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Futebol/Mundial de Clubes - ( - Atualizado )

Gobbi se inspira com a fé e já tem trilha sonora para título mundial

Helder Júnior e Luiz Ricardo Fini São Paulo (SP)

O presidente Mário Gobbi evita como pode cantar vitória antes do tempo. Nem sempre ele se contém. Antes mesmo de viajar ao Japão para chefiar a delegação do Corinthians no Mundial de Clubes, o delegado que queria ter seguido carreira como DJ já havia escolhido uma música para embalar um possível título de sua equipe. Pediu até para a esposa Alessandra gravar um CD com a trilha sonora da conquista para que ele pudesse escutar o enredo do outro lado do planeta.

A inspiração musical de Gobbi para o torneio no Japão é semelhante àquela bem-sucedida na última Copa Libertadores da América, em que canções de Gilberto Gil e do grupo 14 Bis foram as suas prediletas. Na ocasião, o presidente demorou a soltar a voz, com gritos desafinados, para festejar a vitória continental. Só o fez nos acréscimos da decisão contra o argentino Boca Juniors, no banco de reservas do Pacaembu – e ouviu uma inesquecível reprimenda do técnico Tite.

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Mas Mário Gobbi e o treinador do Corinthians convivem em harmonia na maior parte do tempo. Católicos fervorosos, eles se unem em devoção em todos os lugares que visitam. Foi assim em Santos, onde receberam assédio da torcida local em missa realizada no mesmo dia do primeiro jogo da semifinal da Libertadores, e em Buenos Aires, onde visitaram a Igreja Nossa Senhora do Pilar e garantiram ter sentido uma premonição da conquista que estava por vir. No Japão, o local escolhido para as orações foi o Centro Católico Internacional Mikokoro.

Antes de buscar mais inspiração através da fé, Mário Gobbi concedeu esta longa entrevista com exclusividade para a Gazeta Esportiva.net, publicada na véspera da estreia do Corinthians no Mundial de Clubes, contra o egípcio Al Ahly. Bem-humorado, falou religiosamente sobre tudo: sua infância, sonhos, o modo de se impor na Conmebol, a relação com o predecessor Andrés Sanchez, a filosofia de não querer ter filhos, a construção do estádio de Itaquera, novos contratos de patrocínio... Menos sobre o misterioso nome da música tema de um eventual troféu no Japão.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Católico fervoroso, Mário Gobbi tem um altar para iluminá-lo na sala da presidência do Corinthians
Gazeta Esportiva.net: As imagens de santos que estão aqui, na mesa da presidência do Corinthians, são as mesmas da sua antiga sala no Demacro (Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo)? Lembro-me de ter visto esta representação vermelha de São Jorge lá, antes de o senhor ser eleito.
Mário Gobbi: (O presidente vira a sua cadeira e começa a admirar as imagens.) Se você assistir ao programa Saia Justa do canal GNT, verá que esta peça de São Jorge é a mesma que fica atrás da Mônica Waldvogel. Um policial, que foi meu anjo da guarda durante dez anos de trabalho, comprou para mim. Já este outro São Jorge foi um presente que deram no dia em que vencemos a Libertadores. Meus compadres de Jaú vieram assistir à final e trouxeram o santo como lembrança. Esta Nossa Senhora estava aqui, no clube, e eu peguei para a minha mesa. Ganhei a Nossa Senhora Aparecida em outra ocasião. O padre Jefferson, de Bragança, que rezou a missa de São Jorge no Corinthians, trouxe esta Nossa Senhora de Fátima para mim quando foi a à cidade de Fátima. Estamos falando de representações da minha fé. Algumas imagens são mais antigas, da época da delegacia, e outras mais recentes.

GE.net: Quem precisa de mais ajuda divina: o delegado ou o presidente do Corinthians?
Gobbi: Ambos. Mas, se você quer saber o que é mais complicado, não tenha dúvidas: o cargo de presidente do Corinthians. A presidência de um clube desse tamanho te desgasta emocionalmente, estressa. Aproveito os finais de semana para recuperar as energias, de preferência com uma boa música, pois, às vezes, saio do Parque São Jorge completamente acabado.

