Dificilmente algum jogador terá uma despedida tão perfeita quanto Marcos nesta terça-feira. No Pacaembu lotado, o ex-goleiro exibiu a tensão e emoção que prometia durante todo o amistoso entre o Palmeiras de 1999 e a Seleção Brasileira de 2002. Mesmo assim, fez as boas defesas que queria e foi além: superou Ronaldo e descumpriu a sua promessa ao bater um pênalti na partida.
Foi um desfecho de uma noite que, mesmo organizada, se mostrou ainda melhor para o ídolo por seu sucesso diante de adversários que passaram a semana ameaçando-o por telefone ou pessoalmente. “Os caras fizeram pressão: ‘esquece que é despedida porque não vamos aliviar’. Eles estavam querendo fazer gol ali”, contou o ex-goleiro.
Um dos grandes temores do camisa 12 era Ronaldo. Mas o Fenômeno, como em sua despedida da Seleção, no Pacaembu, em 2011, não teve eficiência. Chutou uma de longe e outra cara a cara com Marcos, que pegou ambas. Além disso, o alviverde se antecipou em um lance no qual a bola ia direto ao pé do astro, que nas últimas semanas têm se dedicado a emagrecer em programa da TV Globo.
O fato é que Ronaldo não superou Marcos. Nem Rivaldo, que tentou encobrir o ex-goleiro por cinco vezes – uma delas de trás do meio-campo – e ainda deu um chute no canto rasteiro. Quando a tentativa não foi para fora, lá estava o jogador chamado de Santo para defender, inclusive no último lance antes de sua ida para a linha.
“Quando o Rivaldo vai fazer sacanagem, ele faz cara de safado. Ou ele ia bater no mesmo canto ou por baixo da barreira, ele estava dando risada. Com essa minha agilidade toda, deu para defender, mas ainda consegui bater as costas na trave pra ir embora com dor”, disse o dono da festa, feliz por ter escapado dos gols – só Sérgio foi vazado pelo Verdão de 1999. “Eu estava preocupado realmente. Se eu tomasse, não ficaria chateado porque era jogo de festa, mas o instinto do goleiro é não tomar”, completou o ídolo que, apesar da preocupação, chegou a tomar café durante o amistoso - em 2000, gerou polêmica com seu ato durante goleada sobre o The Strongest na Libertadores e foi provocado pelo adversário ao levar gol na Bolívia.
Um dos pontos altos da festa, porém, foi o momento em que Ademir da Guia entrou em campo. Marcos aplaudiu enquanto todo o Pacaembu gritava “Divino”. Por alguns minutos, dois dos maiores ídolos da história do Palmeiras atuaram juntos, e na linha, em momento marcante para os presentes.
A torcida estava pronta para a festa. Saudou Marcos em cada lance, comemorando como um gol mesmo sua corrida para ficar debaixo das traves e fazer o sinal da cruz, como sempre fez em sua carreira. As homenagens ainda vieram ao entrar no campo com Marcos Vinicius, seu filho nascido no mês passado, no colo, e passaram por flores e placas entregues a ele antes do jogo. Além de crianças que, enquanto o esperavam a entrar, passaram a pular debaixo de uma das traves, chegando a simular a clássica comemoração do Santo, erguendo as duas mãos com o indicador esticado apontando para os céus.

Para comemorar, Marcos ficou cerca de uma hora nos vestiários, bebendo cerveja e conversando com os amigos que revia, até aparecer para dar uma entrevista coletiva, já na madrugada desta quarta-feira. Ao mesmo tempo em que respondia aos repórteres, o ex-jogador lidava com as consequências do esforço da partida, sentado em uma pequena poltrona.
“Fiquem tranquilos porque estou aposentado e amanhã não tenho nada para fazer. A pressão toda era hoje”, dizia, sem pressa para terminar sua entrevista. “E eu podia beber uma, já aposentei mesmo. Mas essa dor no meu joelho, velho. E quase travou minhas costas”, contou. Sem tirar, porém, o sorriso do rosto em nenhum momento. Era o fim de uma noite perfeita.
*especial para a GE.net
