Futebol/Reportagem Especial - ( - Atualizado )

Santos comemora dez anos do “renascimento” com título brasileiro

Do correspondente Rodrigo Martins Santos (SP)

15 de dezembro de 2002. Essa data dificilmente será esquecida pelos mais fanáticos torcedores do Santos. Afinal, foi neste dia que o Peixe derrotou o Corinthians, por 3 a 2, em um domingo à tarde, diante de um Morumbi lotado, para ganhar o título brasileiro daquele ano. Mais que o grito de “campeão” preso na garganta do torcedor santista, que não comemorava um título importante há 18 anos, o Brasileirão de 2002 é um marco na história recente do clube.

Após o Brasileirão 2002, o Santos se consolidou, novamente, como uma das forças do futebol nacional, ao levantar mais uma taça da Série A, em 2004, além de cinco títulos paulistas (2006, 2007, 2010, 2011 e 2012), uma Copa do Brasil (2010), uma Copa Libertadores da América (2011) e uma Recopa Sul-americana (2012).

A Gazeta Esportiva.net relembra a conquista do Alvinegro Praiano, liderado pela dupla Diego e Robinho, que encantou o país e superou a desconfiança para erguer o troféu de campeão brasileiro.

Início do ano, queda de Roth e chegada de Leão - Mas, para contar a trajetória daquela equipe, é preciso voltar um pouco no tempo, mais precisamente no início do ano de 2002. Naquela temporada, a direção do Santos apostou no gaúcho Celso Roth para comandar o time nas disputas do Torneio Rio-São Paulo e na Copa do Brasil – os grandes do estado não disputaram o Paulistão naquele ano, devido ao regulamento do campeonato.

O jejum de títulos, que perdurava desde a conquista do Estadual de 1984, incomodava os torcedores, que viram a cúpula santista apostar no veterano zagueiro Odvan, no meia Esquerdinha (destaque no São Caetano) e no experiente centroavante Oséas, além da promoção de alguns talentos da base, que tinham realizado uma boa Copa São Paulo naquele ano.

Mesmo assim, a aposta de Roth não deu certo e o Peixe fracassou diante do Internacional-RS, na Copa do Brasil, e não se qualificou para as semifinais do Rio-São Paulo.

Acervo/Gazeta Press
"Baixinho cabçudo", Diego foi peça fundamental nas oitavas de final contra o então temido São Paulo
Considerado um técnico caro na época, Celso Roth foi trocado pelo então presidente, Marcelo Teixeira. Fora dos dois torneios do primeiro semestre, a equipe santista se viu em uma situação atípica, pois com a disputa da Copa do Mundo na metade do ano, na Coréia do Sul e no Japão, os alvinegros ficariam três meses sem jogar competições oficiais.

Teixeira pensou em vários nomes, fez algumas tentativas, mas acabou escolhendo Emerson Leão para o cargo. Mesmo sem dinheiro à disposição para grandes contratações e sem conhecer afundo o elenco do clube, Leão aceitou a tarefa de dirigir o Santos na Série A. Para o treinador, a chance dada pelo Peixe era a oportunidade de dar a volta por cima, após ser demitido da Seleção Brasileira, após a disputa da Copa das Confederações, no ano anterior. A decisão foi comunicada ao técnico pelo coordenador Antonio Lopes, seguindo instrução passada pelo mandatário da CBF, Ricardo Teixeira, via telefone.

Assim que chegou ao clube, Emerson Leão percebeu que o trabalho não seria fácil. Sem opções, o treinador se viu obrigado a montar um time composto na sua maioria por garotos. “Presidente, é com isso aqui que vamos jogar o campeonato? Esse magrelo de canela fina e esse baixinho cabeçudo?”, conta Robinho, ao falar sobre o que ele e o amigo Diego ouviram, durante uma reunião, nos primeiros dias da chegada do novo treinador a Vila Belmiro.

Porém, ao decorrer do processo de preparação da equipe, Leão foi se animando com o que viu. O comandante evitou as dispensas do volante Renato e do meia Elano, tornando-os peças fundamentais em esquema tático. O zagueiro Alex, que também estava praticamente saindo do clube, foi pinçado por Emerson Leão durante um coletivo, agradou e formou a dupla apelidada de “Torres Gêmeas” com André Luis, que tentava recuperar prestígio com a torcida santista, depois de escorregar no lance do gol de Ricardinho, do Corinthians, que eliminou o Peixe do Paulistão de 2001.

