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Futebol/Seleção Brasileira - ( - Atualizado )

No fim da vida, Barbosa aceitou desculpas e virou amigo de Ghiggia

William Correia Praia Grande (SP)

Barbosa costumava dizer que sua pena era a maior do Brasil, já que passou quase 50 anos sofrendo com as críticas por não ter defendido o chute de Ghiggia que definiu o título mundial do Uruguai no Maracanã, na Copa do Mundo de 1950. Mas, em seus últimos momentos de vida, conviveu com pedidos de desculpas e apoio até de seu algoz.

O ex-goleiro morreu de parada cardiorrespiratória seguida de insuficiência hepática, em 7 de abril de 2000, na Praia Grande (SP), cidade em que morou nos últimos oito anos de sua vida. Lá, ficou afastado das cobranças que eram mais frequentes no Rio de Janeiro (RJ), cidade na qual Brasil e Espanha farão a primeira final do novo Maracanã, reconstruído no mesmo lugar para a Copa do Mundo do ano que vem.

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“Quando ele morava no Rio, a cobrança era maior. Tinha hora em que ele deitava no travesseiro pensando muito naquela final, porque pegaram muito pesado com ele”, relatou Tereza Borba, “filha de coração” que cuidou de Barbosa de 1992 até sua morte e que usava o fanatismo de seu marido pelo Vasco para relembrar as glórias do goleiro pelo clube em vez da festa uruguaia no Maracanã.

“A Praia Grande, para ele, foi o paraíso. Tanto que escolheu ser enterrado aqui, na mesma ala da Clotilde, sua esposa. Porque a cidade e as pessoas o acolheram muito bem. Quando nós o apresentávamos, falávamos que era o Barbosa do Vasco, as pessoas não estavam muito ligadas com a Copa de 1950. E eu também filtrava os jornalistas que vinham entrevistá-lo para que começassem falando do Expresso, sem falar de cara de 1950”, contou.

Reprodução
A Praia Grande fez bem a Barbosa, que pediu para ser enterrado ao lado da mulher no litoral paulista
Barbosa foi morar na Praia Grande em 1992 a pedido de uma cunhada, que solicitou à irmã Clotilde que fossem fazer companhia a ela na cidade. O goleiro, nascido em Campinas (SP), gostava do Rio de Janeiro por estar próximo do Vasco,e se dizia parte da história da cidade colocando-se entre os fundadores do grupo “Fundo de Quintal”, já que residia no bairro de Ramos também.

Mas a mudança para o litoral paulista mudou sua vida para melhor. Tereza conta que passou a procurar jornalistas pedindo entrevistas que não começassem falando logo de 1950 e Barbosa, embora permanentemente mais triste após a morte da esposa Clotilde em 1996, recebeu diversos pedidos de desculpas pelas críticas que recebia. E aceitava todos com bom humor.

O perdão mais marcante foi exatamente no Rio de Janeiro. Então vereador da cidade, o ator Rogério Cardoso, hoje falecido, pagou a viagem do ex-goleiro à capital carioca. Em 27 de setembro de 1999, Barbosa recebeu o título de cidadão honorário do município fluminense e viu o político se ajoelhar para pedir desculpas em nome de todos os brasileiros. “Foi muito bonito, de as lágrimas descerem”, lembrou Tereza, que o acompanhou no festejo.

Na homenagem preparada por Rogério Cardoso, Barbosa ainda tinha o direito de escolher quem estaria presente. Entre os convidados, estava o humorista Chico Anísio, que não pôde comparecer, mas lhe enviou um e-mail no qual pedia “mil desculpas ao melhor goleiro brasileiro de todos os tempos”. O recado foi impresso e é guardado até hoje por Tereza Borba.

O tempo também aproximou Barbosa de Ghiggia. “O Barbosa foi para o Uruguai e virou amigo do Ghiggia”, relatou Tereza, que recebeu recentemente um telefonema de um uruguaio disposto a levá-la a Montevidéu para conhecer o ex-atacante e se disse “louca” para que esse encontro ocorra em julho deste ano.

“O Ghiggia é uma pessoa extraordinária. O Barbosa dizia que o Ghiggia fez o errado e deu certo, enquanto ele fez o certo e deu errado. Mas o Ghiggia disse a ele: ‘Se eu soubesse que o Maracanã ia se calar daquela forma e que você seria culpado, não teria feito aquele gol’. Olha só que pessoa boa!”, comentou Tereza.

As ações compensaram a recusa de Barbosa a viver como aposentado em sua casa após deixar o futebol. “Ele continuou jogando bola, treinando, viajando, e depois foi trabalhar. Nunca parou. Se ele tivesse parado, enlouqueceria”, imaginou Tereza, que viu no último aniversário do goleiro a prova de sua felicidade pouco antes de morrer.

Reprodução
Para Barbosa, Ghiggia "fez o errado, e deu certo"; deu errado a escolha do goleiro no lance histórico
Em 2000, Tereza ainda tinha um quiosque na Praia Grande e resolveu fechá-lo por um dia, só para fazer a festa do 79º aniversário de Barbosa. Mandou fazer um bolo com o símbolo do Vasco, comprou toalhas com bolas de futebol desenhadas e ainda lhe entregou um troféu com a inscrição “Campeão da Vida”.

“Foi o melhor troféu que ganhei na minha vida, porque é meu, não é de outros dez. Esse é só meu”, disse Barbosa a Tereza, antes de afirmar: “Se morresse hoje, morreria muito feliz”. O seu falecimento ocorreu pouco mais de um ano depois do festejo, mas de maneira melhor do que ele próprio imaginava.

“Ele começou a ter bons momentos. Ele me falava: ‘Nunca pensei que fosse conseguir viver assim’. Depois de tudo o que passou, ele teve qualidade de vida e foi feliz. O sorriso dele voltou, e não só nos lábios, mas nos olhos”, disse a herdeira.

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