GE.net: Então é por essa razão que o senhor tem se notabilizado por recitar letras de música em suas entrevistas, sempre de forma bem-humorada.
Gobbi: (Risos.) A minha grande paixão de infância é a música. Queria ser DJ para tocar o som que eu gostava nos programas de rádio. As letras me tocam a ponto de eu pensar: “Poxa, que mensagem!”. Uma música que uso bastante em entrevistas é Canteiros, do Raimundo Fagner. Quando vejo algo que me choca e entristece, recito o trecho: “Eu só queria ter do mato/ Um gosto de framboesa/ Pra correr entre os canteiros/ E esconder minha tristeza”. É a minha forma de dizer que estou chateado com determinado fato. A música tem esse poder de resumir os nossos sentimentos. Sabe qual é a canção adequada para esta nossa conversa? Roda viva, de Chico Buarque: “Não posso fazer serenata/ A roda de samba acabou”. Quer dizer: a roda vai girar, todos iremos embora para as nossas casas e só restará a entrevista.

GE.net: Como o senhor escolhe a música própria para cada momento?
Gobbi: Tenho temas musicais por semana. Nesta semana, estou ouvindo Roberto Carlos. Vai da minha vontade, da inspiração.

GE.net: Qual era a inspiração nos momentos decisivos da Libertadores?
Gobbi: Havia duas. Andar com fé, do Gilberto Gil: “Andar com fé eu vou/ Que a fé não costuma faiá”. E Linda juventude, do 14 Bis: “Nossa linda juventude/ Página de um livro bom/ Canta que te quero/ Cais e calor/ Claro como o sol raiou”. Isso significava a virada de uma página fantástica da vida do Corinthians, que ficará para sempre guardada nos nossos corações.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Presidente dança conforme a música para esfriar empolgação exagerada na disputa do Mundial de Clubes
GE.net: O senhor já tem a trilha sonora do Mundial de Clubes?
Gobbi: Já...

GE.net: E...?
Gobbi: … E vai ficar em segredo! Só posso dizer que é uma música do... Ou melhor, não vou contar nem o nome do cantor. Eu me inspirei recentemente, em um feriado. A minha esposa gravou um CD para eu levar para o Japão e ficar ouvindo a trilha sonora que escolhi lá. Se, por um acaso, acontecer essa bênção de Deus, essa graça de sermos campeões mundiais, você saberá qual é o tema que estou pensando.

GE.net: Pelo visto, a letra do tema musical do Mundial já está na ponta da língua do senhor.
Gobbi: Todas as letras de que gosto estão. Tenho muitos CDs e DVDs na minha casa. Sempre que possível, prestigio os meus cantores favoritos. Às vezes, alguém que conhece o meu gosto até me cobra: “Mário, por que você dispensou o Odair José neste fim de semana?”. Mas vai de acordo com o momento. Quando viajo para Jaú, a minha cidade, coloco os CDs no banco do passageiro do meu fusquinha, escolho um deles para ouvir e viajo, desapareço na minha imaginação. Em horas assim, aparecem músicas para a Libertadores, para o Mundial ou o que seja.

GE.net: Desta vez, para um possível título mundial, a sua inspiração musical surgiu por algum devaneio específico?
Gobbi: Só comecei a pensar no que estava se passando com o Corinthians, e... Há uma música que se encaixa.

GE.net: Estamos bastante curiosos.
Gobbi: Antes de eu revelar a música do título, precisamos trabalhar muito. Não é fácil ganhar um Mundial. Só há gigantes competindo. Não gosto nem de... Tenho um bloqueio. Acho melhor eu contar como foi o dia em que ganhamos a Libertadores para explicar direito como funciona a minha sensibilidade.

GE.net: Fique à vontade para contar.
Gobbi: Pela manhã, eu estava em uma entrevista coletiva com o Pelé e o Andrés (Sanchez, seu antecessor na presidência), que havia ido até lá para nos dar um apoio. Fiquei pouco tempo com eles e retornei para a concentração. Aliás, pouco deixo o meu quarto em concentrações. Às 17 horas, finalmente saí e comecei a observar o céu de São Paulo. Não dava para ouvir, mas eu conseguia ver as bombas que estouravam na cidade. Senti um cheiro mágico e único no ar. Era algo que contagiava o ambiente. Mais tarde, voltei a olhar para o alto ao lado do Duílio e do Roberto (Monteiro Alves e De Andrade, diretores de futebol do Corinthians). Que coisa louca... Não ouvíamos os fogos. Mas eu aspirava e sentia aquele cheiro de título, aquela energia...

