Vôlei/Superliga feminina - ( )

Andarilha, Tandara se realiza no Sesi como maior pontuadora do País

André Sender São Paulo (SP)

Acompanhar de perto a carreira da ponteira Tandara não é tarefa fácil. Com apenas 24 anos de idade, oito deles como jogadora de vôlei profissional, foram seis trocas de clubes no Brasil e hoje, no Sesi-SP, vive a melhor fase de sua carreira. Ela é a maior pontuadora da Superliga com 329 pontos marcados na fase classificatória e está tão satisfeita em sua nova equipe que já cogita até permanecer para a próxima temporada.

O único time que teve a ‘honra’ de contar com Tandara por duas Superligas seguidas foi o Brasil Telecom, de sua cidade natal Brasília. Desde que deixou o clube, passou por Finasa/Osasco, Pinheiros, Brusque, Vôlei Futuro e retornou ao Sollys antes de acertar sua transferência para o Sesi.

Não na mesma frequência que trocou de clubes, a jogadora também mudou de posição. Iniciou a carreira como oposto, função que ainda exerce na Seleção Brasileira, mas desde a temporada 2010/2011 joga de ponteira passadora. No próprio Sesi, atuou em sua posição original antes de assumir a responsabilidade de trabalhar na linha de passe além de atacar.

Destaque da primeira fase da Superliga, agora ela é a principal esperança de seu time para a disputa dos playoffs da competição nacional, com início nesta segunda-feira. Classificado na quinta posição, o Sesi duela nas quartas de final com o Banana Boat/Praia Clube e almeja uma vaga na final do torneio já em seu segundo ano de existência.

Nesta entrevista exclusiva, realizada na redação da Gazeta Esportiva.net, Tandara falou sobre a escolha de trocar o campeão mundial Sollys pelo ainda novato Sesi, a adaptação ao novo time e sua rápida ascensão no grupo da Seleção Brasileira, que culminou com a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres-2012.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
A ponta Tandara visitou a redação da Gazeta Esportiva.net para conceder entrevista exclusiva

Gazeta Esportiva.net: Você chegou ao Sesi no começo da temporada e já é a maior pontuadora da Superliga. Com tem sido a temporada para você?
Tandara: 
Eu não costumo falar muito disso e quando me perguntam falo que está sendo o fruto do meu trabalho, né. Está dando tudo certo, o time está bem encaixadinho. Nas primeiras quatro rodadas, não saí jogando, então tive que ocupar o meu espaço e é o trabalho de cada dia com a ajuda das minhas companheiras que está dando resultado.

GE.net: Você esperava ter que brigar por espaço dentro do time?
Tandara: 
Eu sabia que tinha sido contratada para jogar, mas no começo da temporada não estive tão bem. Minha transição do Campeonato Paulista para a Superliga foi muito balançada. Eu vinha jogando o Paulista na saída de rede e só em alguns jogos eu vinha de ponteira passadora. Para jogar como ponta na Superliga, dei uma balançada, precisava de um tempo, uma respirada, treinar para ganhar um pouco de confiança e conquistar meu espaço.

GE.net: E como você encara essa troca de posição? Muda bastante sua função em quadra...
Tandara: 
Fui oposto minha vida inteira, comecei a jogar como ponteira passadora no Vôlei Futuro na temporada de 2010. Aí me destaquei, joguei bem, fui contratada pelo Sollys e agora no Sesi está sendo minha terceira temporada como ponta. Já esta sendo normal, sempre falam que é colocar a bola pra cima e jogar na ponta.

GE.net: E por que você escolheu sair do Sollys, em que foi campeã da última Superliga, e ir para o Sesi, que está apenas em seu segundo ano de existência?
Tandara: 
A estrutura do Sesi me chamou como instituição, as crianças sempre estão no jogo, eles sempre focam muito isso. Então acho que foi por curiosidade mesmo. Saí do Sollys, fui campeã, estava jogando, mas foi por opção mesmo. Tive a opção de ficar, mas resolvi sair.

GE.net: Não é uma decisão comum. A maioria das atletas escolheria continuar no clube em que foi campeã...
Tandara: 
Com certeza, principalmente porque o Sollys é um time que vem se destacando em Superligas, sempre está jogando final, Mundiais, Sul-americanos. Então pesou um pouco mais a curiosidade de conhecer a estrutura do Sesi.

