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Futebol/Copa das Confederações - ( )

Seleção de humor do Ceará tenta dividir a graça com time de Felipão

Helder Júnior, enviado especial Fortaleza (CE)

Já se aproximam das 20 horas, mas as praias de Fortaleza ainda estão abarrotadas de turistas. A maioria deles se concentra nos quiosques da orla, na companhia de cervejas, sem se importar muito com grupos de mulheres – que costumavam atrair facilmente a atenção com trajes adequados ao intenso calor da cidade. Os homens preferem flertar com as televisões, que exibem o segundo gol da Espanha sobre o Uruguai naquele momento. Do outro lado da rua, no andar térreo de um prédio comercial, o dono de um teatro parece tão frustrado quanto o público feminino.

Vitor Nogueira, um gaúcho de 47 anos, mantém o Teatro do Humor Cearense (o único empreendimento de palco de Fortaleza dedicado exclusivamente à comédia) há quase uma década no espaço que pertenceu a um cinema da capital. Diz ter se tornado “gigolô de humorista” por descobrir novos talentos no Estado de onde saíram celebridades como Chico Anysio, Renato Aragão, Tom Cavalcante e até o deputado federal Tiririca. Com a Copa das Confederações, no entanto, parte de sua plateia migrou para os bares e outra para as arquibancadas do novo Castelão.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Apesar do jogo da Espanha, humoristas cearenses atraíram cerca de 200 pessoas para o teatro
“Você acredita que a Copa das Confederações foi ruim para a gente? Diminuiu a procura pelo humor. As pessoas só estão ligadas em futebol agora. E falo isso como quem tem revelado 90% dos humoristas cearenses”, desabafa Vitor, ainda com tempo de sobra para conversar com a reportagem da Gazeta Esportiva enquanto trabalha na bilheteria do teatro – um ingresso para o espetáculo da noite, com os personagens Bagaceira, Elvis Preto e a dupla de travestis Paçoca e Fubá como atrações, custa R$ 20. “Está vendo? Parece que saiu gol da Espanha ali”, diz o promotor de humor.

Algumas horas antes, Vitor havia telefonado para a equipe de divulgação do Teatro do Humor Cearense, encarregada de distribuir panfletos para os turistas nas praias. Queria saber se conseguiria lotação máxima na noite – a sua plateia tem espaço para acomodar 230 pessoas sentadas. “Eles me disseram que parecia não ter tanta gente interessada. É por causa do jogo, claro”, relaciona. Como uma piada de bom gosto, no entanto, alguns clientes surgem logo em seguida para desmenti-lo. Uma mulher chega a mostrar impaciência para rir. “Como assim, só começa às 20h30? No ingresso, está escrito que é às 20 horas”, ela protesta.

Não demora muito para os humoristas também aparecerem. O primeiro deles nem sequer se apresentaria naquela noite: Rogério Ribeiro, intérprete do personagem Oscabritto quando não está exercendo as suas funções no Corpo de Bombeiros de Fortaleza – o que fará no Castelão na quarta-feira, durante o jogo entre Brasil e México. “Sou um dos campeões do quadro ‘Quem chega lá?’, do Faustão, com o Quarteto em Ri”, é a primeira coisa que ele fala após um cumprimento de mãos. “Mas o difícil não é ganhar o festival do Faustão, e sim se manter na p... da mídia. Porque os caras não se lembram que fui o grande campeão. E, como o Vitor falou, não dá para competir com o que está em voga, como Copa do Mundo. O menino dos Beatles (Paul McCartney) apareceu aqui e também levou todo o mundo embora do humor”, é a segunda coisa.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Vitor Nogueira é o dono do teatro que apresenta diariamente espetáculso de humor para turistas
O Ceará, no entanto, conta com uma seleção de comediantes de respeito para fazer frente mesmo com badalados jogadores do Brasil. Nem Vitor nem Oscabritto discordam disso. “Bato no peito para dizer que exportamos humoristas para o mundo! O humor é o terceiro produto mais procurado de Fortaleza, só perdendo para as praias e para a culinária e competindo com o forró”, anima-se o ator. Para o time de Luiz Felipe Scolari, por exemplo, o humor foi o único desses atrativos turísticos que interessou durante a estadia na capital cearense. Felipão isolou o seu hotel da torcida nordestina, porém abriu as portas para os artistas Aloísio Júnior e Ciro Santos divertirem o elenco no jantar de segunda-feira. O site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) até citou o Teatro do Humor Cearense ao noticiar o espetáculo exclusivo da dupla: “No Ceará, existe uma forte tradição no gênero. Os shows de humor se espalham pelo Estado. Em Fortaleza, existe uma casa noturna com show diário e com grande presença de público”.

