo o próprio mercado interno. O ranquemaneto serve para você dar um equilíbrio, mas às vezes comete injustiças. É importante você manter as principais jogadoras. Elas fazem grande sucesso na Seleção e você dá de mão beijada para outras ligas? Para serem protagonistas de outras ligas? Elas têm que ser protagonistas da nossa liga.

GE.net: Para esse ano, as principais rivais na Superliga serão a tradicional Unilever e o recém-criado Vôlei Amil, comandados pelo Bernardinho e o José Roberto Guimarães, respectivamente?
Luizomar:
A Superliga continua com um grupo de quatro ou cinco equipes muito fortes. A Unilever, o Sesi tem um elenco de muita qualidade. Talvez um dos elencos mais fortes da Superliga seja o do Sesi. Todas as posições têm boas jogadoras. O Vôlei Amil vem em seu primeiro ano com jogadoras estrangeiras, consagradas, e incluo ainda nessa turma o Praia Clube, de Uberlândia, que é um time que não vai vir com a responsabilidade de ser apontado pela mídia como favorito, mas é muito curioso. E com essa pontuação [três pontos para o time que vencer por 3 sets a 0 ou 3 sets a 1, dois pontos para o que vencer por 3 a 2 e um ponto para o que perder por 3 a 2], se você bobear, perder dois sets, embola tudo. É um campeonato muito difícil, longo. São 18 rodadas, depois playoff.

GE.net: Por terem o Bernardinho e o Zé Roberto no comando, a Unilever e o Amil  se tornam mais fortes do que os outros adversários?
Luizomar:
O fato de termos o Bernardinho e o Zé Roberto dirigindo a Superliga valoriza demais a competição. São treinadores consagrados. A Superliga só tem a ganhar com dois treinadores desse porte.

GE.net: Você tem relação direta com algum deles?
Luizomar:
Uma relação profissional, de respeito. Os dois são profissionais que merecem todo o respeito de qualquer treinador, não só brasileiro, mas mundial. São caras vencedores, tenho um bom relacionamento profissional.

GE.net: O fato de você ser técnico da Seleção feminina juvenil não te deixa mais próximo do Zé Roberto?
Luizomar:
Com os dois eu me relaciono bem porque a gente vive muito tempo lá no CT de Saquarema. Hoje a casa do vôlei não é só a casa do vôlei adulto, é a casa da base também. Está todo mundo torcendo por todo mundo para fazer o vôlei ser vencedor das categorias de base à Seleção adulta.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Ainda que tenha títulos expressivos, o técnico do Sollys/Nestlé vive à sombra dos astros Zé Roberto e Bernardinho
GE.net: O cargo de treinador da Seleção principal faz parte dos planos da sua carreira?
Luizomar:
É uma coisa que seria mentira se você falar que não. Pô, quem não sonha um dia? Eu sonho, sempre tive o sonho de disputar as Olimpíadas, de estar nas Olimpíadas. Eu brinco que, se não for trabalhando, vou pagar o ingresso. Agora está mais fácil porque tem Rio-2016 aqui. O ingresso vai ser caro, mas você não vai gastar tanto em hospedagem. Sonho em estar nas Olimpíadas, mas me sinto muito feliz, sou técnico da Seleção juvenil e ver essas meninas com o sucesso que elas estão alcançando é um grande prazer também.

GE.net: A renovação do contrato do José Roberto Guimarães como treinador da Seleção feminina para o próximo ciclo olímpico ainda não foi definida, embora esteja bem encaminhada. Caso ela não ocorra, você se colocaria à disposição para o cargo?
Luizomar:
É uma coisa que não procuro pensar porque as Seleções estão muito bem aí na mão de seus treinadores. Não é uma coisa com que eu esteja preocupado.

