Comercial Expediente Contato
Acompanhe a GE.net
Futebol/Seleção Brasileira - ( - Atualizado )

Lembrança de Barbosa do Maracanazo: banquete em vão e agressor fujão

William Correia Praia Grande (SP)

A imagem mais repetida da Copa do Mundo de 1950 é o chute de Ghiggia que definiu a vitória e o título do Uruguai, seguida das cenas de Barbosa levantando lentamente, desolado, com o Maracanã lotado e em silêncio. O goleiro foi considerado vilão daquela decisão por muitos e sentiu na pele o peso da derrota da Seleção Brasileira nas semanas seguintes.

Herdeira do ex-jogador, Tereza Borba relatou à Gazeta Esportiva.net as principais lembranças que Barbosa tinha do jogo que marcou sua vida. Falecido em 7 de abril de 2000 por conta de parada cardiorrespiratória seguida de insuficiência hepática, o ex-goleiro sofreu algo que sua “filha do coração” deseja a nenhum dos brasileiros que estarão no Maracanã neste domingo para decidir a Copa das Confederações.

Acervo/Gazeta Press
Um melancólico banquete aguardava o goleiro Barbosa após a decisão da Copa do Mundo
Descanso na Praia Grande
Herdeira confia em Júlio César
Trave de 1950 está em leilão
Futebol impediu paternidade
Ghiggia: desculpas e amizade
Birinaite rendeu "filha do coração"
Brasileiro tem "memória longa"
Pena perpétua e compaixão genial
Júlio tem chance de vingança

“O Barbosa falava que, quando saiu o segundo gol, ele se abaixou com a vontade de fazer um buraco e se enterrar”, contou Tereza, relatando que o verdadeiro impacto daquele resultado foi sentido pelo goleiro em sua casa, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro, onde estava preparada uma festa.

Vizinhos de Barbosa levaram mesas e comidas para um banquete na rua, que serviria como recepção ao campeão do mundo. “Tinha pernil, frango, macarronada, maionese, cerveja, refrigerante... Quando acabou o jogo, nem os cachorros atacaram a mesa. Parecia que o mundo tinha parado. Isso ficou marcado na memória dele: uma mesa abastada para um banquete enorme e ninguém quis comer.”

No dia seguinte àquele fatídico 16 de julho de 1950, o goleiro atendeu ao pedido de sua esposa e foi às ruas comprar um faqueiro e recebeu críticas até então leves. Ainda considerava que a derrota tivesse um valor menor do que imaginava até perceber o tamanho da trauma daquele resultado.

“Ele estava indo para uma cidade no interior do Rio para um sítio de trem. Dois caras estavam na frente dele, e ele coberto com o jornal. Falavam que era incompetência dos jogadores e um falou: ‘Se eu encontrasse esse crioulo, nem sei o que faria com ele’. O Barbosa se cansou, abaixou o jornal e disse: ‘O senhor está me procurando’. O trem parou naquela hora e o cara pulou pela janela”, sorri Tereza.

O bom humor usado por Barbosa para contar a história sobre aquele dia no trem se manteve em outras provocações. Tereza tinha um quiosque na Praia Grande e relata que discutiu com um casal após vê-los apontar o ex-goleiro com a pergunta “Você que é da Copa de 1950, quando o Brasil perdeu?”. Mas, após pedidos de desculpas dos dois, o próprio Barbosa apaziguou a situação, chegando a tirar fotos com o homem e a mulher que o ofenderam involuntariamente.

Porém nem sempre foi assim. Barbosa nunca se esqueceu de quando estava em uma padaria e uma mulher, segurando uma criança nas mãos, apontou-o dizendo: “Esse homem que fez o Brasil chorar”. “Se eu fosse seu filho, a senhora falaria isso para outra criança”, retrucou Barbosa, que dizia ter calado a senhora com sua resposta.

O goleiro sempre evitou apontar culpados, mas relatava a Tereza que os responsáveis pela queda de produção do Brasil naquela Copa do Mundo foram os dirigentes. Enquanto a Seleção estava hospedada em um sitio de Joá, bairro de classe alta localizado na zona oeste fluminense, o time goleou Suécia e Espanha no quadrangular final do Mundial.

“Todos estavam confiantes de que iam ganhar o título, porque o empate com o Uruguai era suficiente. A mansão no morro do Joá tinha água boa, comida boa e espaço para descanso, sem jornalista nem ninguém para atrapalhar os treinos deles. Mas era um ano político, e, de repente, falaram que ali não estava bom. Todos ficaram sem entender. Foram para São Januário e eram até acordados de madrugada para tirar fotos com candidatos. O Barbosa disse que não conseguia nem pegar o prato para comer sem ser atrapalhado”, relatou Tereza.

Barbosa contava que apareceram com um baú portando faixas de campeão mundial que deveriam ser assinadas por todos os jogadores. O técnico Flávio Costa não permitiu e ordenou que a caixa fosse retirada da concentração, mas isso não foi suficiente. “Eles foram para o Maracanã com fome e se sentiam leões na jaula, nervosos com o discurso de que eram obrigados a ser campeões. E o Barbosa ainda viu a bandeira ser hasteada ao contrário.”

Lembranças pessoais à parte, Barbosa ficou marcado pelo chute cruzado de Ghiggia que ele não conseguiu defender. E passou a aceitar a cobrança, brincando que só ele, Ghiggia, o papa e Frank Sinatra conseguiram calar o Maracanã. “Tinham que achar um Cristo. Fazer o quê?”, dizia a Tereza.

“Ele falava que conseguiu entrar para a história sem nunca ter saído dela, pelo lado negativo. Se fosse pelo lado positivo, não teria entrado para a história com a dimensão que entrou. Ele se acostumou com a ideia, foi a forma de ele entrar para a história”, conformou-se a própria herdeira.

Publicidade


Publicidade


Publicidade

Publicidade

Publicidade