GE.net: O fato do Sesi já ter um time masculino e de sucesso teve alguma influência na decisão?
Tandara: 
Sim, tanto é que a gente do feminino costuma falar que os meninos têm prioridade, mas o resultado deles veio mais rápido também. Essa é a segunda temporada do Sesi, no ano passado ficou em quarto na Superliga. Este ano a gente está tentando ficar entre os quatro, mas buscando um resultado bem melhor, que é jogar uma final. Para eles, tudo veio um pouco mais fácil. A gente tem que batalhar um pouco mais e isso dá uma vontade a mais de treinar e querer conquistar mais coisas com o tempo.

GE.net: A questão da adaptação de um time para outro às vezes é complicada. Como foi quando você chegou no Sesi?
Tandara: 
A maioria das meninas eu já conhecia, tinha jogado antes porque esse é meu sétimo time em oito temporadas, só em um clube eu fiquei dois anos. Mas a transição foi fácil. Eu não mudei, ainda moro em Osasco por ter jogado lá e a dificuldade mesmo é só o trânsito pela manhã, tem que acordar um pouco mais cedo por causa do trânsito.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Jogadora é a maior pontuadora da temporada 2012/2013 da Superliga feminina

GE.net: Nas quartas de final vocês enfrentam o Praia Clube, uma equipe que começou muito bem a Superliga, mas depois caiu um pouco de rendimento. O que dá para esperar desse confronto?
Tandara: 
É um adversário difícil. No primeiro turno foi um jogo bem equilibrado, tinha uma Herrera também ali do outro lado, hoje ela já não está e dá uma desequilibrada no time. Mas a equipe é muito forte independentemente dessa jogadora.

GE.net: Você falou que trocou bastante de clubes na sua carreira, é seu sexto time em oito temporadas, sendo que você jogou duas vezes no Sollys. Tem algum motivo para você ter mudado tanto? 

Tandara: Joguei minhas duas primeiras temporadas no Brasil Telecom, que eu jogava em Brasília, na minha cidade, estava do lado dos meus pais. Em seguida, fui para o Finasa, o Pinheiros, o Brusque, Vôlei Futuro, Sollys... Não tem uma explicação, mas também não gosto de me sentir presa. Então eu sinto vontade, eu faço. Claro que depende também da proposta que você tiver. Se a proposta for melhor, é claro que você vai pesar, mas geralmente vou onde me sinto bem, onde conheço comissão, atletas e sei que será bacana trabalhar.

GE.net: Será que não tem alguma relação por você ser jovem, querer conhecer diversos lugares, viver coisas diferentes?
Tandara: 
Existem jogadoras que estão no mesmo clube há oito anos. Para mim, é indiferente. Claro que eu tenho curiosidade de conhecer outros países, jogar em outros países, mas hoje o meu trabalho está sendo no Sesi e quem sabe uma nova temporada. Como eu gostei de do Sesi, acho que um novo ano, um novo contrato pode vir aí.

GE.net: Você já sentou com a diretoria para conversar sobre isso?
Tandara: 
Não, ainda não. Está muito cedo e temos que focar no campeonato. Deixa a Superliga acabar primeiro e a gente resolve isso. Meu contrato é até junho, tem um tempinho ainda.

GE.net: O bom rendimento nos últimos anos te levou para a Seleção Brasileira. Já é seu terceiro ano, sempre jogando de oposto. Como você lida com a mudança em relação ao trabalho de dia a dia no clube?
Tandara: 
Na Seleção geralmente eu faço o mesmo trabalho das ponteiras. Trabalho passe no clube, vou para a Seleção e trabalho passe também, faço o mesmo trabalho que as ponteiras fazem, a Jaqueline, a Fernanda Garay... Então não diferencia muito

GE.net: Como oposto, você tem a concorrência da Sheilla para jogar. Acha que se fosse utilizada como ponta talvez tivesse mais chances de entrar em quadra?
Tandara: 
Não porque as ponteiras estão vindo com muita força. Assim como eu tenho que trabalhar, a Natália tem que trabalhar também. Para mim não está sendo muito difícil porque trabalhar ao lado de uma Sheilla, com a regularidade que ela tem, com certeza é um aprendizado. Mesmo sendo banco e tendo essa concorrência, é bom porque a gente aprende.

GE.net: Por ter só 24 anos, hoje você joga na Seleção ao lado de algumas jogadoras que você via quando ainda estava começando, usava para se inspirar?
Tandara:
A jogadora que eu me inspirava era a Elisângela, que hoje joga comigo no Sesi. O primeiro ano em que eu joguei com ela foi no Finasa em 2008, foi ‘nossa estou jogando com a Elisângela, com a Paula Pequeno’. Fiquei muito assustada, mas aprendi bastante também, hoje está sendo normal. Agora, a Sheilla, melhor do mundo, com certeza você tem uma inspiração maior. Você pensa o que pode fazer também para ser tão boa quanto ela, prestar atenção no que ela faz para, não imitar, mas tentar sair da mesma situação como ela sairia.

