O jovem que assumiu o homicídio do boliviano Kevin Douglas Beltrán Espada, de apenas 14 anos, prestou depoimento por mais de duas horas na tarde desta segunda-feira. Após confessar ter disparado o sinalizador que matou o torcedor do San José na última quarta-feira, em partida válida pela Copa Libertadores da América, o corintiano foi ouvido pelo juiz Daniel Issler, titular da Vara da Infância e Juventude de Guarulhos, e acabou liberado em seguida.
Membro da organizada Gaviões da Fiel, o torcedor de 17 anos chegou ao prédio onde está alojada a Vara da Infância e Juventude guarulhense por volta de 14h50 (de Brasília) – lá permaneceu até 17h15. Ele estava no banco do passageiro do automóvel de Ricardo Cabral, advogado e representante da torcida, e também acompanhado por sua mãe. Com um boné enfiado na cabeça, protegeu o rosto com as mãos e evitou a imprensa para ter a sua identidade preservada.
Vestindo uma camiseta com tom próximo do verde – cor do rival Palmeiras, repudiada pelas uniformizadas do Corinthians –, o jovem retirou o boné ao entrar no prédio para se posicionar diante do juiz e de um representante do Ministério Público. Sua presença no Centro de Guarulhos atraiu uma multidão de curiosos. Comerciantes da região chegaram a postergar o horário de fechamento de seus estabelecimentos para lucrar com o movimento.
Com a ajuda de policiais, o jovem cumpriu o mesmo ritual ao deixar a Vara da Infância e Juventude: enfiou o boné na cabeça, escondeu a face e contou com a prudência de seu advogado ao volante para encarar imprensa e população. Assim que ele partiu, um senhor nitidamente alcoolizado começou a chamar a atenção com gritos: “Não foi ele que matou! Ele é um laranja! Como fica?”.
“A partir de agora, ele fica à disposição das Justiças brasileira e boliviana. Não existe a possibilidade de extradição por se tratar de um menor, mas, se o Judiciário da Bolívia quiser, poderá vir coletar o depoimento aqui”, disse Cabral, antevendo uma punição amena ao seu cliente. “Pode haver algum tipo de medida educativa, como o não comparecimento aos jogos, a exigência de presença mensal na Vara da Infância e Juventude para mostrar onde mora, o que está fazendo. São possibilidades.”
A expectativa da Gaviões da Fiel é de que a confissão do jovem auxilie na liberação de 12 torcedores detidos pela polícia da cidade boliviana de Oruro – o inquérito da delegacia local arrolou dois deles como responsáveis pelo crime e outros dez como cúmplices, por conta de evidências de pólvora encontradas em suas digitais. “Sabendo-se o autor do que ocorreu, com ele contando tudo em detalhes, acreditamos que os demais necessariamente serão liberados”, afirmou Cabral.
Segundo Cabral, há provas de que o jovem comprou os seis sinalizadores (teria pagado R$ 20 por cada) levados à Bolívia e entrou no estádio de Oruro na posse de todos. Sem conhecimento para manusear o artefato, vitimou Kevin Espada em um acidente que virou tragédia. “No momento do disparo, ele foi hostilizado por torcedores do Corinthians, que quase foram atingidos. Aí, saiu de perto e abandonou a sua mochila com os demais artefatos na arquibancada, temendo represálias. Os policiais recolheram o material junto com bandeiras e instrumentos e detiveram aleatoriamente 12 torcedores”, defendeu.
“Os torcedores que lá estão nem sequer conheciam o menor. A torcida Gaviões da Fiel tem cerca de 100.000 membros e pune com veemência aqueles que se envolvem em confusões. O garoto só foi aconselhado a não se apresentar aos policiais bolivianos por se tratar de um menor brasileiro, mesmo tendo autorização dos pais para viajar à Bolívia, e por estar temeroso. Era melhor que fosse uma decisão tomada em conjunto com a sua família”, encerrou Ricardo Cabral.