O argentino Hernán Amez divide o tempo entre A.D. e D.D. (Antes e Depois de Diego). Ele celebra a Páscoa no dia 22 de junho, comemora o Natal em 30 de outubro e termina sua oração diária com “livrai-nos de Havelange e Pelé. Diego”. Fundador da Igreja Maradoniana, o jornalista de 43 anos aprova a escolha do compatriota Jorge Mario Bergoglio como papa e vê uma espécie de Santíssima Trindade formada por Francisco, Lionel Messi e o D10S, maneira como se refere ao ex-jogador.
Novo papa vira trunfo do San Lorenzo
“O futebol envolve muita fé, algo fácil de perceber quando um atleta faz o sinal da cruz ou comemora olhando para o céu. Ter um papa como o Francisco, alguém fortemente vinculado ao esporte, porque já demonstrou seu fanatismo pelo San Lorenzo, é algo positivo para torcedores e jogadores. Esperamos que ele tenha uma imagem conciliadora para que a violência que temos visto no esporte nos últimos tempos diminua”, afirmou Amez.
Idealizada em Rosário no ano de 1998, a Igreja Maradoniana conta, segundo seu fundador, com mais de 250 mil seguidores em aproximadamente 80 países, inclusive no Brasil. Na cidade argentina, os fiéis se reúnem periodicamente para ritos como batismos e casamentos. As principais celebrações são realizadas em 30 de outubro, data de nascimento de Maradona, e 22 de junho, dia em que o então camisa 10 usou a mão de Deus para fazer um gol diante da Inglaterra, nas quartas de final da Copa do Mundo do México-1986.
“Muitos estão falando que a escolha do papa Francisco é ‘A Nova Mão de Deus’, dizem que é ‘A Outra Mão de Deus’. Acho que eles têm razão. Essa pode ser mesmo ‘A Outra Mão de Deus’, mas a primeira foi muito mais festejada”, afirmou Amez, batizado como católico. “O Maradona é um deus terrenal. Há um costume muito tradicional nas religiões de olhar para Deus somente para pedir. No nosso caso, apenas agradecemos”, explicou.
A Igreja Maradoniana tem princípios parecidos com o catolicismo, como 10 Mandamentos, entre os quais “amar o futebol sobre todas as coisas” e “difundir os milagres de Diego em todo o universo”. A entidade não conta com uma sede física e deve parte da popularidade à Internet, mas atualmente seu site está fora do ar, uma vez que os fundadores já se cansaram dos seguidos ataques de hackers, contrários à religião inusitada.
Campeã mundial nas temporadas de 1978 e 1986, a Argentina não ganha um título relevante desde 1993, quando faturou a Copa América do Equador. Com a Santíssima Trindade formada por Diego Armando Maradona, Lionel Messi e Francisco, Hernán Amez espera que a seleção do técnico Alejandro Sabella consiga quebrar o incômodo jejum, possivelmente na Copa de 2014, a ser disputada justamente no Brasil.
“Nós já lemos o Antigo Testamento, escrito pelo Diego, e agora estamos vendo o Messi escrever o Novo Testamento. Ele é o Messias e está escrevendo o Novo Testamento para a Igreja Maradoniana. Como papa, o Francisco passa a fazer parte de uma trilogia ao lado de Maradona e Messi, dois jogadores com áurea divina. Estamos esperançosos de que a seleção argentina consiga dar felicidade ao povo que tanto espera por isso”, afirmou Amez, ansioso para finalmente ver a fumaça branca.
| CRÍTICO DE JOÃO PAULO II, MARADONA QUER ENCONTRAR FRANCISCO |
![]() Ex-jogador do Napoli, Diego Armando Maradona esteve na Itália recentemente para negociar dívidas com o fisco |
Endeusado pelos milhares de seguidores da Igreja Maradoniana, o antigo camisa 10 da Argentina criticou asperamente João Paulo II, antecessor de Bento XVI, na biografia “Yoy soy el Diego de la gente”, publicada em 2000. No dia em que Jorge Mario Bergoglio foi nomeado papa, o ex-jogador manifestou o desejo de encontrá-lo. “Sim, briguei com o papa (João Paulo II). Briguei porque fui ao Vaticano e vi os tetos de ouro. Depois, ouvi o papa dizer que a Igreja se preocupava com as crianças pobres... Então, vende o teto, faça alguma coisa!”, diz a biografia de Maradona, ainda sem tradução para o português. Ao dar um rosário ao ex-jogador, João Paulo II disse que a peça era “especial”. No momento em que constatou que o objeto era igual ao de seus acompanhantes, Maradona foi tirar satisfações com o então pontífice. “Não me respondeu... Só me olhou, deu um tapa nas costas e seguimos caminhando. Uma falta de respeito total”, diz o livro. Se desancou o antecessor de Bento XVI, Diego Armando Maradona parece disposto a ter uma relação cordial com seu compatriota. “O Deus do futebol é argentino e agora o papa também. Quando vá para a Itália, espero poder ter uma audiência com ele”, afirmou o ex-jogador após a nomeação de Francisco. |
*Colaborou Helder Júnior