GE.net: Com a Seleção você foi para os Jogos Olímpicos de Londres-2012 e conquistou a medalha de ouro, geralmente o ápice da carreira de um atleta...
Tandara: 
Foi um sonho estar lá dentro, jogando, treinando com as melhores jogadoras do Brasil. Todo mundo falava ‘você é muito nova. Se não for agora, vai em 2016, jogar no Brasil’. Mas por que eu vou esperar até 2016 se eu posso ir agora? Então corri atrás, trabalhei atrás de tudo e graças a Deus deu tudo certo. Foi uma experiência inexplicável, até agora acho que não caiu a ficha ainda que sou campeã olímpica, que ajudei o Brasil a fazer história no vôlei. Só de falar dá um friozinho na barriga, voltam todos os flashes na cabeça, as situações pelas quais passamos e chegamos ao ouro.

Gazeta Press
Com a Seleção Brasileira, Tandara foi campeã dos Jogos Olímpicos de Londres-2012 (Foto: Gaspar Nóbrega)

GE.net: Te surpreendeu como você ganhou espaço dentro da Seleção tão rapidamente até garantir a vaga no grupo de Londres-2012?
Tandara:
Com certeza. Em 2011 eu joguei um campeonato e já fui pra Grand Prix, Copa do Mundo, então foi tudo muito rápido. O Zé é um cara que passa confiança, sim, faz você acreditar que pode fazer. Mas dentro do grupo das Olimpíadas, em nenhum momento senti que estava lá dentro porque ainda tinha o último corte. Eram 13 atletas até a Mari ser cortada. Estava com medo ainda de não dar certo, não chegar, não conseguir.

GE.net: Até porque o corte da Mari surpreendeu bastante gente...
Tandara: 
Nos surpreendeu. Pegou todas nós de surpresa. Ninguém esperava, todo mundo falava ‘sou eu que vou ser cortada’ todo mundo estava com uma paranoia. Acabou que a gente estava em um dia de folga e quando saiu ficou todo mundo assustado, ninguém entendeu nada, todo mundo ficou surpreso, mas não tem o que falar. Foi porque o Zé resolveu.

GE.net: Depois do corte, a Mari reclamou da decisão do Zé Roberto, disse que foi a escolha errada. Como você acompanhou essa polêmica que foi criada?
Tandara:
Eu acompanhei de longe. Primeiro que eu não procurava muito porque, pelo o que eu ouvi, muitos falavam que eu que tinha que ser cortada, não ela. Então eu preferi ficar de longe, não procurar muita coisa para assistir, muitas reportagens ou pessoas para conversar. Preferi ficar na minha, trabalhar como vinha trabalhando e conquistar o meu espaço. Queria aproveitar esse momento em que tinha gente falando ‘a Tandara não merecia’ porque tinha que mostrar para mim mesma que eu consegui com o meu trabalho. Acompanhei muito de longe, preferia nem falar.

GE.net: Em Londres você teve sua primeira experiência olímpica e conviveu na Vila com atletas de outras modalidades, as principais estrelas do esporte mundial. Algumas delegações até evitam passar muito tempo lá para não perder o foco na competição...
Tandara: 
Tem muita coisa para você fazer, são muitas pessoas. Eu fiquei tão apaixonada que em alguns momentos tive que me segurar, me conter pra não sair do foco. A primeira coisa que me chamou bastante atenção quando a gente chegou não foi nem a Vila, claro que tem prédios maravilhosos, cheio de bandeira, atletas para tudo quanto é lado, sabe, mas foi quando a gente chegou no ginásio. Você jogar em um ginásio que tem aquele tamanho, a proporção de pessoas ali de várias nacionalidades, deu um frio na barrigada, dá aquela gelada.

GE.net: A campanha da Seleção até o ouro foi cheia de emoções, correu o risco de não passar da primeira fase, ganhou o jogo da Rússia no tie-break depois de salvar seis match points, perdeu o primeiro set da final. Em algum momento você pensou que não ia dar?
Tandara: 
Em nenhum momento nós desacreditamos, acho que essa foi a essência da vitória. Todo mundo via no olhar de cada uma que todo mundo queria e a gente não desistiu em nenhum momento. Os resultados não estavam vindo, não era o que a gente esperava. A gente queria muito, mas não conseguia mostrar, não conseguia colocar em quadra. Acho que a vontade estava excessiva, estava demais, mas em nenhum momento a gente desistiu.

