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Neymar tem missão de ser “incomum” um mês após críticas de Pelé

Helder Júnior São Paulo (SP)

Neymar não é um jogador comum. O namorado da atriz Bruna Marquezine recebe salários muito maiores do que seus companheiros, tornou-se bastante requisitado como garoto-propaganda de campanhas publicitárias e chama a atenção pelas firulas que faz com a camisa do Santos – a ponto de ser candidato recorrente ao prêmio de gol mais bonito do ano. Até mesmo o seu visual foge aos padrões estéticos dos colegas de profissão. O cabelo moicano e a barba ganharam tons loiros no início de 2013. Talvez com o desejo de provar que o maior astro do momento do futebol brasileiro também fica bem de amarelo.

Para o maior astro da história do futebol brasileiro, Neymar ainda não conseguiu ser diferente pela Seleção Brasileira. Aproximadamente um mês antes do amistoso com a Itália, às 16h30 (de Brasília) desta quinta-feira, na cidade suíça de Genebra, Pelé não poupava aquele que o sucedeu como ídolo santista de críticas. “O Neymar, por exemplo, todas as vezes em que chega à Seleção vira um jogador comum. Não é isso o que esperamos dele, principalmente nós, do Santos. Temos uma confiança danada nele. Mas é um jogador comum na Seleção. Não tem experiência internacional. Em todos os jogos fora do País, ele não vai bem”, atacou o Rei, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

AFP
Críticos mais duros, como Pelé, colocaram a corda no pescoço de Neymar por rendimento na Seleção
Aquela foi a primeira vez em que Pelé criticou Neymar abertamente – antes, ele chegava a comparar o jovem ao argentino Lionel Messi, que tenta se o mais comum possível fora dos campos, apesar de ter sido reconhecido como o melhor jogador do planeta nos últimos quatro anos. “Neymar já se preocupa mais em aparecer na mídia do que em jogar para o time”, também reclamou o Rei. Curiosamente, o atacante foi o personagem de capa da revista Time, uma das mais importantes publicações do mundo, na mesma semana das contestações.

Neymar pode estar na Time, mas não estaria no time de Pelé. A opinião é de muitos dos ex-companheiros do Rei no Santos. O artilheiro Pepe, por exemplo, não daria espaço para o ídolo de hoje na linha ofensiva que ainda tinha Dorval, Mengálvio e Coutinho. “Todos sabemos que o Neymar é um craque. Mas, se ele fosse vivo naquele tempo, ficaria no banco de reservas. Teria que entrar no segundo tempo. Seria difícil ele roubar a minha vaga do lado esquerdo do campo”, costuma dizer o antigo ponta canhoto, que acompanha o atacante “desde o dente de leite”.

As observações de Pepe servem para Pelé negar que seja polêmico ao atacar Neymar. Na mesma semana do amistoso com a Itália, o Rei voltou à carga: “A nossa relação vai ficar igual. Um pai sempre tem que orientar bem o seu filho, não é? O Neymar é cria nossa e todos os que gostam dele, como o Pepe, o próprio Edinho, meu filho, que trabalha no Santos, e eu, dão puxões de orelhas. Tudo o que gente fala é para bem dele, pois é um excelente garoto, um grande jogador, e não pode se perder”. Ainda definiu, no mesmo dia, como “complicado” o princípio do relacionamento do atleta com Bruna Marquezine.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Pelé avisou que considera Neymar um filho e, portanto, tem todo o direito de cobrar o jogador do Santos
Se não está sendo capaz de deixar apaixonados os torcedores mais exigentes, ao menos os números no Santos estão ao lado de Neymar. Quando conquistou o tricampeonato paulista pelo clube em 2012, ele próprio se vangloriou: “Não esperava que essas coisas aconteceriam na minha vida e que estaria repetindo o Pelé e outros craques que construíram história no Santos. Estamos chegando perto do que eles fizeram”. O atacante foi o artilheiro daquele torneio, com 30 gols marcados, e superou os 100 na temporada, tornando-se o maior goleador do clube depois da Era Pelé. Se alcançar o tetra em 2013, levará o time a um feito inédito: nenhuma outra equipe conseguiu tamanha sequência de títulos na era profissional do campeonato estadual. Pelé foi tricampeão duas vezes (1960/61/62 e 1967/68/69).

O sucesso de Neymar no Campeonato Paulista, no entanto, também serve de arma para os seus críticos. O argumento é de que o atacante conta com os auxílios de marcações mais frágeis e de árbitros rigorosos para se destacar em um torneio de menor expressão do que aqueles em disputa pelo Brasil no exterior, por exemplo. Neste ano, ele já se envolveu em polêmica regional ao gingar diante de Nunes, na vitória por 3 a 0 sobre o modesto Botafogo-SP. “Pensei dez vezes, pois ia quebrá-lo. No lance em que ele tentaria dar a carretilha, queria grudá-lo na tela. Não admito falta de respeito, e o Neymar estava faltando com respeito. Não precisa fazer graça. Por isso, admiro Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno, que não menosprezam ninguém”, diferenciou o atleta adversário, citando um antigo companheiro de Seleção do seu desafeto e também o agente de imagem.

O técnico Muricy Ramalho e os companheiros de Santos, ao contrário, defendem que Neymar precisa de ainda mais proteção da arbitragem. Para o comandante, o atacante que foi vaiado nas Olimpíadas de Londres por supostamente cavar faltas é perseguido por seus oponentes. “Eles fazem rodízios de faltas. Não é que o Neymar se joga. Isso já passou. Ele está muito forte fisicamente, mas há uma hora em que não aguenta. Temos de proteger, pois é um jogador fundamental para o Brasil ganhar a Copa do Mundo”, alertou em recente entrevista, apesar de achar que críticas como a de Pelé podem erguer o seu pupilo. Veteranos como o lateral esquerdo Léo, sempre disposto a fazer desabafos públicos, apoiaram o discurso.