Leão preencheu a equipe com contratações mais baratas, enquanto nomes como o colombiano Rincón, o meia Ramon e o veterano Romário eram especulados: o goleiro Júlio Sérgio – que substituiu Fábio Costa, lesionado, na fase de classificação –, o lateral-direito Maurinho e o experiente centroavante Alberto se juntaram aos “Meninos da Vila”.

Animado, Emerson Leão disse para Marcelo Teixeira, em reunião, que o seu elenco estava fechado. Na sequência, os santistas derrotaram Roma de Apucarana-PR, Comercial-SP e Glasgow Rangers (Escócia), em amistosos. Entretanto, Leão queria uma “prova de fogo” para o jovem time alvinegro.

Amigo pessoal de Carlos Alberto Parreira, treinador corintiano na época, Emerson Leão acertou um amistoso com o Timão, mediante uma exigência: que a partida fosse realizada na Vila Belmiro. Com grande atuação da garotada, o Santos bateu o Corinthians, por 3 a 1, e ganhou o ânimo que precisava para começar a sua trajetória no Brasileiro, mais confiante.

Bom começo e nova vitória sobre o Corinthians – Com moral, o Peixe fez uma boa estreia, derrotando o Botafogo, por 2 a 1, na Vila. Elano e Diego foram os responsáveis pelos gols do primeiro triunfo no Brasileirão.

A partir da vitória na estreia, os santistas mostraram que dariam trabalho na Série A. Os triunfos sobre Vitória, 3 a 0, e Atlético-MG, por 3 a 2, ambos em casa, além do 4 a 1 aplicado sobre o Cruzeiro, em pleno Mineirão, deram uma real demonstração do potencial da equipe.

Sempre dentro do G-8, que garantia classificação ao mata-mata do campeonato, o Alvinegro Praiano novamente teria o Corinthians pela frente, só que desta vez no Pacaembu. Mesmo com o estádio repleto de torcedores do Timão, mandante do clássico, o Santos não se intimidou e chegou a estar vencendo por 4 a 0 – dois gols de Alberto, um deles de bicicleta, e dois de Elano. Alex, contra, e Leandro descontaram para o Corinthians. Placar final: 4 a 2.

Irregularidade e classificação no sufoco – Apesar da boa campanha durante a maior parte da primeira fase, a juventude do elenco santista foi colocada à prova, na reta final da etapa de classificação.

Com tropeços seguidos, como a derrota para a Ponte Preta, por 3 a 1, em plena Vila Belmiro, o Peixe precisava vencer o São Caetano, no Anacleto Campanella, na última rodada, para se garantir entre os oitos classificados para a fase decisiva. Porém, os alvinegros foram derrotados por 3 a 2. O resultado, dependendo de uma vitória do Coritiba sobre o já rebaixado Gama, no Distrito Federal, eliminaria o Santos da competição.

Mas o Coxa sofreu uma goleada de 4 a 0 do Gama, em uma jornada brilhante do atacante Dimba, que marcou dois gols. Rodriguinho e Dario de la Rosa completaram o placar, que eliminou os paranaenses.

Acervo/Gazeta Press
Montado sem grandes investimentos, elenco do Santos projetou Diego, Robinho, Elano e Renato ao futebol
Sem a notícia do resultado do jogo do Coritiba, muitos jogadores do Peixe deitaram no gramado do Anacleto Campanella, chorando com uma possível eliminação, que não aconteceu. Na saída do gramado, o técnico do Azulão, Mário Sérgio, em conversa ao término do jogo, colocou o seguinte pensamento para o treinador santista, Emerson Leão: “Crianças ganham jogos, homens ganham títulos”, afirmou.

“Real Madrid” brasileiro, São Paulo é desbancado – As palavras de Mário Sérgio foram utilizadas por Leão como “combustível” para encarar o rival das quartas-de-final do torneio: o São Paulo, melhor time da primeira fase.

