Futebol/Reportagem - ( - Atualizado )

Cabeçadas de Guerrero são inspiradas em peruano que fumava dólares

Bruno Ceccon e Marcos Guedes São Paulo (SP)

Pouco antes de marcar o gol que deu o título mundial ao Corinthians, Paolo Guerrero recebeu passe longo pelo alto, amaciou a bola no peito e rolou para boa chance de Paulinho, ampliando a pressão para cima do Chelsea. Na sequência, o centroavante usou sua cabeça inconfundível para ficar definitivamente marcado na história do Timão. Exatamente como teria feito um dos seus mais famosos compatriotas: Valeriano López, o jogador que fumava dólares.

De acordo com o pai de Paolo, José Guerrero, os lances que decidiram o Mundial para o Corinthians começaram a ser construídos há mais de 20 anos, à beira do Oceano Pacífico, com inspiração em Valeriano. O futuro centroavante do Corinthians ainda era um menino e não tinha duas folhas tatuadas no pescoço quando aprendeu alguns macetes do futebol com Don José, nas areias de Lima.

Guerrero é Paolo como Rossi, mas respeita o Brasil
Em meio à indefinição, pai quer conhecer o Timão

“Vivíamos perto da praia, e eu o levava lá para ensiná-lo a cabecear. Eu ficava no gol e jogava a bola para ele cabecear, matar no peito e chutar com as duas pernas. É fundamental o jogador saber bater com os dois pés. Caso contrário, é manco”, comentou José Guerrero, em entrevista por telefone à GE.net.

No Japão, mais do que os arremates de direita e de esquerda, foi a finalização com a testa treinada em Lima que acabou fazendo a diferença para o Corinthians. Duas décadas antes, enquanto a bola era atirada para cima, à espera do cabeceio do garoto, vinha à mente de José a imagem de um ídolo.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Como Valeriano: Guerrero usou a sua cabeça inconfundível para anotar os dois gols do Corinthians no Mundial
“O Valeriano López, é claro!”, recordou Don José, citando o jogador peruano que teve uma média superior a um gol por jogo nas décadas de 1940 e 1950 (apenas ele, o brasileiro Friedenreich e o argentino Bernabé Ferreyra alcançaram o feito na América do Sul). “Tem que cabecear forte, colocar a bola onde você quer. O jogador deve saber colocar a bola. Também ensinei o Paolo a matar no peito como Perico León (atacante do Peru na Copa de 1970).”

Em sua época, Valeriano López despertava tanta admiração quanto Guerrero. Foi contemporâneo de Baltazar (ambos nasceram em 1926), o Cabecinha de Ouro, e tinha um arremate pelo alto tão dourado quanto o do ídolo corintiano. Em uma goleada do Peru por 7 a 1 (placar sugestivo para a torcida do Corinthians) sobre o Panamá, em 1952, ele anotou cinco gols para a sua equipe: todos de cabeça.

A cabeça de Valeriano também era geniosa - talvez mais do que a do intempestivo Guerrero. Ele chegou a fugir de uma concentração do Peru dias antes do Sul-americano de 1949. Punido por isso, o jogador migrou para a chamada Liga Pirata colombiana, que reuniu grandes estrelas do futebol mundial naquele tempo e desafiou a Fifa contra a lei do passe.

Reprodução
Com o apelido de El Tanque, Valeriano foi um dos maiores cabeceadores da história do futebol
Com a sua cabecinha de ouro, Valeriano logo conquistou os colombianos do Deportivo Cali - assim como fez Guerrero com os brasileiros do Corinthians. Ele se tornou o primeiro grande ídolo da história do clube. E tinha a personalidade forte típica dos astros. Dizem que gostava de enrolar os dólares recebidos de dirigentes e até de torcedores em cigarros para fumar.

A fumaça que Valeriano fazia na Colômbia foi sentida na Espanha. Então presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu (o mesmo que dá nome ao estádio) viajou à América do Sul apenas para observar o peruano que seria o exemplo de Guerrero. “Fui buscar Valeriano porque jamais havia visto um cabeceador tão extraordinário, mas tive que ficar com Alfredo (Di Stéfano). Não me queixo, pois me deu cinco títulos europeus”, havia dito, na época.

Valeriano López não quis tragar o dinheiro do Real Madrid. Optou por ficar mais perto de sua família, de onde gostava de morar - tal qual Guerrero poderá fazer se recusar os euros dos clubes que o cobiçam. O peruano que fumava dólares morreu pobre em 1994, aos 68 anos (Baltazar faleceu aos 71, também com problemas financeiros), porém fez a cabeça de muitos de seus compatriotas.

Don José é um dos grandes fãs de Valeriano. Jogador de futebol amador e membro da seleção de sua universidade de economia, o pai de Guerrero fala com autoridade das cabeçadas do ídolo e aponta o filho como um bom aprendiz. As aulas não terminaram quando o Bayern de Munique levou embora Paolo, um promissor atacante do Alianza Lima que gostava mais de imitar as pedaladas de Ronaldo (centroavante que nunca foi bom para cabecear) nas praias de Lima.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Guerrero faz a cabeça de Don José

A cabeça de Guerrero não chama atenção apenas pelos gols que é capaz de marcar. Sempre com corte de cabelos exóticos, o ídolo peruano chama a atenção de jovens torcedores e até de seu pai, José Guerrero.

“Ele está na moda, como todos os jovens. O cabelo, as tatuagens, essas coisas. Se ele gosta, o que podemos fazer?”, aceitou Don José, risonho.

No Brasil e no Peru, muitos torcedores passaram a imitar o visual de Guerrero, que já fez tranças, alisamento e até deixou o bigode crescer. Atualmente, o centroavante aposta em um penteado desgrenhado, com as laterais da cabeça raspadas.

“Quando jogava na Alemanha, ele me convidava e eu ia aos treinamentos. O garoto precisa ser corrigido. Não é uma pessoa completa, sempre tem erros. O jogador tem defeitos e precisa ver quais são para corrigi-los. Deve-se ensinar sempre”, afirmou Don José, como se o herói do Corinthians ainda fosse o menino que corria para a praia para aprender a cabecear.

Hoje, os garotos que batem bola em Lima não imitam Valeriano, Perico León nem Cubillas, o peruano que chegou a ser apontado por Pelé como seu substituto. É Guerrero o grande ídolo do país – uma idolatria que já existia e tomou proporções inacreditáveis após a conquista do Mundial, encarada no Peru como um triunfo do próprio país.

De misses a intelectuais, só se fala em Paolo Guerrero. Cerca de mil pessoas se acotovelaram no aeroporto de Lima na última sexta-feira, na chegada do artilheiro alvinegro, uma multidão cheia de camisas do Corinthians – certamente, um dos times estrangeiros mais queridos por lá no momento.

“Ele é uma referência, um ídolo peruano. Ele é admirado pela condição técnica e pela garra, pela entrega total, pela simplicidade que coloca nas partidas. O que ele busca é a vitória e nada mais. Eu me sinto muito orgulhoso pelo que ele está fazendo graças a seu esforço”, emocionou-se Don José, feliz como quem tinha a ousadia de queimar dinheiro.

*Colaborou Helder Júnior

 

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