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Ex-técnico de Joaquim Cruz combate gatos e vê “gente com rabo preso”

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

O técnico Luiz Alberto de Oliveira se preocupa muito com o tempo. Famoso pelo sucesso ao lado de nomes como Joaquim Cruz, Zequinha Barbosa e Sanderlei Parrela, ele tem na ponta da língua as marcas aproximadas que os atletas costumam fazer em diferentes distâncias. Ainda que permaneça atento ao cronômetro, atualmente presta mais atenção à passagem dos anos e procura combater a presença sistemática de atletas com idades adulteradas em competições de categorias inferiores, os chamados ‘gatos’.

“Os recordes juvenis que existem atualmente são irreais e ninguém faz nada. Nos 5 mil, nos 3 mil com obstáculos, nos 1.500m, nos 800m. Tanto no masculino quanto no feminino. Suponhamos que tem um garoto de 18 anos que corre os 5 mil em 14min30s, o que no Brasil já é bom. De repente, aparece um juvenil queniano da mesma idade e corre em 12min45s. Como é que fica? Um indivíduo de 18 anos não tem lastro formado para ter esse resultado. É fisiologicamente impossível”, afirmou.

O sucesso com Joaquim Cruz, ouro olímpico nos 800m, e Zequinha Barbosa, vice-mundial na mesma distância, abriu as portas para Oliveira no exterior. Experiente, ele trabalhou com atletas de diferentes países da África, continente pródigo na produção de gatos, e passou quatro anos no Catar. Atual coordenador técnico do Centro Nacional de Treinamento de Alto Nível de Uberlândia, o brasileiro se deparou com alguns competidores irregulares em suas andanças.

“Sei como funcionam as coisas, principalmente na África: Nigéria, Quênia, Botsuana, Uganda. A maior parte dos atletas desses países têm certidões falsas. Nasceram cinco anos antes do que está no documento. Quando trabalhei no Catar, tinha um atleta que havia sido campeão menor com 20 anos. Um queniano já tinha o registro adulterado e, quando foi ao Catar, ainda diminuíram mais dois anos. Eu não deixei competir como juvenil. Estou falando com conhecimento, porque trabalhei com essa turma”, recordou.

Divulgação
Ex-técnico de Joaquim Cruz e Zequinha Barbosa, Luiz Alberto de Oliveira (no detalhe) quer combate aos gatos
Em competições como Mundiais e Jogos Olímpicos, a presença dos gatos não é tão danosa, explica o ex-técnico de Joaquim Cruz, uma vez que todos os atletas já são adultos. No entanto, em torneios destinados apenas a menores e juvenis a disparidade de rendimento entre indivíduos com idades diferentes é expressiva, prejudicando o desenvolvimento de novos talentos dos países que costumam participar de maneira regular.

“Um garoto de 15 anos competindo contra um adversário de 19 é brincadeira. Além de tudo, tem gatos que são talentosos. Isso compromete todo um trabalho nas categorias inferiores, porque o pessoal que compete dentro da regra só vai para passear nos torneios menores e juvenis. Dificilmente você tem algum resultado, a não ser que apareça um Joaquim Cruz da vida. Quando todos já são adultos, morreu o assunto. Isso tem que ser modificado”, reclamou.

Ainda que minimize a presença de gatos nos eventos principais, Oliveira acusa Nijel Amos, oficialmente nascido no dia 15 de março de 1994 em Marobela (Botsuana). “O garoto que ficou em segundo lugar nos 800m das Olimpíadas de Londres é gato. Ele diz ter 18 anos, então ainda sobraria mais um ano no juvenil. É brincadeira! Ele correu em 1min41s73. Só existem seis pessoas que correram 1min41s na vida”, reclamou. Mais precisamente, apenas cinco atletas correram na casa dos 1min41s ou menos na distância, entre eles Joaquim Cruz. A reportagem tentou contatar Amos pelas redes sociais, mas o competidor não respondeu.

Foto: Acervo/Gazeta Press
GATOS MADE IN BRAZIL

Os gatos mais conhecidos no Brasil vieram do futebol, a exemplo de Sandro Hiroshi, Emerson Sheik, Wanderley Luxemburgo e Carlos Alberto (fotos). De acordo com Luiz Alberto de Oliveira, no entanto, o atletismo não está livre do problema.

“Aqui no Brasil ainda tem gato. Então, sei lá... Às vezes, o pessoal tem culpa no cartório e fica quieto. Eu sempre falei o que acho certo. Talvez não esteja muito bem na vida por causa disso. No Brasil, quem se dá bem é puxa-saco”, declarou.

No começo de 2013, Luiz Alberto de Oliveira enviou e-mail, com o assunto “mandem opiniões e façam comentários”, a alguns dos principais técnicos e dirigentes brasileiros para falar sobre os gatos, mas diz não ter recebido retornos animadores de seus pares.

“O pessoal até respondeu, mas ninguém falou: vamos brigar, vamos arrumar um jeito. Todo mundo reclama quando a gente está junto, mas ninguém quer fazer nada”, disse o atual coordenador técnico do Centro Nacional de Treinamento de Alto Nível de Uberlândia.

Na medida em que Lamine Diack, presidente da IAAF desde 1999, é natural do Senegal, a questão dos gatos não pode ser desconhecida, argumenta Oliveira. Nascido em 1933, ele competiu no salto em distância até sofrer uma lesão no joelho, no ano 1959. Em seguida, trabalhou como técnico e dirigente de futebol, além de atuar como político – foi prefeito de Dakar e vice-presidente da Assembleia Nacional de seu país. Envolvido no escândalo de suborno da ISL, acabou apenas advertido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), do qual é membro, em 2011.

“Todo mundo se comporta como se não soubesse. O presidente da IAAF é africano. Em todas as áreas, existe gente com rabo preso, não é? Então, fica por isso mesmo. É um homem inteligente, você não precisa falar (sobre o problema) para ele. Todo mundo se omite, não só o Diack. Nós mesmos no Brasil poderíamos pedir, investigar e falar: vamos acabar com isso. Não entendo como os outros países aceitam. Por quê? É só fazer o exame ósseo. Os caras descobrem a idade até de múmia!”, disse.

De acordo com especialistas consultados pela Gazeta Esportiva.net, o exame de idade óssea sugerido pelo ex-técnico de Joaquim Cruz não é adequado para determinar a idade real dos atletas, apesar de já ter sido usado pela Fifa. O expediente costuma ser empregado apenas em crianças e, ainda assim, tem uma margem de erro de cerca de dois anos. A maturação precoce do esqueleto e as variações étnicas do organismo comprometem ainda mais a ideia de usar o mecanismo para testar os competidores.

“O exame de idade óssea não é um parâmetro fidedigno de jeito nenhum”, atesta Cristiano Laurino, diretor médico da Confederação Brasileira de Atletismo (Cbat) e da equipe BM&F. “O problema de fraude de documentação tem que ser trabalhado junto aos órgãos de registro. As Confederações nacionais precisam atuar de uma forma séria junto a esses órgãos. Acabar com a fraude nos países é a única maneira de resolver a questão dos gatos”, completou.

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