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Futebol/Copa das Confederações - ( - Atualizado )

Cientista imagina empolgação de JK e vê Marin como filho da ditadura

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Acostumado a militar na direita, José Maria Marin, já morto politicamente, voltou a ser o centro das atenções ao suceder Ricardo Teixeira no comando da CBF em 2012. Neste sábado, como costumava acontecer durante o governo ditatorial, ele será bajulado por seus pares durante a abertura da Copa das Confederações, marcada para Brasília, menina dos olhos de Juscelino Kubitschek.

Cláudio Arantes, professor titular de ciências políticas da Faculdade Cásper Líbero, garante que Juscelino estaria exultante com um evento de grande porte na capital federal, apesar de descartar uma eventual interlocução do ex-presidente, considerado um dos maiores estadistas da história do Brasil, com um político do porte de José Maria Marin.

Neta de JK crê em avanço de quatro anos em um a partir de Brasília
Hotel da Seleção é o mesmo onde JK “escutou” o título de 1958

“O Juscelino sempre tomou Brasília como uma filha. A simbiose entre ele e a cidade era total. Seguramente, ficaria muito satisfeito de ver o belíssimo e caríssimo estádio que construíram na capital para a Copa das Confederações e para o Mundial”, diz o cientista político, crítico. “É difícil imaginar maneiras de manter essa arena ao longo do tempo sem um campeonato significativo e sem um time da região na Série A”, observou.

Reprodução
Então presidente, Juscelino Kubitschek condecora Bellini, campeão mundial em 1958 com a Seleção Brasileira
Juscelino Kubitschek governou o País entre 1956 e 1961, período marcado por feitos notáveis de atletas nacionais em distintas modalidades. O Brasil conquistou títulos mundiais no futebol (1958) e no basquete (1959), assim como no pugilismo, com Éder Jofre (1960). No tênis, Maria Esther Bueno iniciava um longo reinado nos principais torneios, enquanto o triplista Adhemar Ferreira da Silva ganhou o ouro olímpico (1956).

“O Juscelino não tinha uma trajetória de participação esportiva, mas tudo isso choveu na horta dele. Como presidente, passava uma mensagem positiva: ‘Estamos descobrindo o Brasil, ocupando o interior, está tudo dando certo’. Nessa linha, coincidiu de o país ter resultados expressivos no basquete, no tênis, no futebol, no boxe, no atletismo e até na caça submarina, com o Bruno Hermanny”, lembrou Arantes.

Depois de atuar como vice de Juscelino, João Goulart assumiu a presidência em 1961 e acabou deposto três anos depois. O Partido Social Democrático (PSD), do mentor de Brasília, apoiou o golpe militar, acreditando na realização de eleições presidenciais em 1965, para as quais JK era um dos pré-candidatos. Acusado de corrupção e de ligações com o comunismo, ele teve seus direitos políticos cassados e passou a viver no exterior. Morreu em 1976, vítima de um controverso acidente automobilístico.

“As ambiguidades do comportamento do Juscelino são as ambiguidades do comportamento do PSD. Quando o Castello Branco estende seu mandado para 1967, o partido já fica desconfiado. O Juscelino foi perseguido pelos militares? Sim, pelos militares que ajudou a colocar no poder. Ele vai ficando desapontado e perde a esperança de que o governo militar possa acabar. Isso o leva praticamente à morte”, disse Arantes.

A continuidade da ditadura – as eleições presidenciais de 1965 não ocorreram – propiciou a ascensão de José Maria Marin. No auge de sua carreira política, marcada por discursos inflamados contra a esquerda, ele chegou a assumir o cargo de governador de São Paulo em substituição a Paulo Maluf (entre 1982 e 1983). Atualmente, é acusado por Ivo Herzog de participar indiretamente do assassinato de seu pai, o jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do Dops, órgão de repressão do regime, em 1975.

“O José Maria Marin é um filhote da ditadura, sem traquejo algum. É um personagem de Santo Amaro, não tem a dimensão de um estadista. Sempre foi malufista e pró-1964. Os políticos da época dele já estão quase todos mortos, como o Wadih Helu e o Nabi Abi Chedid. Ele também já estava sem qualquer expressividade política, mas foi alçado pelo Marco Polo Del Nero (presidente da FPF)”, opinou Arantes.

Fernando Dantas/Gazeta Press
José Maria Marin, ex-governador biônico de São Paulo, escolheu o autoritário Felipão para comandar a Seleção
Marin, 81 anos, nega a acusação de ter colaborado com crimes cometidos durante a ditadura, mas associa a imagem da Seleção aos militares sem pudores. O presidente da CBF costuma afagar coronéis e já levou o time nacional para treinar Escola de Educação Física do Exército. Para suceder Mano Menezes, apostou no sargentão Luiz Felipe Scoari, admirador do ditador chileno Augusto Pinochet e do general chinês Sun Tzu, autor do livro “A Arte da Guerra”, obra que o inspirou em 2002.

Além de presidir a CBF, José Maria Marin comanda o Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014 e costuma tratar com Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, um francês pouco afeito a regimes democráticos. A partir deste sábado, o ex-governador biônico de São Paulo entra, como nunca antes, na alça de mira da opinião pública, desta vez sem o apoio do governo federal, encabeçado por Dilma Roussef (PT), presa e torturada pelos militares.

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