Fernando Dantas/Gazeta Press
Gobbi estava de olhos bem abertos para a atmosfera da cidade de São Paulo no dia da final da Libertadores
GE.net: O senhor já havia vivenciado algo semelhante?
Gobbi: Nunca! Aquele cheiro foi me dando uma paz muito grande para o jogo decisivo. Houve a preleção do Tite e fomos embora para o Pacaembu. Até me recordo que saí cantando da concentração. Eu estava leve, com o sentimento de dever cumprido. Chegamos ao estádio e subi para me posicionar no meu lugar, pois havia muitos convidados de Jaú para receber. A partir daquele momento, comecei a olhar o Pacaembu... Parecia que havia uma nuvem mágica ali, cobrindo tudo. Era aquele ambiente, aquele clima que citei. Pensei: “Nossa, isto aqui é título”. Tanto é que não me alterei em nenhum momento do jogo. A confiança era plena. O que aconteceu naquela noite foi muito forte. Tive essa sensibilidade de perceber que seríamos campeões. Quando fizemos 1 a 0, os seguranças me levaram ao vestiário para eu poder entrar em campo. Passei no meio de toda a imprensa que estava lá. Os repórteres me perguntaram como eu me sentia sendo campeão da Libertadores, mas respondi que ainda faltavam alguns minutos e deveríamos respeitar o Boca Juniors. Fiquei em um canto, isolado, esperando a partida acabar, e o Corinthians fez 2 a 0. Repeti para os jornalistas que só seríamos campeões quando o árbitro apitasse o fim do jogo.

GE.net: Você conseguiu ver o segundo gol do Emerson?
Gobbi: Não. Eu ainda não havia entrado no campo e não estava com uma televisão como foi. Nossa! Nunca imaginava que fosse ser daquela forma. Aí, aos 44 minutos, o chefe de polícia apareceu e me botou no gramado. Quando cheguei ao nosso banco de reservas, comecei a gritar com o Roberto e o Duílio: “Poxa, nós somos campeões! Somos campeões!”. O Tite virou para mim e falou: “Cala a boca, o jogo não terminou e não admito que você faça isso!”. (Risos) Pensei: “O que estou fazendo aqui, estragando o trabalho do professor?”. E o Tite continuava orientando os jogadores: “Fiquem concentrados! Peguem aqui, ali!”. Depois de mais dois minutos, acabou. Éramos campeões. Abracei calorosamente o Tite. E o Pacaembu ainda tinha aquela nuvem mágica, aquela atmosfera fantástica.

GE.net: Apesar dessa bronca na final da Libertadores, o senhor parece ter muito em comum com o Tite. A religiosidade, por exemplo.
Gobbi: Nós nos identificamos muito, muito, muito. Quando o Tite chegou ao Corinthians, nós nos avistamos pela primeira vez e não abrimos a boca. Conversamos com os olhares. Parecia que eu, então diretor de futebol, dizia: “Você era a pessoa de que eu precisava”. E ele: “Você é o cara que eu queria para me apoiar”. Ninguém falou nada, mas havia um sentimento forte, sabe? Fomos juntos para Goiânia na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2010, com o Corinthians precisando vencer o Goiás para poder conquistar o título – aliás, o Fluminense ganhou aquela competição com um gol do nosso Emerson, que tem bastante estrela. Antes da partida, acordei por volta de 9h30 e fui assistir à missa na igreja mais próxima do hotel onde estávamos em Goiás. O culto já havia começado quando entrei, então fiquei em pé, bem no fundo da igreja. Adivinhem quem estava logo à minha frente.

GE.net: O Tite?
Gobbi: O Tite. Parei bem atrás dele. Assisti a toda a missa sem dizer nada e, no momento de desejar a paz para o próximo, o Tite se virou e me viu. Foi muito intenso o que aconteceu ali. Acabamos nos distanciando um pouco depois, já que saí da diretoria de futebol do Corinthians. Ainda no vestiário, após o jogo em Goiás, eu me despedi de todos e informei a minha decisão. Foi uma surpresa geral. Ninguém sabia que eu abdicaria da diretoria. Nem o Tite.

