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Futebol/Seleção Brasileira - ( - Atualizado )

De birinaite a CD tocado no cemitério, “filha” pede bênção a Barbosa

William Correia Praia Grande (SP)

Sem defender o chute de Ghiggia que traumatizou o Brasil com a derrota, no Maracanã, na decisão da Copa do Mundo de 1950, Barbosa não teve filhos para se dedicar ao futebol, mas encontrou uma verdadeira família em seus últimos anos de vida. Tereza Borba se sente “filha do coração” do goleiro e se mantém ligada a ele chegando a tocar um CD de Paulinho da Viola ao lado de seu túmulo.

O ex-jogador morreu por parada cardiorrespiratória seguida de insuficiência hepática em 7 de abril de 2000, mas ainda tem sua presença sentida por Tereza. Ela conta ter uma foto de Barbosa em seu quarto e, antes de dormir, pede a bênção ao ex-goleiro, que chama de “Neguinho”, apelido carinhoso que dá “a todos que são especiais e amo muito, como meu marido, meus filhos...”

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
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A relação de ambos começou de forma curiosa. Barbosa foi para Praia Grande em 1992 para ele e sua esposa morarem com uma cunhada, e Tereza também mudou para cidade naquele ano. E foi exatamente em 1992 que o ex-goleiro foi à barraca de praia de Tereza para aproveitar a distância incomum dos dedos fraturados de sua mão esquerda e indicar o tamanho da dose de “birinaite”, mistura de Cynar com pinga.

“Eu não sabia da existência do Neguinho. Quando aquele negro esguio passou pedindo um birinaite na nossa barraca, meu marido falou: ‘Nossa, eu não acredito, estou diante do Barbosa, meu ídolo do Vasco da Gama’. Eu não entendi nada, mas meu marido ficou louco e começaram a bater papo sobre o Vasco. O Barbosa ficou muito feliz, porque cobravam muito dele por 1950, e eu nem tinha noção daquela Copa. E naquele dia só conversaram das muitas glórias do Expresso, como ele falava”, lembrou Tereza.

“Comecei a me apaixonar pelo jeito dele, a simplicidade, a forma dele, muito inteligente, usando o português correto, sempre rindo, brincando, contando piada. Ele sempre levantava a mão para o Céu como se estivesse buscando uma inspiração, e ele tinha mesmo essa inspiração. Era tudo de bom estar do lado dele e conhecê-lo”, completou ela, que define como “menos rico” quem não conheceu o ex-goleiro.

Fã do birinaite e também de caipirinha sem açúcar, Barbosa passou a ser consumidor frequente da barraca de Tereza na Cidade Ocian, bairro de Praia Grande. Mas passaram a ser “pai e filha” após a morte de Clotilde, em 23 de maior de 1996, dois dias antes do aniversário de Tereza.

“A Clotilde morreu e começou outra história entre nós, de pai para filha e de filha para pai. Ele sempre me dizia que eu era 'a filha que ele não teve' e eu dizia que ele era ‘o pai que não tive’. Ele se tornou uma pessoa da nossa família, o avô dos meus filhos. Só não falo que meu marido virou genro porque era como se fosse filho também ou admirador, porque ficava olhando e ficava embasbacado”, comentou.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Quando está "deprê", Tereza costuma visitar o túmulo de Barbosa ao som de Paulinho da Viola
Graças a Eurico Miranda, então dirigente do Vasco, Barbosa alugou uma casa próxima à de Tereza, e o convívio passou a ser diário. “Ele saía da casa dele, que era perto do meu quiosque, caminhava no calçadão, vinha aqui tomar os birinaites dele, almoçava, dormia à tarde e depois vinha aqui de novo.”

Tereza conta que ele e Barbosa desconfiavam que já tinham sido pai e filha “em vidas anteriores”. E ela conta diversas semelhanças entre os dois, sempre ressaltando que não crê em coincidência. Quando ela estabeleceu um quiosque na praia, por exemplo, ele passou a ter o número 79, idade de morte do ex-goleiro, que morreu em 7 de abril de 2000 e nasceu em 27 de março de 1921. “Tudo tem sete com ele”, falou, lembrando que o troféu favorito do ex-goleiro era o Tereza Herrera, que levava seu nome, enquanto o perfume preferido dela é o Carolina Herrera.

A afinidade fazia com que Tereza se preocupasse com ele a ponto de não ir para casa antes de visitar o novo “pai”. Ainda pagava uma empregada para lhe fazer companhia e deixava as chaves com o caseiro, que tinha a incumbência de ver se estava tudo bem com olhadas frequentes ao já idoso ex-jogador durante a noite.

A morte do ex-goleiro mudou também a vida de Tereza. Após Barbosa falecer, uma cachorra sua também morreu e, pouco depois, sua filha se casou, mudando-se para Ribeirão Preto (SP). “Fiquei muito chateada com tudo acontecendo ao mesmo tempo e vendi meu quiosque em 2001”, lembrou.

A vontade de estar ao lado de Barbosa continua mesmo após a sua morte. “Quando estou meio deprê, venho ao túmulo dele. Outro dia, vim e deixei tocando o ‘Bebadosamba’, do Paulinho da Viola, que ele adorava de paixão e ficava ouvindo o tempo todo”, contou Tereza, que trata o ex-goleiro como “Pelé das traves”.

“Não ajudei o Barbosa, ele que me ajudou muito. Ele me ajudou a ser melhor, a sorrir mais, a não ligar para pequenas coisinhas como uma unha quebrada. Não fiz nada por ele, ele que fez por mim. Mas, se Deus não tivesse me colocado na vida dele, ele não terminaria na sarjeta? E não seria digno”, imaginou Tereza, que, hoje com 53 anos, formou-se como cuidadora de idosos sob a inspiração de Barbosa. “Ele é o meu símbolo.”

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