Futebol/Entrevista - ( - Atualizado )

Guerrero renuncia ao verde e avisa que só tem um time no Brasil

Helder Júnior e Marcos Guedes São Paulo (SP)

A cabeça que tantos gols tem marcado para o Corinthians (entre eles, dois dos mais importantes da história do clube) estava protegida por um boné azul claro. A tonalidade é a mais próxima do verde que Paolo Guerrero se permite usar. Encantado com os corintianos, a ponto de entoar “aqui tem um bando de loucos” no meio desta conversa com a Gazeta Esportiva.net, o centroavante peruano renunciou à cor que remete ao rival Palmeiras.

Na aba reta do boné azul – e não verde – de Guerrero, a palavra “monster” estampada em letras garrafais era mais uma representação do patamar que ele atingiu no Corinthians. O monstro do Parque São Jorge, no entanto, é humilde. Faz cara feia quando o chamam de ídolo e abre um sorriso tímido ao imaginar o seu registro ao lado da imagem em tamanho real de Ronaldo no museu do clube. Como um torcedor qualquer, o atual camisa 9 corintiano ainda sonha com a oportunidade de pedir, gaguejando, para tirar uma fotografia com o seu antecessor.

Em um eventual encontro com Ronaldo, Guerrero certamente não terá problemas para se comunicar. Calçado com chinelos nos quais bandeiras do Brasil se destacavam entre os seus dedos, o centroavante concedeu esta entrevista em bom português. Se não repetiu o palavrão que fez sucesso no Mundial de Clubes do Japão, mostrou familiaridade com a brasilidade de companheiros como o falso “quietinho” Douglas. Só não quis posar para fotos com alguns símbolos da cultura do Peru. “Nossa! Isso eu não faço”, assustou-se.

O que Guerrero faz – para satisfação de corintianos e peruanos – são gols. O centroavante que tem deixado o astro Alexandre Pato no banco de reservas precisou de apenas um semestre de Corinthians para provar ser artilheiro. Ainda nem enfrentou o verde do Palmeiras. O primeiro confronto será neste domingo, no Pacaembu. Ele mesmo diz não saber quantos clássicos mais terá pela frente para perpetuar a ligação com os alvinegros. A única certeza do guerreiro é a de não jogar jamais por outro clube do Brasil.

Gazeta Esportiva.net: Você já é um ídolo do Corinthians?
Paolo Guerrero: Não me vejo como um ídolo do Corinthians nem do Peru. Sou apenas um jogador que quer ajudar o meu time a ganhar todas as competições. Só isso.

GE.net: “Só isso” costuma ser valorizado no Corinthians: a torcida gosta de jogadores ambiciosos e brigadores como você, que não desistem de nenhum lance...
Guerrero: Quando cheguei aqui, as pessoas com quem conversei me falavam exatamente a mesma coisa. Elas diziam: “Você vai se adaptar rapidamente porque tem a característica exigida pela torcida corintiana. É louco e luta em campo como um guerreiro”. Sei que me identifico com os torcedores do Corinthians.

GE.net: Qual foi a primeira vez em que você ouviu falar sobre o Corinthians?
Guerrero: Ah, faz muito tempo. O Corinthians é muito conhecido mundialmente. Sempre soube de algumas coisas sobre o time.

GE.net: Desde criança? O que exatamente você sabia antes de defender o clube?
Guerrero: Quando criança, eu ainda não tinha noção das coisas. Mas, assim que comecei a jogar futebol profissional, passei a conhecer o Corinthians. Sabia que era o maior time do Brasil, que tinha jogadores importantes, que conseguiu muitos títulos em sua história...

GE.net: Já imaginava que a torcida era tão fanática?
Guerrero: Não! Não sabia como era a torcida. Escutei algumas coisas por ter jogado com muitos brasileiros na Alemanha. Eles contavam que a torcida do Corinthians era a maior do Brasil, a mais louca, a melhor... Mas eu não sabia disso com exatidão porque nunca tinha jogado no futebol brasileiro.

GE.net: Agora que está aqui, aprendeu alguns gritos de torcida?
Guerrero: Gosto muito dos gritos. Gosto, gosto, gosto. “Aqui tem um bando de louco!” Tudo isso eu sei. Escuto os torcedores cantando e vou aprendendo.

GE.net: Também passou a incorporar alguns hábitos dos corintianos? Como não se vestir de verde, cor do maior rival, por exemplo.
Guerrero: É! Sim! Eu sei, eu sei, eu sei. Verde aqui é proibido. Proibido.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Guerrero se comporta como um verdadeiro ídolo do Corinthians, mas não gosta de ser chamado assim
GE.net: A torcida do Corinthians também passou a te conhecer melhor de seis meses para cá. Sua capacidade para cabecear não era tão famosa no Brasil. É verdade que o seu pai foi o seu professor no fundamento?
Guerrero: Isso! Eu ia com o meu pai à praia para treinar. Ele me falava como cabecear, como chutar e tudo o mais. Meu pai não foi um atleta profissional, mas jogou futebol. Antes, há muito tempo, o esporte não era tão importante para as pessoas. Os pais não queriam que seus filhos fossem jogadores, e ele não seguiu carreira. Vocês viram como isso mudou agora, né (risos)?