GE.net: Por sorte, o Tite resistiu a outros momentos difíceis, como aquela derrota para o Tolima na pré-Libertadores, e vocês se reencontraram.
Gobbi: Quando retornei como presidente, mantivemos a tradição de ir às igrejas das cidades onde o Corinthians estava jogando. Peço para os nossos seguranças checarem onde há a missa mais próxima assim que chegamos a outros lugares. Contra o Boca Juniors, em Buenos Aires, havia uma igreja bem perto do nosso hotel. Mas o Tite me falou: “Não, presidente. Aqui, vou à Igreja Nossa Senhora do Pilar, que é especial. Se o senhor não se incomodar...”. Eu disse que iria aonde ele fosse. Lá chegando, vi uma igreja muito bonita, mas aparentemente tão comum quanto qualquer outra. Foi então que o Tite me chamou: “Há um lugar que quero mostrar ao senhor”. Caminhamos a uma área à esquerda, onde havia um túnel escuro, iluminado só por velas. No fim do trajeto, o Santíssimo brilhava! Foi incrível. Senti a presença de Deus muito forte dentro de mim. Saindo dali, comentei com o Tite que jamais tinha presenciado algo tão mágico dentro de uma igreja. Ele me deu de presente este terço do Espírito Santo (o presidente tira o objeto do bolso), que guardo sempre comigo. Ou seja: nós dois temos essa formação religiosa. Isso facilita o convívio. O Tite é uma pessoa abençoada.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Mário Gobbi ganhou este terço do técnico Tite no dia em que o Corinthians empatou com o Boca em La Bombonera
GE.net: Na Argentina, o Tite e o senhor podem ir à igreja sem serem incomodados por tanta gente. Como era em cidades com maior rivalidade, como em Santos, onde o Corinthians disputou as semifinais da Libertadores?
Gobbi: Fomos à Igreja de Santo Antônio em Santos. E era dia de Santo Antônio! A igreja estava forrada de gente. Entramos e ficamos bem no cantinho, ao lado do altar, quietos. Poucas pessoas no viram. Umas 40 ou 50 no máximo. Algumas delas vieram até nós, disseram que eram santistas, mas pediam que Deus nos ajudasse. Até o padre falou: “Hoje, o nosso Santos tem de vencer!”. Fomos embora logo depois de ele dar a bênção. Tudo aconteceu com extremo respeito.

GE.net: A religiosidade do senhor fica mais aflorada em momentos importantes, como as fases decisivas da Libertadores e um Mundial de Clubes?
Gobbi: Oro todos os dias. Não piso no Corinthians sem antes ir à Igreja de Fátima, perto de casa. Rezo por jogadores, comissão técnica, torcedores, sócios, conselheiros e dirigentes. Peço que Deus nos encha de sabedoria e humildade, que nos ilumine a fazer o melhor pelo clube, que me guie sempre e não me deixe errar, que me conduza a produzir o bem. Isso é uma estrutura muito forte que tenho como presidente.

GE.net: Antes da viagem ao Japão, o senhor pesquisou que igreja frequentará lá?
Gobbi: Não (risos). Mas, com certeza, não ficamos sem a oração. É um alimento diário que nos mantém. (O presidente, acompanhado de Tite, escolheu o Centro Católico Internacional Mikokoro para rezar em Nagoya.)

GE.net: Além de orar, o senhor tinha o hábito de usar uma meia lilás para dar sorte ao Corinthians em jogos importantes. Resgatará a superstição no Mundial?
Gobbi: De fato, eu gostava de usar a minha meia lilás. Estava com ela quando o Viola marcou o gol do título paulista de 1988. Era o meu talismã, mas já passou. De vez em quando, ainda me vem o pensamento de colocar determinada camisa ou fazer isso e aquilo para trazer sorte, mas prefiro me voltar para a fé. Não dá para acreditar em Deus e nessas coisas ao mesmo tempo. É incompatível.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Dirigente se apega à fé para conduzir o Corinthians a conquistas dentro e fora de campo em seu mandato
GE.net: Sua meia lilás também não está fazendo muita falta. O Corinthians foi campeão da Libertadores sem ela.
Gobbi: Fizemos um ano brilhante. Só nós vencemos uma Libertadores com 14 jogos de forma invicta, tendo um Boca Juniors pela frente. Ainda terminamos o Campeonato Brasileiro com uma campanha respeitável e estamos na briga pelo título mundial. Não esperava tudo isso em tão pouco tempo de mandato. Não imaginava nem que seria presidente do Corinthians. É uma nova etapa da vida do clube. Percebam: quando usava a minha meia lilás em Jaú, eu sofria muito. A colônia palmeirense sempre foi grande na cidade, e o Corinthians atravessava um longo jejum de conquistas na época. Os rivais judiavam da gente, e eu era um menino meio bocudo. Os mais velhos, todos palmeirenses, me provocavam, e o meu pai tinha que me conter: “Mário, para!”.

