MMA/UFC - ( - Atualizado )

Yamasaki relata brigas fora do octógono nos primórdios do UFC

Helder Júnior São Paulo (SP)

Marca registrada – literalmente – do UFC, o octógono “se tornou símbolo dos mais altos padrões de segurança em todo o mundo das artes marciais”. A explicação é feita em comunicados distribuídos pela própria organização, preocupada em desvincular a violência do MMA, para explicar “por que as lutas são realizadas dentro de uma jaula”. Mas nem sempre os atletas precisaram estar enjaulados para lutar – ou para brigar.

Árbitro revela lutas forjadas no Pride

“Nos primórdios, as brigas fora do octógono eram comuns. Vi brigas de Marco Ruas, Frank Shamrock, Tank Abbott, Mark Coleman...”, sorriu Mario Yamasaki, primeiro árbitro brasileiro do UFC, que visitou a redação da Gazeta Esportiva.net por ocasião do combate entre Vitor Belfort e o inglês Michael Bisping em São Paulo. Divertindo-se ao lembrar casos folclóricos das primeiras estrelas do MMA, ele recuperou a feição sisuda de quando está dentro do octógono para logo destacar a evolução do esporte: “As brigas acabaram. Se alguém fizer isso, pode ser até expulso do UFC. Quem luta não briga”.

Alguns dos brigões dos primórdios do UFC, ao contrário, estão no hall da fama da organização. Um deles é o ex-campeão Mark Coleman, que teve Pedro Rizzo como seu primeiro algoz brasileiro, em 1999. “Olhem o Mark Coleman ali! Ei, Coleman, você não é de nada! Perdeu para um brasileiro, hein?”, gritaram alguns torcedores, na lembrança de Mario Yamasaki, quando perceberam que o norte-americano bebia cerveja no bar de um hotel. “Bastou isso aí para começar a confusão. O Coleman, com aquele jeito carcamano dele, rugia. Os caras saíram correndo de medo”, recordou o árbitro, às gargalhadas.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Nascido em uma família de judocas, Yamasaki era professor de jiu-jitsu quando presenciou brigas no UFC
Naquela época, Yamasaki já estava acostumado à truculência de lutadores. Membro de uma família com tradição no judô, o descendente de japoneses se mudou para os Estados Unidos e tornou-se professor de jiu-jitsu brasileiro em uma academia de artes marciais. Conheceu alguns dos primeiros lutadores de MMA da história, como o bigodudo norte-americano Dan Severn, e até os ciceroneou em uma semana de férias no Guarujá, litoral paulista. “Eles gostaram tanto que me convidaram para assistir a um evento de lutas ao vivo, em Birmingham, Alabama”, rememorou.

Naquele 7 de dezembro de 1996, o vencedor em cima do octógono foi Don Frye (mais um atleta famoso pelos espessos bigodes), porém o que mais chamou a atenção de Mario Yamasaki aconteceu nas ruas, com outros lutadores. “O Tank Abbott era muito doidão. Vi a equipe dele brigando com a do Frank Shamrock na rua. O Shamrock jogava os caras do Abbott no chão e saía na porrada na frente do hotel!”, contou, aparentemente ainda surpreso com a cena. “Aquele evento foi uma loucura para mim. Eu era fã dos caras e estava ali, no meio deles”, explicou o hoje árbitro, agora acostumado a mediar os conflitos regrados do MMA.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Árbitro do UFC já foi chamado de "pitbull", mas prega paz e amor até quando está no meio de uma luta
Apresentado como “a lenda”, o aposentado norte-americano Frank Shamrock é irmão adotivo de Ken Shamrock, que figura como mais um integrante do hall da fama do UFC (o único brasileiro nesta lista é Royce Gracie) e foi apelidado pela organização como “o homem mais perigoso do mundo”. O compatriota David “Tank” Abbott não aparece na relação de estrelas da entidade, porém ostenta o cinturão do carisma entre os fãs de MMA. Uma das primeiras vítimas da carreira de Vitor Belfort, ele tinha o longo cavanhaque e a barriga proeminente como características marcantes. Era tão querido que chegou a participar de um episódio do seriado “Friends”, em 1997, interpretando a si mesmo.

Diferentemente de Mark Coleman, Frank Shamrock e Tank Abbott, os ídolos do presente do MMA fazem questão de incorporar papéis mais amigáveis. “Somos lutadores profissionais. Não temos tradição de brigas em eventos do nosso esporte. O que fazemos é lutar, e não brigar”, avisou o veterano peso-pesado Antônio Rodrigo “Minotauro” Nogueira, antes de uma ponderação. “Quer dizer... Estou falando do MMA moderno, e não daquele do passado.”