GE.net: Quais as principais diferenças entre o trabalho que você desenvolve na Seleção juvenil, com atletas ainda em formação, e no Sollys, com estrelas do vôlei?
Luizomar:
No juvenil você acaba sendo um pouco paizão em alguns momentos. Você tem que dar uma atenção maior também, saber um pouco da vida da menina, ver como é o círculo familiar, da onde ela vem, quais as expectativas. Monitorar um pouco para ajudar ela a absorver tudo o que acontece quando chega à Seleção, toda a expectativa que se cria. Tem que deixar as meninas com pé no chão. Então não dá para ser só técnico, tem que ser professor, formador, um pouco pai e isso é legal.

GE.net: Com esse trabalho você tem bom conhecimento das atletas que estão despontando. Existem jogadoras para uma renovação da Seleção até os Jogos Olímpicos de 2016?
Luizomar:
Fica difícil apontar nomes porque acaba criando uma expectativa e neste momento, ainda mais com atletas jovens, precisa ter cuidado para não mexer com a cabeça das meninas. De uma maneira geral, vejo bons valores. Tem um trabalho com a Seleção B e muitas meninas estão sendo inseridas, talvez não como no masculino, que tem muita quantidade e muita qualidade. Tem muito moleque bom aí sempre. No feminino não vem em tanta quantidade, mas aparece muita qualidade. Há uma geração nova vindo com grande potencial.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Com sucesso nas categorias de base, o treinador evita pensar em comandar a Seleção Brasileira principal
GE.net: Como você divide o tempo entre os dois empregos?
Luizomar:
Eu tenho duas comissões técnicas, com profissionais gabaritados que me auxiliam. Hoje a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) tem um projeto de formação, está puxando os técnicos formadores para mais perto das nossas comissões e tudo isso auxilia no trabalho.

GE.net: Como sua família lida com o fato de você ter esses dois trabalhos, estar sempre viajando com o Sollys ou com a Seleção?
Luizomar:
A família teoricamente é a parte que fica mais fragilizada e agradeço muito à minha esposa e aos meus filhos por entenderem esse momento. Às vezes você não está em uma comemoração, não está em uma data importante e isso dói muito. Mas tenho uma família, p..., sensacional. Minha esposa abriu mão da carreira. Ela era uma boa técnica de natação, que tinha um trabalho bacana também de formação, e abriu mão de sua profissão para cuidar mais de perto dos nossos filhos. Tenho um garoto de três anos que é o Gustavo e um de 15 que é o Luiz Henrique. E devo muito a eles por entenderem o momento que o marido e o pai vive.

GE.net: Alguma vez já pediram para você dar um tempo de algum dos cargos? Pelo menos temporariamente.
Luizomar:
Não, é um apoio incondicional. Minha esposa sabe dos meus sonhos, sabe o quanto eu corri atrás disso, o quanto eu trabalhei, o quanto eu trabalho. Graças a Deus hoje agradeço muito por poder viver do vôlei, viver do esporte. Eu sou professor de educação física posso dar uma boa qualidade de vida para minha família através do esporte.

GE.net: Você é criado em São Caetano do Sul e começou sua carreira lá. Como foi voltar ao Estado de São Paulo, na temporada 2006/2007, depois de ter trabalhado seis anos no Rio de Janeiro?
Luizomar:
O Rio para mim foi uma experiência muito importante. Os anos em que eu fiquei lá foram de projetos maravilhosos, mas com muita dificuldade financeira, atraso de salários, às vezes a estrutura não era a melhor. Você tinha que estar sempre ali com o pires na mão, correndo, tentando dar o melhor para sua equipe, mas amadurecendo. Foram anos em que aproveitei muitas jogadoras jovens. Eu vinha aqui em São Paulo, aqui mesmo, na época do BCN, Finasa, pegava meninas jovens e levava para lá. Dei oportunidade para muitas jogadoras e talvez isso tenha sido um dos motivos de eu ter aparecido um pouco mais e ser convidado depois para essa estrutura. Mas me sinto muito feliz aqui em Osasco, com uma torcida que apoia demais o time, uma estrutura maravilhosa. É muito bom estar aqui.

