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Corinthians usa as redes sociais para crescer e até demitir jogador

Helder Júnior São Paulo (SP)

A diretoria do Corinthians tem a possibilidade de compartilhar algumas de suas decisões com torcedores desde a demissão por justa causa do centroavante Adriano, em março do ano passado. O assunto foi o primeiro a ser alvo de estudo após a assinatura do contrato entre o clube e a empresa Social Figures, especializada em monitoramento de redes sociais, há um ano.

Estreia de Pato repercutiu até na Índia

“O Corinthians queria compreender o que a torcida estava falando sobre o Adriano. O cara era o principal assunto para eles na época. Dias depois de mostrarmos a rejeição da torcida, o contrato do jogador foi rompido. É óbvio que outras questões influenciaram, mas a análise de redes sociais que apresentamos também foi determinante. Fizemos uma nova pesquisa mais tarde, e 97% dos torcedores aprovaram a demissão”, comentou Thiago Contri, um dos proprietários da Social Figures, que visitou a redação da Gazeta Esportiva.net para falar sobre o seu trabalho.

Amigo de infância do assessor de imprensa do Corinthians, Thiago era palmeirense fanático muito antes de colocar em prática os conhecimentos adquiridos no curso de Ciências da Computação e começar a analisar redes sociais para o Corinthians – e para mais de uma dezena de empresas. Chegava a madrugar, nos cinco anos em que viveu na Austrália, para acompanhar os jogos do time do coração. Também morou nos Estados Unidos e no Canadá.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O palmeirense Thiago Contri se juntou ao bando e passou a monitorar redes sociais para o Corinthians
De volta a São Paulo depois de criar a Social Figures em parceria com um amigo brasileiro (o sócio opera a empresa na Austrália), Thiago angariou clientes nos mais variados setores. O Corinthians foi o primeiro ligado ao futebol. “Não adianta: é o clube da moda”, definiu, abrindo um sorriso ainda mais largo ao ser fotografado diante de um monitor com a inscrição “aqui tem um bando de loucos”. “Meus amigos que torcem pelo Palmeiras não vão me perdoar.”

O profissional Thiago Contri aderiu à moda definitivamente. Quando agendou reunião para apresentar proposta ao Corinthians (interessado em lançar tendências nas redes sociais, o clube já negociava com uma empresa concorrente da Social Figures), ele decidiu fazer alguns experimentos através do seu software – desenvolvido com o apoio do sócio. “Já esperava um volume gigantesco de mensagens envolvendo futebol, mas não daquela maneira. Percebi que Palmeiras e São Paulo meio que se equivalem, e o Corinthians... É uma margem muito maior”, comparou.

Reprodução
Rejeição a Adriano, divulgada nesta pesquisa, colaborou para a demissão do jogador em março de 2012
A ferramenta de pesquisa da Social Figures possibilita que seus clientes saibam quantas vezes um assunto foi mencionado nas mais variadas redes sociais (como Twitter, Facebook, blogs e outras) em um determinado espaço de tempo. Aponta ainda se o sentimento dos internautas é positivo, negativo, neutro ou híbrido (caso a mensagem contenha um elogio e uma crítica simultaneamente). Por fim, é possível distinguir o sexo e a localização de quem fez cada uma das publicações.

“Os resultados que obtemos com o Corinthians são absurdos. Nunca vi nada parecido. Se eu fizer uma pesquisa genérica com ‘Corinthians’ ou ‘Timão’ em dia de jogo, haverá mais de 500.000 mensagens. Precisamos filtrar os temas. Para você ter uma ideia, uma empresa de telefonia de grande porte, na época em que houve aquela crise de operadoras, gerava 300.000 mensagens por mês. O Corinthians, em um dia, consegue superar tudo isso! É absurdo!”, exclamou Thiago.

Na reunião em que firmou acordo com o Corinthians, o profissional teve mais uma amostra da força do time do Parque São Jorge. Um membro do departamento de marketing do clube, no início da conversa, publicou a seguinte mensagem na página oficial corintiana no Facebook: “E aí, bando de loucos. Está começando mais um treino do Timão”. Thiago se surpreendeu: “A reunião não durou além de duas horas. Quando acabou, mais de 50.000 pessoas já tinham curtido aquilo ali! Era uma mensagem boba, que não queria dizer nada. E o Corinthians não paga nada por isso. Uma empresa precisa gastar uma boa grana para alcançar tantos compartilhamentos e curtidas”.