GE.net: Seu pai era bom jogador?
Guerrero: Muitos amigos dele me disseram que ele foi, sim, um bom jogador. Era ele quem me falava como chutar, com a parte interna ou externa do pé, como cabecear...

GE.net: Quando entrevistamos o seu pai, ele contou que se inspirava no ídolo peruano Valeriano López para te ensinar a cabecear.
Guerrero: Sim. López também é um ídolo meu, pelos gols que fazia. Para o meu pai, foi um jogador muito importante.

GE.net: É verdade que o Valeriano López fumava os dólares recebidos dos dirigentes? Ou essa é só uma lenda que se propagou no Peru?
Guerrero: Dessa história, não sei (risos)! Eu nem existia ainda naquele tempo! O meu pai até falava muito dele: “Valeriano López, um jogador bastante importante e tal...”. Mas ficava nisso. Acompanhei mais a época do Waldir Sáenz, que jogava no Alianza Lima nos anos 1990.

GE.net: Seu pai contou que havia referências brasileiras. Segundo ele, você gostava de pedalar na praia como o Ronaldo.
Guerrero: É verdade. Quando pequeno, eu pedaleava muito. Vocês falam pedalear? Pedalar! Isso mudou quando fui jogar na Alemanha. Lá, o centroavante não pode pedalar de jeito nenhum. Há muita pressão da marcação, contato. O jogo é mais físico. No Brasil, posso retomar um pouquinho do que eu fazia antigamente.

GE.net: O Ronaldo é o seu maior ídolo no futebol?
Guerrero: Para mim, Ronaldo foi o maior de todos. Não pude ver Maradona nem Pelé. Ou melhor, vi um pouco do Maradona... Mas, particularmente, Ronaldo Fenômeno foi o cara que, que... Nossa!

Fernando Dantas/Gazeta Press
O atual camisa 9 do Corinthians gaguejaria se tivesse a oportunidade de conhecer Ronaldo Fenômeno
GE.net Já teve a oportunidade de se encontrar com o Ronaldo?
Guerrero: Ainda não o conheço. Quero muito conhecê-lo porque foi o maior jogador que vi.

GE.net: O que você falaria para ele nesse encontro?
Guerrero: Ro-ronaldo! Tire uma foto comigo!

GE.net: Quem sabe a sua foto não vai parar ao lado da do Ronaldo no Memorial do Corinthians, no Parque São Jorge?
Guerrero: P...! Como eu falei, para mim ele é o maior jogador de todos. Seria lindo. Quem dera um dia eu possa chegar a essa posição. Já conheço bem o museu, o Parque São Jorge, até porque fiz muitas coisas lá.

GE.net: Para merecer um lugar incontestável no museu, só resta você passar mais tempo no Corinthians. Ficará no clube até quando?
Guerrero: Tenho três anos de contrato, e... Não sei o que vai acontecer. Gosto de jogar pelo Corinthians, tenho orgulho disso, mas não sei sobre o meu futuro.

GE.net: Jogaria em outro clube do Brasil?
Guerrero: Não! No Brasil, só quero jogar no Corinthians. Só no Corinthians!

GE.net: Essa ligação com certeza foi fortalecida por causa do Mundial de Clubes. Você pensava na conquista desde o acerto com o Corinthians?
Guerrero: Sim, eu sabia que era possível. Quando cheguei ao Corinthians, vi que o time tinha muita qualidade. Vim para cá com o objetivo de ser campeão mundial. Depois, eu me preparei bem, sabendo que a concorrência seria forte, pois há muitos bons jogadores aqui. Comecei a fazer gols e cheguei com confiança para o Mundial, que era o que eu mais queria. Eu sonhava com as partidas. Estava focado, confiante.

GE.net: Você sonhou com os gols que marcou?
Guerrero: Sim, eu sonhava muito. Já pensava nisso. Queria que o tempo passasse rapidamente porque estava ansioso para jogar o campeonato. Enquanto isso, sonhava demais à noite. Quando cheguei ao Japão, fiz a concentração correta: deixei o telefone celular desligado e não falei nem com a minha família, só para me concentrar para os jogos.