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Luizomar de Moura foi decisivo para manter o time de Osasco após a retirada do patrocínio do Bradesco
GE.net: Você ficou três temporadas no comando do Finasa/Osasco e em 2009 o Bradesco retirou o patrocínio do time apenas alguns dias depois da final da Superliga, colocando a continuidade do projeto em risco. Foi o momento mais complicado da sua carreira?
Luizomar:
Ultimamente, foi o momento mais difícil do vôlei nacional porque na época um patrocinador como o Bradesco fechar as portas, logo após o título nas Olimpíadas de Pequim, criou uma insegurança na modalidade. Graças a Deus, tive apoio, acreditei em pessoas importantes que compraram comigo a ideia de não deixar o time acabar. Tive apoio da iniciativa privada, de pessoas públicas e um apoio que achei fundamental: das minhas jogadoras. Naquele momento, elas acreditaram nas minhas palavras para continuar todo mundo junto. A gente vinha de três derrotas em finais de Superliga e naquele ano, com todas as dificuldades e mudanças, vencemos a Superliga dentro do Ibirapuera. Foi um ano que começou de maneira extremamente preocupante e teve um fechamento maravilhoso. Voltamos a ganhar a Superliga depois de três anos, em São Paulo, com o Ibirapuera lotado e tingido de laranja. Foi um momento muito especial da minha vida.

GE.net: Você chegou a planejar sua carreira fora daqui quando o time ficou sem patrocínio?
Luizomar:
Naquela época minha esposa estava grávida do Gustavo, estava com seis meses de gestação e eu tinha algumas propostas de fora do País. Era um momento difícil da minha vida pessoal. Pô, uma mulher grávida, né? Mas ela também não deixou a peteca cair. Lembro que quando eu dei a notícia, ela foi a primeira a me colocar de pé. Falou “não poxa, fica tranquilo que a gente vai sair dessa junto. Estamos juntos para o que der e vier”. Então foi bacana.

GE.net: Na época você chegou a correr atrás de patrocinador, negociar com empresas. Como foi quando a continuidade do time ficou garantida com a chegada da Nestlé?
Luizomar:
Foi um alívio e principalmente segurança. Para você manter jogadoras do porte que o time de Osasco teve, precisa ter um patrocinador forte que dê segurança e a Nestlé é isso. É um patrocinador extremamente profissional, apoia sem pressão, gentilmente e elegantemente.

GE.net: Desde então a equipe vem em uma ascensão, com dois títulos de Superliga em três finais consecutivas, e hoje provavelmente vive seu auge após ganhar o Campeonato Mundial. Ter participado dos momentos de incerteza deixa as conquistas mais especiais?
Luizomar:
Ah, sim. Sempre. Porque você acaba participando dos dois lados, começa a entender um pouco também o que é um patrocínio, uma estrutura, tem que abrir um pouco a cabeça também para a marca. Às vezes o treinador só pensa em resultado, resultado, mas com um grande patrocinador você tem outras coisas envolvidas e essas experiências foram e estão sendo muito boas para a minha carreira.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Técnico vê esporte como ferramenta social
GE.net: Esse episódio é um bom exemplo de como as equipes do vôlei, apesar de todo o sucesso mundial da Seleção e dos jogadores brasileiros, ainda são dependentes dos patrocinadores. Dá para imaginar um cenário com os clubes mais estabelecidos, sem precisar de tanto apoio de fora?
Luizomar:
Acho que não, hoje nós concorremos com as principais ligas do mundo. Nossos atletas são desejados por elas, então não tem como você mantê-los no País se não tiver investimento da iniciativa privada. Até porque a carreira do atleta é curta e são oportunidades que ele recebe. Mas o esporte é uma grande ferramenta para a marca, uma ferramenta social, de entretenimento, um grande exemplo. Você vem aqui e vê o ginásio sempre lotado. Isso faz parte do lazer do munícipe de Osasco. Espero que mais empresas invistam, não só no vôlei, mas no esporte, e entendam que é importante. Cidades também, que mais comandantes entendam que o esporte pode ser uma grande ferramenta social dentro do seu governo.

