Futebol/Copa Libertadores - ( - Atualizado )

Presos, corintianos alimentam fé de se ver longe de San Pedro

Bruno Ceccon, Enviado Especial Oruro (Bolívia)

“Guía al niño en su camino y aun cuando fuere viejo no se apartara de él”*. A frase, extraída do livro dos provérbios do Antigo Testamento da Bíblia, está escrita no muro da Penitenciária de San Pedro, em Oruro. Dentro da prisão boliviana, 12 admiradores de São Jorge, investigados pela morte de Kevin Beltrán, estão presos desde o jogo entre Corinthians e San José, disputado no Estádio Jesús Bermúdez. A fé, típica da torcida conhecida como Fiel, é um dos trunfos dos brasileiros durante os momentos de provação.

A Gazeta Esportiva.net realizou duas visitas ao presídio na última semana. Os corintianos, abatidos e claramente mais magros do que nas primeiras aparições, preferiram não conceder entrevista, mas relataram a situação precária em que se encontram durante conversas informais. Nesta segunda-feira, os torcedores sairão da prisão para participar de uma audiência de inspeção. De volta ao estádio, localizado a poucos metros da cadeia, farão uma espécie de reconstituição.

A rotina dos detentos no presídio é marcada pela monotonia. Além de conversar entre si, os torcedores ficam atentos às chamadas de parentes do Brasil, já que o presídio conta com um telefone público. Juntos, costumam rezar e, aos domingos, têm a chance de frequentar as missas celebradas pelo padre Gerardo Banderberg na capela local. “Não costumo falar publicamente sobre o trabalho que faço em San Pedro. Posso dizer apenas que já vi os brasileiros em alguns cultos”, afirmou o religioso, responsável pela humilde igreja Madre Teresa de Calcutá, localizada na periferia de Oruro, em ruas sem calçamento.

O cenário do lado de fora da penitenciária é melancólico. Advogados de porta de cadeia esperam por encontros com seus clientes entre cães vira-latas – alguns, habituês, são acariciados até pelos policiais armados que vigiam o local. Em um movimento intenso, crianças, homens e mulheres de todas as idades entram e saem para as chamadas entrevistas, um breve encontro com os presos através de uma grade (as visitas são permitidas apenas entre quinta-feira e domingo). O barulho desagradável da tranca do portão é incessante.

Bruno Ceccon/Gazeta Press
O muro da Penitenciária de San Pedro, que abriga os 12 corintianos, tem um provérbio do Antigo Testamento
Enquanto a reportagem esperava do lado de fora, um taxi descarregou um enorme saco de batatas. Minutos depois, outro veículo trouxe centenas de empanadas. Esporadicamente, presos entram e saem algemados. Uma jovem, amparada por um homem mais velho, deixou o presídio chorando, mas nem todos vão à penitenciária para matar a saudade. “Fui enganado por um dos presos e ele ainda me deve dinheiro”, explicou um senhor que aguardava em frente à entrada.

Para encontrar os torcedores, a Gazeta Esportiva.net precisou de uma autorização especial do diretor, já que não era dia de visita. Sem qualquer tipo de revista, inclusive na mochila, carregada com celular e máquina fotográfica, a reportagem foi levada a uma sala com seis dos 12 integrantes do grupo. Um deles usava uma espécie de terço, enfeitado pelo símbolo do Corinthians. Receosos com a possibilidade de permanecer presos nos próximos meses, todos já sabem que o inverno local costuma registrar temperaturas abaixo de 0ºC e neve.

O otimismo dos primeiros dias de cadeia – um dos torcedores ainda sonhava usar a passagem comprada com destino ao México para ver o jogo contra o Tijuana – foi substituído pela agonia, mas a preocupação com o Timão permanece. Corintianos de “janeiro a janeiro”, como diz o verso de Toquinho, eles procuram seguir informados sobre os resultados da equipe. E dos rivais. Já inteirado da goleada sofrida pelo Palmeiras contra o Mirassol, um deles perguntou o resultado do jogo diante do Tigre.

Como a Justiça local ainda investiga o caso, os 12 corintianos ocupam duas celas em um setor fechado, separado dos condenados. Cansados, todos juram inocência. Alguns garantem que nem sequer estavam dentro do estádio no momento da morte de Kevin Beltrán e contam ter visto o corpo sendo conduzido à ambulância. Um menor de idade chegou a se apresentar em São Paulo como responsável pelo disparo que atingiu o garoto de maneira fatal, mas a Justiça boliviana, por enquanto, não reconhece a confissão, e dificilmente o fará. Já Limbert Beltrán, pai do menino de 14 anos, tem convicção de que o verdadeiro culpado está em Oruro.

AFP
Brasileiros estão presos em Oruro desde a noite da partida, no dia 20 de fevereiro (Foto: Aizer Raldes/AFP)
O presidente boliviano Evo Morales já lavou as mãos e atribuiu a questão ao poder Judiciário. Por outro lado, os corintianos vêm recebendo ampla atenção de parlamentares brasileiros. Na semana passada, uma comitiva de deputados esteve na Bolívia para tratar do assunto e o presidente Mário Gobbi encontrou Antônio Patriota, Ministro das Relações Exteriores. José Maria Marin, mandatário da CBF, também aproveitou o amistoso contra a Bolívia para fazer lobby pela libertação dos corintianos.

Abençoado pelo padre Antônio Pasova na ocasião de sua fundação, o clube aumentou sua ligação com a religião ao longo dos anos. Em 1969, o corintiano d. Paulo Evaristo Arns, que se tornaria arcebispo de São Paulo e cardeal, intercedeu junto ao papa Paulo VI para manter São Jorge no calendário litúrgico. Até 2001, o pai de santo Miranílson Carvalho dos Santos integrou o quadro de funcionários do clube como “prestador de serviços espirituais”. Entre vários outros exemplos, o técnico Wanderley Luxemburgo pediu a 'contratação' de galinhas d'angola para fortalecer o time no começo dos anos 2000.

Após o primeiro dos encontros com a reportagem na penitenciária, um dos torcedores corintianos presos em Oruro brincou com o guarda responsável pela segurança nas imediações do portão. “É para a direita?”, perguntou o brasileiro, com um sorriso irônico e a cabeça inclinada no rumo da saída, mostrando que a fé permanece viva entre os 12 detidos.

*Ensina a criança no caminho em que deve andar e, ainda quando for velho, não se desviará dele

Publicidade

Publicidade


Publicidade

Publicidade


Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade