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Futebol - ( - Atualizado )

Nobre reverencia Evair por fim do jejum e diz: "Obrigado, Viola!"

Paulo Nobre em depoimento a William Correia São Paulo (SP)

“Foi um dia muito longo, que durou sete dias, na verdade. Do jogo que a gente perdeu por 1 a 0 para aquele 12 de junho de 1993, aquele sábado, nossa... Aquela semana não passava, era torturante. Tínhamos plena consciência de que o nosso time era infinitamente superior ao do Corinthians, mas os fantasmas vieram todos à tona.

Depois daquela derrota por 1 a 0, vinha aquela coisa: será que de novo? Afinal, jogamos dois jogos no Morumbi contra um time superhumilde do interior, a Inter de Limeira, e conseguimos perder o título paulista. Aquela derrota em 1986 foi tão inesperada que foi, talvez, um dos dias mais tristes da minha vida, porque eu nunca tinha visto o Palmeiras campeão. Doeu demais, foi muito complicado. E não era nada de outro mundo, apesar de sermos infinitamente superiores naquela época, o Corinthians, eventualmente, empatar aquele jogo.

Um dos meus melhores amigos é corintiano. Fomos ao primeiro jogo, ele na torcida do Corinthians e eu na do Palmeiras, e depois nos encontramos. Eu estava muito mal e ele falou assim para mim: ‘Paulão, fica absolutamente tranquilo. O Palmeiras vai passar feito um trator por cima do Corinthians na semana que vem. Vou viajar, nem vou ficar aqui. Nem se preocupe, vocês já são campeões’. Eu pensava: como ele enxerga com tanta clareza algo que não vejo?

Foi muito sofrida aquela semana. Eu tinha gravado em uma fita cassete o jogo dos 3 a 0 na semifinal do Paulista de 1986, contra o Corinthians, que o Mirandinha fez dois gols e o Eder fez um gol olímpico. Para conter a minha ansiedade, ficava colocando a narração daqueles gols na voz do José Silvério para falar: é possível, é possível, é possível. Quando chegou o dia 12, eu estava muito pilhado, muito nervoso.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Nobre sorriu ao ver o modelo da camisa usada no Paulista de 1993 e o vestiu prontamente
Ver o Viola comemorar imitando porco me irritou muito. Ele humilhou. Fiquei com raiva, ódio. E hoje falo: Viola, obrigado! Obrigado, Viola! Você contribuiu muito para o massacre do dia 12 de junho. Aquilo mexeu demais com os brios dos jogadores do Palmeiras. Depois o Viola veio jogar no Palmeiras, e tenho muito carinho por ele ser uma pessoa espontânea, engraçada, gozadora etc. Depois do que fez, mostrou ter muita personalidade para vir jogar no Palmeiras. Não tenho absolutamente nenhum ressentimento, só tenho a agradecer porque ele colaborou bastante.

O que me marcou muito naquela final foi a liderança do Evair. Ele se destacou fazendo os dois gols, participando ativamente dos outros dois, comandando o time em campo, dando bronca... Não consigo esquecer a bronca que ele deu no Edmundo por ter dado aquele carrinho no Paulo Sérgio. Não que o Paulo Sérgio não merecesse, mas o Edmundo perdeu a cabeça, poderia ter sido expulso. O Evair deu uma dura e ele aceitou. O Evair conduziu aquela constelação que era aquele time ao final da fila.

Naquele 12 de junho, eu estava nas arquibancadas do Morumbi, mais perto do escanteio, com meus amigos de infância que sofreram junto comigo aqueles anos todos. Até o final, quando já estava 4 a 0 e o Corinthians com dois a menos – e isso porque expulsaram superinjustamente o Tonhão –, eu não conseguia cantar o ‘ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora’. Cantei isso no Palmeiras x São Paulo para ver quem ia para a final do Paulista de 1978, contra o Santos, e aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação o Chulapa acerta de nuca uma bola que entra no ângulo. Nunca mais cantei o “ai, ai, ai, ai”. Naqueles 4 a 0, não tinha mais o que acontecer, as pessoas já pulando, mas eu estava muito nervoso.

Quando acabou, quando ouvi o apito final, a coisa se confundia na minha cabeça. Eu não sabia se aquilo era realidade ou sonho. Será que estou sonhando e não estou percebendo? Isso parece engraçado, mas virou uma neurose. Naquele dia 12 de junho, fui a todas as comemorações de rua que pude, a todos os lugares, até a manhã do dia seguinte. Eu não queria dormir, tinha medo de acordar e não ter sido nada verdade, ter sido tudo um sonho. Era um desespero. Eu estava tão feliz que tinha medo de aquela felicidade não ser realidade.

Sem dúvida, a maior homenagem que recebi na vida foi uma foto tirada na frente do trio elétrico na Paulista. Eu estava de cavalinho em um amigo meu, e meus outros amigos do lado, e a foto foi bem na hora do “É” do “É campeão”, com todos jogando o braço para frente. Foi capa do Jornal da Tarde da segunda-feira, dia 14. Todo torcedor acha que merece uma homenagem dessas, e eu falava para mim: nossa, sofri a minha vida inteira, mas quando fui campeão, foi para valer, nunca vou esquecer isso. Foi um momento mágico.

Acervo/Gazeta Press
O presidente do Palmeiras estava nas arquibancadas do Morumbi quando o time acabou com jejum de títulos
Foi o título mais marcante da minha vida, porque o primeiro a gente nunca esquece [Nobre ainda era criança nos títulos brasileiros de 1969, 1972 e 1973 e paulistas de 1972, 1974 e 1976]. É claro que são momentos inesquecíveis para um palmeirense, pelo menos na minha geração, a Copa do Brasil de 1998 com gol espírita do Oséas, aquela final nos pênaltis contra o Deportivo Cali na Libertadores de 1999 e o título sem troféu em 2000 que foi ter eliminado na semifinal da Libertadores o Corinthians em uma fase melhor com o Marcelinho batendo pênalti e o Marcão pegando. Mas nada vai se comparar ao dia 12 de junho de 1993.

É por isso que me dói muito quando escuto alguns torcedores completamente imbecis chamarem o Paulista de Paulistinha. O Campeonato Paulista é um dos campeonatos mais tradicionais do Brasil, é o título em que mais me emocionei. Tenho muito orgulho do Campeonato Paulista.

Guardo até hoje a camisa, a calça e os sapatos que usei naquele dia, e os usei em todas as finais que o Palmeiras disputou depois, para dar sorte. Só deixei de usar a camisa porque todos os jogadores daquela época a assinaram e decidi enquadrá-la. A calça eu já mandei reformar várias vezes e agora, infelizmente, não cabe mais em mim, de jeito nenhum. Mas continuo usando os sapatos em jogos decisivos, estava com eles em Curitiba, na final da Copa do Brasil que ganhamos em 2012.

Foram 16 anos, dez meses e 26 dias angustiantes para todo palmeirense. A emoção de ter sido eleito presidente do Palmeiras é uma coisa que não tenho palavras para descrever, mas nada vai ser igual ao dia 12 de junho de 1993.”

*Paulo Nobre é presidente do Palmeiras e estava nas arquibancadas do Morumbi no dia 12/06/1993

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