Futebol/Copa Libertadores - ( - Atualizado )

Advogado trata processo contra corintianos presos como "lixo"

Bruno Ceccon, Enviado Especial Oruro (Bolívia)

Com exclusividade, a Gazeta Esportiva.net teve acesso ao processo contra os 12 brasileiros investigados pela morte do boliviano Kevin Beltrán. Miguel Blancourt, advogado ligado à Embaixada do Brasil em La Paz que defende os corintianos detidos em Oruro, apontou uma série de irregularidades e pontos obscuros ao analisar o material ao lado da reportagem.

O primeiro problema observado por Blancourt se refere ao policiamento da partida entre San José e Corinthians, disputada em 20 de fevereiro. Na “Tribuna de Preferencia” do Estádio Jesús Bermúdez, setor ocupado pela torcida visitante, 12 homens eram responsáveis pela segurança o que, para o advogado, é um indício de que as prisões foram realizadas a esmo.

“Entendo que esses 12 policiais correspondem aos 12 detidos. Se fossem 20 policiais, teríamos 20 detidos. Além disso, os vídeos mostram que os policiais não estavam observando a torcida, mas sim vendo o jogo. Um evento desse nível raramente ocorre em Oruro, e os policiais estavam desfrutando do espetáculo ao invés de trabalhar”, disse Blancourt à GE.net.

Confira os detalhes do processo

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Já a “Ata de Consignação e/ou Registro de Pessoa Apreendida”, assinada pelos 12 torcedores, aponta que o motivo da prisão foi “ter sido surpreendido em flagrante” (com o braço engessado, o acusado Rafael de Almeida apenas colocou suas digitais). Segundo Blancourt, os brasileiros, sem os serviços de um tradutor, não tinham consciência do que faziam – alguns garantem quem nem sequer estavam dentro do estádio no momento do acidente.

“Eles foram praticamente obrigados a confessar que foram surpreendidos em flagrante sem que existisse um tradutor no momento. Os torcedores não sabiam o que estavam fazendo. A falta de tradutores nas atas de prisão dos 12 brasileiros é uma irregularidade”, afirmou Blancourt.

Os vídeos produzidos no dia da partida são provas de fundamental importância. No processo, consta o diploma do perito Carlos Jabier Paredes, responsável por analisar o material. Desde agosto de 2012, ele tem o título de especialista em “delitos informáticos” pela Academia Colombiana de Criminalística e Fotografia Investigativa.

“Não existe na Bolívia uma pessoa qualificada para fazer a perícia dos vídeos. O meu laptop, que é bem antigo, é melhor que o desse perito. O computador dele simplesmente não consegue reproduzir os vídeos. É uma boa pessoa, mas não sei como está fazendo o seu trabalho”, afirmou o advogado.

Blancourt ainda acusa Abigail Saba, promotora que era responsável pelo caso, de assinar documentos como se tivesse participado de eventos de que não participou. “Essa investigação não avançou praticamente nada e já se passaram mais de 40 dias. As primeiras 48 horas depois de um delito são chaves, e não há nada”, protestou.

O advogado calcula que o processo tem aproximadamente 800 páginas. Os responsáveis pela investigação solicitaram a empresas de transporte aéreo e terrestre os nomes dos brasileiros que ingressaram na Bolívia na época. Assim, cerca de um terço do material é composto por listas com nomes de pessoas.

Bruno Ceccon/Gazeta Press
Miguel Blancourt, advogado ligado à Embaixada do Brasil em La Paz, enumerou críticas ao processo
“Esse processo com mais de 800 páginas prova três coisas. Primeiro, que os torcedores não chegaram a Oruro em transporte público, fato ridículo. Depois, quem são os policiais que estavam no estádio. Em terceiro lugar, que dois corintianos portavam sinalizadores. Esses são os resultados da investigação. Um lixo, não serve para nada”, disse Blancourt.

A única testemunha da tragédia no processo é Beymar Jonathan Trujillo Beltrán, primo de Kevin. Os dois viajaram de Cochabamba a Oruro para acompanhar o jogo no Estádio Jesús Bermúdez. Posicionado ao lado do familiar, Beymar diz ter percebido o deslocamento de ar provocado pela passagem do sinalizador.

“Senti um golpe de vento na cabeça que arrancou a peruca que estava usando. Fiquei de pé para ver o que tinha acontecido e vi meu primo deitado na arquibancada com um objeto incrustrado em seu olhinho”, diz o depoimento de Beymar, que seguiu para o Hospital Obrero. “Ali me disseram que meu primo estava morto”, afirmou.

No processo, há uma sequência de fotos do cadáver de Kevin. As imagens são chocantes e não serão publicadas pela GE.net. É possível observar que o sinalizador atingiu o olho direito do garoto e penetrou na diagonal. Parte do objeto chegou a sair pelo lado oposto, abaixo da orelha esquerda, na altura do pescoço.

Alfredo Santos, promotor que herdou o caso de Abigail Saba no Ministério Público de Oruro, evitou se aprofundar ao conceder entrevista à GE.net. “Já foram realizadas algumas investigações e devemos continuar com isso. Nossa legislação estabelece seis meses de investigação. Estamos dentro do período para acumular os elementos de prova”, afirmou.

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