GE.net: Mas você deve ter ido à forra com o título paulista de 1977. E, mais recentemente, com o troféu da Libertadores.
Gobbi: Em 1977, com todo mundo na cidade torcendo contra, eu me juntei a mais dois amigos corintianos para assistir ao jogo em um local mantido em segredo absoluto, a casa de um deles. Era melhor que fosse assim porque, se o Corinthians perdesse, os palmeirenses viriam para cima da gente para zombar. Mas ganhamos. Quando acabou, foi a nossa vez de fazer festa. A torcida corintiana se reuniu no centro de Jaú, fazendo batucada durante toda a madrugada. Na Libertadores, já como presidente, foi mais tranquilo. Participei da comemoração reservada dos jogadores no vestiário e fui embora em seguida, passando rapidamente pelo setor da imprensa. Não gosto de aparecer muito. Sou um homem reservado. Fui comemorar com as pessoas que me amam, admiram, respeitam e me conhecem profundamente no restaurante de um amigo, que fechou o local só para a minha família. Foi gostoso. O pessoal de Jaú estava junto. Não eram os amigos do presidente, e sim os do Mário Gobbi.

GE.net: Esse seu lado reservado contrasta com a personalidade do seu predecessor, o Andrés Sanchez.
Gobbi: Quando o Andrés me lançou para disputar a presidência, reuni a minha família e disse que me envolveria em um projeto espinhoso. Pedi a todos para não assistirem, ouvirem ou lerem nada sobre mim para não se machucarem. E, se eles fossem corajosos para saber o que a mídia poderia estar inventando, que guardassem para eles. Não adiante me envenenar com coisas que não vão me ajudar. Na minha casa, a televisão só passa o Roda Viva, da TV Cultura, as reprises da Escolinha do Professor Raimundo, um programa divertido, que funciona como terapia, a Globo News, o GNT e o Telecine. Nada mais. Ser presidente do Corinthians é complicado. O Andrés teve até problemas de saúde. Eu, por enquanto, estou resistindo bravamente.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Mário Gobbi se diferencia de Andrés Sanchez: prefere a discrição e gosta de delegar funções na diretoria
GE.net: Existe uma dúvida em relação ao tamanho da influência do Andrés no Corinthians atualmente.
Gobbi: O Andrés é o meu ídolo, um professor. Procuro ouvir a experiência dele. É claro que não para assuntos diretivos, mas para temas relevantes. Como ele já passou por muita coisa aqui, pode nos ajudar a tomar as melhores decisões. Quando sair, também vou colaborar se acharem necessário. A nossa relação é verdadeira, baseada na troca de ideias entre dois colegas que idealizaram e fundaram o grupo Renovação e Transparência.

GE.net: O Andrés já criticou alguma das suas decisões?
Gobbi: Já. Muitas vezes pensamos de formas diferentes, e isso é normal e salutar. As nossas personalidades podem não ser as mesmas, mas a diretriz é igual. Às vezes, ele chega até mim e fala: “Olhe, Mário, por que você não fez assim?”.

GE.net: Olhando de fora, a impressão é de que ele era mais centralizador, enquanto o senhor gosta de delegar atribuições.
Gobbi: É uma questão de estilo. Quando fui diretor de futebol, cuidava apenas do meu departamento. Nunca me meti em assuntos dos outros. Sou um descentralizador por natureza. Dessa maneira, dividi os trabalhos diretivos do Corinthians entre um grupo técnico, sob coordenação do meu vice Luis Paulo Rosenberg, um para o clube social, a cargo do meu segundo vice Elie Werdo, e outro para o futebol armador, que está diretamente sob a minha tutela.

