Futebol/Copa das Confederações - ( - Atualizado )

Neta de JK crê em avanço de quatro anos em um a partir de Brasília

Helder Júnior, enviado especial Brasília (DF)

Anna Christina ainda preserva o sorriso e a doçura de quando valsava ou dormia de mãos dadas com o seu avô, o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Ela diz não saber “onde enfiar a cara” depois de um insignificativo atraso para receber a reportagem da Gazeta Esportiva, lamenta-se por não ter passado batom nos lábios para posar para fotografias e cumprimenta carinhosamente quem vê pela frente. Chega até a esconder as lágrimas com os dedos quando fala do acidente automobilístico que matou JK em 1976. Sua postura é digna de quem não se deixa levar pela “grande correria e loucura”, como ela mesma descreve, causada pela presença da Seleção Brasileira em Brasília – a capital que fez o País progredir 50 anos em cinco em 1960.

Hotel da Seleção é o mesmo onde JK “escutou” o título de 1958

Hospedado no histórico hotel reconstruído pelo marido (o ex-governador do Distrito Federal Paulo Octávio Alves Pereira) de Anna Christina Kubitschek Barbará Alves Pereira, o técnico Luiz Felipe Scolari não pode se permitir a mesma tranquildade que a neta de Juscelino deixa transparecer. Ao contrário. Em Brasília, Felipão comanda uma Seleção que terá cerca de um ano para ser colocada à prova para a Copa do Mundo de 2014 a partir da partida contra o Japão, no sábado, a primeira válida pela Copa das Confederações. O slogan de celeridade de JK, portanto, nunca foi tão válido para o futebol nacional.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Presidente do Memorial JK desde 2000, Anna Christina idealizou a exposição sobre a Copa de 1958
“Você quer saber se a Seleção precisa avançar quatro anos em um, décadas depois de o Brasil crescer 50 anos em cinco, como dizia o vovô? Ah... Vou ter que perguntar para os meus filhos!”, gargalhou Anna Christina, pouco antes de mostrar confiança na hipótese de Felipão se travestir de Juscelino Kubitschek. “Para falar a verdade, eu acredito, sim! Depois que vi o Brasil ganhar da França, fiquei muito esperançosa!”, garantiu, triunfante.

Não foi à toa, contudo, que Anna Christina citou os filhos André e Felipe. Os bisnetos do mentor de Brasília – os primeiros homens dessa geração da família nascidos na capital federal – são tão fanáticos por futebol quanto era o ex-presidente. “Eles amam. Amam! Amam! Amam!”, empolgou-se a mãe coruja. “O André é flamenguista. O Felipe, mais velho, é um corintiano doente, daqueles que colocam o gorro para ir à arquibancada. Meu marido também torce pelo Flamengo, mas não liga tanto. Ou melhor: ele gosta do Gama, daqui da capital. Está vendo? Eu fico no meio disso tudo, sem entender nada”, sorriu.

Acervo Pessoal
Anna Christina era grudada em JK: "Sempre estava com ele" (foto: Acervo Memorial JK)
De fato, a crença de Anna Christina na possibilidade de a Seleção Brasileira enfim decolar na cidade que foi desenhada como um avião é facilmente colocada em dúvida. Ela não é capaz nem sequer de identificar Daniel Alves e Marcelo como as asas da aeronave de Felipão ou Luiz Gustavo e Paulinho como os candangos, conforme ficaram conhecidos os operários que construíram Brasília. Quando o time chegou à capital do País, a neta de JK deu uma amostra de sua falta de conhecimento em conversa com o filho caçula: “Vem cá, Felipe. Só conheço o Neymar dessa Seleção. Quais são os outros jogadores?”. O garoto se irritou: “Agora, não, mãe! Não dá!”.

Das histórias de Brasília e de Juscelino Kubitschek, no entanto, Anna Christina sabe bem. Ela é a presidente do belo Memorial JK, que aproveitou a Copa das Confederações para promover a exposição temporária “JK e o Brasil campeão”, reunindo relíquias, fotos e vídeos do título mundial de 1958, entre 21 de abril e 21 de agosto deste ano. A iniciativa tem aumentado a média de visitantes semanais ao museu – localizado próximo ao novo Estádio Mané Garrincha – de 280 para 600. Quando a Gazeta Esportiva esteve ali, havia até uma comissão de diplomatas da Jamaica muito interessada na participação do ex-presidente na primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil.

O mineiro Juscelino, o mais ilustre torcedor do modesto América-MG (“gente, que time é esse?”, surpreende-se a sua neta), ficou conhecido como “pé-quente” pelas conquistas brasileiras no esporte durante o seu mandato. Naquele período, o saltador Adhemar Ferreira da Silva foi bicampeão olímpico em 1956, nos Jogos de Melbourne; a tenista Maria Esther Bueno ganhou o seu primeiro título do torneio de Wimbledon em 1958, formando dupla com a norte-americana Althea Gibson; a Seleção de basquete levou o Mundial de Santiago; e o peso-galo Éder Jofre derrotou o mexicano Eloy Sánchez para ostentar o seu cinturão no boxe. Sem mencionar a mais marcante vitória, a da equipe de Mané Garrincha – o mesmo que dá nome ao Estádio Nacional de Brasília – na Copa da Suécia.

“Toda essa história do vovô com o futebol se encaixa com o boom que o Brasil teve em seu governo. Quando inaugurei a nossa exposição no Memorial JK, conversamos com alguns historiadores, que falaram que não havia nada da imagem do País lá fora antes do feito de 1958, na Suécia. O resgate que fizemos foi muito interessante”, orgulhou-se Anna Christina, que cogita aumentar o acervo para a Copa de 2014. “Quem sabe? Poderemos apresentar algumas surpresas, sim”, disse. Antes disso, o museu se prepara para receber alguns dos campeões de 1958 em suas dependências. Mário Jorge Lobo Zagallo manifestou interesse de fazer uma visita assim que soube da existência de “JK e o Brasil campeão”, porém foi impedido pela família de viajar para cuidar de sua saúde.

Zagallo, Garrincha, Pelé e os demais brasileiros recebidos com pompa por Juscelino após o título de 1958 são lembrados também por apagar a imagem da maior decepção do futebol nacional, a perda da Copa de 1950, em casa, para o Uruguai. “O Brasil foi derrotado porque o vovô não era o presidente, né? Pé-quente é JK!”, bradou a neta do mentor de Brasília, cidade que nem existia naquele tempo. Sua expectativa é de que os ares do cerrado conspirem a favor da Seleção em 2014. “Segundo a minha mãe (Márcia Kubitschek), Brasília era a sua irmã caçula. Ela viu a cidade ser construída desde os primeiros traços de Oscar Niemeyer. Brasília faz parte da nossa família. E, mesmo sendo suspeita para falar, temos muita história na nossa capital. Adoro morar aqui. Não trocaria por lugar algum do mundo. Está no sangue”, afirmou Anna Christina.

Acervo Pessoal
Juscelino segura a neta Anna Christina, com quem conviveu dez anos (foto: Acervo Memorial JK)
O sangue de Juscelino Kubitschek estará circulando ainda mais próximo da Seleção Brasileira no sábado, dia da estreia na Copa das Confederações. Anna Christina levará a família toda para o Mané Garrincha – “com bandeirinha e tudo” – no dia do jogo contra o Japão. Ela foi convidada para se posicionar na arena ao lado dos governantes atuais de Brasília, mas pretende se misturar ao público das cadeiras vermelhas. De lá, verá o seu avô ser homenageado antes do pontapé inicial do último ano dos quatro que o Brasil teve para se preparar para 2014.

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