Com uma linha de ataque composta por Ricardinho, Kaká, Reinaldo e Luis Fabiano, o Tricolor Paulista ganhou o apelido de “Real Madrid” brasileiro, colocado pelos seus torcedores e por parte da mídia – na época, os merengues contavam com um elenco recheado de estrelas, como Roberto Carlos, Figo, Zidane, Ronaldo Fenômeno, Raul, dentre outros.

Além da chance de desbancar o grande favorito ao título, o Santos fez um clássico cercado de polêmicas diante do Tricolor Paulista, na fase de classificação. Com expulsões, reviravoltas e a vitória são-paulina por 3 a 2, a comemoração de Diego sobre o símbolo tricolor, no segundo gol santista, marcou o duelo. Irritado, o volante Fábio Simplício chegou a acertar um tapa em Diego, mas foi contido por seus companheiros e jogadores do Peixe. Dias depois, a direção do São Paulo entregou uma placa para Simplício.

Diego, por sua vez, queria dar a volta por cima. Criticado por alguns torcedores, o camisa 10 alvinegro foi o grande personagem daquela eliminatória. Na Vila Belmiro, o Santos venceu por 3 a 1, com gols de Alberto, Robinho e com Diego fechando o placar, marcando um belo gol, seguido de um desabafo contra torcedores, que tinham levado uma faixa protestando contra ele, no dia anterior, no CT Rei Pelé. Kaká descontou para os são-paulinos.

Com o resultado adverso, o Tricolor Paulista necessitava vencer por dois gols de diferença no Morumbi, para avançar até as semifinais. Luis Fabiano, com um gol nos primeiros minutos da partida, gerou uma confiança na torcida do São Paulo de que a reviravolta seria possível.

Mas o Peixe voltou inspirado do intervalo e esfriou os ânimos dos são-paulinos, quando o lateral-esquerdo Léo tabelou com Robinho para deixar tudo igual. Os tricolores buscavam o ataque, mas sofriam com os rápidos contragolpes santistas. Em um deles, já nos acréscimos, Robinho tocou para Diego ter a sua revanche pessoal contra Fábio Simplício, deixando o volante no chão, antes de, com um toque sutil no canto esquerdo de Rogério Ceni, deixar o goleiro sem ação: 2 a 1 para os alvinegros, que comemoram bastante a classificação.

Meninos da Vila eliminam “copeiro” Grêmio – Embalados pela vitória sobre o rival São Paulo, que foi cercada de desabafos dos santistas, diante de supostas provocações dos tricolores, era a vez de encarar o “copeiro” Grêmio.

Só que o Santos não tomou conhecimento dos gaúchos e ganhou por 3 a 0. Alberto, com dois gols, e Robinho fizeram a alegria da torcida praiana, que lotou a Vila Belmiro naquele domingo à tarde. Irritados com a derrota, os gremistas, principalmente através do goleiro Danrlei, acusaram o Rei das Pedaladas de provocar a equipe tricolor.

No jogo de volta, com a vantagem de poder perder até por dois gols de diferença para chegar a decisão, o Peixe foi derrotado por 1 a 0, gol de Rodrigo Fabri, no Olímpico, e se qualificou para a decisão contra o Corinthians, que eliminou o Fluminense.

Acervo/Gazeta Press
Revelado pelo Guarani, volante Renato marcou pelo Peixe na primeira partida decisiva
Final contra o Corinthians e fim do jejum – Com sua vaga garantida na final, a dúvida sobre se o grupo santista seria capaz de lidar com a pressão e a ansiedade da torcida pelo título eram os principais questionamentos. Por isso, Emerson Leão decidiu retirar os seus comandados da Baixada Santista, visando concentrar o elenco apenas na conquista da taça.

A tática deu certo e, logo no primeiro jogo, o experiente time do Corinthians sucumbiu à segurança e bom futebol dos jovens do Santos. Com Diego em tarde inspirada, em um Morumbi chuvoso, Alberto e Renato foram os responsáveis pelos gols da vitória. O centroavante, porém, se tornou um problema para Leão, pois recebeu o terceiro cartão amarelo por tentar cavar um pênalti e não poderia jogar o segundo e decisivo confronto com o Timão.

Na semana que antecedeu a partida final, a maior preocupação do Peixe era em relação às condições físicas de Diego. O meia vinha apresentando problemas musculares e o departamento médico do clube praiano tinha dúvidas se ele suportaria atuar durante os 90 minutos do jogo.