GE.net: Você falou que é importante ter o ídolo no Brasil, perto da torcida. Na Superliga deste ano serão dez times, nove do Sudeste, sendo seis de São Paulo, e um do Sul. Acha que essa concentração prejudica a difusão do vôlei?
Luizomar:
Como técnico formador de Seleção de base, recebo todo ano muitas meninas do Sul do País, são muitas gaúchas, catarinenses, paranaenses. A gente poderia ter mais equipes do Sul. O Nordeste tem um potencial e eu vejo pouco explorado porque às vezes o pessoal não monta time porque quer uma equipe competitiva. Esses centros mais afastados poderiam inverter os valores. Em vez de você ter uma equipe dessas, porque é caro, você poderia ter um elenco barato com a oportunidade de levar os fortes a jogarem no seu ginásio, no seu estado, na sua cidade. Daria um retorno muito grande para a sua comunidade e divulgaria também o vôlei. Defendi muito isso quando estava no time de Campos porque às vezes não tinha elenco para ser campeão, mas estava dando ao munícipe a oportunidade de ter atletas consagradas pelo menos duas ou três vezes por ano jogando lá.

GE.net: Acha que falta uma ação da CBV para ter times em todas as regiões do País?
Luizomar:
Falta um pouco da visão de quem administra isso, visão do poder público. “Poxa, imagina ter aqui esses grandes ícones do vôlei que a gente vê pela televisão. Ficando aqui no hotel da nossa cidade, fazendo treinamento, andando por aqui. A gente poder levar nossas crianças para o ginásio”. É uma visão que poucos têm, mas seria bacana.

GE.net: Talvez a questão administrativa pese nisso. Ficaria caro para quem está montando um time no Nordeste viajar constantemente para São Paulo, Rio de Janeiro...
Luizomar:
Mas, olha, hoje a gente tem muitas ferramentas. A Superliga custeia passagem aérea. É lógico que sem dinheiro fica difícil fazer, mas a criatividade, às vezes o envolvimento da comunidade e a força de vontade podem mudar isso. Vejo muita gente presa naquela coisa “Pô, é difícil, é caro”. Isso é cômodo, né? Às vezes você sonhar e envolver pessoas... Já vi muitos projetos bacanas surgirem assim. O Rio do Sul é um projeto nesse sentido, que envolve a cidade. Os caras fazem rifa e tal e estão na Superliga pela segunda temporada.

Fernando Dantas/Gazeta Press
O comandante do Sollys/Nestlé se diz favorável ao uso da tecnologia para auxiliar na abitragem durante as partidas
GE.net: Em setembro o Ary Graça, à frente da CBV desde 1997, foi eleito presidente da Federação Internacional de Vôlei. Como você avalia essa eleição?
Luizomar:
Ele é um cara que é sinônimo de organização, credibilidade e que há muito tempo tem colocado o vôlei em evidência. Fiquei muito feliz, comemorei muito a vitória do doutor Ary, ele é merecedor da posição.

GE.net: Uma das principais propostas dele é a implementação da tecnologia para auxiliar a arbitragem. É algo que te agrada?
Luizomar:
Sim, sim. Principalmente pela qualidade dos campeonatos que nós vivemos. Você perder um campeonato hoje por uma bola dentro ou fora, um erro, se você tem essa possibilidade... Lógico que algumas coisas são subjetivas. Agora linha, dentro e fora é muito ruim para qualquer esporte. O tênis tem isso, o futebol está querendo fazer, para ver se a bola passou ou não passou. É bom ter a tecnologia para auxiliar e você poder sair com a cabeça tranquila. Ir para casa com dúvida, ou o ‘se’... O ‘se’ dentro do esporte pune demais, dói demais. Nós usamos a tecnologia agora no Campeonato Mundial e foi muito bacana, uma experiência muito legal. Fica todo mundo ali ansioso, os times vibram com a decisão, se o desafio foi correto ou não. Foi bem legal.

GE.net: Você já pensou em ser dirigente caso um dia deixe de ser técnico? 
Luizomar: Não, acho que ainda tenho muita lenha para queimar. Acho que tenho e quero ter, né? São duas coisas: uma é achar e outra é realmente você ter, entendeu? E eu quero os dois. Quero achar que tenho e quero ter.

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