A invasão virtual dos corintianos no Brasil, no entanto, não foi novidade para o departamento de marketing alvinegro. O clube passou a navegar na internet com o objetivo de conquistar outros territórios. “Eles sabem que têm mais volume do que seus rivais no Brasil”, comentou Thiago. “O alvo do Corinthians atualmente é internacional. Na América Latina, querem deixar para trás o Boca Juniors, que também tem uma torcida fantástica. E estão mirando os grandes clubes da Europa”, acrescentou.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
 Sergio Barzaghi/Gazeta Press
         Abel já balançou na rede

Depois de começar a trabalhar com o Corinthians, a Social Figures foi procurada pelo Fluminense para fazer um estudo pontual, no primeiro semestre de 2012. O clube queria saber qual era a opinião da sua torcida sobre a qualidade do trabalho do técnico Abel Braga.

“O Fluminense corria o risco de não se classificar como primeiro colocado do seu grupo na Libertadores e vinha de resultados negativos. Os torcedores estavam atacando o Abel Braga nas redes sociais. Mas, depois de 20 dias, a situação mudou completamente. O cara foi do inferno para o céu”, recordou Thiago Contri, um dos fundadores da Social Figures.

Abel permaneceu no cargo e não foi além das quartas de final da Libertadores, com a eliminação diante do vice-campeão Boca Juniors. No final do ano, contudo, o técnico comemorou a conquista do Campeonato Brasileiro com o Fluminense.

Ao menos dentro de campo, a vitória sobre o Boca Juniors já foi garantida, na decisão da Copa Libertadores da América do ano passado. O primeiro título continental da história do Corinthians colaborou para a tão almejada internacionalização. Os gols de Emerson Sheik tremularam muito mais as redes sociais até do que os feito por Paolo Guerrero no Mundial de Clubes. “Na Libertadores, o número de comentários foi bem maior do que no Mundial. Isso aconteceu até porque havia mais jogos na Libertadores, e é em dias de rodada que o Corinthians toma uma proporção enorme”, explicou Thiago.

A proporção de torcedores rivais do Corinthians também é enorme. Antes de a equipe liderada por Tite ser campeã continental, Thiago havia apendido que muita gente não compartilhava o amor pelo clube na internet. “A pesquisa mais trabalhosa que fizemos para o Corinthians foi sobre a chegada do Zizao. Existiam muitas piadas de torcedores de outros times. Era um desafio total. Como o Corinthians ainda não tinha ganhado a Libertadores, muitos diziam que o chinês viria para destravar a conquista no Playstation, essas coisas”, divertiu-se o palmeirense.

Para filtrar os comentários de rivais, o Corinthians passou a fazer campanha para seus torcedores se identificarem nas redes sociais através de hashtags como “#vaicorinthians” e “#soucorinthians”. “Não é todo mundo que usa as hashtags, mas isso já ajuda um pouco. Para o Corinthians, só interessa a opinião dos corintianos. Essa é a grande dificuldade de trabalhar com futebol. Na telefonia, por exemplo, o cliente só fala mal da sua operadora, e não das outras. No futebol, é justamente o contrário. Os palmeirenses, os são-paulinos e os santistas são os críticos”, disse Thiago.

No final, Zizao foi aprovado – pelos corintianos. A maioria das 6.953 citações coletadas pela Social Figures sobre o jogador era positiva. O departamento de marketing também atingiu a meta que queria ao contratar um garoto-propaganda chinês e tornou o Corinthians assunto nos Estados Unidos (origem de 6,76% das mensagens), em Portugal (1,07%), na Espanha (0,73%), na Índia (0,69%), na própria China (0,59%) e na Itália (0,55%). A Agência Twist chegou a elaborar um pôster, com o título “A expectativa que chega do outro lado do mundo”, para divulgar os resultados da pesquisa. Na época em que o tema da análise era Adriano, o slogan escolhido foi com tom de ameaça: “Aqui tem um bando de loucos de olho em ti”.