O receio do lutador atualmente não é nem mais com a postura de seus colegas de profissão, e sim com a do público. O crescimento do MMA fez com que clubes de futebol investissem em expoentes do esporte – Anderson Silva e Junior “Cigano” dos Santos, por exemplo, passaram a ser patrocinados pelo Corinthians e despertaram a rejeição de torcedores de alguns times rivais. “Eu também tive o apoio do Internacional e fui bem recebido no Rio Grande do Sul. Não acontecerão brigas entre torcidas organizadas no nosso esporte porque não faz parte da nossa cultura. Somos todos brasileiros”, discursou Minotauro.

Gaspar Nóbrega/Inovafoto
Gaspar Nóbrega/Inovafoto
         Superlutas no octógono 

Após ter presenciado algumas brigas fora do octógono nos primórdios do UFC, Mario Yamasaki espera ver de perto confrontos entre os grandes nomes do MMA da atualidade. O árbitro é mais um fã ansioso por possíveis lutas do astro Anderson Silva (campeão dos pesos-médios) contra o canadense Georges St-Pierre (melhor dos meio médios) e o norte-americano Jon Jones (dono do cinturão dos meio pesados).

“A luta contra o St-Pierre deve acontecer neste ano. Vai ser boa para o Anderson, que é mais forte e dificilmente aceitará descer de categoria para fazer o combate. Acho que ele vence, apesar de o adversário ser perigoso”, analisou Yamasaki. “Mas o Jones é mais complicado... Ele é um cara que não descerá de categoria para lutar com o Anderson, pois já tem o tamanho de um peso-pesado. Só se cortarem uma mão dele! Acho que essa luta não sairá”, acrescentou.

Yamasaki considera Anderson Silva um lutador “acima do normal, com biotipo perfeito para o MMA”. Mas evita classificá-lo como o melhor da história. “É um dos melhores”, definiu o árbitro, também fã de Randy Couture, dos irmãos Rickson e Royce Gracie e de Georges St-Pierre.

Questionado se gostaria de estar no octógono para trabalhar em uma das superlutas do campeão dos médios, o árbitro com centenas de combates no currículo (entre eles, o que teve o impressionante nocaute de Anderson Silva sobre Vitor Belfort) não hesitou: “Pô, lógico!”.

Ao menos no UFC São Paulo, realizado no último fim de semana, houve apenas um pequeno entrevero nas arquibancadas superiores do ginásio do Ibirapuera, rapidamente contido por seguranças. Na entrada do local, dois policiais militares conversavam entre si sobre a tranquilidade do evento se comparado a jogos de futebol. “É UFC, amigo! Se fosse sempre assim...”, comentou um deles, enquanto vistoriava bolsos e mochilas de torcedores. O árbitro Mario Yamasaki concordou, pensando no bem-estar da esposa Alessandra e dos filhos Sofia, de nove anos, e Lucas, de cinco: “Eu levo a minha família para eventos de MMA sem problemas, mas evito as partidas de futebol para eles por causa do perigo. Tenho medo”.

Corintiano fanático, “daqueles que sempre frequentam o Pacaembu”, Yamasaki está contente com o fato de o MMA ter conquistado parte da audiência do futebol. O árbitro previu ainda menos violência dentro do octógono, que não raramente fica encharcado de sangue, para firmar de vez a modalidade na grade de programação da televisão aberta. “A evolução das regras já fez o esporte melhorar muito. É aquele que mais cresce no mundo todo. Os organizadores tiraram as coisas mais brutais e inseriram outras para dar dinâmica à televisão. Mas, como ainda estamos na infância do MMA, novas mudanças virão. Isso acontecerá de uma maneira mais lenta a partir de agora, mas ainda é inevitável”, adiantou.

Por enquanto, Mario Yamasaki já se mostra satisfeito com o que o UFC conquistou. O árbitro que costuma formar um coração com as mãos quando está no octógono (gesto em homenagem aos filhos) hoje gosta de propagar a paz e o amor. Ele possui uma rede de academias, uma delas em sociedade com a modelo e apresentadora Sabrina Sato, e deixou para trás o preconceito sofrido nos tempos de lutador de jiu-jitsu. “Éramos taxados de marginais, de briguentos, de pitbulls. Até concordo que, antigamente, houve muita rixa entre escolas de artes marciais, mas isso foi lapidado. De no holds barred (vale-tudo), o esporte virou mixed martial arts (artes marciais mistas), com crescimento relâmpago”, enalteceu o árbitro, que só não lutou dentro – e não fora – da mesma jaula dos arruaceiros Mark Coleman, Frank Shamrock e Tank Abbott porque “os Gracie dominavam tudo, puxavam a sardinha para um lado e não deixavam”.

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