GE.net: O senhor já foi criticado por não participar diretamente do dia a dia do time de futebol. Por outro lado, o Tite elogiou bastante uma recente palestra motivacional sua para o elenco. Como será a sua postura durante o Mundial?
Gobbi: Se o Tite entender que eu deva novamente intervir ou falar, farei isso. Mas o comando é total do treinador. Vestiário é um ambiente sagrado, em que só o técnico manda. Vou contar para vocês como era o meu relacionamento com o Mano Menezes. Depois de certo período de trabalho como diretor de futebol, pedi a ele que não me informasse mais a escalação do Corinthians. Isso não é problema meu. Se contratei uma comissão técnica cara e de alto nível, por que vou querer fazer a função dela? Quem sou eu para interferir no trabalho de alguém? Eu me sentiria desrespeitado se fosse comigo. Os jogadores devem saber que quem tem o poder é o treinador. Se não for assim, as coisas desabam. O dirigente só deve interferir quando há necessidade.

GE.net: O senhor interferiu depois daquele jogo polêmico contra o Emelec, na Libertadores. Ainda no aeroporto, fez um protesto contra a arbitragem e insinuou até que preferia o Campeonato Paulista ao torneio continental. Pareceu que o Corinthians passou a ser mais respeitado na Conmebol depois do seu desabafo.
Gobbi: Vocês enxergaram longe. Poucos notaram isso. Fiz aquelas críticas de caso pensado, obviamente. No Equador, eu era a pessoa mais calma do camarote onde estávamos assistindo ao jogo contra o Emelec. As revoltas do Edu (Gaspar, gerente de futebol), do Duílio, do preparador de goleiros, do nosso segundo preparador físico e de um fisioterapeuta com a arbitragem eram monstruosas. A ponto de eu precisar acalmá-los. Naquele momento, eu ficava pensando se havia motivo para tanta raiva. Quando fomos ao vestiário, vi o grupo inteirinho indignado. Os atletas – todos – contaram para nós o que o árbitro fez em campo. Ele estava tirando sarro do nosso time, falando para o Emelec: “Vamos, que a bola é nossa”. Até o Danilo, uma pessoa extremamente serena, virou-se para mim e falou que nunca tinha visto tamanho absurdo em toda a sua carreira. Eu precisava reagir. Depois de uma reunião com a diretoria e com o Tite, avaliei que era o momento de dar um basta. Perdido por perdido, truco! A minha reclamação foi um divisor águas. Que bom que vocês também viram assim. Poucos enxergaram duas coisas: que tentávamos tirar a pressão e desviar o foco a todo o momento, desvalorizando a competição, e que brigávamos por mais respeito.

GE.net: Acho que o senhor tem propriedade para falar sobre arbitragem. É verdade que já atuou como árbitro de jogos de futsal de crianças em Jaú?
Gobbi: Sim! Foi no Caiçara Clube, onde passei toda a minha infância. Havia um campeonato de meninos de 5 anos lá e não encontraram ninguém para apitar. O coordenador era meu amigo e me pediu para colaborar. Por um ano, dei uma de juiz. Os pais de algumas crianças já estavam me chamando de ladrão (risos)! Eles sempre querem defender a molecada, não é? Mas, voltando à Conmebol, o que aconteceu no Equador foi algo isolado, que partiu de um juiz despreparado. Eu me apresentei à entidade como presidente do Corinthians, reclamei e fui muito bem tratado posteriormente.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Delegado vê um grande empecilho para a criação de um filho no Brasil e é a favor da taxa de natalidade
GE.net: Desculpe-nos pela pergunta mais pessoal: já que citou o relacionamento dos pais com as crianças em Jaú com bastante alegria, qual é o motivo para o senhor não ter filhos? Foi uma decisão pessoal?
Gobbi: (Pausa.) Acho que está na hora de tocarmos em algumas feridas. Minha mulher e eu construímos as nossas vidas juntos, com muitas dificuldades, desde os 18 anos... E vocês realmente acham que devo colocar um filho no mundo em que vivemos? Para quê? Para ele sofrer e passar necessidade? Já enfrentei muitos problemas com a minha esposa. Não quero isso para um filho. Sempre pensamos assim. Ter um filho é algo muito sério. O que vou falar agora é uma violência, que tenho até vergonha de expor: se não implantarmos a taxa de natalidade no Brasil, onde vamos parar? As pessoas brincam de ter filhos! Vocês já fizeram as contas de quanto custa colocar um homem no mercado de trabalho? Eu até teria condições de arcar com isso, mas abrindo mão de uma série de coisas. Saí de Jaú só com a roupa do corpo e virei delegado. Não vou queimar a pouca gordurinha que acumulei em anos de trabalho. Cadê a escola pública do Brasil? A saúde? O combate à violência? Que País é esse? Nada funciona!

