Futebol/Copa Libertadores - ( - Atualizado )

Excursão boliviana tem receio, pedidos de paz e homenagem a Kevin

Bruno Ceccon e Marcos Guedes São Paulo (SP)

Na Rua Coimbra, em meio a salteñas e mochinchi, a comunidade boliviana em São Paulo se reuniu para partir rumo ao Estádio do Pacaembu na noite de quarta-feira. A Gazeta Esportiva.net seguiu em um dos três ônibus de torcedores que foram apoiar o San José diante do Corinthians. A excursão, marcada pelo receio de represálias por parte dos donos da casa, teve pedidos de paz e uma homenagem a Kevin Beltrán.

Bolivianos admiram Timão e Guerrero

Há milhares de imigrantes bolivianos em São Paulo, a maioria no ramo de confecção – muitos são explorados por empresários sul-coreanos. A Rua Coimbra, localizada no Brás, é um pedaço do país andino na capital paulista. Além de diversas opções para comprar comida típica, há cartazes colados nos postes oferecendo moradias em espanhol.

A reportagem chegou ao ponto de encontro dos torcedores do San José às 18h30. Por meio de um alto-falante, um dos organizadores divulgava a excursão ao Pacaembu por R$ 20,00 (ida e volta). O microfone também foi usado para citar Kevin Beltrán, atingido por um sinalizador de forma fatal no jogo diante do Corinthians, e pedir para os bolivianos não caírem em eventuais provocações.

Angel Vargas, 44 anos, chegou ao Brasil em 1990, trabalha no ramo de confecção e costuma montar excursões aos estádios quando clubes bolivianos vêm jogar em São Paulo ou Santos. Segundo ele, o receio em torno de eventuais represálias dos corintianos, uma vez que ainda há 12 torcedores presos em Oruro, diminuiu o número de fãs do San José dispostos a ir ao Pacaembu.

“A gente costuma sair em 10, 15 ônibus, mas agora estamos com pouca gente. Muitas pessoas têm um pouco de temor. O que aconteceu na Bolívia foi uma tragédia. Nós também estamos magoados e tristes. Há um Kevin em cada família boliviana e brasileira, mas lamentavelmente aquela família perdeu o seu Kevin para sempre”, declarou.

De acordo com Vargas, após a morte do garoto de 14 anos, no último dia 20 de fevereiro, já houve relatos de atritos entre bolivianos e corintianos nos campos de várzea localizados nas imediações da sede da Gaviões da Fiel, organizada à qual 10 dos 12 presos em Oruro são associados, no Bom Retiro, um dos redutos dos imigrantes. Desta forma, ele aproveitou para fazer um pedido.

“Só queremos viver em paz. O Kevin foi embora, mas tudo vai ter uma solução. Para nós, o futebol é uma festa e queremos mostrar que vivemos em paz com os brasileiros. Não sou juiz nem advogado. Penso apenas que, se você está no Brasil, deve respeitar as leis brasileiras Se está na Bolívia, é a mesma coisa”, declarou o bolivianos de 44 anos.

La Temible, principal torcida do San José, tem uma filial em São Paulo com aproximadamente 300 associados. Diante da presença da GE.net, os integrantes do grupo fizeram questão de estender sua faixa entre as casas coloridas da Rua Coimbra. Ademar Fuentes, um dos líderes da facção, está no Brasil há 10 anos e pede compreensão.

“O pessoal está com um pouco de medo pelo que aconteceu. Foi um acidente que repercutiu no mundo inteiro. Queremos que os corintianos nos entendam. Não temos nada a ver com o problema e pedimos paz para todo o mundo”, afirmou o torcedor, que recomenda aos compatriotas evitar as imediações da quadra da Gaviões da Fiel. “Melhor não ficar perto deles”, disse.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O receio dos torcedores bolivianos diminuiu o público no setor de visitantes do Pacaembu diante do Corinthians
Os três ônibus de torcedores do San José que partiram da Rua Coimbra tiveram escolta da Polícia Militar até o Pacaembu. Antes de entrar nos veículos, os bolivianos foram revistados. Ao encontrar uma porção de empanadas na mochila de um dos fãs, um dos PMs brincou: “Vocês vão para comer ou para ver o jogo? Vão servir a torcida do Corinthians também?”.

Com várias mulheres e crianças a bordo, o comboio deixou o Brás às 19h47 e chegou ao Pacaembu às 20h20. O trajeto foi tranquilo, marcado por alguns gritos de “vai, Corinthians” de pessoas do lado de fora. No interior dos ônibus, torcedores do San José se misturaram a fãs de times como Strongest e Bolívar que se juntaram para apoiar a equipe de Oruro.

O trajeto terminou ao lado da entrada de visitantes do Estádio do Pacaembu. Tranquilamente, todos os fãs compraram seus ingressos e entraram sem atropelos. Na arquibancada, uma das primeiras providências foi pendurar a faixa preparada em homenagem ao garoto vitimado pelo sinalizador, torcedor do San José. “Paz entre irmãos/Eterno Kevin”, diz a mensagem.

Os bolivianos receberam o gol de Romarinho, aos 25 minutos, com um sorriso amarelo. No intervalo, a reportagem conversou informalmente com Freddy Fernandez, presidente do San José, que acompanhava a partida no camarote dos visitantes. Interessado em ser ressarcido da multa de US$ 10 mil aplicada pela Conmebol como punição pela morte de Kevin, o dirigente manifestou o desejo de encontrar Mário Gobbi.

Na etapa complementar, o gol de Guerrero sepultou qualquer esperança dos torcedores visitantes. Para evitar qualquer tipo de contratempo, os bolivianos deixaram o Pacaembu minutos antes do final da partida rumo aos ônibus estacionados do lado de fora. Desta forma, perderam o terceiro e último tento do Corinthians, marcado por Edenílson já nos acréscimos da partida.

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