Fernando Dantas/Gazeta Press
No último clássico contra o Corinthians, Neymar voltou a ser criticado por se jogar em campo em divididas
A polêmica em torno do assunto aumentou ainda mais depois que Neymar passou a admitir que “dá uma pipocada” em divididas mais ríspidas com defensores adversários. Segundo ele, a postura é fundamental para não se expor a contusões – e não chegava a prejudicar o seu rendimento no Santos, que esteve longe de ser o mesmo quando o ousado e alegre atacante esteve a serviço do Brasil.

Disposto a fazer da Seleção Brasileira uma extensão do Santos para Neymar, Luiz Felipe Scolari começou a seguir a mesma linha de Muricy ao lidar com o atleta. “Parece que um jogador bom, que faz e improvisa no Brasil, causa mal-estar em algumas pessoas. O problema é que o Neymar já está extrapolando sua capacidade de tal forma que as pessoas não aceitam. Ele é um dos nossos craques, um dos melhores do mundo. Vamos aceitar”, declarou. “Como acontece com todos os atletas que sofrem dez faltas em um jogo, uma ou duas delas podem não ser faltas. Os técnicos que enfrentam o Neymar preferem dizer que ele cai para influenciar os árbitros. E essa não é a realidade. Ele cai porque é bom, dribla e leva a falta. Quem dribla mais, recebe mais faltas”, advogou Felipão.

Não são apenas os marcadores de Neymar que têm sido punidos. Na derrota por 3 a 1 para a Ponte Preta, no mês passado, o próprio atacante foi expulso por Luiz Flávio de Oliveira após se envolver em confusão com o lateral direito Artur (que também recebeu o cartão vermelho). O santista já tem um histórico de arrumar intriga com seus adversários. Em 2010, ele deu um chapéu com o jogo paralisado no zagueiro Chicão e causou revolta no rival Corinthians. No mesmo ano, quando brigou em campo com o técnico Dorival Júnior por querer bater um pênalti contra o Atlético-GO, René Simões advertiu: “Está na hora de alguém educar esse rapaz ou vamos criar um monstro”.

AFP
Para ter o Neymar do Santos na Seleção, Felipão blindou o astro e o mandou ao ataque contra a Itália
Neymar é bem-educado, de acordo com quem conviveu com ele desde a infância. Com a experiência de ter trabalhado durante uma década nas categorias de base do Santos, a psicóloga Sonia Román é uma ferrenha defensora da postura do astro. “Houve aquele caso com o técnico (Dorival), e o menino se recuperou em dois dias; ele soube que seria pai, deve ter tomado um susto imenso na hora, e assumiu a criança sem problema nenhum. O Neymar não tem instabilidade”, ela garantiu, no final de 2011. De fato, dificilmente o jogador não se mostra contente: tem o hábito de completar todas as suas respostas (mesmo que vazias) em entrevistas com uma risada, gosta de dançar nos gramados de futebol e nos shows de seus amigos cantores e mostra disposição para dar carinho à sua multidão de fãs. Foi político até quando Pelé o criticou.

Ainda falta para Neymar, contudo, rir mais quando está vestido com a camisa da Seleção Brasileira. Ele ainda não chegou a proporcionar felicidade para Pelé quando se vestiu de amarelo. Para alguns, o problema é o fato de não jogar com Messi ou Cristiano Ronaldo no futebol europeu. Agora que ganha a companhia de jogadores mais experientes, como o sempre sorridente Ronaldinho Gaúcho na primeira convocação de Felipão ou o mais sério Kaká na segunda, o atacante terá a responsabilidade dividida na tentativa de se mostrar incomum até a Copa de 2014. A CBF ainda tem blindado o astro: ele foi preservado de entrevistas coletivas nesta semana. Para completar, Sandro Rossell, presidente do Barcelona, recusou um convite da entidade para ver o amistoso do Brasil só para não alimentar especulações.

Todo o cuidado, portanto, é pouco para fazer Neymar render na Seleção Brasileira até a Copa do Mundo de 2014. Um título mundial conquistado dentro de casa, 63 anos depois de Pelé lamentar o vice-campeonato de 1950 na condição de torcedor, poderá fazer com que o santista reine absoluto como maior craque do País da atualidade. Ou até do mundo, conforme sinalizou o suíço Joseph Blatter, presidente da Fifa, para quem a Bola de Ouro só será entregue a um jogador do Campeonato Brasileiro com uma atuação destacada no Mundial. O feito seria digno de alguém verdadeiramente incomum.

Gazeta Press
Psicóloga que trabalhou com Neymar na base santista tira o peso das críticas do jogador "incomum"
“Uma pessoa comum não tem a arte dos jogadores de futebol. Os comuns somos o meu vizinho, eu... O Neymar foge do comum. Atletas como ele têm alma de artista, criatividade, enriquecimento intuitivo. Os craques são irreverentes. Não tirem isso do Neymar. Pessoas como ele se situam, sim, em uma escala narcísica. Para uns, essa escala é muito alta e pode desmerecê-los profissionalmente. Para outros, não é algo destrutivo. Se você é produtivo como o Neymar, tem os direitos de chamar a atenção e até de algumas regalias. Ele fez por merecer. É um craque, diferenciado. Querer colocar alguém como o Neymar em uma redoma, padronizando-o com todos os demais, é roubar o que ele tem de melhor”, ensinou a psicóloga Sonia Román, que irá se juntar a Pelé na torcida pelo Brasil – e pelo novamente moreno Neymar – contra a Itália, nesta quinta-feira.

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