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Futebol/Seleção Brasileira - ( - Atualizado )

Por busto, herdeira leiloa trave do Maracanã que Barbosa não queimou

William Correia Praia Grande (SP)

Às vésperas da final da Copa das Confederações, a Gazeta Esportiva.net teve acesso a uma peça histórica do Maracanã. Parte de uma das traves usadas no estádio na final da Copa do Mundo de 1950 está com Tereza Borba, herdeira de Barbosa, e à venda para que o dinheiro seja usado na reforma do túmulo do ex-goleiro, marcado pelo gol que tirou o título do Brasil naquela decisão.

E o pedaço que hoje é uma alternativa para honrar a memória do jogador só está intacto porque escapou da fúria do goleiro. Barbosa era funcionário do Maracanã quando as traves que defendeu há 63 anos foram trocadas e recebeu uma delas, como se fosse um presente. Não pensou duas vezes quando chegou em casa com aquela madeira e a queimou.

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“Acho que eram as traves em que ele levou o gol do Ghiggia”, conta Tereza Borba. “Ele contava que um monte de gente apareceu correndo na casa dele achando que era incêndio, mas era ele queimando aquelas traves que tanta polêmica renderam para ele”, continuou a herdeira do ex-goleiro, que não teve filhos, mas considerava Tereza uma “filha do coração” por ter cuidado dele em seus últimos oito anos de vida.

Foi debaixo de uma das traves do Maracanã, em 16 de julho de 1950, que Barbosa viveu o lance que marcou sua vida, caindo e vendo Ghiggia acertar o chute cruzado que sentenciou a vitória do Uruguai por 2 a 1 na decisão do Mundial daquele ano. O ex-goleiro faleceu em 2000, vítima de uma parada cardiorrespiratória seguida de insuficiência hepática, ainda tendo que explicar o lance no qual foi considerado vilão por muitos.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
A herdeira de Barbosa pretende leiloar o pedacinho de trave para reformar o túmulo do goleiro
Mas a trave que ele não queimou continuou intacta e foi enviada a historiadores de Muzambinho (MG), que deixaram um pedaço dela com Tereza. A herdeira de Barbosa mostrou para a reportagem uma troca de e-mails usada como prova da autenticidade do material que tem em mãos e que já está à disposição em sites de leilão.

Ainda é um pedaço de madeira grosso, mesmo desgastado com o tempo, e deixando clara a diferença das traves daquela época para as de hoje. Fica guardada no quarto da sua detentora. “Quero me desfazer dela, mas ainda sinto o meu Neguinho nela. Quando toco nela, sinto o espírito dele”, disse Tereza, que trouxe a trave para a GE.net em uma bolsa da CBF que pertencia a Barbosa.

O que a herdeira deseja deixar marcado, no entanto, é mesmo o túmulo do ex-goleiro, que necessita de reforma. Os restos mortais de Barbosa estão em uma gaveta do cemitério municipal da Praia Grande (SP) e só continuam lá porque, em 29 de março deste ano, foi concluído o processo da perpetuidade de seu corpo no local. Sem dinheiro para manter o túmulo, Tereza Borba convenceu a Prefeitura a não exumar o corpo do goleiro, mostrando jornais de países como França e Alemanha citando a cidade ao falar do ex-jogador.

Mas ainda é pouco. Parte da estrutura do túmulo está quebrada, e a suspeita é de que funcionários são os responsáveis por terem pisado nela ao subir para mexer em gavetas superiores. Além disso, a foto de Barbosa – “olhando para o Céu, como ele sempre fazia”, conta Tereza – com o desenho de uma bola acima de sua testa está apagada a ponto de ser difícil reconhecê-lo.

Túmulos próximos aos do ex-goleiro exibem símbolos de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, e a vontade da herdeira é de colocar um escudo do Vasco no de Barbosa. Ela até levou uma bandeira do clube no qual ele era ídolo para tirar fotos. “É a primeira vez que trago essa bandeira da paixão dele aqui”, sorriu.

Os ‘vizinhos’ de Barbosa também estão em melhor estado, com estruturas de alumínio segurando vidros como proteção. Tereza quer algo similar e fez um orçamento logo após a visita a reportagem ao cemitério, mas concluiu que era muito caro para suas condições financeiras. O que a motiva ainda mais a abrir mão da trave para reformar o local que abriga o ex-goleiro.

Tereza imaginava que a administração do Maracanã se interessaria pelo pedaço de madeira, mas ela não foi procurada. A esperança, agora, é que ao menos algum uruguaio queira contar com o material usado na conquista do último título mundial do futebol do país, mesmo sendo em cima de Barbosa.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Garotos que batem bola em frente ao cemitório não imaginam que descansa ali um goleiro da Seleção
A ideia da herdeira é fazer o goleiro mais conhecido. Jovens costumam jogar futebol no campo em frente ao cemitério, mas nenhum deles sabia quem era Barbosa ao ser questionados pela reportagem. “Eu tenho a impressão de que ele está sentado aqui, só olhando eles jogarem”, imagina Tereza.

Sua meta é que ninguém em Praia Grande fique sem saber quem foi o jogador. “Quero fazer um busto ou uma estátua para colocar aqui na frente do cemitério ou em algum lugar da cidade, com todos os títulos que ele conquistou. E vou conseguir”, comenta, sem cogitar mais tirá-lo do cemitério, apesar dos mosquitos que atrapalham quem visita o túmulo. “Ele nasceu em Campinas e viveu no Rio de Janeiro, mas escolheu ser enterrado aqui. E ainda teve outro desejo realizado: foi enterrado na ala da Clotilde, sua mulher.”

O objetivo é transformar o local em ponto turístico da cidade. “Vai ser como onde o Ayrton Senna e o Bob Marley estão enterrados. Da próxima vez que vocês vierem aqui, vai estar muito diferente. O túmulo do Barbosa vai entrar na rota turística da Praia Grande”, garantiu.

Além da trave do Maracanã, Tereza poderia contar com outra ajuda financeira usando fotos e medalhas conquistadas por Barbosa pelo Vasco, mas acabou cedendo tudo de graça para o clube montar um memorial. “Como o Barbosa amava o Vasco, achei melhor doar todo o material e recebi uma homenagem muito bacana. Ele deve ter ficado muito feliz. Tinha que ficar lá no Vasco mesmo.”

O clube, em compensação, cedeu-lhe em dezembro réplicas de camisas usadas por Barbosa quando jogador, com a inscrição “Goleiro Magistral”, expressão com a qual o falecido jornalista Armando Nogueira o chamava. As vestimentas são vendidas por Tereza como forma de conseguir dinheiro para a reforma que deseja no túmulo do ex-goleiro.

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