GE.net: Além do sonho de ser DJ, nada desviou o senhor do caminho da carreira jurídica, como delegado?
Gobbi: Para contar essa história, vou voltar à minha infância na Rua Major Ascânio, em Jaú. Na década de 1960, você não ia ao supermercado para comprar legumes e verduras. A carrocinha passava na sua porta, e o tomateiro batia: “Pem! Pem! Pem!”. Os vizinhos saíam e pediam um quilo de tomate, um quilo de não sei o quê... Quando minha avó pagava, o tomateiro enfiava a mão no bolso e tirava um pacote de dinheiro deste tamanho (o presidente ri e abre bem as mãos para exemplificar). Se fosse hoje, seriam notas de R$ 1. Mas eu era uma criança de cinco anos e falava assim: “Vó, quando crescer, quero ser tomateiro. A senhora viu o quanto ele ganha de dinheiro?”. Tive essa fase. Mais tarde, eu me apaixonei pelo rádio. Eu só queria ouvir músicas e jogos do Corinthians. Com uns 13 anos, disse para meu pai que queria ser jornalista para trabalhar com rádio. Levei uma bronca dele, que era professor: “Você vai estudar português e aprender a falar direito primeiro, para não virar motivo de chacota na cidade!”. Mais velho, com o País atravessando uma crise muito forte, percebi que não teria muito futuro fazendo Jornalismo. Escolhi o Direito e me encantei com a delegacia, já que tive um tio que foi delegado em Taubaté.

GE.net: Se tivesse virado jornalista, que pergunta faria ao presidente do Corinthians?
Gobbi: Poxa vida! Que pergunta eu faria? Não faço a menor ideia!

GE.net: Vamos nós mesmos fazer uma pergunta que o senhor está acostumado a escutar, então: como está a questão da venda dos naming rights do estádio do Corinthians?
Gobbi: Estamos construindo o estádio mais moderno do mundo. Será o da abertura da Copa de 2014. É fato, não arrogância. Quando você está falando de um empreendimento deste porte, há uma série de regras do poder público, que vai financiar a obra para a Odebretch, que repassa ao Corinthians, que precisa pagar os R$ 400 milhões, dando como garantia o terreno. Temos 13 anos para quitar. À medida que vamos pagando, com a ajuda da comercialização dos naming rights, o terreno vai voltando para o clube. Falando assim, parece uma matemática simples. Mas vocês não têm ideia da complexidade dos problemas que resolvemos diariamente para o estádio sair do papel. Já passamos por dificuldades terríveis que ninguém ficou sabendo.

GE.net: Com a comercialização do nome do estádio, muitos dos problemas acabam. O Corinthians está próximo de chegar a um acordo em relação aos naming rights?
Gobbi: Só posso dizer uma coisa: existem conversas. De concreto, como aconteceu com a Caixa Econômica Federal, que chegou e falou que queria nos patrocinar, ainda não há nada. Mas estamos trabalhando em cima disso.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Gobbi recitou Cowboy fora da lei para minimizar preocupação pelas críticas ao Corinthians
GE.net: A própria Caixa poderia ser uma interessada?
Gobbi: Não. Nem foi cogitado esse assunto com a Caixa.

GE.net: Quando o acordo com a Caixa foi noticiado, torcedores rivais instantaneamente voltaram a reclamar que o Corinthians teria se transformado em um time do governo.
Gobbi: Já falei para vocês que não vejo nada que sai na imprensa. Muito menos quando é sobre o que pensam os nossos rivais. Quer saber o que penso sobre as críticas? São normais. É um direito sagrado de cada um externar suas opiniões. Uns elogiam, outros criticam. A unanimidade é uma utopia. Por isso que já falei: “Não sou besta para tirar onda de herói/ Sou vacinado, eu sou cowboy/ Durango Kid só existe no gibi/ E quem quiser que fique aqui/ Entrar pra história é com vocês!”. (O presidente recorre ao hábito de recitar letras de música; no caso, Cowboy fora da lei, de Raul Seixas.)

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