Conquistada a Libertadores sem o auxílio de Zizao – seja dentro de campo ou como técnico de videogame –, o Corinthians começou a investir em novas pesquisas nas redes sociais. No dia em que o sistema de buscas da Social Figures foi apresentado à GE.net, havia indícios de que o clube tinha procurado se informar sobre o sucesso da campanha da “locospirose” – através da qual definiu os corintianos como doentes, infectados por um vírus, antes do Mundial. Os resultados eram satisfatórios. Nomes como o de Cássio e Guerrero, heróis da final contra o Chelsea, também ganharam menções nos mais variados lugares. Curiosamente, Gana se tornou o país africano com o maior número de citações sobre o Corinthians em dezembro. “Será que falam português lá?”, perguntou Thiago, intrigado.

Na verdade, o idioma oficial de Gana é o inglês. Torcedor do Chelsea, o ganês Morad Tabbicca explicou à reportagem o motivo de o Corinthians te repercutido tanto em seu país durante o Mundial. “A maioria das pessoas prefere o Manchester United, mas temos muitos admiradores do Chelsea em Gana. Eu diria que de 60% a 70% dos torcedores apoiam esses clubes. O ganês naturalizado francês Marcel Desailly jogou no Chelsea, assim como Michael Essien. Nesta temporada, temos os africanos Mikel, Victor Moses e Demba Ba no time em que Drogba foi ídolo. Por tudo isso, o Chelsea tem uma grande torcida no oeste africano”, argumentou o estudante de 24 anos.

Acervo Pessoal
Torcedor do Chelsea, o ganês Morad Tabbicca disse que o Corinthians ainda não bomba em seu país
No Mundial de Clubes, o Corinthians frustrou muitos dos africanos que torciam pelo Chelsea. Nem assim, segundo Morad, o clube brasileiro adquiriu o respeito esperado em Gana. “As pessoas daqui não sabem quase nada dos times do Brasil. Os jogadores brasileiros são mais populares, principalmente quando estão ligados a um clube europeu ou têm status. O Santos ficou conhecido por Pelé e Neymar, por exemplo. Muita gente agora se chocou quando o Alexandre Pato se transferiu para o Corinthians. Até reclamaram que o Milan tinha vendido o jogador para um clube desconhecido”, declarou o torcedor, que também é treinador amador de futebol no seu país e sonha em conhecer o Brasil na Copa do Mundo de 2014.

Até lá, o Corinthians espera que o vírus da “locospirose” já tenha infectado os computadores de mais africanos, asiáticos e europeus. A chegada de um jogador com fama muito maior do que a de Zizao é aliada na tarefa. “O clube ainda não definiu qual será o foco das pesquisas neste ano, mas acho que faremos algumas coisas mais voltadas para o Pato”, especulou Thiago Contri. Antes mesmo da reunião dele com o marketing corintiano, a Social Figures encaminhou à GE.net uma pesquisa sobre a aceitação dos internautas à estreia de Alexandre Pato na goleada por 5 a 0 sobre o Oeste, no domingo passado (clique aqui para saber o resultado).

Para o Corinthians, Pato pode atrais mais do que meros torcedores ou internautas. O que o clube realmente curte são os seus clientes, os mesmos que deixaram de comprar camisas com o nome Adriano estampado nas costas em 2012. “O Corinthians pretende tratar o seu torcedor como um verdadeiro consumidor. Em 2013, acho que faremos análises assim. Por exemplo: se houver algo em falta em uma das franquias da rede Poderoso Timão, identificaremos a reclamação e levaremos para o operacional do clube repor a peça. A Social Figures já faz esse trabalho com supermercados. Se o cara publica uma foto no Instagram em que mostra um produto vencido na prateleira, a denúncia chega por nosso intermédio até o gerente da loja”, contou Thiago Contri. A única dúvida é se, dessa forma, a paixão corintiana também não ficaria refém de uma data de validade – uma polêmica que nem a mais detalhada pesquisa nas redes sociais seria capaz de resolver.

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