Naquele 15 de dezembro de 2002, logo em seu primeiro toque na bola, antes que o ponteiro completasse a volta dos 60 segundo iniciais, o camisa 10 viu as dores que tanto o incomodaram lhe vencer. Atendendo a um pedido de Leão, Diego caiu no chão, chorando, enquanto os corintianos desperdiçavam a primeira oportunidade de gol da decisão, na qual Guilherme parou nas mãos de Fábio Costa.

Sem o seu amigo e fiel escudeiro em campo, Robinho prometeu para Diego que jogaria pelos dois para sagrar o Santos campeão naquele dia. O experiente Robert substituiu Diego e deu tranquilidade aos Meninos da Vila, com sua categoria no meio-campo.

Aos 36 minutos do primeiro tempo, Robinho começou a cumprir a promessa feita para Diego. O atacante recebeu uma bola pelo lado esquerdo do campo, dominou e partiu para cima do lateral Rogério. Sem saber o que fazer, o ala corintiano viu o camisa 7 pedalas oito vezes em direção a grande área. Atônito, Rogério cometeu o pênalti. Na cobrança, Robinho bateu com a calma e precisão de um veterano, no canto direito de Doni, que pulou para o outro lado: Peixe 1 a 0.

A vitória parcial deu uma maior tranquilidade ao time. No entanto, o Timão não desistia e Fábio Costa, com uma grande exibição, fazia defesas espetaculares para conter o ímpeto dos rivais.

A pressão aumentou na etapa complementar, principalmente quando o técnico Emerson Leão foi expulso depois de reclamar de uma agressão do volante Fabinho sobre o meia Robert. O árbitro Carlos Eugênio Simon não aceitou o questionamento de Leão, ordenando que o treinador se retirasse do gramado.

Sem o comandante à beira do campo, alguns atletas ficaram mais nervosos. O Corinthians aproveitou a instabilidade dos Meninos da Vila, para empatar com Deivid, aos 30, e virar, com Anderson, aos 39. Faltava um gol para o Timão inverter o lado da festa e ficar com a taça.

Na torcida do Santos, o temor era claro. Um ano antes, a equipe havia vivido situação semelhante, quando Ricardinho fez o gol que adiou o fim da fila dos alvinegros praianos.

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Pedaladas sobre o lateral Rogério e gol na final eternizaram Robinho como ídolo na Vila Belmiro
Só que a história, dessa vez, estava disposta a premiar quem esperava por um grande título há tanto tempo. Aos 43, Robinho escapou pela direita para deixar mais um marcador para trás e rolar para o meio da área. O passe, como revelou o próprio Rei das Pedaladas anos depois, era para Renato, que estava livre, perto da marca do pênalti. Mas Elano surgiu em velocidade e tocou, sem chances para Doni, a bola para o fundo das redes. Era o gol do alívio.

No entanto, o gol do alívio, marcado por Elano, ainda não era o gol do título. Em atuação de gala, Robinho ainda deixaria desesperados os defensores corintianos, mais uma vez naquela tarde. Sozinho contra Vampeta e Kleber, o camisa 7 pedalou, fez uma ginga de corpo que enganou o volante e o lateral-esquerdo, antes de tentar rolar a bola para Léo. O camisa 3 recebeu, driblou o seu marcador na jogada e disparou um chute forte, de perna direita, no ângulo, para decretar o título santista.

Com a bola no fundo do gol, Simon apitou o final da partida. O Peixe era campeão brasileiro e conseguia, depois de 18 anos, pôr fim ao jejum e agonia do torcedor do Santos que, enfim, podia soltar o grito de “É Campeão”.

Daí em diante, a festa tomou conta do gramado do Morumbi. Aliviados, os heróis do clube praiano comemoravam, eufóricos. Nas arquibancadas, muitos torcedores custavam a acreditar que o período de sofrimento havia chegado ao fim e choravam.

Enfim, os santistas resgatavam a auto-estima ferida pelos anos de fila e colocavam fim às piadas dos rivais. Uma nova página de glórias, então, estava pronta para ser escrita. Graças à geração Diego e Robinho, ao time alvinegro campeão brasileiro de 2002.

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