O traço da cultura local que chamou a atenção da CBF em meio à Copa das Confederações incita uma pergunta que os comediantes de Fortaleza sempre escutam quando concedem entrevistas para veículos de comunicação de outros estados: “Por que surgem tantos humoristas do Ceará?”. A Gazeta Esportiva repetiu a questão para dois ídolos de quem se apresenta no Teatro do Humor Cearense, Marcondes Falcão Maia (o cantor Falcão, o Rei do Brega) e Adaildo Alves Neres (o Adamastor Pitaco, famoso pelo cabelo metade liso, metade crespo).

“Tenho uma teoria sobre isso: como o cearense é feio de mais, enfrenta os problemas da seca e um monte de outra coisas, ele precisa fazer humor de tudo para conseguir se distrair”, sorriu Falcão, sem perder a piada. Adamastor Pitaco não ficou atrás: “O cara que fundou o Ceará deve ter sido um grande humorista. É inevitável ser engraçado aqui. Se o pai é engraçado, o filho é também. É hereditário: todos são engraçados aqui. A média é de um humorista por habitante. Conheço muitos advogados, médicos e engenheiros, por exemplo, que são engraçadíssimos. Só não sobem no palco para fazer show”.

Divulgação
Rei do Brega, Falcão acha que os cearenses se tornaram engraçados por serem feios
A noite no Teatro do Humor Cearense prova que Pitaco tem razão. O talentoso Carlos Alberto Alves Rocha (mais conhecido como Roberto Rizzo), que interpreta o Bagaceira, não poupa nem o repórter da brincadeira relacionada a futebol: “Você tem algum parentesco com o Casagrande? É igualzinho. Não? Que droga...”. Vitor, o proprietário do local, está acostumado às chacotas. Ele é nascido em Pelotas, cidade do Rio Grande do Sul geralmente envolvida com piadas de homossexuais. “O pessoal me dá uma zoada legal por isso”, comenta, conformado.

Enquanto faz mais uma e outra graça com quem vê pelo caminho, Roberto Rizzo se apressa até o camarim do teatro, com o auxílio de sua esposa, para se transformar no Bagaceira. Tira os óculos e coloca uma peruca preta enquanto faz careta para o espelho, veste uma camisa multicolorida, decorada com uma gravata laranja, e calça tênis azuis. Seu tom de voz também muda. A inspiração dele é óbvia. “Curto muito o Tiririca. Acompanho o trabalho dele desde pequeno. Quer saber se votei nele? Não, não. Não voto em São Paulo”, justifica. “Ah, ele se candidatou a deputado federal? Ah, é? Se soubesse, eu tinha votado no homem!”, diz, às gargalhadas.

Bagaceira já teve a oportunidade de se apresentar ao lado de Tirulipa, filho de Tiririca, sensação atual do humor cearense. Preferiu ser profissional ao invés de agir como tiete naquela ocasião. Afinal, apesar de se soltar completamente em cima do palco, o ator do teatro mantido por Vitor deixa transparecer o jeito comedido de quem já buscou ganhar projeção profissional das mais diversas maneiras. Roberto foi catador de latinhas em estádios de futebol, tentou ser jogador ao se matricular nas escolinhas do Ceará (seu primeiro clube de coração; o Flamengo é o segundo) e do Ferroviário e ainda hoje se apresenta nas ruas. Não como humorista. “Ali, sou o Robertinho do Chicote. Aprendi a mexer com o chicote com o meu cunhado, o Alagoas. Já estive nos programas da Ana Hickmann e da Eliana, quando bati o recorde do número do chicote, cortando dez cigarros da mão e dez da boca de um voluntário em 54 segundos. Eles tinham me dado um minuto!”, relembra, com orgulho.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Roberto Rizzo, nome artístico do humorista, muda completamente quando veste peruca de Bagaceira
A conversa também precisa ser cortada rapidamente. Está na hora de Bagaceira aparecer em cena. Para a alegria dele – e contradizendo o dono do teatro –, a plateia tem mais de 200 pessoas para recebê-lo. Muitas aguardam com garrafas de cerveja em punho, como se estivessem em um estádio da Copa das Confederações, onde o consumo da bebida alcoolica é liberado. O humorista sobe no palco estreito e iluminado do lugar e não precisa de mais do que três piadas para marcar o seu gol e embriagar os presentes com risadas. Ele interage bastante com o público – usa até a sua esposa como figurante para isso –, recorre a regionalismos e sai com a vitória assegurada, vendendo vários CDs e DVDs para os turistas no final do show. “Já rodei o Brasil fazendo humor e sei quando uma plateia ajuda. A de hoje era excelente. Quando está todo mundo estressado, sem querer dar risada, você precisa pedir a Deus para acabar logo. Às vezes, o culpado não é o humorista.”