GE.net: A ambição de ganhar o Mundial foi tamanha que, em determinado momento da final, parecia que você brigaria com o David Luiz.
Guerrero: Estava só conversando com ele, né? É um cara gente boa, bom jogador, novo, com muito futuro pela frente.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Um dos melhores do Mundial, Guerrero só não fez as pazes com David Luiz porque o zagueiro estava chorando
GE.net: Vocês conversaram depois do jogo?
Guerrero: Ah, não houve nem briga. Teve um contato de jogo, mas ficou tudo tranquilo mais tarde. Só não nos falamos depois da partida porque o cara estava chorando (risos). Ficou bravo por perder, né? Prefiro que as coisas sejam tranquilas. Se eu tivesse sido derrotado, não gostaria que ele viesse até mim e falasse: “E aí! Tudo bem?”. Vamos deixar as coisas acontecerem somente dentro de campo.

GE.net: Então hoje você é um jogador mais tranquilo? (Na Alemanha, o centroavante ficou marcado por um carrinho violento em um goleiro e até por arremessar uma garrafa na cabeça de um torcedor do Hamburgo.)
Guerrero:
Agora, sim. Conforme os anos vão passando, a gente fica mais sossegado, focado na carreira. Sei que fiz muitas coisas erradas. Aprendi com as minhas falhas. Tive várias experiências negativas. São coisas da vida.

GE.net: Qual foi o seu maior aprendizado?
Guerrero: Foram muitos, muitos (risos). Tive que aprender, né?

GE.net: Nem o seu pavor de viajar de avião foi motivo para sair do sério na viagem para o Japão?
Guerrero: (Risos) A viagem até que foi tranquila. A gente só teve um probleminha de Dubai para o Japão (uma fresta se abriu em uma das portas da aeronave), e eu fiquei muito nervoso. Sou assim. Não sabia o que tinha acontecido. Mas, no geral, eu estava bem sereno. Na minha cabeça, a maior preocupação era com a recuperação da lesão no joelho. O resto ficava para depois. Felizmente, joguei bem, sem nenhuma dor. E agora está tudo legal.

Divulgação/Agência Corinthians
Artilheiro atuou com emblema verde no braço, mas valorizou escudo corintiano no Mundial (foto: Daniel Augusto Jr.)
GE.net: Você não jogou bem. Jogou para c... (Guerrero soltou o palavrão para se referir ao seu desempenho, antes e depois da final contra o Chelsea.)
Guerrero:
(Risos) É verdade. Mas o time inteiro jogou muito, muito. Houve sacrifício da nossa parte. A gente tinha a consciência de que precisava dar felicidade para os 30 milhões de corintianos que estavam torcendo por nós. Foram uns 50 mil torcedores para lá. Tudo isso influenciou para que a gente se matasse dentro de campo.

GE.net: Seus amigos e companheiros brincaram com o palavrão que você falou?
Guerrero: Não muito (risos). Só fiquei sabendo da repercussão quando voltei para o Brasil, depois das férias. Muitas coisas que acontecem aqui não chegam até o Peru, onde eu estava. Então, quando retornei a São Paulo, todo o mundo dava risada de mim, e eu não entendia o motivo. Eles escutaram o palavrão que eu disse e ficaram repetindo. Mas falei aquilo em um momento de felicidade, de vibração. Acabou saindo naturalmente.

GE.net: Quem são os jogadores do Corinthians que mais brincam com você?
Guerrero: Falo com todos. O Douglas e o Fábio Santos são os mais brincalhões. O Sheik e os goleiros também são gente boa. Todos são legais. Tenho muitos bons contatos no Corinthians.

GE.net: Quer dizer que o Douglas é brincalhão? Diante das câmeras, ele é mais quietinho.
Guerrero: Ah, quietinho? O Douglas? Quietinho? Não! Pode ser que seja só com vocês (risos).

GE.net: Você tinha até um compatriota como colega, o Cachito Ramírez.
Guerrero: Ainda não nos falamos direito depois que ele saiu (foi emprestado para a Ponte Preta). Na seleção peruana, vamos trocar telefones. Eu tinha o número de rádio dele, mas perdi. É um jogador de qualidade, bom tecnicamente, mas acho que não chegou a ter muitas oportunidades. Poderia jogar tranquilamente aqui. Só que a concorrência é forte no Corinthians.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Completamente adaptado ao Timão, o "monstro" Guerrero se diverte com o "quietinho" Douglas
GE.net: E você? Vai dar oportunidades para o Pato jogar?
Guerrero: Seguramente, dá para jogarmos juntos. Mas é o professor quem monta o time. Todo o mundo quer estar em campo. Dessa forma, o Corinthians fica mais competitivo. Formamos um grupo que todos veem como favorito na América do Sul, e as coisas estão ficando mais difíceis por isso. Na Libertadores, os adversários disputarão verdadeiras finais com a gente.

GE.net: Será especial para você, que nunca jogou esse torneio?
Guerrero: A Libertadores é um objetivo de todos nós. Queremos ganhar para disputar novamente o Mundial. Para mim, de uma forma particular, é ainda mais importante. Vou fazer tudo para conquistar o título.

GE.net: Precisará jogar mais para c... ainda na Libertadores?
Guerrero: É claro que sim (risos).

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