GE.net: Um dos momentos mais emocionantes da campanha foi a vitória contra a Rússia nas quartas de final, com vitória por 21-19 no tie-break...
Tandara: 
A gente do banco estava jogando com quem estava lá dentro da quadra. A gente estava ali ‘esse jogo é nosso, por mais difícil que seja, será nosso’. Tanto é que a gente trabalhou e o resultado veio. E foi suado, muito suado. Matamos muita gente aqui do coração.

GE.net: Você mesmo disse que às vezes parece que não caiu a ficha que você foi campeã olímpica. Quando teve dimensão da conquista?
Tandara: 
Na hora que chegamos ao aeroporto em São Paulo e nos dirigimos ao hotel ao lado em que iríamos dar a entrevista foi quando começou. Quando vi meus pais me abraçando, minha mãe chorando e aquilo tudo de realizar o sonho do meu pai também, porque ele era jogador, começou a cair. E você desfilar por São Paulo em um carro de bombeiros e todo mundo atrás batendo palma...

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sorriso é marca de Tandara durante as partidas do Sesi na Superliga feminina de vôlei

GE.net: E isso mudou alguma coisa em relação ao seu modo de jogar, encarar as partidas?
Tandara:
Com certeza as coisas mudam quando você é uma campeã olímpica, a responsabilidade é muito maior, a sua cabeça muda em relação a ‘não posso errar porque vão me cobrar e eu tenho que fazer’. Com certeza muda, sinto que estou amadurecendo muito mais rápido em relação à cobrança. Até hoje, só de falar dá um frio na barriga, como se fosse uma passagem que marcou muito, você não tem palavras para explicar o que é.

GE.net: Essa cobrança maior vem das pessoas ou de você mesmo?
Tandara:
Eu já sou uma jogadora que me cobro muito, tem certas coisas que não aceito errar porque sei que posso fazer. Então a cobrança vem de mim, mas com certeza vem também de fãs, jogadoras que estão do seu lado, e do meu pai, sempre tive muita cobrança. Depois disso minha cobrança comigo mesmo aumentou demais porque não aceito, não posso errar, isso com certeza afeta muito.

GE.net: Pela sua trajetória até aqui, provavelmente estará na Seleção nas Olimpíadas do Rio de Janeiro-2016. Acha que será muito diferente por jogar em casa?
Tandara:
Jogar as Olimpíadas no Brasil, defendendo o Brasil... Com certeza esse é o objetivo. Minha primeira experiência em jogar com a Seleção em casa foi em Brasília, então foi na minha cidade, meus pais estavam ali, todo mundo do lado, o ginásio estava cheio. Com certeza faz aquela diferença toda, a temporada da Seleção feminina é quase toda na Ásia, então é bom ter essa oportunidade jogar no Brasil, estar perto. Com certeza os ginásios lotarão e todo mundo irá querer acompanhar de perto o desempenho da Seleção.

GE.net: Você falou que se cobra bastante, mas é até engraçado ver você jogando porque está sempre rindo, não importa o que aconteça na partida. É algo natural ou é um mecanismo de defesa?
Tandara:
A minha felicidade é jogar vôlei, todo mundo fala ‘nossa, Tandara, é engraçado ver você jogar porque ao mesmo tempo em que você erra, você ri, aí você erra e fica brava, fecha a cara’. É o momento em que estou me divertindo. É a minha alegria e quero passar paras as companheiras do time, é o jeito que eu tenho. É natural, tudo espontâneo, nada forçado.

GE.net: Seu pai era jogador, foi por isso que você começou a jogar?
Tandara:
Não, eu vi na TV e pedi para ele me levar para treinar. Não era uma coisa muito certa na minha vida se era o que eu queria. Eu comecei a jogar, fui para a Seleção infanto-juvenil e isso foi aflorando mais a minha vontade. Depois minha mãe falou que ser jogador era o sonho do meu pai, mas ele teve que desistir para cuidar da minha vó que ficou doente. Então a minha vontade maior é estar sempre bem para não decepcioná-lo porque sei que era o sonho dele. Realizar o sonho através de um filho não tem explicação, por isso que estou sempre buscando o 100%.

GE.net: E como ex-jogador ele tá dá toque, bronca, reclama?
Tandara:
Ele é chato. Ele é chato principalmente quando está na arquibancada e você erra alguma coisa boba, erra um ataque. Você olha e ele está lá ‘tem que encaixar, tem que fazer isso’ e depois do jogo é o pior. ‘Vou te ensinar como faz, você não sabe bloquear, vou te ensinar a bloquear’. Atacar então? ‘Nossa, você atacou aquela bola para fora. Por quê?’. É chato.

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