Com quase duas décadas de experiência, o segundo comediante da noite conhece bem o discurso de Bagaceira. O servidor do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e estudante de História Edvaldo Cardoso perde 20 minutos para se vestir de Elvis Preto e mais dois para fazer uma oração antes de sua apresentação, mesmo com o público amaciado pelo primeiro humorista. A explicação para o seu personagem, contudo, já é suficiente para arrancar algumas risadas: “Existia um Elvis Presley que era branco e ficou famoso porque cantava música negra depois de ter convivido com os negros. Sou o contrário. Sou um negro que canta mal. Se o Michael Jackson ficou branco, por que o Elvis não pode ficar preto?”.

Diferentemente de seu colega de teatro, Edvaldo é torcedor do Ferroviário (não tem outro time no Sudeste) e não usa tanto o futebol como mote para piadas. “Mas conheço uma de futebol que é ótima. Escuta só. Havia um cara que era fanático por futebol, e o time dele estava perdendo, aos 45 minutos do segundo tempo, mas precisava só empatar para ser campeão. Naquela hora, o filho entra na sala e grita: ‘Pai, a mãe caiu na área!’. E o cara: ‘É pênalti!’”, conta o Elvis Preto, conseguindo empolgar mais com o seu modo de narrar do que com o roteiro da história.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Elvis Preto estuda História e tenta desvendar os primórdios do humor cearense em sua tese
Assim como Elvis, portanto, a graça com o futebol ainda não morreu em Fortaleza. Um dos poucos que não gostam desse tipo de brincadeira são os consagrados Falcão e Adamastor Pitaco. “Como torço pelo Ceará, alguns cabras mais fanáticos do Fortaleza vêm brincar de tirar sarro. Mas só vou até certo ponto nisso. Não faço muitas piadas com futebol. Na verdade, nem invento piadas; só copio. Para mim, por exemplo, a Seleção Brasileira fica chata apenas quando é mal convocada, como na época do Dunga”, disse o cantor. “Não faço piada em cima de derrota de futebol. Meu humor é alegre. Quando a Seleção perde, fico p... da vida. E, como sou conhecido dos jogadores, o Brasil tem que ganhar mesmo. Se for para falar mal, falo da Espanha”, acrescentou o segundo.

No Teatro do Humor Cearense, há quem pense diferente. “Quando o Brasil perde, é melhor para a gente tirar onda. Já dá para falar que o Hulk tinha mais é que ir fazer musculação, esse tipo de coisa. Mas a Seleção Brasileira está bem ultimamente. Ficou mais difícil fazer piada com os jogadores”, lamenta Bagaceira. “Não tenho acompanhado tanto, mas concordo com o meu companheiro”, referenda o Elvis Preto.

Parte do povo cearense realmente está torcendo por um tropeço brasileiro na fase de grupos da Copa das Confederações. Só assim o time de Felipão retornaria a Fortaleza para disputar a semifinal – classificando-se como líder, o jogo será em Belo Horizonte, diminuindo a graça local. Adamastor já deu os seus pitacos cômicos: “Será que dá para o Brasil ser campeão? É melhor ganhar sem dar mesmo. Dar é ruim. Não dá certo. Mas até o Taiti pode ganhar. A Espanha, de que estão falando tanto, toca mais do que o Sivuca e o Dominguinhos. Só fica tocando a bola, tocando... Os dois únicos jogadores que chutam para o gol na Espanha são o Messi e o Cristiano Ronaldo, que não são espanhóis”.

Rivalidade com a Espanha à parte, a seleção de humor cearense já usa a Copa das Confederações como teste para aprender a recepcionar melhor os turistas estrangeiros. A missão é difícil, conforme advertiu Falcão: “Eles não são alegres como nós, brasileiros. São mais duros”. Bagaceira cogita fazer cursos de idiomas para amolecer o riso de quem vem de fora do País. Piadas para isso, ele já tem na ponta da língua. “Rapaz... Dá para fazer umas caretas também. Se for italiano, falo do Roberto Baggio, digo que o miserable lascou-se, e já era. Se for um italiano gordo, então, é macarrone!”. E se for um mexicano, adversário do Brasil nesta quarta-feira? “Ah, aí é Mexicuzinho para lá, Mexicuzinho para cá...”, sorriu.

Ao menos no Teatro do Humor Cearense, os humoristas realmente estão unidos e representando bem Chico Anysio, Renato Aragão, Tom Cavalcante e outros tantos. Bagaceira e Elvis Preto aguardaram pacientemente o show de Paçoca – um veterano que se veste de mulher, apesar da barriga proeminente (“já nem pareço mais uma periguete, né?”, pergunta) – acabar para posarem todos juntos para o fotógrafo da Gazeta Esportiva. Saíram bem na foto, ao menos para os 200 turistas que o aplaudiram com entusiasmo. Na quarta-feira, parte desse público certamente irá se juntar a milhares de outras pessoas com a expectativa de sorrir também para a Seleção Brasileira no jogo com o México, no palco do Castelão.

*Colaboraram William Correia, Bruno Ceccon e Marcos Guedes.

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